N/A: Para giichan, minha única fã. Aqui está o último capítulo dessa história tão curtinha, mas que você apoiou com tanto carinho. Espero que você goste, e que a espera tenha valido a pena. ^^


Dark Angel – Curst, Tears and Love

Capítulo 3: Love

- Droga! – gritou frustrado, se deixando cair no chão.

Goh suspirou, mirando o revoltado anjo da terra. Por mais que sua linguagem fosse inapropriada e suas presas aparecessem totalmente, não conseguia achar um motivo para repreendê-lo. Não na situação que estavam. Cansado, o anjo do fogo procurou Shin com seus olhos bicolores, na esperança de encontrar algo, que não frustração e cansaço.

Porém, o anjo do vento não estava em melhores condições. Irritado e tão cansado quanto seus companheiros, revirava a mente em busca de uma solução. Mas o tempo continuava a passar e nada lhe vinha a mente.

- Quem diria que você era tão forte. – sussurrou, tocando o esquife com a ponta dos dedos. Estava ali desde a noite anterior, quando sentira o poder de Rey explodir. Desde então não perdera tempo, rapidamente chamando Goh e Gai para salvarem o amigo.

Entretanto, o sol já estava se pondo, e tudo que as três bestas sagradas conseguiram era um punhado de arranhões.

- Chame Judas. – o menor deles falou, interrompendo os pensamentos de Shin. Via os olhos acastanhados semi-cerrados e vazios e sabia, por mais que não rolassem mais lágrimas, o Suzaku ainda sentia dor.

Rey estava envolto em treva.

E, uma vez que fora Luca quem o colocara nessa situação, a última esperança era o anjo da luz.

Entendendo onde o companheiro queria chegar, o Genbu deixou o local, procurando pela presença de seu amado. A urgência rugia em seu peito, acompanhada por uma estranha sensação de perda.

O tempo estava acabando.

-x-

- Explique-se. – exigiu, olhos frios como poucos tiveram o desprazer de ver.

- Não há nada o que explicar. – respondeu Luca, seus olhos ainda cerrados. Sabia que não poderia ter feito nada pior. Esmigalhara o amor puro de Rey sem piedade, tomando-o como se fosse um objeto qualquer, sem vontade nem serventia, que não dar-lhe prazer.

E como se odiava por isso. Sentia-se um maldito fraco! Um traidor miserável que não merecia nada mais que uma tortura mil vezes pior. Ainda assim, não podia envolver outros nisso. Não precisava da raiva nem da decepção de ninguém.

Já tinha as lágrimas de Rey.

Mas Judas não parecia disposto a entender isso. Irritado com os atos do amigo, e, no fundo, incapaz de acreditar que Luca sequer tentava se defender, o ruivo cerrou os punhos e atacou, acertando um poderoso soco. Porém, o Houou não pareceu se importar, ou mesmo reagir de qualquer forma. Sentou-se no chão onde o impacto havia lhe jogado e limpou o sangue que lhe escorria dos lábios com displicência, seus olhos ainda fechados.

- Quer mesmo sujar suas mãos comigo?

Judas parou, olhos coléricos como jamais fora visto. Queria, queria muito, mas não podia. Não se perdoaria se tocasse em Shin com mãos imundas.

- Demônio. – rosnou por dentes trincados, o corpo trêmulo de ódio.

- Sim. E irei me juntar aos meus. – Luca levantou e deu as costas ao seu melhor amigo. Estava prestes a partir, quando sentiu a aproximação do Genbu.

- O que houve Shin? – o líder dos Saint Beasts indagou, olhos ainda fixos em seu oposto. Perdera a confiança, não baixaria a guarda. Nunca mais.

Não que o anjo do vento se sentisse diferente, pelo contrário. Aproximou-se com cuidado, como se diante de uma fera raivosa, falando baixo e firme com Judas:

- Não conseguimos libertá-lo.

O Houou fechou os olhos com mais força, resistindo a vontade de abri-los. Rey ainda estava no esquife? Ainda estava congelado? Chorando?

Sim. Por mais que o belo enlace que uma vez unira os dois anjos houvesse virado pó, Luca tinha certeza. Rey ainda chorava.

