CAPÍTULO QUATRO
Seguindo, ainda que com ressalvas, os conselhos tendenciosos de Ellen e Lily, Bella resolvera se encarregar de levar o jantar a Edward Cullen.
Ele estava instalado no celeiro, numa cama de montar improvisada entre o armário de ferramentas e a despensa. E parecia não se importar com as acomodações. Não fazia as refeições junto com os outros por que não havia recebido convite. Ela imaginou que isso se enquadraria na lista da irmã de "coisas que demonstravam sua falta de confiança no senhor Cullen". Deu de ombros e decidiu que, pelo menos por enquanto, não pensaria se o convidaria ou não para partilhar as refeições dentro da casa. Já estava fazendo muito, concedendo a ele o que Ellen e Lily chamavam de "voto de confiança".
Suspirou, olhou para o prato em suas mãos, um pouco de frango, batatas, arroz e legumes, cobertos por um pano limpo, e procurou ignorar as pernas trêmulas. Não gostava de como se sentia quando encontrava — ou apenas pensava — com Edward Cullen. Precisava aprender a controlar as próprias reações. Ela sempre tinha sido capaz disso, não tinha? Não era um forasteiro de olhar penetrante e sorriso perigoso que a faria perder a cabeça.
Empertigando-se, dizendo a si mesma que era bastante capaz de tomar as rédeas dos próprios sentimentos, Bella entrou no celeiro. Logo seu nariz foi invadido por um cheiro de homem, uísque e cigarro. Também podia distinguir um leve aroma do sabonete almiscarado, imaginando que ele devia ter acabado de tomar banho. Sentiu-se corar, um calor instalando-se no pescoço, só de pensar em Edward no banho... sem roupa.
Pigarreou quando o encontrou — vestido — sentado na escada que levava à parte de cima do celeiro.
— Senhor Cullen.
— Senhorita Swan. — Ele acenou com a cabeça a guisa de cumprimento.
— Ellen enviou seu jantar. — Ela sinalizou o prato em suas mãos, estendendo-o na direção dele.
Edward se levantou e ela se deu conta de que nunca tinha reparado no quanto ele era alto, os ombros amplos e o corpo largo. Quando ele se ergueu, o celeiro pareceu diminuir de tamanho. Ela percebeu que tinha de inclinar um pouco a cabeça para fitá-lo nos olhos.
— Obrigado. E agradeça à Ellen também. — Ele pegou o prato e foi se sentar na cama. Retirou o pano que protegia a comida, pegou o garfo que viera enrolado ao lado do prato e começou a comer. — Deseja alguma coisa, senhorita Swan? — perguntou, quando ela não fez partido para ir embora.
Bella alisou a parte da frente da saia, sentindo-se tensa de repente. Uma mistura de orgulho ferido e ansiedade formavam um nó em sua garganta.
— Eu estive pensando, senhor Culen, e cheguei à conclusão de que não fui muito gentil com o senhor.
Ele ergueu os olhos da comida e a fitou com a testa vincada.
— Como é?
— Veja bem, o senhor salvou minha irmã e tudo o mais. Merece certo respeito por isso. — Bella queria pigarrear, mas achou que isso só aumentaria o brilho de divertimento nos olhos dele.
— A senhorita já me agradeceu.
— Eu paguei sua hospedagem e o livrei de James, é verdade. Mas nunca o agradeci adequadamente.
— Estou curioso para saber o que considera um agradecimento adequado. — disse Edward e seu sorriso foi lento e perigoso.
— Bem — sua voz saiu trêmula. —, para começar, acho adequado lhe dizer obrigada. Também cheguei à conclusão de que exagerei ao tratá-lo com tanta desconfiança. Se o senhor tivesse alguma intenção de fazer mal, não teria me trazido Lily de volta. Por isso, em segundo lugar, devo-lhe desculpas.
— Dispenso as desculpas, mas fico com o obrigada. Algo me diz que não costuma dizê-lo com muita frequência.
— Tem razão. — Bella se sentia estranhamente aliviada. Seu coração ainda batia descompassado e as mãos estavam suadas, mas era mais fácil lidar com as reações sem toda aquela carga de desconfiança. — Eu não estou acostumada a dever agradecimentos a ninguém.
— Já percebi. — Ele comeu mais um pouco de frango.
O silêncio fez Bella perceber, com certo desapontamento, que o assunto estava encerrado. Lançou um olhar distraído para os lados e viu o coldre dele, com as armas, pendurado na parede. Voltou seu olhar para o senhor Cullen e sentiu-se ruborizar novamente quando o pegou observando-a.
