O almoço de Natal foi… caótico. Essa era a única palavra que Mycroft conseguia pensar ao lembrar da tarde calorosa, porém levemente insana, que tivera.
Após passar em Baker Street para apanhar John, que seguiria depois do almoço para a casa de sua irmã, os três chegaram à casa de Nadine, onde foram recepcionados na porta pelo pequeno, porém enérgico, neto de Gregory, Johnathan Mathieu. O menino tinha o sorriso e os olhos do avô, e em menos de meia hora tinha John e Mycroft comendo na palma de sua mão.
- Vovô Gueg, - foi a primeira coisa que o menino perguntou - Papai Noel passou na sua casa pra me deixar presentes? - Greg riu e logo entregou nas mãos do menino um grande embrulho em papel dourado, que foi imediatamente destroçado, revelando um enorme carro de bombeiros.
- Papa… - a voz de Nadine veio de trás dos três - é bom essa sirene não tocar de verdade. - Greg virou-se, com um sorriso claramente culpado no rosto, e Nadine suspirou, esfregando os cabelos curtos - Você e a Nat adoram dar coisas barulhentas pra ele, não? É de propósito, pra me enlouquecer? - Ela avançou e beijou Mycroft, e em seguida John - Bem vindos, gente. Desculpem a confusão, mas ainda não consegui colocar o pernil no forno, Eric foi buscar a Nat, e Johnny está ligado no 220v desde que acordou… uff.
Greg ofereceu-se para terminar os preparativos do almoço, e após alguns protestos, Nadine aceitou, quando ele afirmou que era seu "dever de anfitriã" levar John e Mycroft até a sala. A sala de estar era pequena e parecia abarrotada com a enorme árvore de Natal no canto. Dois sofás confortáveis encontravam-se de frente para a pequena lareira, com uma televisão em ângulo e uma mesa de centro baixa e larga diante deles. As paredes eram absolutamente tomadas de molduras, algumas contendo pôsteres de diversas séries e filmes, outras contendo fotos de família, e até mesmo alguns recortes de jornal onde Gregory aparecia. Nadine sinalizou para que John e Mycroft sentassem no sofá e foi servir-lhes um drinque do modesto mas bem estocado bar que tinha próximo à janela. Johnny estava sentado no chão da sala, brincando com o caminhão de bombeiros, fazendo-o atropelar o que parecia um robô com asas.
- Olha, mamãe! Meu caminhão tá atopelando o Megaton! Meu caminhão é o Opius Pime! - Nadine olhou-o e sorriu, carinhosa.
- Tou vendo, parceiro! Mas cuidado pra o Optimus não se machucar, ele acabou de chegar, né? - ela levou as bebidas até os dois homens, e sentou-se no chão, perto de Johnny - Ele é uma pecinha, não? - John sorriu e puxou um embrulho no bolso do casaco.
- O que será isso? - ele falou, chamando a atenção do menino - Acho que Papai Noel deve ter deixado no meu casaco durante a noite… e olhe só, está escrito "Johnny" no pacote! - o menino pulou, os olhos brilhantes, e estendeu a mão para o médico, que lhe entregou o presente.
- Um Tee Fu Tom! Olha, mamãe, é o Tee Fu Tom! - o menino pulou e dançou em volta da mesa com o boneco em mãos, inserindo-o na brincadeira já em andamento.
- Não precisava, John... - Nadine falou, mas o médico ergueu a mão.
- Nem uma palavra, Nadine. É Natal, e isso é só uma bobagenzinha.
- Obrigada, mesmo assim. - ela sorriu com suavidade, observando o filho brincar. O barulho da chave na porta alertou-os para a chegada de Eric e Natalie, e logo Johnny corria para busca-los a fim de mostrar seus presentes. Greg juntou-se a eles, e enquanto o pernil terminava de assar, ele sentou-se ao lado de Mycroft, trazendo consigo os presentes do restante da família.
Nadine ficou encantada com o box especial de Doctor Who, com todas as temporadas do Sétimo Doutor, que o pai comprara para ela e Eric, e Natalie mal conteve seu entusiasmo diante da réplica sob medida do sobretudo de Severus Snape que o pai mandara fazer para ela, que se queixava há eras de não ter um casaco preto. Mycroft notou que, no fundo da sacola, um volume ainda permanecia, cuidadosamente embrulhado em papel azul brilhante. Ele enterrou suas esperanças em um canto escondido de sua mente, e foi buscar sua própria sacola, que deixara junto a porta.
- Mycroft… - Nadine perguntou, ao ver o tamanho do volume - o que diabos é isso?
- Ora, minha cara, - ele sorriu, ao sentar-se novamente ao lado de Greg - é apenas costumeiro, ao visitar amigos durante este dia, trazer presentes, não é mesmo?
Greg riu, e deu dois tapinhas no ombro do político, que teve que reprimir o impulso de simplesmente reclinar-se e encostar a cabeça no ombro do policial. Ele disfarçou seu embaraço com um pigarro, e tirou um embrulho quadrado e aparentemente pesado da sacola.
- Johnathan, - ele chamou a atenção do menino, que ergueu-se com os olhos brilhando - seu avô contou-me que você é um jovem muito curioso, e muito inteligente. Então, acredito que você vai apreciar bastante o que… Papai Noel deixou sob a minha árvore para você. Sua mãe, acredito, deve ser bem familiarizada com isso. - ele entregou o pesado embrulho a Johnny, que colocou-o no chão e rasgou o papel num frenesi de curiosidade, parando com uma expressão enlevada ao ver o conteúdo.
- PADDINGTON! - ele gritou, a plenos pulmões, encarando a capa colorida dos diversos livros, figurando o ursinho de chapéu e capa de chuva. Nadine tinha um olhar tão brilhante e enlevado quanto o do filho, e ao erguer os olhos, Mycroft viu que estavam úmidos.
