Capítulo 3 - A Princesa e o Plebeu
Os últimos raios de sol do fim de tarde banhavam as casas quadradas do subúrbio londrino. Uma jovem de cabelos avermelhados tocava a campanhia de uma casinha de tijolos alaranjados. Parecia um pouco ansiosa, pois apertava freneticamente uma mão na outra. Foi recebida por uma jovem negra, de olhos amendoados, da mesma idade dela.
-Betsy, você chegou cedo, menina!
A ruiva deu um sorriso meio embaraçado para a amiga.
-É que eu não quero me atrasar... Vai ser a primeira vez que me encontro com Nick depois daquele dia no café... Não quero causar uma má impressão.
-Hum... Então o rapaz é muito mais interessante do que eu imaginei. Do jeito que você está, acho que essa história vai acabar em casamento!
-Mari! Que isso! - Elizabeth enrubesceu completamente - A gente mal se conhece...
-Calma Betsy - falou Marion, divertida - Eu estava só brincando. Não achei que fosse ficar igual a um pimentão...
-Mudando de assunto, onde estão seus pais? Estou morrendo de saudades deles.
-Estão lá nos fundos, tomando chá. Enquanto você vai lá vê-los, vou estar no meu quarto separando algumas roupas para você.
Clarence e Josephine Peterson eram trouxas de nascença, e, ainda assim, aceitaram com naturalidade e orgulho o fato de sua única filha ser uma bruxa. Elizabeth adorava os dois, quase como se fossem parte da sua própria família. Eles eram tão diferentes de Marguerith e Péricles. Os pais de Marion eram carinhosos, alegres e bem-humorados. Sempre tinham tratado Betsy com muita afeição e a faziam se sentir acolhida. Muitas vezes, a jovem bruxa se sentia mais em casa na companhia da família da amiga que na sua própria.
Chegando ao pequeno, mas aconchegante e florido jardim dos fundos, Elizabeth viu o casal de meia idade sentado juntos em uma mesinha redonda, degustando com prazer suas xícaras de chá. Conversavam descontraidamente.
-Tio Clary, Tia Josie! - cumprimentou, aproximando-se dos dois e abraçando-os.
-Menina, estamos tão contentes por você. - disse a mãe de Marion, uma senhora muito bonita, que ainda conservava o porte elegante dos tempos de juventude em que praticava balé. - Finalmente vai sair da ostra em que se fechou nos últimos tempos.
-Josie tem razão. Estávamos preocupados. Mari nos contou o quanto você estava mergulhada compulsivamente no trabalho. A vida não é só obrigação, você ainda é jovem e precisa se divertir. -completou o Sr. Peterson, um homem bonachão e de voz grave, mas muito simpático.
-A Mari exagera, tios, vocês conhecem a tendência dela em aumentar as histórias que conta.
-Assim como conhecemos você e seu senso de responsabilidade exacerbado, Betsy. -disse Clarence.
Elizabeth se calou - ela sabia que o pai da amiga não estava mentido sobre ela, e, mais do que isso, concordava com ele que talvez, de vez em quando, não faria nenhum mal relaxar um pouquinho.
Percebendo a seriedade que se abateu sobre a moça, a Sra. Peterson disse:
-É melhor você subir para se aprontar. Pode deixar que assim que o rapaz chegar, nos cuidamos dele- E deu uma piscadela marota para a amiga da filha.
Betsy sorriu e acorreu para o quarto de Marion. Quando lá chegou se deparou com pilhas e pilhas de roupas sobre a cama da amiga.
-Pode escolher.- falou Marion, entusiasmada.
Realmente, sempre exagerada, pensou, risonha, a ruiva consigo mesma. Mas não podia reclamar, Marion estava quebrando um galho enorme para ela. Como estava saindo escondida com Nick, pois ele era trouxa e não seria aceito por seus pais, Elizabeth mentiu-lhes que iria passar a noite na casa do irmão mais velho. Nem a roupa do encontro pôde levar, pois acabaria por levantar suspeitas.
Depois de muito procurar e experimentar, Elizabeth optou por um corpete vermelho sangue e uma saia preta. Manteve no pescoço o pingente dourado em forma de fada, presente de seu irmão Aldebaran.
-Que tal?-perguntou.
-Perfeita! Acho que Nicholas vai ficar de queixo caído quando te vir. E falando no nosso estimado escritor, é melhor descermos, ele deve ter chegado e já está sendo cozinhado a fogo brando pelos meus pais.
-Menos, Marion, menos...-disse Betsy, rindo.
-Eu não estou brincando! Eles são ótimos, mas quando se trata de fiscalizar pretendentes, são terríveis. Você precisa ver o que meu pai disse para o meu último namorado.
-O tal motoqueiro cabeludo? Tio Clary me falou por alto.
-Está vendo? Olha só a implicância do papai. Só porque ele usava jaqueta de couro e tinha cabelos compridos não queria dizer que era encrenca. Tsc...tsc.
-Mari, você nunca vai se emendar, não é mesmo? Você pode ser qualquer coisa, menos convencional.
