Capítulo 2
-Eu quero que você acabe com esse conto de fadas, e quero que faça isso o mais rápido possível, entendeu? – a voz fria e maldosa chegou à seus ouvidos pelo fone do telefone, e ele apenas tamborilou os dedos na mesa, antes de olhar para as próprias unhas, chegando à conclusão de que estava na hora de fazê-las.
-Um fim definitivo? – a pessoa permaneceu em silêncio, pensando, antes de soltar uma risadinha desdenhosa.
-Oh, não... Eu quero que eles continuem convivendo, mas quero transformar essa convivência num inferno. Acabe com o conto de fadas, mas ainda não mate o amor. Acabe com a essência do relacionamento deles.
Suspirou, erguendo os olhos para a janela, podendo ver o final do nascer do sol.
-Entendido.
E, sem mais palavras, desligaram.
Flashback
Rindo de leve, separou os lábios dos de Pierre, espalmando as mãos no peito malhado, empurrando-o levemente.
-Pára. – disse num tom de ordem, porém que não passava de um sussurro.
Estavam em pleno cinema, sentados na última fileira, apenas namorando; na tela passava um filme que eles nem se lembravam mais qual era e a sala estava bem vazia, dando aos dois toda a privacidade que queriam.
Pierre riu baixinho, antes de segurar a nuca de David, puxando-o de voltar para si e juntando os lábios mais uma vez; as línguas se enroscando, os dedos fazendo leves carinhos na pele sensível do pescoço do outro, enquanto os corações disparavam como se aquela fosse a primeira vez que eles se beijavam.
Mais uma vez, David simplesmente riu e os separou, não sem antes dar um último selinho nos lábios avermelhados do outro.
-É sério, Pie. – murmurou, fazendo um carinho leve no rosto do outro. – Pára! – e riu de leve, fazendo Pierre sorrir e, inclinando-se, dar um último beijo no mais novo.
-Tudo bem, criança. – David apenas girou os olhos perante o apelido, antes de voltar as orbes para a tela grande.
Não demorou para os créditos começassem a serem exibidos e as luzes se acendessem, permitindo que ambos saíssem da sala.
Para o completo descontentamento de David, Pierre se recusava a segurar sua mão por mais que cinco segundos; os corpos não se aproximavam mais do que eventuais roçar de braços. O mais novo sabia que isso era apenas porque Pierre queria ser discreto e não queria, realmente, que muita gente soubesse que eles estavam juntos, mas realmente não entendia o motivo do mais velho.
Bufando, fechou a cara, perdendo todo o bom-humor, e desviando o olhar para as vitrines das lojas do shopping.
-Quer um sorvete, Davey? – Pierre perguntou, distraído e David apenas deu de ombros.
-Não, obrigado. – o tom sério e indiferente pareceu atrair a atenção de Pierre, que girou a cabeça encontrando a expressão fechada de David, que ainda olhava para as vitrines, conforme eles andavam pelos longos corredores, parcialmente cheios; as íris castanho-verdes se perdiam em qualquer objeto, sem realmente vê-lo, e o corpo esbarrava nos outros que passavam ao seu lado, sem se importar em desviar.
-O que foi? – David suspirou pesadamente, antes de parar de caminhar e se virar, de modo que ele e Pierre ficassem um de frente para o outro.
O menor mordiscou o lábio inferior e olhou ao arredor, parecendo indeciso sobre se deveria ou não falar o que lhe estava incomodando.
-Eu... – suspirou e levantou a cabeça, de modo que pudesse encarar Pierre nos olhos. – Eu queria um beijo, Pie.
Pierre apenas ficou sustentando o olhar do menor, surpreso por ele ter feito tal pedido, mesmo depois de eles terem tido uma séria conversa sobre terem que ser discretos sobre a relação que tinham.
E a demora de Pierre em responder, apenas fez David soltar uma risadinha debochada, finalmente quebrando o contato ocular deles, olhando para um ponto qualquer que não fosse o homem mais velho.
-A gente já conversou sobre isso, Dave... – Pierre disse, simplesmente, fazendo David fechar os olhos brevemente, como que pedindo paciência a todos os santos, antes de voltar a erguer as pálpebras, revelando as esplendidas íris mergulhadas em puro deboche.
-Claro. O grande Doutor Bouvier não quer correr o risco de ser visto aos amassos com uma pessoa do mesmo sexo que ele. – não foi pelo o que o menor disse, mas pelo modo que o fez, que fez Pierre sentir o corpo ficar tenso ao constatar que o mais novo interpretava as coisas como bem lhe conviesse.
-Eu nunca disse isso e você sabe bem disso, David. – resmungou, recebendo em resposta uma careta debochada e um girar de olhos.
-Sei; você não quer que eu sofra preconceito e sei lá o que demônios mais. – deu de ombros. – Tudo bem. – olhou para o relógio no próprio pulso. – Eu tenho que ir, Pierre. A gente se vê. – e, ficando na ponta dos pés, depositou um rápido selinho nos lábios do maior, antes de simplesmente lhe virar as costas e começar a caminhar em direção oposta.
Pierre suspirou, caminhando apressado até David, segurando-o pelo pulso. David lhe olhou, surpreso, mas ainda tinha um certo brilho de magoa no olhar que fez com que o mais velho se sentisse terrivelmente culpado.
-Desculpe. – pediu, soltando o pulso do outro e abaixando a cabeça.
Ouviu David suspirar pesadamente.
-Olha pra mim. – Pierre olhou-o, de repente sentindo-se terrivelmente pequeno diante o olhar de pura raiva que o mais novo lhe lançava. Encararam-se em silêncio por alguns minutos. – Uma coisa, Pierre, é você querer ser discreto; outra, completamente diferente, é você agir como se não passássemos de colegas, que vão ao cinema e pronto. Fim do programa. – ele disse, cruzando os braços em frente ao peito. – Eu sei o motivo de você querer ser discreto; eu sei que você pode ser acusado de pedofilia ou o caralho a quarta, mas eu realmente não preciso de alguém que fique agindo como se fosse o meu amigo e não meu namorado, durante todos os nossos encontros.
Continuaram a se encarar, o silêncio pesando entre eles.
-Desculpe, Davey. – erguendo uma mão, Pierre acariciou a bochecha do outro. – Eu realmente gostaria de poder sair pelo shopping, de mãos dadas com você e roubando beijos, enquanto ríssemos de nada em especial. Mas eu realmente não quero que você sofra preconceito. Porque, você vai ter que convir que, mesmo que aqui no Canadá até o casamento gay seja permitido, ainda há muita homofobia.
David suspirou, passando as mãos pelos cabelos, num gesto frustrado.
-Eu te entendo, Pierre. – murmurou, voltando a olhar para o relógio. – A gente pode conversar sobre isso depois? Meu pai pediu para que eu voltasse logo, porque ele queria falar comigo. – Pierre concordou com um aceno de cabeça e David sorriu de leve. – Certo. – voltou a depositar um selinho no lábio do maior. – Só pense numa coisa: cedo ou tarde, eu vou ter que aprender a conviver com o preconceito. Não seria melhor que fosse mais cedo? – e, sem esperar resposta, simplesmente girou sobre os calcanhares e correu para fora do shopping.
Fim do Flashback
Suspirando, tamborilou os dedos sobre o mouse, enquanto os olhos corriam pela tela do computador, procurando qualquer erro no contrato que passara a manhã toda escrevendo, tentando se desligar do barulho ao seu arredor, indicando que seus colegas de trabalho estavam indo almoçar.
Aquela era a parte mais chata do seu trabalho e David admitia isso; passara a manhã toda escrevendo o contrato para um dos mais importantes clientes do escritório e, agora, o li pela terceira vez, procurando qualquer erro, forçando a mente para saber se não havia esquecido de nenhuma clausura; e tentava á todo custo não permitir que aquele bando de esfomeados, que eram seus colegas, lhe tirassem a concentração.
Contudo, no momento em que concluiu tal pensamento, o telefone sobre sua mesa começou a tocar, de modo estridente. Suspirando pesadamente, e ainda lendo com atenção o contrato, tirou o fone do gancho, levando-o até a orelha e atendendo de modo automático.
-Farell e Bancroft Advocacia, boa tarde.
-David? – a voz do outro lado soou animada, mas ao mesmo tempo incerta, temendo ter ligado para a pessoa errada. – David Desrosiers?
David apenas franziu o cenho, mas não parou de correr os olhos pelo documento que a tela do computador ainda mostrava.
-Ele mesmo. Posso ajudar? – o urro baixinho de felicidade fez toda e qualquer concentração que David tivesse, evaporar, enquanto franzia ainda mais o cenho. – Quem é?
-Jack. Jack Turner. Lembra-se de mim? – David sentiu sérios ímpetos de negar, mas sabia que a mentira seria descoberta tão logo fosse verbalizada.
Suspirou.
O quê, demônios, seu ex-namorado queria?