- Mycroft… como diabos você podia saber? - ela sussurrou. Ele deu de ombros e olhou para Greg, que observava o neto com um sorriso levemente triste. - Obrigada… de verdade. - ele assentiu, e puxou mais dois pacotes, entregando-os para as irmãs ao mesmo tempo.
- Espero que vocês não se importem de ganhar presentes iguais, minhas caras, mas não consegui pensar em nada que fosse mais perfeito.
Entreolhando-se com curiosidade, as irmãs rasgaram os embrulhos, de onde caíram uma pilha de fotografias.
- Oh... meus… deuses… - Nadine suspirou.
- Eu não acredito. Eu não acredito. - foi a afirmação frântica de Natalie, enquanto repassava em suas mãos as fotos de todo o elenco de Harry Potter, cada uma autografada com uma mensagem pessoal e carinhosa. - Mycroft, como DIABOS você conseguiu isso?!
- Não precisa gritar, Nat. - Greg falou, com uma careta, esfregando o ouvido.
- Desculpa, velho. - ela falou, não parecendo nem um pouco apologética. - Mas isso… isso é incrível! E combina com o seu presente - ela falou, com um sorriso maldoso. Mycroft e Greg fizeram cara de desentendidos, e o político puxou um último embrulho da sacola, entregando-o para Eric.
- Nadine contou-me que você é um grande fã dos Red Devils, Eric… então espero que você aprecie. Um amigo muito prezado mandou para você.
Eric abriu, curioso, o embrulho, e viu-se sem fala diante da camiseta do Manchester United autografada por David Beckham. Então, para surpresa de todos, ele lançou-se sobre Mycroft, abraçando-o fortemente, e pediu licença, saindo da sala correndo.
- Ele… não fica muito confortável demonstrando emoções na frente dos outros. - Nadine falou, sorrindo. - Mas garanto, pelo abraço, que ele ficou mais do que agradecido, Mycroft. - ela farejou o ar, e ergueu-se devagar - Parece que o pernil está pronto, pessoal. Vamos para a sala de jantar?
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John saíra no meio da tarde, indo encontrar-se com Harry para um jantar íntimo de Natal. Ela e Clara pareciam estar se acertando novamente, então o médico tinha motivos de sobra para comemorar. Depois de fazer a mãe - e depois Mycroft - ler para ele todos os livros do Ursinho Paddington, Johnny caíra no sono antes das sete da noite, o que levou Greg e Mycroft a anunciarem que era hora de partirem, a fim de que os donos da casa pudessem ter algum descanso… e um mais que merecido tempo a sós.
Após deixarem Natalie em casa, Mycroft e Greg seguiram em silêncio por alguns minutos, até que Greg soltou um suspiro e ajeitou-se no banco, erguendo a sacola que deixara entre seus pés.
- Bom, - ele falou - agora é um momento tão bom quanto qualquer outro. - ele puxou o embrulho azul e estendeu-o para Mycroft - Feliz Natal. - Mycroft olhou-o, paralisado, e estendeu a mão hesitante para o pacote.
- Gregory… - ele falou - não era necessário… você não precisava ter este trabalho comigo… - Greg cobriu a mão de Mycroft com a sua, levando o político a corar.
- Mycroft… você é um amigo incrível. Você fez tanto por mim, você faz tanto por mim, e nunca pede nada em troca…
- Porque eu não preciso de nada, Gregory. Eu faço o que faço porque… porque eu me importo com você. Porque você é alguém muito caro para mim. Você viu através das minhas defesas, das minhas máscaras, e me ofereceu sua amizade… e eu lhe sou eternamente grato. - Greg engoliu em seco e sorriu, desviando o olhar e recolhendo a mão.
- Então, mostre a sua gratidão e abra meu presente. - o político sorriu e abriu o embrulho, e Greg teve um arrepio de prazer ao ouvi-lo soltar uma de suas raras e preciosas risadas genuínas ao abrir o embrulho, que continha um iPod, com as iniciais de Mycroft gravadas, e um cartão afixado, imitando um dos cartões da iTunes, que dizia "Contém uma incrível playlist especialmente selecionada para M Holmes por G Lestrade".
- Isso é maravilhoso, Gregory, realmente maravilhoso! Muito obrigada… e eu creio que grandes mentes pensam de forma parecida, como dizem, pois meu presente para você também é de variedade musical. - Mycroft puxou de sob o assento um pacote quadrado, enrolado em papel prateado. - Feliz Natal, Gregory.
Greg, com um sorriso de garoto, rasgou o embrulho com a mesma ânsia de seu neto, mais cedo, e ficou de queixo caído diante do que viu.
- Lembro que você mencionou que, após uma de suas… discussões, Eve tinha destruído algum de seus LPs mais queridos, lembranças da sua juventude… Então, fiz algumas pesquisas, procurei um pouco… você gostou? - ele perguntou, quase hesitante.
Gregory perdeu-se no olhar azul e aberto de Mycroft, e o tempo pareceu suspenso - nenhum deles ousava mover-se, nenhum deles ousava nem mesmo respirar. O policial piscou e quebrou o contato, encarando os diversos discos em seu colo.
- É… incrível, Mycroft. Muito, muito obrigado. - Antes que qualquer um dos dois pudesse dizer outra palavra, ou fazer qualquer movimento, o carro parou, e Mycroft tomou a iniciativa de abrir a porta, segurando-a aberta para que Greg saísse. A tensão entre os dois era palpável, e ar tão carregado que quase era possível enxergar as faíscas. Sem trocarem mais nenhuma palavra, eles recolheram-se aos respectivos quartos.O jogo entre eles estava empatado; agora era apenas uma questão de quem faria o próximo movimento.
