Capítulo II – O Navio Pirata no Royal Port
- É troca da guarda, está pronta para ir, princesa? –
um vulto na janela de ébano fez com que as duas fadas pulassem
em meio a mais um abraço.
- Mas eu ainda nem fiz as...
- As malas estão aqui, srta. Owëna... – disse Ardwinë
entregando as malas a Windë. – Apenas vista essa capa. –
sorriu.
- Vamos rápido. Esta é nossa última
chance de sair daqui ainda hoje. – disse parecendo um borrão
ao saltar janela afora.
- Certo. – concordaram as fadas voando
janela afora em alta velocidade em direção ao meio da
parte mais densa da floresta. Alguns pequenos animais curiosos em
meio às densas árvores acompanhavam-nas ao mesmo tempo
que grilos cricrilavam em meio à mata. No momento em que
chegaram à uma parte em que a floresta abria um rastro por
entre si, elas sabiam que o caminho ficaria mais perigoso.
-
Aqui vocês se separam. Para lá o reino é cheio de
armadilhas, não conseguirei proteger duas fadas ao mesmo
tempo.
- Tudo bem, concordo plenamente com o que diz. Adeus
srta. Owëna. Seja feliz!
- Obrigada por tudo, amiga! –
disse sendo puxada por uma elfa que corria e a desviava de muitas
armadilhas, numa velocidade tão surpreendentemente alta que
ela mal podia enxergar o que as tentava atingir.
Um rio de fogo
mágico separava duas partes da floresta já no final do
reino. Depois deles, arqueiros fantasmas as esperavam, cegos, mudos e
inconscientes da vida. Apenas lançavam flechas ao pressentirem
movimento na mata. Ao primeiro passo de Isilmëwa e Owëna na
mata, uma flecha passou frente aos olhos delas, chiando como se
encantadamente enfurecida.
- Como passaremos por elas, Isil? –
perguntou a fada assustada.
- Vou tentar te levar em segurança
até o outro lado. Não se mova. – a elfa pegou a fada
nas costas e cerrou os olhos em silêncio, tentando apenas
pressentir as flechas, sem vê-las.
Alguns minutos depois,
a elfa começou a correr com a fada em seus braços, como
se não pesasse nem ao menos uma grama. Owëna tentava
acatar as ordens da amiga, mal podendo acreditar tal velocidade
alcançavam. Flechas passavam zunindo furiosas muito próximo
delas, mas eram tão velozes que a fada apenas ouvia seu ruído
pelo ar. Forçou seus olhos tricolores de fada mais fundo e
pode ver uma flecha, apenas uma, vindo em sua direção.
- Isil, tem uma vindo pra c... – disse a fada, virando o corpo
levemente para o lado contrário.
- Não se mova,
Owëna! – o alerta veio tarde demais. Isil puxou a fada para o
lugar de antes novamente. Uma outra flecha acertara de raspão
o braço de Isil.
- Desculpa... Não pude... – a
fada tentou se desculpar.
- Esqueça, vamos sair logo
daqui.
Correram ainda mais rápido dessa vez, alcançando
finalmente as fronteiras do reino.
- Malditos mortos-vivos...
São tantos e tão bem posicionados que é
impossível desviar de todos eles... – disse Isilmëwa
depositando uma princesa espantada na grama já fora dos
domínios de Astarte. – A rainha deve ter preparado isso
propositadamente pra mim...
- Você está bem, Isil?
- Estou. Foi apenas um arranhão. Rápido, devemos
chegar ao porto antes dele partir.
- Ele? Ele quem?
- É
meu irmão gêmeo, Matt. Um pirata, vive do ouro e do
comércio do rum. Mas é boa gente. – sorriu
discretamente a elfa.
- Não sabia que tinha irmãos,
Isil... Na verdade, não sei nada sobre você...
- Há
coisas que é melhor não saber, princesa. – sorriu
novamente. – Meu passado é uma dessas coisas.
Ao
chegarem ao Porto de Astarte, sob uma razoável neblina se
encontrava um navio negro de velas também escurecidas pelo
tempo, uma inconfundível bandeira pirata em seu mastro. A elfa
sibilou algumas palavras ao vento e deu dois assovios longos, os
quais foram respondidos de dentro do navio.
- Tripulantes novos
para lavar o meu convés! – Disse um garoto alto de cabelos
morenos e trajes marinheiros que se aproximava. – Ora vejam, se não
é a minha querida irmã!
- Disse que vinha, não
foi Matthew! – a elfa séria que Owëna conhecia
aparentava ser muito mais descontraída longe de seus afazeres
no reino das fadas.
- Decidiu voltar para casa? Dona Maella está
muito preocupada e indignada com o desaparecimento de seus filhos do
Reino de Tyrin.
- Ela ia ficar de cabelos brancos se soubesse.
Esta é Owëna Wilwarin. Owëna, esse é Matthew
'Crow' Windë, meu irmão.
- Prazer...
-
Encantado... – disse Matt segurando a mão da fada, admirado
por sua beleza e pureza. – Mas, espere um pouco! Wilwarin não
é a realeza das fadas dessa região? Não me diga
que você...
- Devemos partir o mais rápido
possível, antes que descubram o que fiz.
- Você
está maluca? Raptou a princesa! – disse Matt começando
a se alterar um pouco. – Já não basta ter fugido do
trono, ainda raptou a guria!
- Fugido do trono...? – disse
Owëna confusa.
- Não me arrependo do que fiz. E você
não pode dizer isso, também o fez!
- Ainda não
raptei ninguém!
- Com licença, sr. Crow... Ela
não me raptou. Eu… eu pedi para que me ajudasse a fugir.
Assim como lhe peço agora.
- Eu... – disse, sem
conseguir negar o pedido da garota. – Tubarões me devorem,
ainda serei enforcado por isso! Levantar âncora! Içar
velas! – disse saindo de perto das duas.
-
Obrigada princesa. Devo-lhe uma.
- Deve. Primeiro, não me
chame de princesa. Segundo, quero que me conte essa tal história
que ele mencionou sobre sua fuga.
- Tudo bem, Owëna. Vou
resumir tudo pra você. Sou uma elfa, como sabe. Meus pais são
Maella Windë e Traden Varthir, elfos da realeza. Tenho dois
irmãos, o Matt e...
- E Tharnion Varthir, certo...?
- Sim. Tharnion é herdeiro direto do trono, mas precisou ir a
uma batalha por entre a Terra Média. Foi aí que fiquei
encarregada do trono do reino e fugi. Matt já estava
direcionado para a vida no mar logo pequeno, pois ele nasceu
estranhamente sem os poderem élficos devidos e com uma
inevitável afinidade pela água.
- Então a
princesa dos elfos se tornou uma andarilha e um dia começou a
servir refugiadamente a rainha das fadas... Que história
mágica!
- Não é realmente uma história
muito boa de se contar... Bom, adentre a escotilha... Logo amanhã
já estaremos desembarcando em terra firme. Assim espero… –
disse enfaixando o braço arranhado por uma das flechas das
armadilhas que superaram ao sair do reino de Nya.