-Claro que lembro, Jack. – respondeu, por fim, correndo os olhos ao arredor, notando apenas um ou outro advogado em sua mesa; o escritório muito silencioso, finalmente. – Precisa de alguma coisa?
-Como você está? – Jack perguntou, ignorando a óbvia vontade de David de ir direto ao motivo da ligação. – Faz anos que não nos falamos.
David girou os olhos, praguejando mentalmente contra Jack, perguntando-se se este havia ligado apenas para pôr as novidades em dia.
-Eu realmente não posso conversar agora, Jack. Eu tenho mesmo que terminar um contrato, o qual meu chefe quer sobre sua mesa em meia hora, então... Se você puder ir direto ao motivo da ligação, eu realmente lhe agradeceria.
Jack riu baixinho, enquanto um barulho começava a soar do outro lado da linha, deixando claro que Jack também estava trabalhando, remexendo vários papéis.
-É horário de almoço, Davey... Não tem porquê se apressar com esse documento. – David cerrou os olhos para o nada, irritando-se pelo apelido pelo qual Jack lhe chamara.
Nunca soubera explicar o motivo, mas nunca gostara desse apelido sendo pronunciado por Jack; soava como algo banal, quase como se David fosse a pessoa mais fácil com que Jack já tivera um relacionamento, o que fazia com que este último pronunciasse seu apelido com um certo "quê" de superioridade.
-Eu não estou no meu horário de almoço, Jack, portanto, se você não tem nada de importante para me dizer, eu tenho que desligar. – o outro simplesmente riu.
-Okay, okay... – ele concordou, o tom debochado sempre presente na voz, irritando seriamente á David, que apenas fechou os olhos e contou até dez, pedindo paz á todos os santos que conhecia. –Você sabe que todos os anos, a nossa turma da escola faz um churrasco na casa de um de nós, para podermos nos ver e pôr as novidades em dia. – ah, claro. David recebia o convite por telefone todos os anos, contudo, nunca tivera tempo, ou até vontade, de ir à um desses encontros. Concordou com um resmungo. – Então, esse ano vamos fazer na casa da Melissa, nesse sábado agora. Se você quiser ir...
David suspirou, analisando rapidamente a questão. Desde que se formara no colegial, que sua antiga turma se reunia todos os anos, a fim de não perderem o contato e manter as amizades. Contudo, David nunca tivera real disposição para ir à esses encontros, os quais sempre aconteciam na casa de algum deles.
Mas, talvez, ele estivesse realmente precisando se distrair. Talvez, se Pierre quisesse ir, ele desse uma passada na casa de Melissa, a qual era uma das poucas pessoas com que ele ainda falava esporadicamente.
-Eu não prometo nada, mas posso tentar ir dessa vez. – respondeu, por fim. – Eu posso levar uma pessoa? – completou, antes que Jack pudesse começar um longo monólogo de como seria realmente excitante eles poderem sentar-se em algum canto, com um copo de uma bebida qualquer, para conversarem sobre os velhos tempos.
Jack ficou um tempo em silêncio, como se não esperasse tal pergunta.
-Oh, claro que sim, David. Essas reuniões são abertas para as famílias também, você sabe...
Conversaram por mais alguns poucos minutos, nos quais David se informara sobre os horários e como se chegava á nova casa de Melissa; desligaram com David prometendo que faria o que estivesse ao seu alcance para ir esse ano.
Mas o menor sabia que só teria a mínima vontade de ir, se Pierre concordasse em lhe fazer companhia.
Recostando-se na cadeira, suspirou pesadamente, correndo os olhos pelo final do contrato, antes de mandar o computador salvar as alterações e imprimir três cópias.
Enquanto a máquina começava a expelir as folhas, David voltou a tirar o fone do gancho discando um número há muito decorado.
Ouviu chamar uma, duas, três vezes, antes de finalmente ser atendido.
-Fala, amor. – pela óbvia empolgação de Pierre, David soube que o maior finalmente fora liberado do seu plantão.
Sorriu.
-Você tem alguma coisa programada para esse sábado? – perguntou, passando a mão livre pelos cabelos, enrolando uma das mechas curtas.
-Não que eu me lembre, por quê? – rindo da empolgação quase infantil do marido, David lhe contou sobre o convite que recebera e falando, também, que estava cogitando seriamente em ir dessa vez.
Pierre ouvia tudo calado, apenas prestando atenção e tentando lembrar-se se não tinha, realmente, nada marcado para o final de semana.
-O que acha, meu bem? – David perguntou, por fim, enquanto esticava o fio do telefone, a fim de poder pegar os papeis que a impressora terminara de cuspir, voltando a sentar-se e montar os três contratos, organizando-os.
-Parece ótimo, pequeno. – David sorriu, grampeando o primeiro bloco de folhas. – Se você quiser mesmo ir, por mim tudo bem.
-Ótimo. – respondeu, rindo, terminando de grampear o segundo bloco. – Já está em casa? – Pierre negou, falando que estava chegando ao estacionamento do hospital, para finalmente ir para casa. – Vamos almoçar juntos? Eu acordei atrasado e não tive tempo de tomar café e estou morrendo de fome e...
Pierre lhe interrompeu com uma risada.
-E você odeia comer sozinho? – rindo, David concordou. – Okay, me encontre no restaurante de sempre em meia hora.
Falaram mais alguns minutos antes de finalmente desligarem.
Não demorou muito para que David entregasse os contratos para a secretaria do
seu chefe e, por fim, saísse para almoçar.
Flashback
Puxando o ar com força, David forçou uma expressão alegre, tentando esquecer-se da quase briga com que tivera Pierre há pouco; pousou a mão sobre a maçaneta dourada da porta da biblioteca de seu pai e, após mais alguns segundos de hesitação, abriu-a.
-Hey, pai. – disse, fechando a porta, indo sentar-se na cadeira em frente à mesa de mogno do homem mais velho, o qual abriu um leve sorriso ao lhe ver.
-Hey, filho. – Andre respondeu, começando a fechar as várias pastas que analisava antes da chegada do jovem Desrosiers. – Como foi o passeio?
-Foi ótimo. – sorriu, esquecendo-se momentaneamente da pequena magoa que sentia por Pierre. – Você queria falar comigo?
Andre terminou de arrumar suas coisas, assumindo uma postura severa, a qual David sabia que não significava boa coisa; franziu o cenho, perguntando-se o que havia feito de errado.
-Como estão indo as aulas de baixo? – David piscou, confuso; seu pai, apesar de lhe pagar aquelas aulas, nunca se interessara realmente pelo rumo que elas tomavam.
-Bem. – deu de ombros.
-E você ainda quer ter uma banda? – se antes David estava confuso, agora não havia sequer palavras para expressar tal sentimento.
Seu pai sempre deixara claro que nunca iria apoiar essa idéia de ter uma banda, mas que nunca o impediria.
-Sim.
Andre suspirou, deixando claro que a conversa chegara ao ponto que ele queria; mesmo que David ainda sentisse-se confuso.
-Você sabe o que eu penso sobre isso, não sabe? – o garoto concordou com um aceno de cabeça. – E sabe o que eu penso sobre o seu namoro? – mais um aceno, embora não conseguisse ver o final daquela conversa maluca.
Andre puxou o ar com força, no que David achou ser uma tentativa de reunir coragem para verbalizar fosse o que fosse. Minutos de silêncio se seguiram, com o mais novo sentindo-se cada vez mais desconfortável com a seriedade do pai.
-Você sabe que eu não apoio, realmente, nenhuma dessas decisões? – David concordou. – Com isso em mente, eu... Decidi que você não vai poder ter os dois.
David arregalou os olhos; o coração falhou um batimento, voltando a bater logo em seguida, descompassado, enquanto o ar se perdia no caminho até os pulmões.
Seu cérebro se recusava a acreditar nas palavras do pai, fazendo com que o garoto achasse que não tinha ouvido direito.
-O quê? – a pergunta, feita de forma pasma e, de certa forma, magoada, não pareceu abalar nem um pouco o homem mais velho, que apenas suspirou, como que dizendo que aquela era uma questão óbvia.
-Você ouviu muito bem, David. – resmungou, mal-humorado. – Estou te dando uma escolha: ou você toca em uma banda e desiste do Bouvier, ou você desiste, fica com o Bouvier e será promotor.
David ficou em silêncio, olhando fixamente para o pai; os lábios entreabertos em surpresa, como que esperando que o pai risse e falasse que aquilo não passava de uma brincadeira de muito mau gosto. Mas isso não aconteceu; Andre continuou no seu silêncio sério e David no seu próprio, pasmo.
Quando a primeira lágrima escorreu, solitária, pelo rosto do garoto, Andre soube que o filho havia aceitado aquilo como verdade.
-Você está brincando comigo, não é? – ele perguntou, a voz trêmula deixando claro que ele fazia força para não deixar mais nenhuma lágrima escorrer.
