CAPÍTULO II

A MILAGROSA FONTE DO DRAGÃO

- Me solta, Ryu! – pediu, na verdade, ordenou o chinês, tentando empurrar o rapaz que estava novamente grudado em sua cintura.

- Eu não consigo, Shiryu-sama! Tanta perfeição! Tanta beleza! Rodeado desse cenário divino, fazem meu coração palpitar feito um louco! Por favor, deixe-me ficar assim e tentar absorver um pouco dessa perfeição.

O pequeno Satoro e a doutora Shineder, tentavam em vão, abafar os risos, tampando a boca com as mãos. Mas já não era possível segurar. Desde que Shiryu chegara com àquele rapaz, que além de se parecer muito com ele, tinha um comportamento bem suspeito, os dois se divertiam muito com as cenas engraçadas entre eles.

- Não riam! – esbravejou o ex-cavaleiro de Dragão para os dois, sentindo suas bochechas corarem, o que não era comum - Não é engraçado! E eu já disse para me soltar, Ryu! Eu tenho que visitar um lugar antes de ir embora.

- Shiryu-samaaaaaa! Deixe-me ir com você, onegai shimasu (1)!

- Eu já disse, Ryu! – gritou ele, tentando destravar os dedos do menino da sua cintura, não conseguindo imaginar, de onde o garoto havia retirado tanta força. - O lugar que vou visitar é muito perigoso! Pessoas simples como você morreriam na travessia! – argumentou ele, emendando em seu pensamento: "Apesar de que estou começando a duvidar dessa sua simplicidade. Que força incrível! Mas acho que isso não é cosmo e sim, energia movida por sua força vontade".

- Está me subestimando! – lamentou o menino - Se quiser eu luto com você para provar que sou digno de lhe acompanhar.

Shiryu suspirou. Estava certo de algo, Ryu era bem mais teimoso do que Seiya, convencê-lo parecia impossível. Tinha que dar um jeito de fugir quando ele estivesse distraído.

- Senhorita Shineder, o almoço está servido. – chamou uma das empregadas do lugar, aproximando-se do grupo.

- Obrigada, Liu. E então, vamos almoçar, Suynama-kun, Kanagawa-kun? Continuem com esse agarramento mais tarde.

O rosto do Shiryu inflamou frente ao comentário da médica alemã.

- Não diga uma sandice dessas, Shineder-san! Quer que eu rasgue nosso contrato, agora?!

- Não está mais aqui quem fez esse comentário sórdido. – saiu ela, dando risinhos abafados. – Venham logo! Vamos Satoro!

- Estou indo senhorita! Suynama-san, vamos! – o menino estranha ao ver de repente, Ryu caído no chão, após escutar um barulho de uma pancada. – O que houve com ele?

- Não gosto de usar os métodos do Ikki, mas não vi outra forma. Ele vai ficar bem. Vamos almoçar, Satoro. – aceitou Shiryu o convite, transpassando o corpo do amigo que estrebuchava no chão.

- Matte kudasai (2) Shiryu-sama...

Na grande sala de almoço do templo, eles compartilhavam da mesma refeição que as pessoas em tratamento na clínica. Satoro havia sido contratado pela Dra. Shineder, e agora o menino a ajudava cuidar dos pacientes, como se fosse seu auxiliar mirin. E a médica de alguma forma, estava feliz em saber o quanto seu sócio era maduro. E agora percebera o quanto fora infantil em temer a visita dele. Por mais que Shiryu tenha relutado em lhe vender o templo para transformar em uma clínica de tratamento médico. Agora ele parecia estar totalmente habituado a idéia. Percebera isso, pois desde que ele chegara acompanhado do amigo, os dois fizeram amizade com boa parte dos pacientes. E até se divertiam, passando a tarde com eles.