Por quanto tempo mais o belo anjo agüentaria?

Cerrou os punhos. De que adiantaria agora? Estava partindo! Abandonando-o para nunca mais feri-lo de novo! Fugiria para a Terra e se jogaria de braços abertos na primeira toca de demônios que pudesse encontrar, alimentando as bestas com seu corpo e condenando sua alma ao eterno sofrimento.

Tão simples...Então porque não consigo? – sentia os pés grudados no chão, as asas, pesadas como chumbo. Só o que precisava era dar as costas e, ainda assim, algo o impedia.

- Vamos. – Judas respondeu, ignorando quando Luca pulou de susto, tão imerso que estivera nos próprios pensamentos. Estava preocupado com Rey porém, o que mais lhe preocupava era o que acabaria fazendo, caso continuasse a encarar o anjo negro. Tentado demais com a possibilidade, o Kirin agarrou a mão do Genbu e tirou ambos dali, seus passos tensos se perdendo no silêncio do Éden.

E assim o Houou foi deixado, abandonado sozinho mais uma vez. Encolheu-se contra o chão, sentindo os mesmos olhares que sentira a vida toda pesando em seus ombros novamente, soterrando as lembranças felizes. Em seu peito, a mancha crescia, tomando seu coração culpado. Porque era culpa sua, e de mais ninguém.

Era o fim. Aqueles que tanto lhe desprezaram e maltrataram durante a infância estavam certos no final. Se esforçara tanto e para quê? As poucas amizades que fizera agora se rompiam uma a uma, horrorizadas com a nova face que lhes mostrava, e Rey...

Rey chorava...

Suspirou, ciente de estar cometendo outro erro. Levantou-se lentamente, quase não confiando em seu corpo para reerguer-se, e rumou para a floresta, buscando uma parte sombria o bastante para ocultar-se. Não era capaz de abandonar seu amado novamente.

Porém, assim que tivesse certeza que Rey estava bem, partiria sem olhar para trás.

-x-

A energia se concentrava, espiralando no ar como um caleidoscópio de cores mornas, lentamente transformando a fria barreira em névoa. Tanta agitação porém, não tardou a atrair outros anjos. Curiosos e intriguistas, eles iam e vinham, preferindo espalhar a notícia e sondar o vagaroso progresso dos Saint Beasts do que fazer qualquer coisa para ajudá-los ou ao anjo que definhava pouco a pouco diante de seus olhos.

Seriam eles melhores que os que simplesmente ignoravam? Talvez. Porém, de longe os piores eram os que sorriam discretos, tentando mascarar a felicidade ao descobrir quem era o anjo de gelo. A inveja que brilhava em seus olhos era indisfarçável e fazia Judas trincar os dentes, redobrando seus esforços. Por um momento, agradeceu por Shin ser o mais belo somente aos seus olhos.

Gai franziu o cenho, desconcentrando-se por um momento. Os outros perceberam e, depois de uma breve troca de olhares, foram diminuindo seus esforços, até as luzes morrerem e o ambiente tornar a esfriar.

- O que foi, Gai? – Goh indagou, não conseguindo ver o que seria tão importante para desviar a atenção do anjo da terra em um momento tão importante.

- Os boatos estão crescendo e se espalhando. – o loiro comentou, olhos fixos em um ponto qualquer em meio as árvores – Não vai demorar muito para alguém entender, se é que já não o fizeram.

- Teme por Luca? – Judas praticamente rosnou a pergunta, raiva já faiscando em suas safiras.

- Temo por Rey. – Gay manteve o mesmo tom, parecendo não se incomodar com o incomum comportamento de seu líder. Estava sério demais para se deixar intimidar ou começar uma briga. Seu companheiro vinha em primeiro lugar.

O silêncio que se abateu era pesado e sinistro, parecendo trazer mais que um simples calafrio aos poderosos anjos. Ainda assim, nenhum deles se atreveu a quebrá-lo, tamanha melancolia que aquelas poucas palavras trouxeram.

Porque abrir o caixão era só o primeiro passo.