-Não. – a resposta seca e, em parte, indiferente, apenas fez com que o garoto fechasse os olhos com força, permitindo que as lágrimas rolasse livremente, molhando o rosto. – Você tem que aprender que nem sempre se pode ter tudo o que se quer.
Após essas palavras, David ergueu-se de supetão; as íris castanho-verdes brilhavam de raiva e magoa que Andre sabia que o filho sentiria e, de tudo o que esperava ouvir, as palavras que David verbalizou, lhe machucaram mais que qualquer outra coisa.
-Se você queria me fazer te odiar, você pode sentir-se muito feliz, porque você conseguiu.
E, sem falar mais nada, saiu da biblioteca, batendo a porta atrás de si.
Fim do Flashback
Cantarolando a música que soava em alto e bom som pela casa, segurou uma pequena quantidade de espuma entre as mãos, em formato de concha e, erguendo-as na altura dos lábios, soprou, fazendo com que a espuma "voasse" até o rosto do marido, o qual estava quase completamente afundado na água, com os olhos fechados, vez ou outra cantarolando uma frase da canção.
Quando a espuma atingiu seu rosto, Pierre ficou quieto por uns segundos, antes de passar a mão pelo rosto, limpando-o, e rir, ajeitando-se dentro da banheira.
-David! – ele exclamou, rindo, sendo seguido pelo menor, que apenas encolheu os ombros perante o olhar de fingida repreensão do mais velho. – Isso é coisa que se faça? – toda a raiva passada nas palavras era desmentida pelo sorriso divertido nos lábios firmes.
David riu, ainda ignorando o que o marido dizia, no mesmo instante em que uma nova melodia começava a soar pela casa.
-I don't know how to make lots of money – cantarolou, balançando levemente a cabeça no ritmo lento da canção, antes de rir da careta que Pierre fez ao ser ignorado. – I got debts that I'm trying to play. I can't buy you nice things, like big diamond rings.
Rindo, Pierre esticou-se levemente, de modo que pudesse puxar David de encontro ao seu próprio corpo, num semi-abraço, antes de depositar um beijo na bochecha do menor, que ergueu a cabeça, lhe sorrindo de modo infantil, antes de continuar a cantar, ainda se divertindo com a vasta quantidade de espuma que cobria a água quente da banheira.
-But that don't mean much anyway. I can't give you the house you've been dreaming. – o menor se aproximou um pouco do outro, um sorriso doce surgindo nos lábios bem desenhados. – If I could I would build it alone...
-Criança. – Pierre resmungou, antes de mordiscar a bochecha de David, que sentiu um arrepio correr sua coluna, embora não tenha demonstrado isso, continuando a cantar.
-I will write you a song. – a voz suave soou, fazendo Pierre apenas apertar mais o corpo menor entre os braços fortes, escondendo o rosto na curva alva do pescoço delicado, suspirando. – That's how you'll know that my love is still strong. – ajeitando-se dentro da banheira, David fez Pierre erguer a cabeça, antes de lhe depositar um selinho nos lábios bonitos. – I will write you a song and you'll know from this song that I just can't go on without you. – acariciou uma das bochechas do homem mais velho; esverdeados fixos em castanhos. – Viu, Pie? Eu não posso ir em frente sem você. – ele disse, por fim, antes dos lábios se encontrarem, num beijo lento.
As línguas se enroscavam com sofreguidão, enquanto as mãos pequenas de David se perdiam entre os fios molhados do cabelo de Pierre, o qual tinha as mãos correndo pelas costas de David, fazendo o menor sentir uma série de arrepios correr por seu corpo.
Uma das mãos pequenas escorregou para a nuca de Pierre, fazendo uma leve pressão, como que querendo aumentar ainda mais o contato das bocas; os corações batiam descompassados, num ritmo unânime, enquanto os corpos ficavam trêmulos e os pulmões começavam a pedir por oxigênio.
Terminaram o longo beijo com uma série de selinhos, antes de o mais novo acomodar-se entre as pernas do maior, de modo que pudesse apoiar as costas no tórax definido do marido, a cabeça deitada no ombro largo, enquanto os braços fortes lhe abraçavam na altura do estômago e o queixo do maior era apoiado no seu ombro.
Ficaram dessa maneira por muito tempo, conversando sobre banalidades, trocando pequenos carinhos e breves beijos, enquanto o rádio ia tocando o cd repetidas vezes, sem que eles se importassem realmente com isso.
Suspirando, Pierre depositou um último beijo na pele sensível abaixo do lóbulo da orelha de David, que ofegou.
-Temos que nos arrumar para aquela sua festa, amor. – David resmungou qualquer coisa inteligível, antes de arrumar-se, de modo que ficasse de lado e pudesse enlaçar Pierre pelo pescoço, escondendo o rosto ali.
-Agora eu não quero mais. – resmungou, manhoso, fazendo Pierre rir, acariciando os cabelos negros do menor. – Não ria. A culpa é toda sua.
Pierre continuou rindo, abraçando David com força.
-Deus, como eu adoro esse jeito dengoso. – David riu de leve, depositando um pequeno beijo no queixo do outro. – Eu te amo muito. – completou, roçando a ponta do seu nariz no do menor, o qual permitiu que um sorriso meigo escapasse para seus lábios.
-Eu te amo demais, baby. – o mais novo respondeu, erguendo a cabeça e cobrindo os lábios de Pierre com os seus próprios, num selinho longo, o qual nenhum dos dois teve coragem de aprofundar.
-Tem certeza de que não quer mais? – Pierre perguntou, minutos mais tarde, quando finalmente haviam saído de dentro da banheira e se enxugavam. – Sabe... É uma festa.
David riu, terminando de se enxugar e enrolar a toalha na cintura.
Suspirou.
-É, é uma festa. – sorriu, desviando os olhos brevemente, no que Pierre sabia ser uma atitude que ele fazia sempre que tomava uma decisão rápida. – Me dá meia hora. – e sem esperar resposta, caminhou até o quarto, abrindo o guarda-roupa, olhando analiticamente para cada uma das peças ali dentro.
Pierre riu, encostando-se na porta do banheiro da suíte dos dois; um sorriso divertido nos lábios e os braços fortes cruzados na frente do peito.
Meia hora? Bem, ele ia ter muito mais do que meia hora para ver televisão, enquanto esperava.
Flashback
Aquela semana fora um inferno e Andre Desrosiers não tinha a mínima vergonha de admitir isso.
Logo no dia seguinte ao que falara ao filho que este teria que escolher entre suas duas maiores paixões, o caçula não aparecera para o café da manhã e tampouco para o almoço, o que era de se estranhar.
Quando verbalizou tal pensamento à esposa, Marie apenas lhe comunicou que David havia ido passar alguns dias na casa do jovem Bouvier, a fim de poder pensar no que iria fazer de sua vida; Marie falara isso de modo displicente, enquanto limpava a boca com um guardanapo de linho branco, antes de completar, dizendo que não tinha a mínima dúvida de que David apenas fizera isso para conseguir junto algum autocontrole, e não passar os próximos dias lembrando ao casal o quanto odiava seu pai por ter uma atitude tão... Ridícula?
E tal atitude apenas fez com que Andre soubesse que Marie não aprovava, nem minimamente, sua decisão, mesmo que ela não fosse tomar a parte do filho, ou tentar fazer o marido desistir de tal idéia: a criação que a esposa recebera fora severa demais para que ela pudesse sentir-se bem o bastante, metendo-se numa briga entre pai e filho.
Contudo, quando Marie começara a tratar o marido de forma fria, após o quarto dia com David fora de casa, Andre soube que se não resolvesse aquele assunto logo – não importando como -, Marie daria seu próprio jeito de arrumar as coisas e Andre teria que aceitar, sem reclamar uma virgula sequer do que fosse decidido.
Era por isso que, quando o mordomo avisou que David havia aparecido, indo para o próprio quarto, tomar um banho, antes que fosse conversar com o pai, que Andre começara a agradecer aos céus por não ter que esperar Marie irritar-se com a situação, pois sabia que a decisão da esposa não lhe agradaria nem minimamente.
-Ele já vai descer, não precisa ficar tão nervoso. – a voz controlada da mulher chegou á seus ouvidos, fazendo-o dirigir os olhos para a porta, onde Marie estava parada, com as mãos cruzadas em frente ao corpo, lhe olhando de modo severo, mas ao mesmo tempo compreensivo.
-Eu só estou com medo do que ele possa ter decidido. – Marie suspirou, indo sentar-se ao lado do marido, beijando-o afetuosamente na bochecha.
-Seja o que for que ele tenha decidido, lembre-se que ele é seu filho, Andre. Você deve apoiá-lo. – acariciou os cabelos castanhos do marido, onde algumas mechas grisalhas começavam a aparecer. – Não importa o que ele escolher... Eu vou apoiá-lo e guiá-lo; não me importa qual decisão você tome, Andre. – e, sem esperar qualquer resposta, ela se retirou.