Shiryu por sua vez, observara Ryu de soslaio, apesar do seu comportamento às vezes estranho, ele era muito prestativo. Os dois acordavam cedo, praticavam exercícios matinais, tomavam banho na cachoeira e depois de tomarem café, ajudavam Satoro a acompanhar os pacientes nas atividades ao sol. Shiryu se admirava com o quanto Ryu se dava bem com os idosos. Jogava cartas, ria e passava horas ouvindo as histórias que estes tinham a contar. E em vários momentos, recordou o tempo em que viveu com a Shunrey e com o seu mestre ali. Naquele dia havia decidido que visitaria o túmulo dos dois e partiria para Jamiel, para ver como estava Kiki e também para visitar o túmulo de Mú.

E após o almoço, deu um jeito de sair escondido para arrumar a mochila.

- Aonde vai, Shiryu-sama? – perguntou Satoro, aparecendo atrás do cavaleiro dentro do quarto, fazendo-o sobressaltar.

- Ah! Satoro! – assustou-se ele, levando a mão ao peito, tentando acalentar o coração que havia dado um salto. - Não faça isso!

O menino sorriu.

- O Kanagawa-kun está conversando com a senhora Shing Ling, quando ele começa a conversar com ela pode esquecer, ela conta umas lendas estranhas e o Ryu se prende tanto que perde a noção do tempo.

- Entendi. – suspirou Shiryu aliviado, terminando de arrumar a mochila. – Faz um favor, para mim, Satoro?

- Claro, Shiryu-sama. – consentiu o menino, de forma sorridente.

- Tente distraí-lo aqui. Eu não quero que ele me acompanhe até Jamiel. O Túmulo da Armadura Sagrada é um lugar perigoso. Ele pode se ferir de verdade.

O menino coçou o nariz, e sorriu graciosamente. Apesar dos dois brigarem muito, eles eram amigos de verdade, pensou ele.

- Os dois se dão muito bem, não é mesmo?

- Pare de insinuar essas coisas, Satoro! Você e a senhorita Shineder estão me saindo piores do que os meus irmãos!

- Não estava insinuando nada de mais, Shiryu-sama. – o menino lembrou-se de algo que Shiryu mencionara em uma das cartas que recebera dele do oriente. – Shiryu... você não disse que traria seus irmãos para visitar o templo?

- Não foi possível, desta vez, Satoro. Porque cada um já tinha um destino certo de viagem de férias. Mas da próxima eu tentarei trazê-los comigo. – prometeu ele, colocando a mochila nas costas, e esfarelando os cabelos do pequeno Satoro em seguida. – Estarei de volta amanhã, ja ne!

- Certo! – concordou o menino, reverenciando-o. - Boa viagem!

-...

XXX

Em Rodório, Grécia.

- Eu não acredito que você vai tentar de novo, Seiya? Será que você não ouviu que os guardas disseram: você não tem permissão de subir lá! E eles têm ordens expressas da grande mestra para feri-lo se tentar!

- Como se eles tivessem poder para isso! – resmungou, levantando-se da cama. - Eu vou tentar entrar do meu jeito, Seika! Nós iremos voltar para o Japão no fim de semana, e eu ainda não vi a Marin, nem a Shina, nem ninguém!

- Seiya, larga de ser cabeça dura! Se continuar tentando, vai causar problemas.

- Ah! Eu estou cansado de ficar nessa taberna, e andando por aí fingindo ser turista! – interrompeu ele, entediado. - Eu vim aqui para rever os campos de treinamento onde passei seis anos da minha vida! E é isso que vou fazer! Estou indo, onee-chan, ja ne!

- Seiya! Matte (3)!

Mas ela não teve tempo de impedi-lo, Seiya saíra feito um furação, deixando a porta do quarto aberta ao passar, e quase trombando de frente com o senhor Hipólito, dono da casa onde estavam hospedados.

- Gomenasai, Hipólito-san! Estou indo para mais uma tentativa de entrar no Santuário, me deseje sorte! Ja ne! – disse Seiya, já desaparecendo de vista.

