Quando as portas do elevador abriram num sussurro, Edward conduziu Isabella até sua suíte luxuosa. Ela o observou levar a mão ao pescoço para desatar a gravata, num movimento másculo.
O que você está querendo desta vez? — perguntou, tirando o paletó e o jogando num dos sofás da suíte. As faces de Isabella ruborizaram em uma combinação de fúria e constrangimento.
-Não quero nada de você.- Ele riu, sarcástico.
-Toda mulher está à venda — disse com confiança arrogante. — O truque para os homens é acertar o preço logo na primeira vez. Há quatro anos atrás você foi à Grécia atrás de um marido milionário, e quase conseguiu.
Seu cinto de couro coleou no tapete como uma serpente; o medo subiu com passadas gélidas pela espinha de Isabella.
-Mas devo admitir que desta vez não consigo entender quais são os seus motivos. Você sugeriu que tomássemos um drinque juntos, mas depois fingiu que não queria fazer isso. Em seguida não conseguiu conter a vontade de me tocar e me beijar, e mesmo assim nega ainda sentir qualquer atração por mim. Está fazendo um jogo de gato e rato comigo, não está?
-Não, claro que não!
-Você quis me lembrar o que perdi, não é, Isabella? — Ele levantou seu queixo para que ela não tivesse outra opção além de encará-lo. — Está me oferecendo uma reprise?
-Não... — A palavra saiu baixa demais para soar verdadeira, mas Isabella sabia que, a despeito da paixão que ainda pudesse existir entre eles, não seria capaz de dormir com Edward sem revelar a cicatriz deixada pela cesariana de emergência. Ele a acusara de mentir sobre estar grávida para fugir de problemas. O que diria se descobrisse que ela não havia mentido?
Se Edward descobrisse que ela tivera uma filha dele, ela seria forçada a dizer adeus a Emily para sempre. Tinha certeza absoluta disso. Os problemas com a irmã somados às acusações que Edward lhe fizera há quatro anos fariam qualquer tribunal recusar o pedido de Isabella por custódia total. Além disso, os honorários de um bom advogado seriam muito caros, e ela já tinha gastos demais para arcar com essa despesa. Ela precisava internar Jane naquela clínica. Era sua única chance de tirar a irmã das garras do vício.
-Você está pálida — observou Edward. — Eu a deixei chocada, Isabella? Você achou que eu não continuaria querendo você depois de todo esse tempo?
Ela umedeceu a boca.
- S-sim... Estou um pouco chocada... - Os olhos dele reluziram.
-Para lhe dizer a verdade, agapemou,eu também. Eu não esperava nutrir por você nada além de ódio quando a visse esta noite. Mas o desejo que senti e ainda sinto por você é como uma febre queimando meu corpo. Eu terei você de novo.
Ela o fitou com desafio e desprezo.
-Só um bárbaro tentaria satisfazer um desejo por alguém que ele odeia.
-Você me acha um bárbaro? — Seus olhos negros desafiaram os dela. — Vou fazer com que engula essas palavras, Isabella. Foi você que me agarrou na limusine, lembra? Você deixou bem claro que estava interessado em retomar nosso relacionamento.
Um sentimento de raiva a invadiu com um gosto amargo na boca. Mas também sentia uma vergonha profunda de tê-lo tocado daquela forma.
-Se você acha que pode me intimidar, pense de novo — mentiu.
-Eu posso não ter deixado minha mensagem clara o bastante.
Ela engoliu em seco.
- C-como assim?
-Eu quero você, Isabella, tanto quanto você me quer. Estarei aqui em Sydney por um mês. Durante esse tempo eu quero que seja minha amante.
Ela recuou, horrorizada.
— Não!
As sobrancelhas escuras se levantaram imperiosas.
-Não?
-Não. Jamais.
Ele se calou por um momento, cada segundo parecendo durar uma eternidade. A tensão estava insuportável.
-Estive com alguém esta noite — disse ele, rompendo o silêncio. — Alguém que me lembrou muito você.
Os olhos de Isabella correram nervosos para sua bolsa antes que ela pudesse detê-los.
-Parece que roubo é uma característica da sua família — prosseguiu ele.
-Não sei do que está falando.
-A polícia está procurando por sua irmã neste momento — ele a informou. — Quando a localizarem, caberá a mim decidir se apresento queixa ou não.
Ela o fitou sem conseguir dizer uma palavra, o estômago embrulhando em pânico.