'O que aconteceria com o belo Suzaku quando fosse finalmente resgatado?' 'Como seria tratado de agora em diante?' 'O que Zeus faria se soubesse?' Eles pensavam, olhando para a face desolada do anjo. Porém, é claro que essas eram apenas perguntas inúteis, desculpas tolas para evitar o que realmente importava. Não, ninguém ali conseguia encarar a verdade, não agora.

Porque talvez... Rey não sobrevivesse sem Luca.

Porque talvez...talvez...

- Temos que continuar. – forçou Shin, mais para si mesmo que para o resto. Não queria pensar. Não queria se por no lugar de Rey e descobrir que jamais conseguiria viver sem Judas ao seu lado. Porque, mesmo não querendo admitir, o Genbu sabia que faria a mesma coisa.

Suicídio.

Zeus lhes proibira de tirar a própria vida, mas também lhes proibira de amar. Qual seria o maior pecado? E se, no fundo, fossem apenas um só?

As energias se elevaram, fundindo-se novamente. As luzes tornaram a dançar e esquentar, e assim continuaram, até que a última camada de gelo se foi e o Suzaku foi tocado por quatro dos seis elementos que compunham a criação.

Mas nada aconteceu.

Um a um os anjos foram caindo, exaustos demais para se manterem de pé. O único que resistiu foi o anjo da luz que, cambaleante, se aproximou do amigo ainda imóvel. Afagou a face pálida com cuidado, sentindo a alma trincar ao encarar os vazios olhos acastanhados. Tão ferido...Não poderia haver pior crime que condenar um anjo a esse estado.

Judas suspirou, reunindo forças antes de enfim se inclinar, olhos fechados em concentração. Teria que fingir que era Shin. Somente assim para conseguir um milagre.

- Volte. – sussurrou antes de tomar os lábios de Rey para si, estremecendo ao senti-los congelados.

As feridas começaram a cicatrizar lentamente, mas não era apenas pelo cansaço do Kirin. O anjo de gelo parecia relutar, não querendo voltar para o mundo onde tanto fora ferido. Luz insistiu, forte, não recuando até uma pequena faísca de vida surgir nos olhos vazios.

- Lu...c... – Rey tentou dizer quando o ruivo se afastou, sua voz um sopro quebrado que por muito pouco não se perdeu. Parecia uma eternidade desde que falara pela última vez, e talvez fosse. Ainda assim, seria preciso muito mais que isso para que não percebesse a ausência de seu querido Houou.

- Esqueça-o, Rey. – Goh tentou ser neutro, mas era óbvia a tristeza em sua voz. Gai o abraçou, tentando dar apoio, já sabendo de antemão que nada do que fizesse seria bom o bastante para alcançar o Suzaku.

- N...não... – o anjo de gelo insistiu, tentando se levantar. Os longos fios roxos escorregaram, revelando um corpo nu e perfeito porém repleto de finas cicatrizes.

- Rey...quem? – o primeiro a se recuperar fora Judas, sua voz oscilando entre dor e espanto. Porém, ao invés de reabrir antigas feridas, Rey decidiu ignorá-lo, aceitando no lugar o manto que Shin lhe oferecia, bem como ajuda para ficar de pé.

Foi quando sentiu. Fora apenas por um segundo, mas o bastante para que percebesse. Olhando apenas para si, de algum lugar escondido, e tristes como jamais vira, estavam os olhos vermelhos que tanto amava. Preocupação e dor os tornaram opacos como as sombras que os cercavam e, Deus, elas eram tão profundas...tão profundas...

- Luca. – tentou chamá-lo, dizer que estava bem, mas o Houou apenas fechou os olhos, lhe dando as costas mais uma vez.

- Desista. – rebateu o ruivo com aspereza. Era o líder e agiria como tal se necessário.

- Não. – era a vez do Suzaku se mostrar firme, apesar de ainda estar se recuperando e a fraqueza ser mais que evidente em sua voz e corpo oscilantes.

Entretanto, antes que algo mais pudesse ser dito, a incrível audição de Gai percebeu um pequeno sussurro. Um adeus.

- Ele vai partir. – disse incrédulo, a esperança finalmente se apagando de seu semblante infantil. Olhou o companheiro com pena, tentando confortá-lo sem palavras. Os outros fizeram o mesmo.

Mas não era isso que Rey queria.