Andre suspirou, apertando os dedos contra a têmpora; pela atitude de Marie, soube que a mulher estivera com o filho e conversara com ele, de modo que a esposa já sabia qual havia sido a decisão de David.
E, apesar de sempre ter sonhado em passar sua rede de escritórios para o filho quando se aposentasse, naquele momento realmente esperava que o amor que David tinha pela música fosse maior que a paixão que seu caçula dizia sentir pelo jovem Doutor Bouvier.
-Hey. – o cumprimento frio e sem qualquer intimidade, fez Andre erguer os olhos para encarar um David sério, sem nenhum sinal do seu tão habitual brilho de vivacidade nos olhos. O garoto havia colocado a máscara de frieza que Andre lhe ensinara a vida toda, para usar com pessoas para quem o filho não quisesse mostrar qualquer sentimento, não importando quão idiota este fosse.
E saber que David estava magoado consigo, a ponto de não querer lhe deixar ver qualquer coisa que se passava por sua mente, era algo com que Andre sabia que tinha que se preocupar, pois sempre que o caçula Desrosiers chegava a tal ponto, era porque alguém havia realmente cutucado sua ferida.
E Andre sabia que o havia feito da pior maneira possível.
-Por quê não me disse que ia ficar na casa do Bouvier, enquanto tomava sua decisão? – uma única sobrancelha foi erguida, em ironia.
-Você mesmo sempre me disse que eu não devo satisfação àqueles que me fizerem perder qualquer respeito que eu tivesse por eles. – foi tudo o que o garoto disse, antes de sentar-se no sofá de frente ao que Andre estava.
-Eu sou seu pai. – um sorrisinho debochado brotou no canto dos lábios do garoto, que deu de ombros, indiferente.
-Um pai bem estranho, se me permite dizer. – inclinou-se para frente levemente, como quem vai contar algo realmente chocante. – Sabe... Sempre me falaram que pai era aquele que tenta te fazer o mais feliz possível e apóia suas decisões. – voltou a arrumar-se sobre o sofá fofo, dando de ombros. – Acho que estavam errados.
Andre puxou o ar com força, enquanto analisava a postura séria e debochada que David assumira, vendo no filho a si próprio quando enfrentara seu pai, o qual queria que Andre fosse um operário e este queria exercer Direito.
-Mas certamente você não veio até aqui para me falar como devem ser os pais de verdade. – David sorriu; um sorriso vazio, completamente desprovido de qualquer emoção.
-Obviamente. – deu de ombros, olhando analiticamente para uma nova escultura que Andre havia ganhado de um de seus clientes. – Bela escultura. – o garoto resmungou, antes de voltar sua atenção para o homem mais velho. – Eu só vim aqui para te falar que eu pensei na sua... Proposta, se é que podemos chamar assim.
Um silêncio tenso caiu na sala, enquanto Andre encarava o filho, esperando que este continuasse, mas as íris esverdeadas do garoto apenas corriam ao arredor, analisando a decoração, como se nunca houvesse visto-a antes.
Andre suspirou, sabendo que o filho não falaria nada além do que lhe fosse solicitado, numa atitude óbvia de lhe atingir; e ele estava conseguindo, pois Andre começava a sentir-se seriamente irritado com o comportamento do caçula.
-E o que decidiu? – David suspirou pesadamente, antes de rir de leve, parecendo divertido.
-Eu realmente não consegui ver o que você esperava que eu decidisse, Andre... E mesmo que houvesse conseguido, não decidiria isso apenas para lhe agradar. – girou os olhos. – Eu... Decidi que vou esquecer essa história de banda, vou me focar em direito, virar promotor, como você decidiu, e ficar com o Pierre.
Pai e filho se encararam fixamente; o primeiro com descrença e o segundo com frieza.
-Você... O quê? – perguntou, pasmo demais para conseguir aceitar aquela situação e David apenas franziu o cenho, numa fingida surpresa.
-Você me deu uma escolha, lembra-se? Ou a banda ou o Pierre. – deu de ombros. – Pois bem, eu escolhi o Pierre.
Andre sentiu o corpo ficar tenso; sua mente trabalhando mais rápido do que se lembrava de já ter acontecido antes, procurando mil e uma maneiras de fazer o filho desistir de tal idéia, mesmo que, depois de ter ouvido a última frase de David, soubesse que o que o garoto sentia por Pierre Bouvier não era apenas uma paixão adolescente, e sim amor; daqueles que duravam para sempre; daqueles que superavam qualquer barreira para poder tornar-se realidade.
Um amor que David não sentia nem minimamente pelo sonho de ter uma banda; o que surpreendeu realmente Andre, pois o garoto tinha esse sonho desde que era uma criança; e o patriarca da família Desrosiers sabia que para seu caçula desistir de algum sonho, em tal situação, era porque o seu outro sonho era sua devoção.
-Não mesmo. – foi tudo o que disse e qualquer traço de deboche sumiu do rosto de David, o qual cerrou levemente os olhos, deixando claro que não estava apenas triste com o pai, mas também decepcionado e bravo.
-Como?
-Você não vai ficar com o Bouvier. – a gargalhada que David soltou após tal frase foi tão espontânea, que Andre piscou, confuso.
-Não vou... Ficar com o Pierre? – ele perguntou, entre uma ofegada e outra, quando finalmente conseguira parar de rir.
-Não, não vai. – David levantou-se, o sorriso forçado voltando a aparecer nos lábios vermelhos.
-Deixe-me lembrá-lo de uma coisa, papai... – começou, frisando a última palavra como se esta fosse o pior xingamento. – Você me disse que eu deveria escolher entre as suas opções, onde uma delas incluía ficar com o Pierre. – colocou as mãos no bolso da jaqueta que usava. – Eu fiz a minha escolha e não é como se você pudesse simplesmente se negar a aceitar uma opção que você mesmo colocou. – deu de ombros.
Andre puxou o ar com força, antes de verbalizar a frase que, mais tarde notaria, destruiria o que restara da sua relação com seu filho.
-Fora da minha casa.
-O quê? – o garoto perguntou, surpreso.
-Você realmente escolheu uma das opções que eu dei, David. – respondeu, ignorando o olhar ferido que começava a despontar nas íris do garoto. – Você só se decidiu pela errada; você vai ser promotor, como acabou de me dizer; você vai desistir do sonho da banda e vai ficar com o Bouvier. Pois bem. Mas vai fazer isso bem longe da minha casa.
David abriu e fechou a boca várias vezes, esquecendo-se completamente da máscara que usava há alguns poucos minutos e Andre não pôde deixar de sentir-se levemente orgulhoso de si mesmo por ter desarmado o garoto.
-Você está me expulsando? – Andre concordou com um aceno de cabeça, certo de que esta seria a parte em que David desistiria, definitivamente, de Pierre, já que não teria onde morar e não aceitaria a ajuda do namorado, já que era orgulhoso demais. – Pois bem. – deu de ombros, voltando a ficar indiferente. – Só não se esqueça que foi uma decisão sua.
E, sem esperar a resposta do seu pai pasmo, David saiu do escritório, indo pegar suas roupas no quarto.
Fim do Flashback
Apesar de não terem tido a mínima pressa, no final, acabaram chegando relativamente cedo demais à casa de Melissa, contudo, isso não os preocupava realmente.
Dera à David tempo o bastante para conversar com a "amiga" e, aos poucos, ir lembrando-se dos nomes e feições dos colegas, mesmo que soubesse que ele haviam mudado e que, provavelmente, isso ocorrera de modo absurdo.
Mas o promotor estava contente de estar ali e não havia como alguém negar tal fato: mantinha sempre um sorriso divertido nos lábios; ria de qualquer piada que lhe contassem, por mais idiota que esta pudesse ser; e também estava mantendo uma conversa com todos os convidados, conforme estes iam chegando, mesmo que na época de colégio, ele não conversasse com quase ninguém.
Pierre apenas sorria educadamente, respondendo gentilmente às perguntas que lhe eram feitas, bem como não se importava em manter os assuntos que as pessoas viam puxar consigo; contudo, nem mesmo por um minuto, havia soltado a mão de David, que estava ao seu lado, conversando com um casal de amigos.
Embora tivessem consciência de que todos sabiam que ele e David eram casados, haviam decidido – quando David completara dezoito anos – que sempre seriam discretos, já que tinha completa ciência de que ninguém era obrigado a ver dois homens se beijando, não importando se quase ninguém mais era homofóbico.
Contudo, lá pela metade da tarde – haviam chegado á casa de Melissa um quarto de horas após o horário do almoço -, qualquer boa vontade de Pierre em permanecer naquela festa simplesmente sumiu, quando ele e David se abraçaram, de modo que ficou possível à Pierre ver a entrada da casa e o que ele viu não lhe agradara em absolutamente nada.
Ou melhor: quem ele vira.