-É claro que, se eu decidir abrir queixa, ela provavelmente será levada a julgamento, e talvez seja até presa — prosseguiu no mesmo tom frio.
Isabella sabia que o tráfico de drogas corria solto dentro das prisões. Seu pai tivera uma morte horrível... Uma morte que poderia ter sido impedida se ele tivesse recebido mais cedo a ajuda da qual necessitava.
Ela precisavaimpedir que o mesmo acontecesse com Jane. Custasse o que custasse, precisava impedir que sua irmã afundasse mais. Jane jamais iria se recuperar, não depois de meses em alguma prisão horrível com heroína a seu dispor.
-Como pode ver, tudo depende de você, agapemou— disse ele com mais um sorriso indecifrável. — Ou você concorda em ser minha amante durante as próximas quatro semanas, ou verá sua irmã atrás das grades por sabe-se lá quanto tempo.
-Você não pode me pedir isso. É completamente imoral.
-Talvez o bem-estar da sua irmã não seja estímulo suficiente para você. — Ele correu os olhos pelo corpo dela. — Como você obviamente tem muito mais classe do que ela, talvez eu precise pagar um preço diferente.
MeuDeus,eleestáfalandodeminhacarreiraemeusustento,pensou Isabella, à beira do desespero.
-Não vai me perguntar do que estou falando, Isabella? — indagou quando ela manteve o silêncio.
-Muito bem, vamos acabar logo com isso. Diga-me o que você vai fazer se eu não cooperar. Eu posso lidar com , é o que eu espero de alguém tão desprovido de princípios como você.
-Você terá de domar essa sua língua — ele alertou. — Não irei admitir que fale comigo nesse tom.
-Como você espera que eu fale com você, se está me tratando como uma... Uma...
-Prostituta? — disse ele. — É essa a palavra que está procurando?
-Não sou uma prostituta e você não pode me transformar em uma.
-Não tenho a menor intenção de fazer isso. Escolhi um papel bem diferente para você — disse numa voz macia. — Você será a minha companhia nos vários compromissos sociais que terei enquanto estiver aqui. Não conheço nada em Sydney...
-E se eu não concordar com esse seu plano ridículo? Ele deu mais um de seus sorrisos enigmáticos.
—Achei que a essa altura você já teria deduzido, agapemou.
Ela já deduzira, mas estava esperando que ele continuasse, tremendo de ansiedade.
-Se você não concordar em ser minha amante, a Alice Foundation imediatamente irá retirar seu patrocínio da Exibição de Arte Grega que você e seu colega adoentado planejaram tão meticulosamente. E se o principal patrocinador se retirar, o que você acha que os menores irão fazer?
Mais uma vez Isabella sabia exatamente o que eles iriam fazer, mas não estava disposta a lhe dar a satisfação de ouvi-la dizer.
-Quanto ao seu trabalho... — Ele parou para inspecionar o anel com suas iniciais por um longo momento antes de voltar a olhar para ela. — Será que vale a pena perdê-lo por uma simples questão de orgulho?
Ela cerrou os punhos.
-Você não pode fazer isso. Não vou permitir que brinque comigo desse jeito.
-Da forma como vejo, Isabella, você não tem nenhuma escolha. Ou concorda em ser minha amante ou enfrenta as consequências. Há quatro anos deixei você ir embora sem lhe causar problemas. Minha mãe defendeu você, e não permitiu que eu a entregasse às autoridades, como queria.
Os olhos dela reluziram com lágrimas não derramadas. Ela nãoia chorar. Não agora. Não na frente dele.
-Eu não roubei a galeria da sua mãe.
Ele a ignorou para continuar. Ela o fitou, chocada.
-Isso é uma mentira deslavada! Você tem alguma explicação?
-Sim. Os homens em questão eram dois hóspedes que estavam me causando problemas. Eu os conheci alguns dias antes de vir embora. Eles estavam irritados comigo por não ter aceitado um convite de ir com eles a uma festa. Começaram a pregar peças em mim, como deixar suas roupas no meu quarto ou roubar meu travesseiro.
-Você não falou nada sobre eles na época — ele frisou, desconfiado.
-Não havia motivo. Eram apenas garotos com muito dinheiro e pouco juízo.
-Não acredito em você.
Os olhos de Isabella arderam em fúria.
-Não importa o que eu diga, você nunca acredita em mim. Você é louco.
-Não sou louco, Isabella. Simplesmente estou em busca de justiça.
-Por que agora?