As asas douradas se agitaram, pesadas e frágeis por seu próprio gelo. Sorriu. Que valor elas teriam se não conseguisse? Ouviu Judas rosnar alguma coisa mas ignorou, concentrado em encontrar Luca como sempre fazia tão bem. Com esforço, o percebeu longe, já a caminho do ponto de descida para o mundo humano.

Não voe. – pediu enquanto agitava as asas mais uma vez, as abrindo por completo com um gemido de dor.

No segundo seguinte, ganhou os céus.

-x-

Caminhava devagar, os passos oscilando ante o peso da culpa e das memórias. Por trás das pálpebras fechadas, via claramente o rosto tão amado, lembrando de cada momento, cada sorriso, carinho ou lágrima. Sentia apaixonar-se de novo, ainda mais forte que antes, mas não podia ceder.

Porque era sua culpa.

Rey merecia alguém melhor, um anjo de verdade, que jamais ousasse machucá-lo. Alguém que retribuísse seu puro amor, sem manchá-lo com desejos que sequer deveriam existir. Afinal, anjos não precisavam daquilo.

Mas eu não sou um anjo, sou? – por mais que suas asas fossem brancas, seu coração sempre fora negro. Nenhuma luz poderia salvá-lo.

Era um demônio.

Mas o que isso fazia de Rey?

Zeus não era piedoso. Será que puniria o Suzaku, ainda que este não possuísse nenhuma culpa? Teria condenado seu anjo a funesta purificação que antecedia o festival?

Não! Judas não vai deixar! – cerrou os punhos e tentou se acalmar. O Kirin cuidaria do anjo de gelo. Ele e os outros protegeriam Rey do que fosse.

Contudo, será que Rey aceitaria? Logo ele, que sempre tentava melhorar sem pedir a ajuda de ninguém?

Luca parou de andar, sua postura mais derrotada do que nunca. Sabia que era o único que realmente entendia seu amado. O único que o conhecia. Desde pequenos, Rey só aceitava a sua ajuda, os seus cuidados. Não, seu anjo jamais amaria outro que não a si.

Mas ainda poderia tocar nele? Suas mãos permaneceriam rubras, marcadas para sempre pelo pecado que cometera. Teria coragem de fazer um carinho? Enxugara as lágrimas que criara?

Balançou a cabeça, tentando expulsar os pensamentos. Forçou suas pesadas pernas a se moverem, tornando a caminhar. Ainda assim, era tão estranho. Sabia que tinha de partir. Raios! Seu destino já estava traçado e selado. Não se arrependia tampouco temia o que lhe esperava na Terra. Entretanto, no fundo de sua mente parecia ecoar uma voz fraca e distante, como se Rey o chamasse de novo e de novo, ferindo o corpo que Judas se esforçara tanto para curar.

Porque não estava completo. Sentira isso assim que vira Rey em sua mente. Por mais que a distância separasse seus corpos, conhecia seu anjo mas do que qualquer um. E ele ainda estava ferido.

A fronteira se fez visível, aproximando-se mais a cada passo. Nela, alguns anjos esperavam, suas auras agitadas pelos mais diversos sentimentos. Desprezo, ódio, satisfação, tudo se misturava, emoldurando uma massa disforme e podre. Mas Luca não se importou. Porque deveria? Só havia uma pessoa que poderia salvá-lo, e ela não estava lá.

Um último pedido.

Eu só queria...mais uma vez...

Uma última esperança.

Por favor...Rey...

- Luca!

Estacou, não resistindo o impulso de abrir os olhos. Choque e luz feriram suas pupilas, mas isso não era importante agora. Só sabia que se virara e era impossível não ver.

Pequenas gotas de água dançavam a sua volta, refletindo os últimos raios de sol junto com os pequenos pedaços de gelo que ainda estavam presos as asas douradas. E elas se moviam, talvez não tão harmoniosas, mas se moviam, deixando um rastro luminoso e belo para trás, forçando a brisa contra os fios roxos ainda úmidos.

- Rey... – o Houou estava sem palavras. Mesmo sabendo o quanto seu amado estava ferido, a verdade é que nunca o vira tão belo. Buscou os olhos acastanhados procurando alguma mácula, qualquer coisa que entristecesse o conjunto, mas não conseguiu entender o que lhe era revelado.