-Não vamos ficar falando de mim, nem da minha complexa vida amorosa. Hoje é a sua noite, amiga.
Descendo para a sala de estar, Betsy e Marion se depararam com Nicholas sentado frente ao casal Peterson. Quem visse de fora poderia imaginar que o pobre rapaz estava sendo interrogado
. -Olhe elas aí. - falou Clarence ao notar a chegada das garotas.
Nicholas levantou-se, sorrindo ao ver Elizabeth.
-Você está muito bonita.
Betsy desviou o olhar, visivelmente acanhada.
-Obrigada.
A feiticeira despediu-se da melhor amiga e de seus pais, agradecendo imensamente por toda a ajuda. Já na rua, voltou-se para Nick, comentando:
-Espero que eles não tenham pegado pesado com você...
-Que isso, os pais da sua amiga são ótimos!
-Pode falar a verdade, eu não me importo.
-Bem - disse o rapaz, coçando a cabeça- eles teceram uma lista enorme de conselhos e recomendações sobre o nosso encontro... Mas, tirando isso, foram realmente uns amores.
-Eu sabia - riu Betsy- Eles são meio protetores...Me consideram parte da família... Se é assim comigo, imagina com a Marion... E, então, aonde vamos?
-Eu pensei de 2eva-la ao cinema. Vai passar a reprise de A Princesa e o Plebeu. Já assistiu?
-Não, ainda não.
-É um dos meus filmes românticos preferidos. Espero que você goste.
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Não era a primeira vez que Elizabeth ia ao cinema. Certa vez, durante o período de férias escolares, quando ainda estudava em Hogwarts, Marion a apresentara à sétima arte. Muitos podiam pensar que para um bruxo, acostumado a fotos mágicas que se movimentavam, o cinema seria algo menos extremamente banal. Contudo, para Betsy, filmes eram muito mais que fascinantes. Ela achava surpreendente o modo como os trouxas, sem magia, conseguiam juntar imagens aparentemente desconexas e criar histórias, algumas vezes até mesmo criar coisas que para os bruxos eram reais, mas que para os trouxas existiam apenas na imaginação. Para ela, cinema era uma outra forma de magia. Magia trouxa.
Nicholas parecia entusiasmado com o filme a que iam assistir. Ele falara a sério ao dizer que aquele era um dos seus favoritos. Explicava para Elizabeth, empolgado, quem era a atriz principal, uma moça chamada Audrey Hepburn, considerada símbolo de elegância e talento nos anos 60. Tecia mil elogios ao diretor e ao roteirista, sem entrar em detalhes da história, para não estragar a surpresa de Betsy.
A moça limitava-se a sorrir, sentia-se tocada ante toda aquela paixão demonstrada pelo rapaz.
Chegando ao cinema, depois de comprarem o kit básico "refrigerante & pipoca", se dirigiram para a sala de projeção. As luzes se apagaram lentamente e na tela começaram a surgir as primeiras imagens em preto e branco do filme: uma jovem princesa, em viagem diplomática pela Europa, entediada e cansada das obrigações de sua vida de nobreza, decide fugir durante sua estadia em Roma e se passar por uma moça normal. Por uma daquelas coincidências típicas de filmes hollywoodianos, ela acaba esbarrando em um jornalista cujo trabalho era cobrir a visita dela à cidade. Acabam se apaixonando e vivendo um dos dias mais bonitos e significativos de suas vidas.
Elizabeth olhava enternecida para a tela, parecendo completamente envolvida pela história. Nicholas, por sua vez, olhava para a moça com carinho, sorria ao perceber o quanto ela realmente estava gostando do programa. Nick queria que aquela noite fosse perfeita e especial.
Sem notar, Betsy se recostou no ombro do rapaz. Nick fechou os olhos por alguns segundos, sentindo o doce perfume da garota e a maciez de seus rubros cabelos roçando-lhe o rosto. Passou o braço por sobre o ombro dela. Elizabeth não se incomodou, recostou-se ainda mais próxima do rapaz. Nicholas desejou que aquele momento perdurasse eternamente.
Os créditos finais subiram e as luzes se acenderam. O jovem casal se encaminhou para a saída. Elizabeth permaneceu calada. Nicholas receou que, apesar de todo o envolvimento da moça durante a projeção, no final, Betsy não tivesse gostado do filme.
-O que achou? - perguntou ele, apreensivo.
Elizabeth o encarou e deu um leve sorriso.
-Eu amei, não poderia ser mais perfeito...
-Que bom - falou Nick, aliviado - E, então, quer ir a algum outro lugar? Tem uma boate aqui perto que é realmente muito boa.
-Eu já ouvi falar, tenho um primo de segundo grau que mora aqui perto, ele e os amigos costumavam freqüenta-la nas nossas férias escolares. Mas, obrigada, hoje eu não estou com muito pique para boates.
-Não gosta de dançar?
-Muito pelo contrário, eu adoro! Eu não sei...É que hoje eu queria algo mais calmo... Você se importaria se apenas caminhássemos um pouco e conversássemos?