Jack Turner continuava exatamente igual há dez anos; cabelos loiros, bagunçados de modo que apontassem para todos os lados de uma maneira charmosa; os ombros eram largos e a camisa justa deixava claro que ele possuía o tronco perfeitamente definido; as íris azuis, contudo, nem por um único segundo, deixaram de fixar o corpo magro que Pierre abraçava.
Não demorou para que David desse um pequeno passo para trás, afastando-se apenas o bastante para conseguir olhar para o rosto do marido, ao sentir-lhe o corpo ficar tenso.
-O que foi, Pie? – perguntou, as mãos pequenas indo pousar sobre os ombros largos, tentando olhar nos olhos do mais alto, mas não tendo sucesso já que ele não desgrudava os olhos de um ponto qualquer um pouco à cima da cabeça de David. – Pie? – insistiu, quando não obteve resposta; suspirando, afastou-se mais um pouco mais, de modo que pôde olhar para onde o olhar raivoso de Pierre estava fixo. Ergueu uma única sobrancelha. – Ah. – soltou, quando compreendeu o que estava acontecendo com o marido.
Embora Pierre soubesse que David não falava mais com Jack desde que o mais novo terminara o namoro, não podia deixar de sentir-se terrivelmente bravo apenas de ver aquele... Loiro aguado; sabia que David nunca sentira absolutamente nada por Jack, e apenas isso lhe dava aquele pequeno sentimento de segurança, contudo, não podia deixar de odiar Jack, por saber que este era deveras obcecado por David, bem como nunca perdia uma única chance de tentar falar com o seu pequeno, quando este ainda estava no colegial; ou, ainda, pelas várias tentativas de fazer David desistir de Pierre, logo ficara claro para todos que eles eram muito mais do que apenas bons amigos.
-Você não me disse que ele viria. – Pierre finalmente disse, fazendo David voltar a olhar para frente, apenas para deparar-se com a expressão carregada do maior.
-Não? – Pierre negou com um aceno de cabeça. – Uhm, achei ter lhe dito. De qualquer forma, eu te falei que foi ele quem fez o convite este ano.
-Não, você não me disse. – David girou os olhos.
-Ok, eu não disse. Esqueci completamente; mas isso não significa absolutamente nada e você sabe disso, Pie, então, pare de ser tão ciumento, sim?
Pierre abriu a boca, parecendo contrariado, antes de bufar e, soltando a cintura de David, cruzou os braços em frente ao peito.
-Eu não sou ciumento. – o mais novo apenas franziu o cenho, fazendo Pierre girar os olhos. – Ok, só um pouco. – David não se manifestou, mantendo a mesma expressão de antes, no que o outro apenas bufou. – Ok, eu sou ridiculamente ciumento. Feliz agora? – David riu, balançando a cabeça de um lado para o outro, divertido, antes de avançar os poucos passos que os separavam e, ficando nas pontas dos pés, enlaçou o marido pelo pescoço.
-Tão bobo você, baby. – murmurou, o sorriso divertido ainda ali. – Você só esquece que, se eu passei por tudo o que passei e, ainda por cima, me casei com você, é porque eu te amo demais. Tente não esquecer mais isso. – e beijou brevemente os lábios do mais velho, antes de se separarem, quando a voz de Jack soou por todo o ambiente, animada, chamando pelo nome de David, que apenas suspirou pesadamente, antes de forçar um sorriso e virar-se para encarar o ex-namorado.
-David! – ele exclamou novamente, quando parou na frente do promotor, que ergueu levemente a cabeça para poder olhar para o rosto do outro; o sorriso falso ainda nos lábios.
-Hey, Jack. – e, antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, os braços fortes de Jack enlaçaram o corpo de David num abraço apertado, que fez o pequeno ofegar, sendo capaz de jurar que ouvira um pequeno estalo em suas costas.
Pierre apenas cerrou os olhos, voltando a cruzar os braços, perante a cena, antes de pigarrear, quando Jack passara tempo demais abraçado à David.
O loiro afastou-se; suas mãos pousadas nos ombros de David, ignorando completamente a presença de Pierre, enquanto as íris azuis corriam pelo corpo do menor, que apenas sorriu, sem graça.
-Ah, olha só para você, Davey. – disse, ergueu as íris para as de David, que apenas riu de forma educada. – Como você está lindo!
O sorriso de David murchou, mas Jack pareceu não notar isso, voltando a analisar o corpo magro a sua frente. O promotor apenas pigarreou de leve, completamente embaraçado, antes de dar alguns passos para trás, parando ao lado de Pierre, segurando sua mão.
-Ahn... Lembra-se do Pierre, Jack? – perguntou, apertando levemente os dedos ao arredor da mão de Pierre, avisando-o que era para ele ser educado.
O maior bufou baixinho, antes de apertar a mão que Jack lhe estendera.
-Ainda estão juntos? – ele perguntou, recebendo um aceno de cabeça como confirmação. – Uh, vocês estão durando mais do que qualquer um esperava.
David desviou os olhos, sem saber realmente o que responder, enquanto sentia os braços de Pierre lhe abraçarem; ergueu as íris castanho-verdes, apenas para se deparar com a expressão mal humorada do outro.
Suspirou. Aquela seria uma longa tarde.
Flashback
Aquela seria a coisa mais constrangedora de toda a sua vida, mas ele não se importava realmente com isso; sua mente trabalhava freneticamente, tentando encontrar uma solução minimamente plausível para toda aquela bagunça que sua vida se transformara em questão de meses, enquanto seu dedo apertava a campainha, num pequeno surto de desembaraço.
Não demorou muito para que o som da chave destrancando a porta soasse, antes de peça de madeira se abrir, revelando a face sonolenta de Pierre, o qual apenas lhe encarou, provavelmente tentando lembrar-se se havia marcado alguma coisa com o mais novo. E embora a expressão do mais velho fosse a coisa mais meiga que David lembrava-se de já ter visto, naquele momento apenas fez com que o mais novo sentisse mais embaraço ainda.
-Dave? – perguntou simplesmente e, suspirando pesadamente e forçando um sorriso, David ajeitou a alça de sua mochila sobre seus ombros.
-Hey. – murmurou simplesmente, fazendo Pierre passar uma mão contra o rosto, num gesto que deixava claro que ele tentava espantar o sono. – Eu... Vim num mau momento? – completou, erguendo as sobrancelhas e Pierre sorriu de leve.
-Não, criança. – bocejou. – Pode entrar. – deu um pequeno passo para o lado, dando passagem ao namorado, que sorriu, antes de adentrar a casa, parando apenas para depositar um selinho nos lábios macios do mais velho.
Seguiram em silêncio até a sala, onde a televisão continuava passando um filme qualquer, deixando claro que Pierre adormecera, enquanto via qualquer coisa sem importância; na pequena mesa de centro, havia uma caixa de comida japonesa, mostrando que não fazia muito tempo que o mais velho havia almoçado.
David franziu o cenho, antes de rir de leve, colocando sua mochila num canto qualquer e indo sentar-se ao lado de Pierre, no sofá.
-Não repara na bagunça. – o médico pediu, desligando a televisão e, já mais acordado, virando-se de modo que pudesse ficar de frente para o mais novo; contudo, o sorriso que o herdeiro Bouvier sustentava sumiu no momento em que seus olhos castanhos prenderam-se nos esverdeados do mais novo, notando a vermelhidão que ainda tomava conta. – Você andou chorando? – perguntou e David suspirou pesadamente, enterrando-se no sofá, sentindo-se miserável.
-Um pouco. – resmungou, olhando para qualquer coisa que não fosse Pierre; apenas de tudo, não gostava realmente de ter que falar para as pessoas o que sentia, mesmo essa pessoa sendo Pierre, aquele que mais amava e confiava em todo o mundo.
Permitiu-se ser abraçado pelo namorado, escondendo o rosto na curva alva do pescoço do mais velho, sentindo o perfume lhe embriagar aos poucos.
-O que aconteceu, meu bem?
E ao ouvir a pergunta, toda a conversa que tivera com seu pai voltou a passar por sua mente; a lembrança da indiferença e frieza com que fora tratado pelo próprio pai, apenas aumentando sua magoa pelo progenitor, fazendo seus olhos marejarem.
Fechando os olhos com força, contendo as poucas lágrimas que embaçavam sua visão, ergueu sua mão, pousando-a no tórax definido do mais velho, segurando entre os dedos pequenos um punhado da camiseta que o homem mais alto usava.
-Nada. – resmungou, sua voz soando chorosa demais até para si mesmo. Uma das mãos de Pierre acariciou seus cabelos, fazendo com que David enlaçasse o pescoço dele com o braço livre. – Eu posso ficar mais um tempo com você, amor?
Pierre apertou o corpo do outro contra o próprio; uma expressão confusa tomando conta do seu rosto, mesmo que o menor não pudesse vê-la.