— Preciso ir. Boa noite, senhor Cullen.
— Por que não me chama de Edward como todo mundo? — Ele disparou de volta, fazendo-a parar no meio do caminho e virar-se mais uma vez para ele. — Não sou tratado por senhor desde que estive no leste e isso já faz mais de dez anos.
— Minha mãe dizia que devíamos tratar os... não-conhecidos pelo sobrenome.
— Sua mãe sabia que morava no oeste?
Bella sentiu a raiva substituir a ansiedade. Ele não tinha o direito de zombar de sua mãe.
— Ela sabia perfeitamente, mas não acreditava que os bons modos deviam ser esquecidos depois que se cruzava a fronteira.
— Então, é por isso que você fala com tanta educação?
— Ser educada é algum crime? — disparou Bella de volta.
— É uma raridade. — Edward deixou seu prato de lado, levantando-se para pegar o cantil de uísque. — Conheci algumas moças educadas do leste, mas nenhuma no oeste com boa pontaria tanto nas palavras quanto no revólver.
— Isso é um elogio, senhor Cullen?
— É um fato. — Ele bebeu sem tirar os olhos de Bella. — Lily disse que você não aceita bem elogios.
— Ela não mentiu.
— Mesmo assim você ficou escutando até me ouvir dizer que era bonita.
Bella tentou esconder sua reação, fingir que não sabia do que ele estava falando, mas era tarde demais. Ele captou o brilho de presa acuada em seu olhar e sorriu lentamente.
— Não espere que eu peça desculpas. — Bella cruzou os braços, sem conseguir evitar que o orgulho falasse mais alto. — Minha mãe me ensinou bons modos, mas, na mesma medida, meu pai me ensinou a anulá-los em certas ocasiões.
Edward riu e pôs o cantil de lado. Deu alguns passos à frente, porque gostava de sentir o cheiro dela, uma mistura de frésias, rosas e suor.
— O seu problema é que você é teimosa demais.
— Não vejo problema nenhum em ser teimosa. — Bella teve vontade de recuar um passo, aumentar a distância entre os dois, mas seria uma atitude covarde. Sentia o estômago agitar-se e o coração pulsar violentamente, como se antecipassem, e até ansiassem, por algo muito bom.
— Eu não disse que era um problema. — Ele apoiou uma das mãos na parede, bem ao lado de Bella, ficando tão perto que ela podia sentir o hálito quente dele em seu rosto.
Bella sentiu a respiração desregular-se, mas, mesmo assim, ergueu os olhos para encará-lo. Descobriu que era ainda mais difícil respirar quando aqueles olhos verdes e afiados a fitavam de perto.
— O que pensa que está fazendo? — Ela tentou empregar frieza na voz, mas tinha certeza de que Edward percebera seu tom ofegante.
— Imagino que você considere essa aproximação inadequada.
— Certamente.
— Por que não me empurra para longe, então? — Os olhos dela brilhavam pela excitação que ela tentava esconder. — Vou lhe dizer uma coisa. Seus olhos são a coisa mais fascinante que eu já vi e olha que eu já vi muita coisa.
— Dispenso seus comentários.
— Vou fazê-los mesmo assim. Está na hora de você aprender a conviver com elogios.
— Por quê?
— Porque merece recebê-los.
— Elogios? É o que usa para seduzir as mulheres, não é senhor Cullen?
Nem mesmo ela acreditava que Edward Cullen precisasse de algo além de si mesmo para seduzir uma mulher. Ele emanava força, segurança e masculinidade. E era bonito. Seus olhos eram penetrantes, a boca levemente torta era misteriosa e o peito largo e firme despertava a imaginação. Tinha mãos grandes que, no momento, levava ao rosto dela com surpreendente suavidade. Seus dedos ásperos traçaram a linha de suas maçãs do rosto com gentileza, descendo aos lábios dela, traçando o contorno deles. Bella sentiu um calor irradiar por todo o corpo, concentrando-se em seu ventre, quando Edward segurou-a pelo queixo e fez com que ela o fitasse diretamente.
— Eu uso elogios. Bastante. Mas, com algumas mulheres, eles não funcionam. — Ele arriscou inclinar um pouco a cabeça na direção dela.
— E aí você desiste?