- Até mais, Seiya-kun! Boa sorte e não se atrase para o almoço. – sorriu o velho gentilmente, olhando para dentro do quarto e vendo Seika. – Minha filha, pode me ajudar atender o balcão, por favor? – pediu o velho senhor, que tomara conta dela, antes de descobrir que esta era a irmã perdida de um dos cavaleiros de Atena.

- Pai? Atender o balcão? – foi a vez dela resmungar.

- Sim, e você aproveita para relembrar os velhos tempos, assim como seu irmão, que quer relembrar os dele! Háháháhá!

- Inferno! Só de pensar que a Sheena deve estar se deslumbrando nas ruas de Paris enquanto eu estou aqui... Grrrr! Tenho vontade de matar aquela Perua sem penas!

Seiya, assim como prometido, subira mais uma vez as ruínas gregas, com intuito de visitar Marin. O perímetro do Santuário tinha início onde os turistas comuns já não conseguiam passar.

"Ordens expressas do grande mestre?!" pensava ele, ainda irritado, enquanto saltava as rochas, correndo em uma velocidade sobre humana, a fim de chegar aos campos de treinamento. "O Grande mestre é a Marin! Marin! A minha mestra Marin! Eu não acredito que ela não me permitiria minha entrada no Santuário, para vê-la." E motivado por esses pensamentos, continuou subindo, até que em um dos seus saltos, ele avistou as crianças das vezes passada e resolveu deter sua subida, se escondendo atrás de uma grande rocha e amenizando o seu cosmo ao máximo que pôde.

"Droga, àqueles fedelhos de novo!"

- Engraçado, àquele garoto estrangeiro não tentou invadir o Santuário hoje. – resmungou um garoto que deveria ser o mais velho, em torno de oito anos de idade, e que tinha a pele muito morena, os cabelos curtos, castanhos escuros e com alguns reflexos loiros, provavelmente queimados do sol, e olhos castanhos claros. Ele lembrava vagamente o Seiya quando criança.

- Talvez ele tenha desistido. – respondeu disperso, o outro menino que vinha um pouco atrás dos dois que caminhavam na frente. Este por sua vez, chamava atenção por sua brancura excessiva, era quase albino de tão pálido. As sobrancelhas e os cabelos eram tão loiros que chegavam a se confundir com o branco da sua pele; os cabelos eram e lisos escorriam até a cintura, jogados para trás, preso por um arco na cabeça; seus olhos eram azuis claríssimos e a única coisa que contrastava com sua alvura era o uniforme encardido do treino.

O terceiro menino, que tinha uma cara mais levada, e caminhava com as mãos na cabeça, apenas murmurou algo de boca fechada, como se não desse a mínima importância à tentativa de invasão do estrangeiro. Este parecia ter a mesma idade dos outros dois, mas ele tinha os cabelos em um tom vermelho escuro, presos em um rabo de cavalo; sua a pele era morena clara e seus olhos eram de uma cor mel, bastante clara.

Algo era claramente notável em todos os três, mesmo eles sendo diferentes um dos outros, eram crianças realmente belas.

Seiya tinha certeza que o trio estavam treinando para serem cavaleiros da nova geração. E o pior, tinha certeza que almejavam as armaduras douradas, pois já tivera o desprazer de ser atacado por eles. "Eu ainda não acredito que quase perdi para esses pestinhas!" se recriminou em pensamentos, "Como podem ter tanto poder, se mal saíram das fraudas?!" irritou-se ele, lembrando-se de quando os conhecera na sua primeira tentativa de entrar no Santuário.

O mais velho, que andava na frente dos outros dois, se chamava Perseu e era grego. O menino tinha um poderoso golpe de impacto que unia força destrutiva e eletricidade em seus punhos; o pequeno de cabelos brancos se chamava Jean, e àquele sotaque era incontestável, sua nacionalidade sem via de dúvidas era francesa. E este dominava o frio da mesma forma que Hyoga e seu mestre Camus. E mesmo com àquela cara de anjinho, quase o encerrara vivo em um esquife de gelo. O de cabelos vermelhos e rabo de cavalo, era o mais notável de todos, o menino era italiano e se chamava Tito, e daquela idade ele já conseguia dominar as ondas demoníacas do Máscara da Morte. Não conseguia entender, por mais que tentasse, como eles conseguiam dominar técnicas de guerreiros tão poderosos em tão pouco tempo.