-Mas você não ia falar com seu pai hoje? – perguntou, seu tom de voz deixando claro que não estava entendo mais nada e David teve que admitir, mesmo que só para si, que não era nem minimamente justo deixar Pierre continuar sem entender nada, principalmente se David fosse continuar morando com o namorado, mesmo que só fosse fazê-lo até conseguir um emprego e, assim, arrumar um lugar para morar sozinho, para que não continuasse dando tanto trabalho à Pierre.
-Eu conversei com ele, Pie. – resmungou, afastando-se apenas o suficiente para encarar o namorado nos olhos. – Não posso dizer que foi nossa melhor conversa, porque você sabe como nós somos... Você sabe como eu sou e... – puxou o ar com força, antes de cerrar os olhos, numa tentativa frustrada de conter as lágrimas.
Apesar de saber que não deveria permitir-se ferir com tanta facilidade, David não conseguia simplesmente ignorar aquela magoa que sentia pelo pai; sempre haviam se dado bem, sempre haviam sido melhores amigos; seu pai sempre lhe apoiara, sempre lhe fizera sentir-se bem, não importando quanto tempo demorasse para isso acontecer: o fato era que Andre Desrosiers sempre passava a apoiar o filho, quando percebia que o que o garoto queria era aquilo que lhe fazia feliz e David tinha total certeza de que havia deixado mais do que claro que somente continuaria sendo feliz se pudesse ter Pierre.
O maior passou uma mão pelo rosto do garoto, secando as lágrimas que voltavam a escorrer com força total; sentia-se terrivelmente confuso sobre o que poderia ter acontecido naquela conversa, mas sabia que David não falaria nada até que conseguisse se acalmar. Apertou mais ainda – se isso fosse possível – o corpo pequeno contra o seu, permitindo que o mais novo escondesse o rosto no seu peito, chorando, onde o corpo magro dava esporádicos solavancos, deixando claro que David tentava conter ao máximo os soluços.
-Shhh... – murmurou, sentindo o coração apertar-se. Apesar do namorado não falar nada, sabia que a dificuldade que David passava com o pai era totalmente sua culpa; sentia-se mal por ser o fator principal de pai e filho, que sempre se deram tão bem, estarem em pé de guerra. Apesar de tudo, não conseguia deixar de sentir-se cada vez mais miserável em relação à isso. – Me desculpe, David. – pediu, num murmúrio, no mesmo instante em que abaixava a cabeça, escorando a testa no ombro do namorado, que pareceu surpreso pela última frase, esquecendo-se do próprio choro.
-Pie? – murmurou, a mão pequena se perdendo no couro cabeludo do mais velho, fazendo pequenos carinhos na região, fazendo um arrepio gostoso correr o corpo maior. – O que foi, meu bem? Por quê está se desculpando?
Pierre apenas suspirou de forma trêmula contra o ombro do namorado, onde depositou um pequeno beijo, antes de soltar-se do corpo menor, ajeitando-se de modo que suas pernas ficassem em cima do sofá e suas costas escoradas no braço do sofá; castanha fixou castanho-verde.
-Eu... Desculpe-me por estar acabando com sua relação com o seu pai. – murmurou, por fim, quebrando o contato visual.
David piscou, absorvendo lentamente a informação e, quando o fez, engatinhou sobre o móvel fofo, até que pudesse se acomodar entre as pernas do namorado, meio deitado sobre o tórax definido do mais velho; olhos nos olhos, enquanto as mãos pequenas acariciavam a bochecha do outro.
-Não é sua culpa, baby. – disse, por fim, um pequeno sorriso surgindo nos lábios bonitos. – Você sabe como eu sou, quando meu pai quer bancar o estraga prazeres e... – suspirou, o sorriso sumindo. – Não é sua culpa se ele quis me expulsar. – completou, poucos minutos depois, abaixando a cabeça de modo que pudesse evitar o olhar surpreso de Pierre. – Eu... A culpa não é sua, Pie, mesmo. – voltou a erguer as íris, olhando dentro dos olhos do namorado num olhar tão intenso, que Pierre não se lembrava de já ter recebido do mais novo. – É minha culpa, se meu pai não consegue aceitar o que eu quero ser... Se ele não consegue aceitar o que eu quero ter; e acredite, Pie, você é o que eu mais quero, não importa quanto tempo passe.
Pierre abriu a boca para retrucar qualquer coisa, a qual simplesmente sumiu de sua mente quando os lábios de David cobriram os seus, num selinho deveras longo.
Não demorou muito para que as línguas de encontrassem de forma nostálgica, cada qual passando para o outro todo o conforto que precisavam sentir do outro. Um beijo o qual passava para o outro a intensidade dos sentimentos que começavam a apenas crescer dentro de seus peitos; apenas mostrando o quão eterno aquilo tudo seria.
-Eu gosto mesmo de você, Dave. – Pierre murmurou, no pequeno espaço de tempo em que seus lábios se separaram para pegar ar.
E David sabia... Conseguia sentir em cada movimento da língua de Pierre contra a sua o quanto aquela frase era verdadeira.
Fim do Flashback
Se antes aquela tarde tinha tudo para ser perfeita, depois da chegada de Jack tal situação mostrara-se completamente falsa.
Haviam ficado na companhia do ex-namorado de David por dez minutos; pouco tempo, mas fora o bastante para acabar com qualquer bom-humor que Pierre pudesse estar sentido naquele dia: dos dez minutos, apenas um fora perdido com Jack dando atenção à Pierre; nos minutos restante, essa minhoca descolorida passara tentando flertar com David, o qual apenas ria educadamente, agradecia os elogios e tentava mudar de assunto – todas as tentativas mostrando-se uma mais frustrada que a outra.
Não demorara muito mais para que Pierre ignorasse a mão de David na sua, pedindo com apertões que mantivesse a calma e, puxando o corpo pequeno para si, Pierre expressara todo o seu mal-humor numa frase deveras mal educada, antes de simplesmente ir sentar-se na mesa que Melissa estava com outras pessoas, levando David consigo.
E apesar de na maioria das vezes Pierre ser hilário quando estava com ciúme, David tinha que admitir que daquela vez o marido estava conseguindo lhe constranger com suas caretas e frases ligeiramente grosseiras direcionadas à Jack, sempre que esse tentava se aproximar novamente.
-Pierre. – resmungou, em repreensão, minutos depois da última patada que o marido dera e eles haviam, finalmente, ficado sozinhos. – Não precisa ser mal educado.
Pierre apenas resmungou qualquer coisa inteligível, antes de finalmente soltar a mão de David, apenas para cruzar os braços em frente ao peito.
-E deixar que ele fique tentando flertar com você? Não mesmo. – David suspirou pesadamente, antes de passar uma mão pelos cabelos e rir. – Qual a graça?
O menor deu de ombros.
-Você.
Pierre ergueu uma única sobrancelha, num gesto deveras charmoso, mas que não fez o mais novo parar de rir.
-E por quê eu seria engraçado? – aos poucos, David parou de rir, antes de caminhar os poucos passos que separavam o seu corpo do marido, fazendo-o descruzar os braços, passando os próprios pelo pescoço do maior; a ponta dos dedos fazendo pequenos desenhos na nuca do médico, que acabara de abraçar a cintura de David; as íris castanhas, curiosas, presas nas divertidas do promotor.
-Por que você não passa de um tonto, se realmente acha que eu iria dar alguma resposta para as investidas do Jack, que não seja tentativa de mudar de assunto. – ergueu as sobrancelhas, numa expressão terrivelmente debochada. – Ora, vamos, Pie... Até parece que você não confia em mim.
Pierre suspirou profundamente; os dedos brincando com a barra da camisa que o menor usava, enquanto os arrepios corriam á cada contado do corpo magro contra o seu.
-Eu confio em você. – deu de ombros. – Eu não confio nele.
David riu, antes de beijar os lábios do outro.
-Nenhum dos atuais de qualquer ex do Jack, confia nele. – piscou um único olho, fazendo Pierre rir de leve. – Então, não se preocupe tanto. Não é como se ele ainda sentisse algo por mim.
Pierre apenas franziu o cenho, parecendo ponderar as palavras do mais novo, antes de simplesmente suspirar e, num gesto inesperado, capturar os lábios de David, num beijo curto, porém lento.
-Eu amo você, seu advogadozinho bobo. – David riu, sabendo que esse era o jeito de Pierre dizer que o pequeno havia conseguido convencê-lo do que fosse.
-Eu também te amo, bobão. – resmungou em resposta, depositando um último selinho nos lábios de Pierre. – Vou ao banheiro, Pie, não demoro. – avisou, recebendo um resmungo qualquer do marido em consentimento, antes de se beijarem uma última vez e, soltando-se dos braços fortes do outro, caminhou rapidamente para dentro da casa, sorrindo para algumas poucas pessoas que encontrara no caminho.
E, realmente, David não demorou absolutamente nada no banheiro; fizera tudo o que queria rapidamente, lavando as mãos, saindo do banheiro e, enquanto caminhava tranqüilamente pelo interior da casa, voltando pelo mesmo caminho que fizera para ir, não pôde deixar de soltar uma praga bem baixinha, ao ver Jack caminhar em sua direção, saído de qualquer lugar que David não saberia dizer qual era.