-Claro que não...Seria ótimo apenas conversar com você.
Os dois andavam a passos lentos pelas margens do rio Tâmisa. Surpreendentemente o céu estava límpido, sem uma nuvem sequer. Era uma bela noite estrelada.
Nicholas falava compulsivamente, muito pelo nervosismo causado pela situação, um pouco para impressionar Elizabeth. A feiticeira tentava ouvir atentamente, ora sorria, ora fazia algum comentário.Em certo momento, Nick segurou a mão da garota sem perceber. Betsy se sentiu feliz com o gesto. Porém, embora o encontro estivesse se revelando bastante agradável, um pensamento insistente, volta e meia, afligia o coração da moça. Nicholas não pôde deixar de notar os ocasionais lapsos de Elizabeth durante o decorrer da conversa.
-Algum problema? Espero não estar te entediando.- falou, dando um sorriso meio amarelo.
Elizabeth o fitou por alguns segundos. Havia muita afeição em seu olhar. Depois, baixando os olhos, respondeu:
-Não, não estou entediada...É que eu não consigo tirar o final do filme da minha cabeça...
-Desculpe, eu não queria que você ficasse triste com a conclusão.
-Eu não estou triste...É que, bem, eu entendo que ela precisou voltar para a vida de princesa, pois era a única herdeira e tinhas obrigações para com seu povo. Mas, você acha que, se ela tivesse irmãos, se as coisas fossem diferentes...
- Se eles poderiam ter ficado juntos e sido felizes? Ora, não vejo por que não? Eles se amavam. Não é isso que importa?
-Mas, eles eram de mundos tão...tão diferentes- comentou a garota.
O filme realmente a tocara, não apenas pela beleza da história, mas também porque lhe fizera pensar sobre a situação dela e de Nicholas. Betsy não era uma princesa, tampouco Nick era um plebeu, mas também pertenciam a mundos distintos. Elizabeth crescera em um mundo de magia e encantamento, enquanto Nicholas fora criado em um mundo regido por explicações lógicas e racionais. Será que havia realmente alguma possibilidade do relacionamento dos dois se tornar algo mais sério e dar certo?
-Betsy, quer que eu seja muito, muito sincero? Eu acho essa história de mundos diferentes como empecilho para a felicidade de um casal a maior bobagem. Pára e pensa: todo relacionamento amoroso são duas pessoas que vieram de mundos diferentes, afinal, vieram de famílias diferentes, com histórias de vida e formações diferentes... Não são diferenças sociais, religiosas, econômicas ou qualquer outro tipo que vai impedir pessoas que se amam de serem felizes. Acho que com muito esforço e cumplicidade, tudo é possível.
Elizabeth olhava, surpresa, para Nicholas. Seus olhos se encheram de lágrimas, não conseguindo conter a emoção ante aquelas palavras.
-Betsy, o que foi? Eu disse algo errado? Não queria te fazer chorar. - Nick estava assustado.
-Eu estou bem - disse ela, tentando tranqüiliza-lo - Você não tem noção do quanto é maravilhoso, tem?
-Maravilhosa é você, eu sou só um carinha maluco, mais viciado em literatura e filmes antigos do que a maioria das pessoas julga normal para alguém da minha idade.
Nicholas, então, segurou o rosto de Elizabeth, limpando as lágrimas que escorriam pela face da moça com as pontas dos polegares. Seus olhos se encontraram e um silêncio profundo se abateu sobre ambos. Era o momento perfeito. Nick aproximou lentamente seu rosto do de Elizabeth. A jovem bruxa fechou os olhos. Seus lábios se encontraram em um toque suave e quente. Abraçaram-se mais fortemente. O vento noturno os envolveu como um laço invisível a uni-los, enquanto se entregavam àquele terno e apaixonado beijo.
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Nota da Autora
Oi novamente a todos! Esperamos que tenham gostado do primeiro encontro de Nick e Betsy. Quando estava escrevendo o capítulo, fiquei um pouco indecisa sobre que filme usar. Foi quando me lembrei desse clássico nos anos 60, A Princesa e o Plebeu, que também inspirou o nome do capítulo e é um dos meus filmes favoritos. E que, cá entre nós, combina com a situação de nosso casal.
Aliás, confesso que sou fã apaixonada da Audrey Hepburn. Se tiverem a oportunidade, vejam o filme. E vários outros dela, como Sabrina, Minha Querida Dama e Bonequinha de Luxo
Antes que eu me esqueça, tem uma pequena referência à fic Hades- A Última Guardiã , da Silverghost, neste capítulo. Quando Nick menciona uma boate perto do cinema em que foram e Betsy diz que conhecia aquela boate pois tinha um primo que morava ali perto e costumava freqüenta-la com os amigos, a nossa bruxinha está se referindo à boate que Sirius,Lily, James e cia costumavam passear durantes as férias nessa fic da Silver.
È isso!
Espero que tenham se divertindo com o que leram tanto quanto eu me diverti escrevendo. Não deixem de comentar no fim da página
Abraços, Meridiana (Ana)