O Suzaku pousou o mais delicadamente que conseguiu, a face permanecendo impassível mesmo ante as inúmeras fisgadas que ameaçaram rasgar seu corpo. Fora o pior vôo da sua vida, mas conseguira. Chegara a tempo. Agora, só precisava dizer.

- Luca, eu...

- Não disse? Ele gostou.

- Então é verdade? Eles...

- Com um anjo negro? Que nojo!

Patético. Decadente. Sujo.

Imperdoável.

O Éden era uma utopia falida, espelho quebrado que só captava um reflexo distorcido dos verdadeiros tempos de glória. Amor e perdão foram banidos, refugiando-se na Terra ou mesmo no inferno, fugindo de um destino esquecido, uma prisão em uma caixa qualquer. Os poucos que mereciam ser salvos choravam, feridos pelas réplicas vazias que seu insano "pai" insistia em criar.

Não havia mais anjos no paraíso.

- Saiam daqui!

- Vão embora!

- Sumam!

Os anjos bradavam, coléricos e ultrajados, mirando os amantes e os culpando por tudo. Pudera. Mais fácil corrigir os outros que a si mesmo, jogando a culpa nos ombros de outrem. Melhor ser covarde que corajoso, cruel que bondoso, indiferente a amante.

Pobres e estúpidas ovelhas, seguindo umas as outras sem sequer olhar o caminho. Estariam sendo guiadas para o pasto ou para o abate?

Os amantes tentaram ignorar, prestando atenção apenas um no outro na esperança de esquecer o mundo. Mas a energia continuava a aumentar, forte e pesada, verdadeiro miasma a empestear o ar. Rey se abraçou, sua visão embaçando. Não conseguia fazer frente aquilo.

O Houou deu um passo a frente, mão estendida por puro reflexo e já roçando os fios roxos. Porém, acabou por hesitar. Será que ainda podia?

- Luca... – o anjo de gelo chamou, suave e baixo como sempre. Estendeu seu próprio braço, sequer percebendo como este tremia. Só queria alcançar a mão que lhe era oferecida.

Infelizmente, seus dedos não eram a única coisa a ir na direção do anjo negro.

A pedra passou por eles, tão próxima que Luca podia jurar que roçara em seu rosto, antes de se espatifar contra o tronco de uma árvore, lançando estilhaços para todos os lados. Cerrou os punhos, virando-se lentamente, olhos vermelhos já tomados pela fúria. Se estivesse sozinho não teria feito nada, mas não deixaria que ninguém mais machucasse Rey. Ninguém.

Nem mesmo ele próprio.

Antecipando as reações do maior, o Suzaku se adiantou, postando-se entre o furioso anjo e o grupo de tolos que lhes observava. Raiva e dor se encontraram e se reconheceram. Não passavam de um mesmo sentimento, compartilhado por ambos, e eles sabiam disso. Também sabiam que não poderiam demonstrar, não se quisessem um fim pacífico e, acima de tudo, discreto.

Um instante se passou em silenciosa conversa. Somente quando o anjo de gelo teve certeza que poderia desviar a atenção foi que encarou o grupo de espectadores suicidas pelo canto dos olhos, expondo para quem quisesse ver a fria tempestade que nascera consigo.

A grama começou a congelar.

Temendo a formação do agora famoso esquife, o grupo se dispersou covardemente. Alguns ainda se atreveram a lançar olhares de ódio ou palavras rudes, mas era só. Ninguém tentaria mais nada. Seus motivos eram pueris demais para valerem suas vidas.

Luca relaxou, deixando que suas mãos se abrissem lentamente. Não podia dizer que gostara mas estava satisfeito, já que, ao menos, não pioraria a situação de Rey.

Rey... – olhou o anjo de gelo timidamente, triste por seu estado frágil – O que posso dizer? Como aliviar sua dor?

- Perdão.

O Houou piscou, a palavra demorando um instante para ser registrada em sua mente.

- Porque me pede perdão? – Luca não conseguia entender. Pelo que sabia, ele deveria estar aos pés do Suzaku, implorando um perdão muito além de seu alcance. Rey não precisava se desculpar.