-Ei, Davey. – ele disse, sorrindo, parando apenas quando as pontas de seus pés tocaram nos de David, que deu um pequeno passo para trás, confuso, embora um sorriso constrangido brincasse em seus lábios.
-Ei, Jack. – respondeu, sem qualquer empolgação na voz; as íris correndo ao arredor, procurando qualquer coisa que pudesse lhe servir de desculpa para poder sair dali, porém não encontrando nada, nem ninguém.
Suspirou, tentando manter o sorriso nos lábios.
-Sabe, eu passei a tarde toda tentando conversar com você, mas Pierre está tão estressado. – uma risada tola soou pela sala, mas David o ignorou, apenas franzindo o cenho perante tal frase, perguntando-se se Jack era bobo assim mesmo, ou se ele havia apenas decidido ignorar as grosserias de Pierre. – Eu estou com saudades de você e queria pôr as novidades em dia.
David apenas encolheu os ombros, ainda sorrindo: onde diabos estava Pierre, quando precisava que o marido lhe livrasse de Jack? Quer dizer, não se importaria, realmente, se o loiro quisesse apenas pôr as novidades em dia, contudo sabia que essa seria, provavelmente, a última coisa que o outro faria, preferindo apenas ficar falando o quando David havia mudado ou o quanto sentia falta da relação que eles tinham.
-Claro. – respondeu simplesmente; o que poderia fazer? Tecnicamente, Jack não havia lhe ofendido. Ainda. – O que tem feito? – perguntou; se era para pôr as novidades em dia, era isso que o promotor faria.
Jack permitiu que um sorriso feliz aparecesse em seus lábios, obviamente por contente por David não ter inventado uma desculpa qualquer para poder se livrar do ex-namorado.
-Ah, você sabe... Fiquei responsável pela empresa do meu pai, alguns poucos anos depois de ter entrado para a faculdade.
David ergueu uma única sobrancelha.
-Virou empresário, então? – o outro concordou com um aceno de cabeça. – Nada mal, para quem se negava a ser um.
Jack riu, antes de dar seu jeito de fazer David virar o assunto principal da conversar.
O promotor apenas deu de ombros mentalmente; Pierre não poderia ficar bravo por David estar sendo educado, certo?
Era o que esperava.
Flashback
O sol começava a nascer quando ele obrigou-se a sair do torpor gostoso em que se encontrava. Abrindo os olhos – e coçando-os de modo até infantil -, bocejou longamente, antes de resmungar qualquer coisa inteligível e finalmente tomar consciência do corpo do namorado contra o seu, no emaranhado de braços e pernas que faziam todas as noites, antes de dormirem.
Sorrindo de leve, ergueu as íris para o rosto do outro, encontrando-o adormecido; a expressão serena, enquanto o peito subia e descia no ritmo lento da respiração. Nos lábios firmes um singelo e pequeno sorriso provocado pelo que sonhava e, no intimo, desejou ser o motivo de tal sorriso.
Bocejando mais uma vez, afastou as cobertas de sobre o próprio corpo, movendo-se para o lado de forma lenta, soltando-se do namorado, tentando não acordá-lo, enquanto sentava-se sobre o colchão fofo, com as pernas para fora da cama.
Contudo, quando apoiou os pés no chão frio e deu impulso nas pernas para levantar-se, sentiu a mão do namorado segurar seu pulso, antes de puxá-lo, fazendo-o cair de modo a ficarem com os rostos próximos.
-Aonde vai, amor? – a voz de Pierre saiu completamente sonolenta e preguiçosa, fazendo David se chutar mentalmente por tê-lo acordado. Fixou as íris nas castanhas, notando que elas lhe fitavam cobertas de sono.
Sorriu.
-Me arrumar para a escola. – respondeu, esticando-se levemente para conseguir cobrir os lábios do outro com os próprios, num selinho rápido. – Volte à dormir, meu bem. – Pierre bocejou, as íris correndo até o visor luminoso do relógio digital sobre a mesa de cabeceira; seis e meia.
-Sua aula começa só as oito e ainda é muito cedo, Dave. – resmungou, puxando o outro de leve, tentando fazê-lo deitar-se. – Volte a dormir.
David riu de leve, voltando a beijar os lábios do maior, mesmo que não aprofundasse o contato; ajeitando-se sobre o colchão, arrumou o cobertor sobre o corpo do mais velho.
-Eu vou ter que atravessar Montreal, praticamente. – respondeu; uma das mãos pequenas indo acariciar o rosto do outro, num toque meigo. – Se eu demorar mais, eu vou perder o ônibus e...
Pierre o interrompeu, puxando-o pela nuca e juntando seus lábios nos dele, antes de finalmente aprofundar o toque, fazendo com que as línguas se enlaçassem com paixão.
-Volte a dormir; eu te levo para a escola. – sentenciou, por fim, quando terminaram o beijo.
David resmungou qualquer coisa inteligível até para si mesmo, antes de correr os dedos pequenos até o pescoço do maior, fazendo um carinho na região, que fez um arrepio correr o corpo do outro.
-Não precisa, Pie. – respondeu, sorrindo. – Eu posso muito bem ir de ônibus e...
-Você vai com o ônibus da escola? – o outro perguntou e, embora sorrisse, parecia surpreso com tal possibilidade.
David bocejou, balançando a cabeça de um lado para o outro.
-Não. Meu pai mandava o motorista me levar. – deu de ombros. – Achava o ônibus escolar perigoso demais. – franziu o cenho. – Mas já que a minha escola é longe demais para ir andando daqui, eu vou pegar um ônibus e...
Pierre o interrompeu novamente.
-Um ônibus comum? – o mais novo concordou com um aceno de cabeça, não entendendo porque o outro estava tão agitado. – Você tem idéia do quão perigosos são os ônibus, David?
O garoto ergueu as sobrancelhas.
-Er... É apenas um transporte, Pie. – deu de ombros e Pierre bufou.
-Eu sei que sim, pequeno. – resmungou, pousando as mãos na cintura fina, puxando-o para cima do seu corpo; David ainda tinha o cenho franzido em curiosidade. As mãos pequenas seguraram o rosto do outro, como que pedindo que ele continuasse. – Mas, infelizmente, no nosso país os ônibus são usados apenas por pessoas extremamente pobres, pequeno. Se uma pessoa como você, com roupas de marcas caras, com relógio caro, tênis caro... Mochila cara... – suspirou. – Deus, você é uma pequena fortuna ambulante, amor. Pessoas ruins pegam os ônibus e você com certeza vai chamar muita atenção.
David piscou, absorvendo o que o outro estava dizendo. Beijou-o brevemente.
-Então... Você acha que tentariam me roubar? – Pierre deu de ombros, parecendo sem jeito, mas confirmando a pergunta do outro. – Tudo bem. Eu vou andando. – Pierre riu.
-Deixe de ser chato, Davey. Eu te levo. – foi a vez do outro bufar.
-Não, Pieee. – esticou a última letra de forma mimada, fazendo um bico e Pierre riu. – É sério, bobão. Eu não vou te dar trabalho, sendo que eu posso muito bem ir sozinho.
Pierre passou uma mão pelos cabelos do outro, bagunçando-os, antes de correr a mão para o rosto dele e puxá-lo de encontro ao seu mais uma vez.
-Não é nenhum trabalho, meu bem. – respondeu, quando parou de beijar seguidas vezes os lábios de David. – Eu trabalho perto da sua escola, lembra?
David girou os olhos.
-Você está de folga hoje, bestão. – resmungou, fazendo Pierre rir. – Não ria! Você estar de folga significa que você não tem motivo para ir até lá, portanto, você vai ficar em casa, dormindo tudo o que tem direito, que eu me viro para ir para a escola. – depositou um breve selinho nos lábios do outro.
-David! – Pierre resmungou, quando tentou aprofundar o contato, mas David simplesmente se afastou, rindo, antes de se levantar. – O quê diabos vocês está fazendo? Volte para cá!
David riu, divertido.
-Não, amor. Eu tenho mesmo que ir. – Pierre bufou, vendo o menor entrar no banheiro da suíte, apenas encostando a porta.
Suspirando pesadamente, jogou as cobertas para o lado, antes de levantar-se e caminhar até o banheiro, abrindo a porta e escorando-se na batente, cruzou os braços em frente ao peito, enquanto esperava David terminar de tirar a pasta de dente da boca.
-Eu realmente quero te levar para a escola, David. – resmungou, quando o garoto pegou uma toalha pequena e secou o rosto.
David ergueu os olhos para o espelho á sua frente, observando a figura ainda sonolenta do namorado. Mostrou a língua.