Mas sentiu-se aliviado, ao pensar que pelo menos, as pequenas amazonas trigêmeas e loiras: Anna, Anne e Amy, não estavam ali. As meninas eram de nacionalidade grega, e atacavam juntas, unindo suas habilidades como se fosse uma só. Uma delas era muito rápida, a outra era perspicaz em perceber rapidamente pontos fracos do adversário, e a terceira tinha uma força bruta, que poucos homens possuíam. Pensou Seiya, abrindo a boca, e levando o dedo, aonde deveria ter um dente. Serrou os punhos, voltando a tremer de raiva. Era melhor continuar em silêncio e esperar que eles desaparecessem.

- Eu queria saber como ele conseguiu chegar até aqui? – perguntou Perseu, detendo a caminhada e se virando para os outros dois.

- Ele disse que já foi um cavaleiro da Antiga Ordem. – lembrou Jean.

- Impossível! – exclamou convicto, o de cabelos vermelhos. - Todos nós sabemos que os cavaleiros da Antiga Ordem estão todos mortos, excetos pelos que residem aqui.

- Ahhhhhh! Fedelhos! Mas eu sou um dos cavaleiros disso que vocês chamam de Antiga Ordem! – gritou Seiya, saindo de trás da pedra, fazendo os pequenos se sobressaltarem.

- Então você está aí? – observou Tito - Como não sentimos sua presença antes?

- Porque eu ocultei o meu cosmo! Agora me deixem ver a Marin!

- Marin?! – estranharam os pequenos.

- Já lhe dissemos uma vez, não tem ninguém chamado "Marin" aqui dentro! Prepare-se para morrer! – incitou o pequeno Perseu, se colocando em guarda.

- Hei, Jean! Posicione-se! – avisou Tito, que mantinha os punhos em riste e os olhos fixos em Seiya.

- Hã? Ah, certo... – concordou o menino sem muito entusiasmo.

- Jean que foi? Você nunca está animado para lutar.

- É que esse calor me deixa tonto...

- Eu não vou perder para vocês, seus pentelhos! Eu vou parar de conter meu poder, preparem-se para lutar! ME DÊ A SUA FORÇA PÉ...

- Hei tio, o que é aquilo? – apontou o menino de rabo de cavalo para o céu. – Não é um Minotauro voador com cabelos de Medusa?

- O quê? Onde?

- Aberturaaaaaa! – gritou o pequeno, dando um pisão no pé de Seiya, enquanto o outro moreno desferia inúmeros dos seus socos e ponta-pé elétricos, derrubando Seiya pela milionésima vez.

- Conseguimos! – os dois espalmaram as mãos, vitoriosos.

- Agora é com você, Jean! – avisou Perseu.

- E vê se faz um caixão de gelo decente! – recriminou Tito, colocando as mãos na cintura e olhando o amigo de canto de olho. – Ele conseguiu escapar dos outros!

- Está bem, está bem. – assentiu o menino, secando o suor que não parava de escorrer por seu rosto. - Eu vou tentar...

- Meninoooos!

- Aiiii... – Seiya gemia e se contorcia no chão, sentindo a força do golpe do pequeno Perseu. Mesmo assim, foi capaz de reconhecer àquelas vozes femininas. – Ah, não! Elas não!

- Anne, Amy? Cadê a Anna? – perguntou Perseu, ao ver as duas amigas se aproximarem.

- Cara, é incrível, como você consegue saber quem é quem? – surpreendeu-se Tito, mais uma vez. Já que Perseu era o único que conseguia distingui-las.

- Eu é que não entendo, Tito. Como é que você consegue se surpreender todas às vezes, o Perseu sempre faz isso.

- Ah, para de me encher, ô Branca de Neve! Faz logo esse caixão de gelo! Ele ta recobrando a consciência!