— Não. — Edward gostava da voz dela. Aquela voz rouca e sonolenta, entrecortada pela respiração ofegante. — Eu nunca desisto.
— Nem mesmo quando está diante de uma causa perdida? — Ela o desafiou, uma sobrancelha arqueada.
— Não existe causa perdida para mim. — Ele arriscou novamente, passando a mão livre pela cintura de Bella, trazendo-a mais para perto.
— Se aprecia o fato de ter dedos, Cullen, tire suas mãos de mim agora.
Ele nunca tinha visto uma pessoa se contradizer tanto quanto Bella Swan naquele momento. Suas palavras diziam que ele se afastasse, mas os olhos dela ardiam de desejo e antecipação. E foi por causa daquele olhar feminino e caloroso que ele a envolveu e tomou os lábios dela.
Bella se debateu — pelo menos precisava acreditar que tinha se debatido —, mas, apesar dos seus esforços, a boca dele se fechou sobre a sua. O corpo de Edward era duro, firme e incandescente, como aço exposto ao sol. Seus braços a apertavam contra ele, de tal modo que ela não tinha outra opção a não ser concentrar-se no contato. Seu sangue transformou-se em um líquido quente e exótico, que acelerava as batidas de seu coração. Sentiu a barba por fazer arranhando sua pele e isso a fez gemer. De dor, disse a si mesma, não de prazer. Mas, mesmo assim, suas mãos subiram até os ombros dele, não para afastá-lo, e sim para agarrar-se mais a ele.
Edward se perguntou se ela fazia alguma ideia do efeito que causava nele. Jamais imaginara que uma mulher tão cautelosa podia ser tão efusiva, doce e potente. Ela o mantinha preso com as mãos ao redor de sua garganta e ele nem se importava com isso. E queria mais. Num movimento desesperado demais para ser gentil, ele se afastou em busca de ar.
Ela deu um suspiro e, quando pôde respirar, inspirou o ar pesadamente. Porém, antes que pudesse se recuperar, ele a beijou novamente, usando a língua, excitando-a de um modo que jamais imaginara ser possível, enfraquecendo-a de um modo que jamais imaginara poder ser enfraquecida.
Gemeu novamente, dessa vez de completo prazer. Timidamente a princípio, depois com ousadia, ela respondeu à nova demanda. Passou as mãos pela nuca dele, pelos cabelos, sem deixar de saborear o gosto salgado e morno dos lábios de Edward. Era surpreendente. Ninguém nunca havia lhe dito que um beijo podia fazer seu corpo arder e tremer de desejo.
De repente, Edward tornou-se consciente da resposta dela e decidiu que, uma vez que tinha começado tudo, devia dar um jeito de terminar aquilo. Descobriu que afastar-se dela era mais difícil do que atirar-se de um precipício. Mas precisava fazer isso. Se se permitisse continuar aquilo sabia que teria de terminar e também sabia que Bella não tinha ideia de como as coisas terminariam. Ela tinha um corpo esguio e com curvas perfeitas, seus lábios eram quentes e receptivos, mas as mãos dela hesitavam. Edward sabia que, pelo menos numa área, a altiva e séria senhorita Swan era inocente.
— Mas o quê... ? — Bella piscou várias vezes, procurando desanuviar os pensamentos embolados e tentando regular a respiração.
Os olhos de Bella estavam escuros e confusos. De certa forma, Edward ficou satisfeito porque ela tinha ficado tão abalada quanto ele.
— Como eu disse antes, não há causa perdida para mim. — Ele disse, mas a própria voz estava rouca e entrecortada.
Ela o fitou com mais clareza, recobrando a consciência, e logo a confusão foi substituída por fúria.
— Seu filho da mãe, desgraçado e arrogante. — Ela sacou a arma pendurada na parede antes mesmo que ele pudesse reagir.
Praguejando contra si mesmo, Edward tentou parecer frio diante do revólver que ela apontava em sua direção.
— Ponha a arma de lado ou vai acabar atirando no próprio pé. — Ele mal terminou de dizer isso e ouviu a bala passar zunindo ao lado de sua orelha esquerda, passando direto pela porta aberta. Sabia que ela atiraria, assim como sabia que ela errara de propósito.
— Da próxima vez, atiro no meio da sua testa.
Bella jogou a arma em cima do feno e saiu do celeiro com uma expressão furiosa.
NOTA DA AUTORA
Oiii! Muito obrigada por estarem acompanhando! Próximo post será na quarta-feira (28-05). Nos vemos na quarta!