-Obrigado pela privacidade. – disse, rindo, antes de pôr a toalha sobre a bancada da pia e caminhar até onde o mais alto estava. – É sério, Piér. Eu não vim ficar aqui para ser um estorvo, okay? Eu me viro para ir para a escola. Depois da aula, eu vou procurar um emprego e te ajudo com as contas e...
Contudo, o resto da sua frase jamais seria verbalizada, já que Pierre apenas segurou seu rosto entre as mãos, puxando-o e colando os lábios.
-Você. Não. É. Um. Estorvo. – ele resmungou, os lábios ainda colados nos do outro. – Você é a melhor coisa que poderia me acontecer, David, e eu não sou hipócrita a ponto de querer que você me ajude com alguma conta, está bem? Eu podia muito bem apenas não ter concordado com isso de você ficar aqui. – afastou um pouco o rosto, de modo que seu olhar pudesse capturar o de David. – Pare de agir assim, okay? Pare de se sentir um incomodo; pára de pensar que você me deve algo. Eu quero te levar a escola todos os dias. Eu não quero que você ache que precisa me ajudar com conta alguma. Não é sua obrigação.
Um suspiro trêmulo escapou pelos lábios do mais novo, batendo contra o queixo de Pierre, que apenas sorriu ao ver a expressão contrariada do outro.
-Eu não quero te dar trabalho, Pie. – resmungou, as mãos pequenas pousando sobre o peito do mais alto, apertando um punhado do tecido da camiseta branca entre os dedos magros.
Pierre sorriu de leve, antes de esfregar a ponta do nariz no de David, que apenas fechou os olhos, gravando na memória todas as sensações que aquele contato dava ao seu corpo.
Era uma coisa estranha e sabia disso; Pierre lhe fazia sentir de uma forma que nunca achara que fosse possível; ele tinha algum tipo de poder sobre si, que fazia-lhe querer sorrir o tempo todo, não importando o motivo bobo que fosse.
E, Pierre falasse o que fosse, sabia que estava dando trabalho ao namorado, mas a forma como o mais velho agia, como lhe tocava, como falava consigo... A maneira que apenas lhe olhava, mostrando o quanto gostava do mais novo e o quanto lhe respeitava, fazia qualquer medo de estar fazendo qualquer coisa errada, simplesmente sumir. E, no final, apenas queria mostrar á ele o quanto gostava dele. Sentia uma vontade enorme de poder dizer-lhe o quanto ele havia lhe conquistado: o quanto Pierre havia-lhe feito amá-lo.
Contudo, não sabia se estava na hora de verbalizar tais sentimentos. Não sabia, absolutamente, como Pierre reagiria ao ouvir tal sentimento; sabia que Pierre gostava muito de si, contudo não sabia se seria correspondido no quesito... Amor.
E temia como o diabo que tudo o que outro não queria era que chegassem ao ponto de estar amando um ao outro: de fato, estavam juntos há alguns meses, contudo nunca falavam algo sobre sentimento que saísse do comum "eu gosto muito de você". E isso fazia David ter medo de que para Pierre tudo não passasse apenas de diversão; não passasse apenas de uma atração.
-Eu gosto muito de você, Dave. – a voz do mais velho soou baixinha, bem perto do seu ouvido, antes dos braços fortes envolverem sua cintura, puxando o corpo pequeno de encontro ao mais forte. – Você não me dá nenhum trabalho, criança. – era como se o maior apenas pudesse ler seus pensamentos.
David sorriu, abraçando o namorado pelo pescoço e escondendo o rosto ali, sentindo o perfume do outro lhe invadir o nariz, embriagando-o.
-Eu também gosto muito de você, Pie. – murmurou, os lábios roçando contra o lóbulo da orelha dele. – Muito. – beijou a pele sensível embaixo da orelha dele, sentindo-o tremer de leve. Sorriu. – Você não faz idéia do quanto.
Sentiu os braços do namorado lhe abraçarem com mais força; um leve beijo foi depositado no seu ombro.
Suspirou, fechando os olhos e se permitindo aproveitar todas aquelas sensações.
Fosse o que fosse que Pierre sentisse... Não importava: apenas aproveitaria todo o tempo que lhe fosse dado ao lado dele. Apenas... Seria feliz ao lado daquele que amava mais do que a si mesmo.
Fim do Flashback
Aquela era a conversa mais estranha que se lembrava de já ter tido.
Apesar de tentar, a todo o momento, mudar de assunto, Jack sempre achava um jeito de fazer com que David fosse o assunto, bem como não perdia uma única oportunidade de tocar no promotor, ou apenas elogiá-lo.
David não conseguia lembrar-se de quando fora a última vez que se sentira tão constrangido em toda sua vida; fosse como fosse, não conseguia pensar em absolutamente nada para poder simplesmente desconversar e ir correndo esconder-se ao lado de Pierre, de modo que apenas sorria timidamente, agradecia o elogio e apenas respondia as perguntas do outro.
E, então, o silêncio: finalmente a brecha que David esperara o tempo todo.
Suspirando baixinho, passou uma mão pelo cabelo e sorriu.
-Bem, eu... Vou voltar para a minha mesa. – disse, sorrindo sem graça. Jack apenas suspirou. – A gente se vê...
Contudo, quando deu o primeiro passo, sentiu a mão de Jack segurar-lhe pelo pulso; com o cenho franzido, olhou para a mão que lhe tocava, antes de erguer os olhos, curiosos, para o homem loiro.
-Eu sinto sua falta, Dave. – o promotor piscou, confuso.
-Como?
-Eu... Desde que você terminou comigo... – ele disse, parecendo completamente envergonhado, mesmo que seu rosto não houvesse adquirido nenhuma tonalidade avermelhada. – Eu percebi que te amava e... Quando eu te liguei, e ouvi sua voz... Eu percebi que esse sentimento simplesmente nunca mudou. Apenas ficou esquecido dentro de mim; e quando eu te vi hoje, tão mais lindo do que costumava ser, eu... Percebi que não importa o tempo que passe, eu apenas continuaria te amando.
David permitiu que seus olhos se arregalassem, em surpresa: isso não era, nem de longe, o que ele esperava ouvir de alguém naquele dia. Muito menos de Jack, com quem tivera uma relação muito conturbada.
-Eu... – murmurou, sem ter certeza do que deveria dizer, mas Jack pediu para que permanecesse em silêncio com um gesto da mão livre, enquanto com a outra dava um leve puxão em David que, pego de surpresa, deu um pequeno passo para frente para não cair.
-Não fala nada ainda, por favor. – ele pediu, desviando brevemente as íris azuis, como que juntando coragem para continuar, antes de voltar a fixá-las nas castanho-verdes de David. – Você não tem noção de como eu senti falta de você, Davey. De como eu senti falta das suas brincadeiras, que na época eu achava idiotas; de como senti falta da sua risada, que desde aquele tempo, sempre foi a mais linda e hipnotizante. Como senti falta da perfeição que você se permite ser da forma mais inocente.
Surpreso era pouco para descrever como David se sentia naquele momento: Jack nunca fora o tipo de cara que elogia as pessoas com quem tinha ou tivera um romance; principalmente, em se tratando de David: sempre fora do conhecimento do menor que Jack apenas estava consigo para conseguir popularidade, bem como uma boa transa... E, exatamente por isso, nunca permitira que o loiro tivesse algo mais do que meros amassos.
Apesar de na época do namoro ser um completo idiota, principalmente pelo fato de saber que era traído e não fazer nada, nunca esperava ouvir alguma dessas palavras do outro homem, principalmente tendo passado um pouco mais de dez anos desde a última vez que tiveram algo que pudesse ser classificado como conversa.
Estava tão surpreso que viu a boca do outro voltar a mover-se, mas não conseguiu se concentrar no que era dito.
E, no minuto seguinte, apenas sentiu um puxão mais forte no braço, fazendo-o chocar-se contra o corpo do outro, que ergueu ambas as mãos, pousando uma em cada bochecha de David, que apenas pousou as mãos no peito do mais alto e, no momento em que ia empurrá-lo, os lábios de Jack cobriram os seus.
Permitiu que um grunhido escapasse de sua garganta, enquanto as mãos forçavam-se contra o tórax dele, numa tentativa frustrada de conseguir afastá-lo, já que ele era bem mais forte.
Tentou dar um passo para trás, mas uma das mãos do loiro pousou na base da sua cintura, puxando-lhe de encontro ao corpo maior, enquanto a mão que sobrara segurava sua nuca, forçando sua cabeça de encontro à dele.
Não demorou muito para que sentisse a língua de Jack invadindo a sua boca, numa tentativa de beijo que David se recusou a retribuir.
-O que está acontecendo aqui? – a voz de Pierre soou, fazendo com que Jack lhe soltasse e se afastasse, ofegante.
David ergueu os olhos para o marido, vendo-o parado no portal; a expressão severa e os braços cruzados em frente ao peito.
E quando seus olhos se encontraram, David soube o quão magoado o mais velho havia ficado com o que achava ter visto.
Droga.