-Quando Aro Deverell me procurou para falar sobre esta exposição, fiquei muito interessado. Sabia que você morava em Sydney, mas quando descobri que você não apenas trabalhava no museu como também estava envolvida ativamente na exposição, não pude resistir a vir ver que fim levara.
Ela ficou boquiaberta.
-Você planejouisto?
Ele lhe dirigiu um olhar indiferente.
-Era uma coincidência boa demais para ignorar. Devo dizer que fiquei impressionado quando soube que você completou seus estudos, e até obteve doutorado. Uma conquista notável para uma mulher da sua idade, embora me pareça bem possível que você tenha usado o corpo para seduzir os professores.
Isabella fitou-o furiosa. Ela trabalhara duro para obter a qualificação. Sua gravidez fora um pesadelo. E quando a mãe fora diagnosticada com um tipo agressivo de câncer no seio, ela quase desistira dos estudos. Dispondo apenas das madrugadas para estudar, tivera de dormir muito pouco para conseguir redigir a tese, enquanto cuidava da mãe adoentada e da irmã caçula que arrumava um problema atrás do outro devido à sua escolha desafortunada de amigos.
Isabella ainda se culpava pelos problemas atuais de Jane. Ela estivera preocupada demais com a gravidez e os estudos para fazer o que deveria ter feito. Jane seguira com persistência a mesma trilha de autodestruição que o pai delas, mas não quisera reconhecer isso.
-Você pode pensar o que quiser, mas posso lhe assegurar que minhas qualificações são excelentes.
-Qualificações que você tem usado em benefício próprio, não é? Você lida diariamente com os artefatos mais valiosos do mundo. Diga-me, Isabella, já ficou tentada a roubar peças do museu para vender no mercado negro?
-Eu nem vou me sujeitar a responder a essa pergunta.
-Por que não me disse que seu pai cumpriu uma pena considerável por assalto a mão armada?
Isabella sentiu a vergonha pesar em seus ombros, mas se forçou a não desviar os olhos dele.
-Meu pai morreu na prisão há vários anos. Hoje em dia eu raramente penso nele.
Caso tenha ficado abalado com a frieza do comentário de Isabella, Edward não demonstrou.
-Seria uma lástima se eu fosse forçado a revelar a seus patrões o seu pequeno deslize de quatro anos atrás. Eles podem não gostar da ideia de ter uma ladra em seu meio.
Isabella sabia que ele iria fazer isso.
-Você é tudo que eu mais desprezo num homem. Não consigo pensar num homem que eu odeie tanto.
-Então nossa relação será excitante.
-Será nojenta e insuportável — retorquiu Isabella.
-Providenciarei para que seja compensada adequadamente — disse, enfiando a mão no bolso do paletó para pegar um talão de cheques. — Vai precisar de muitas roupas sofisticadas, pelas quais pretendo pagar.
Em desespero, ela o viu assinar um cheque e o entregar a ela.
-Está em branco — disse, olhando para o cheque sem pegá-lo. -Estou disposto a pagar o quanto quiser. Você, mais que qualquer outra pessoa, sabe que disponho de meios para isso.
Isabella teve vontade de pedir uma soma absurda, mas seu orgulho não iria permitir. Ele fez a proposta utilizando o eufemismo "amante", mas ela sabia exatamente o que ele estava esperando em troca.
Uma visão relampejou em sua mente: a irmã aceitando dinheiro de estranhos para alimentar seu vício. Todas as noites Jane vendia o próprio corpo, e aqui estava uma chance de colocar um fim nessa situação de uma vez por todas.
Tentou evitar o pensamento de voltar a ser amante de Edward, mas imagens insistiam em se formar em seu cérebro: as pernas longas e bem torneadas de Edward entrelaçadas nas suas enquanto ele se prendia a ela.
Isabella sentiu um arrepio ao pensar na possibilidade de voltar a desfrutar desses momentos incríveis.
Não!
-Como está tendo tanta dificuldade em decidir a quantia, vou deixar o cheque com você para que o preencha depois — disse Edward.
E antes que ela pudesse detê-lo, ele tomou sua bolsa e abriu o fecho.
A respiração de Isabella ficou presa no peito e suas faces arderam em fogo quando ele pegou a própria carteira, os dedos longos e bronzeados parecendo mover-se em câmara lenta.
-Eu... Eu ia devolver a você... — disse enquanto os olhos negros e acusadores fitavam os dela. A raiva distorceu as belas feições de Edward em cruéis linhas de vingança.