- Eu estou tentando. – falou ele de novo, com uma voz doce e pacífica.

- A Anna está com a Shina, Perseu. – informou uma das meninas, ao chegar até eles, ofegante. – Eu não acredito, esse tio de novo?

As duas irmãs olham para Seiya, que havia se sentado no chão.

- Será que ele não aprende a lição?

- Parece que ele tem vento na cabeça no lugar do cérebro! – brincou Tito.

- Shina? – Seiya perguntou com uma voz de bêbado. - Onde está a Shina?

- Você conhece a nossa mestra?

- Shina é mestra de vocês? – espantou-se ele, recobrando de vez a consciência.

- Na verdade, ela é mestra da Anna. Mas ela sempre nos dá atividades também.

- Hei, garoto, para com isso, meu pé está começando a ficar dormente! – pediu Seiya para Jean, que estava criando uma fina camada de gelo em cima dos seus pés. Mas que estava tão vermelho do calor que gotejava suor.

- Desculpe-me, senhor?

- JEAN! – gritaram os amigos, recriminando-o; nervosos pela ingenuidade do colega. Afinal, além do amigo não conseguir fazer um gelo suficientemente frio que prendesse Seiya, pedia desculpas.

- Mas eu estou usando todo meu poder...

Seiya se levanta segurando o pequeno Jean pela camisa; erguendo-o.

- Oh, não! Ele capturou o Jean!

- Pessoal, socorro. – pediu ajuda ele, de uma forma tão delicada que não conseguiu convencer os colegas que realmente estava em apuros.

- Até preso por um inimigo o Jean consegue manter essa passividade na voz, é irritante. – reclamou uma das trigêmeas.

- Pelo menos grite com mais vontade, Jean! – bronqueou Tito, irritado com a paciência do colega de treino. - Você acabou de ser capturado pelo inimigo!

- Eu não consigo, ele não parece mau de verdade.

- E esse garotinho de neve aqui, tem razão. Será que vocês, vão me ouvir por bem? Ou eu terei mesmo que derrotá-los?

Depois de algum tempo, os cinco aprendizes estavam sentados entorno de Seiya, olhando-o com olhos atentos, enquanto ouvia sua narrativa sobre as grandes batalhas. Só haviam concordado em escutá-lo porque ele fizera Jean de refém. Mas a conversa estava tão interessante, que estes já acreditavam na possíbilidade de Seiya ser mesmo um cavaleiro pertencente a tão famosa Antiga Ordem.

- Então você é mesmo o Pégasus?

- Eu achei que o guerreiro Pégasus fosse mais imponente e não tivesse uma cara tão boba.

PLAFT

O barulho fora de Seiya esmurrando a cabeça de Tito.

- Aiiii! Isso doeu, seu verme! – bufou o menino.

E Seiya sorriu.

- Você parece mesmo o filho do Máscara da Morte!

- Você também conheceu o nosso pai? – perguntou uma das trigêmeas, com os olhos brilhando.

- Eu já disse que sim. Eu conheci todos os cavaleiros de ouro. Milo de Escorpião era um cavaleiro muito imponente e poderoso. Assim como Aiólia, que foi para mim um homem surpreendente por sua índole incontestável e sua irremediável força. – disse ele olhando para Perseu, fazendo o menino sorrir.

O pequeno Perseu era filho de Aiólia com uma das agentes que trabalhavam para o Santuário.

- Assim como o Camus. – olhou ele para o pequeno Jean, que era filho de Camus com uma jovem francesa de família nobre, que fora prometida ao mestre do Hyoga quando ambos ainda eram crianças, conforme o menino lhe contara. - E tenho certeza que se eles tivessem vivos, teriam orgulho de conhecer esses filhos tão dedicados e parecidos com eles. Eu só confesso que... – ele fechou os olhos, cruzando os braços no peito, arrancando olhares curiosos dos meninos. - Eu não esperava que àqueles dourados com cara de santos tivessem deixado filhos espalhados pelo mundo.