- Eu deveria ter ficado do seu lado, Luca, você querendo ou não. Se houvesse feito isso, não teria lhe dado motivos para ter ciúmes.

- Mas eu...

- Não estou dizendo que sou o único culpado. – o anjo de gelo sussurrou, calando aquele que tantos temiam com um simples dedo – Estou dizendo...que te perdôo...

A voz foi sumindo, desfazendo-se no ar. O corpo frágil oscilou, de repente muito cansado para se manter de pé. Os olhos se fecharam, tão cansados...

- Rey!

Braços. Quentes e firmes e protetores. Braços dele, Luca, seu amado anjo negro.

Não sabe como senti falta disso.

O anjo de cabelos prateados estremeceu, sentindo a saudade que emanava do menor. Tão gostoso... Era aquele sentimento confuso, mas sublime, calor que brotara entre eles na mais tenra infância. Mesmo assim...

- Tem certeza? Não vai desaparecer. – finalmente tomou coragem e ergueu a mão, afastando a franja roxa para revelar a cicatriz que nem mesmo o Kirin mais amado de Zeus pudera apagar totalmente.

- Você já se esqueceu, Luca? – o Sukazu firmou o corpo, impedindo seu amado de guiá-lo ao chão. Sua voz, apesar de ainda um sussurro cansado, agora era marcada por desprezo, até mesmo irritação.

Olhos vermelhos piscaram confusos, incapazes de compreender. Rey suspirou e se afastou, deixando a capa que lhe cobria escorregar até o chão, revelando as velhas cicatrizes que marcavam seu corpo nu.

- Ao menos a sua não foi por inveja. – disse amargo, perdido entre as lembranças das cruéis brincadeiras que sofrera, a mente já tão judiada afundando sem sequer perceber, condenando-o ao frio e a solidão mais profundos de sua alma.

Um último suspiro. Uma chance de redenção...

Luca.

Incapaz de se manter firme ante o estado de seu amado, o anjo negro tornou a envolvê-lo, abraçando apertado, protegendo-o com suas asas brancas. Enquanto consolava o corpo trêmulo, todo o resto sumiu, desintegrando-se como cinzas inúteis. Ainda que estivessem no paraíso, para o Houou nada valia se não estivesse com Rey.

- Perdão. – sussurrou em seu ouvido, lágrimas embaçando sua visão – Eu não queria te ferir assim.

- Eu sei. – o anjo de cabelos roxos escondeu o rosto no peito forte, respirando fundo para se acalmar – No que está pensando?

- Se você tem mesmo certeza. – Luca confessou com um sussurro, sentindo tudo pelo que o amado passava – Eu sou um anjo negro, Rey. Um anjo negro amaldiçoado. Por mais que prefira morrer a lhe ferir outra vez, não sei se conseguirei ser forte o bastante.

- Então me deixe ajudá-lo. – levantou o rosto, deixando os olhos se encontrarem.

- Por quê? – Pode mesmo ser tão simples?

- Porque eu prefiro ser esquecido em um esquife a ser a causa de teu sofrimento. – disse com doçura, usando de sua própria alma para fazer aquela promessa velada.

O poderoso e temido Houou estremeceu, sentindo-se pequeno ante a força de tal sentimento. Tomou os lábios do Suzaku num impulso, o coração batendo feliz ao não se ver repelido ou temido.

- Se eu tentar de novo... me impeça. – sussurrou quando se afastaram, a respiração ainda entrecortada pelo ar perdido no beijo – Não importa como, só não me deixe feri-lo outra vez.

- Não deixarei. – Rey sorriu com doçura, estalando um beijo nos lábios de seu amado. Fez menção de se afastar mas logo Luca estava ao seu lado, amparando seu corpo oscilante e lhe envolvendo com a capa novamente.

As mãos se procuraram e se entrelaçaram. Os pés não hesitaram em avançar. Os olhos fitaram o caminho, determinados em alcançar o horizonte e além, não desviando uma única vez.

Não olhariam para trás.

O sol terminou de se por, dando privacidade aos dois amantes. Os pássaros revoaram, seu canto lúgubre um discreto adeus. A luz veio e se foi, despercebida por todos.

Naquele dia, dois anjos deixaram o céu.

- Fim -