-Sua ordinariazinha mentirosa. Você está trabalhando junto com sua irmã. Devia ter adivinhado.
-Não! Isso não é verdade! Eu vou devolver o seu dinheiro...
-Claro que vai — asseverou. — Mas enquanto não fizer isso, irá me pagar em espécie.
Isabella engoliu em seco.
-Não posso fazer isso, Edward. Por favor, não me peça para fazer isso.
-Não estou pedindo,Isabella, estou mandando. Se não concordar em ser minha amante, entregarei a sua irmã às autoridades.
Ela sentiu os ombros caírem em derrota. Aparentemente não havia como escapar dele.
-Quanto você quer? — perguntou de novo, cada palavra uma estaca no coração de Isabella.
Ela fitou a porta e murmurou a quantia que julgava ser suficiente para pagar a reabilitação de Jane, o rosto corado pela vergonha por estar se comprometendo a ser a amante temporária de Edward.
Aceitar essa proposta era sofrimento garantido, mas que escolha teria? Nem podia contar a ele quais eram seus motivos. Além da questão de Jane, também havia o problema de Emily. Se Edward descobrisse que tinha uma filha, nada iria impedi-lo de tomá-la de Isabella.
Ele escreveu o valor no cheque e o devolveu a ela.
-Posso ver que dominou a arte de camuflar seus verdadeiros motivos. Você parecia estar se sentindo incomodada em aceitar dinheiro de mim, mas sei que foi um estratagema para baixar a minha guarda.
-Eu me sinto incomodada de aceitar um olhar de você, quanto mais qualquer outra coisa — disse em tom gélido. — Fico com o estômago embrulhado só de pensar em compartilhar meu corpo com você.
-Você não pareceu enojada de mim na limusine. Nós dois sabemos que eu poderia ter possuído você lá mesmo, se quisesse.
Ela sabia que era inútil, mas não resistiu em retorquir:
-Teria sido à força.
Ele soltou uma risada sarcástica.
-Você acha?
Ela o fulminou com um olhar.
-Eu odeio você, Edward Cullen. Odeio você com cada milímetro do meu corpo.
-Tenho certeza que sim. Mas devo deixar claro que terá de guardar seus sentimentos em relação a mim para nossa intimidade. Em público nós seremos como qualquer outro casal que não nutre nada além do mais profundo respeito um pelo outro.
-E como você pretende... conduzir... nosso relacionamento?
-Quero ver você com regularidade.
Isabella sentiu as entranhas se contorcerem em angústia. Sua filhinha Emily odiava quando ela saía mais do que uma ou duas noites por semana.
Edward viu o medo nos olhos azuis e foi subitamente acometido por um conflito de consciência. Teria exagerado? Ele achava que não, mas como saber? Ela era a rainha da fraude. Enganara-o antes com declarações de amor imortal, mas acabara por traí-lo. Usara seu relacionamento com ele para ter acesso à riqueza de sua família, e isso era algo que ele jamais iria perdoar.
Certamente não fora coincidência o fato de a irmã de Isabella ter furtado a sua carteira. Isabella sabia há meses que ele estaria aqui esta noite. As duas haviam tramado o roubo como vingança por ele ter frustrado seus planos no passado.
-Você estará à minha disposição todas as noites. Às vezes as noites acabarão bem tarde.
Ela o fitou, lágrimas reluzindo nos olhos azuis.
-Não posso passar a noite fora.
Ele segurou o queixo de Isabella.
-Há mais alguém?
O que ela poderia dizer? Sim,asuafilhinha,quepassarácadanoitemeesperandoparaqueeuaponhanacama.Dizer isso seria pedir por sofrimento imediato. Ela precisaria encontrar uma maneira de fazer o que ele queria sem comprometer o bem-estar de Emily.
Não podia contar com sua irmã, mas havia sua amiga Rose Taylor. Elas costumavam se alternar como babás da filha uma da outra.
-Não... Não há mais ninguém... — Ela inventou uma desculpa: — Estou fazendo um curso on-line em arqueologia.
-Preciso estudar quase toda noite. Tenho trabalhos de casa para fazer e...
Depois de uma eternidade, Edward soltou o queixo dela, recuou alguns passos e abriu a porta.
-Então nos vemos amanhã à noite. Às 19h30, no bar do térreo.
Isabella passou por ele com pernas trêmulas. Ela se virou para apelar uma última vez, mas ele já fechara a porta, o repentino movimento de ar parecendo um tapa em seu rosto banhado em lágrimas.