- Mas eles não sabiam de nossa existência. – informou Jean, deixando a cabeça pender em seu peito. Era claro que ele não se conformava em não ter conhecido o pai pessoalmente.

- Suas mães não contaram aos seus pais sobre a existência de vocês?

- Elas bem que tentaram. - explicou uma das trigêmeas. - Mas a nossa vinda nesse mundo não fora algo planejado por nossos pais, aconteceu por acidente. E quando nossas mães vieram ao Santuário para informá-los sobre nós, foram impedidas. Pois, de acordo com as informações que tiveram, o Santuário estava prestes a entrar em guerra e se os inimigos de Atena descobrissem sobre a nossa existência, poderiam nos usar como arma para atingir os nossos pais. Então elas foram obrigadas a manter nossa existência em segredo.

- Depois disso, fizeram com que nossas mães nos alistassem para sermos futuros aprendizes a cavaleiros. – completou Perseu.

- E fomos chamados depois da morte deles. - acrescentou Tito.

- Fico triste por vocês não terem conhecido seus pais. Mas pelo menos vocês ainda tem suas mães. Eu não cheguei a conhecer nenhum dos dois. – se lamentou Seiya.

Mas de repente, todos eles sentiram um estalo no cosmo e ouviram o barulho de algo muito rápido se aproximando. As crianças se colocaram em posição de guarda imediatamente.

- Vem vindo alguém!

- Eu conheço esse cosmo... – informou Seiya, se colocando de pé calmamente.

E ele estava certo. Os dois vultos que se aproximaram em uma velocidade absurda, logo chegaram até eles e ele então pôde reconhecer a mulher alta, de máscara no rosto, acompanhada da trigêmea chamada Anna.

- Seiya?!

Ele sorriu. Enquanto todas as crianças se voltavam assustadas, para o lendário cavaleiro de Pégasus

- Shina?

-...

XXX

Em Jamiel, Fronteira da China com a Índia.

- Então o legado de Atena está sendo reconstruído? – perguntou Shiryu, enquanto observava Kiki trabalhando no conserto das armaduras.

O ex-cavaleiro de Dragão estava admirado o quanto seu pequeno amigo havia crescido naqueles últimos três anos. Quando o conhecera, Kiki era muito pequeno na estatura. Entretanto, sabia que ele já não era tão criança. E quando se separaram, ao término da grande guerra, ele deveria ter por volta dos dez anos, desta forma, agora ele deveria ter 13 anos. No entanto, ele já estava da sua altura e parecia ter uns 16. Ele realmente se desenvolvera rapidamente, admirou o Dragão.

- Sim, Shiryu. O grande mestre do Santuário agora é a senhora Marin. – respondeu o menino Kiki, ainda sorrindo com seu jeito infantil. - Ela recrutou jovens de todas as partes do mundo com habilidades especiais ou com vontade de se devotarem a vida de cavaleiros, para participarem do treinamento. Então ela me incumbiu de restaurar todas as armaduras danificadas na Grande Batalha. Por isso não tive tempo de ir visitá-lo no Japão, ando tendo muito trabalho a fazer. – suspirou ele, secando o suor da testa e limpando na roupa as mãos que estavam sujas de pó de estrelas, para em seguida, sentar-se no chão e dar atenção ao amigo. – Mas as principais armaduras eu já consegui restaurar. Todas elas e mais as seis Kamuis (4), ganharam um lugar especial no Santuário, chamado de o Salão das Armaduras Sagradas. É um templo entre a sala do mestre e o Salão de Atena. E lá estão todas as armaduras de ouro expostas em suas formas originais. Deveria visitar o salão um dia, ficou algo deslumbrante. Bem digno da Fundação Graad.

- A Fundação Graad? – estranhou o chinês. – O que a fundação tem haver com o Santuário?

- Ué, você não sabe?! A Senhorita Saore ainda mantém uma grande quantidade de verbas destinadas ao Santuário. E ela e o tal do noivo Julian, são os responsáveis por toda a reforma do Templo e das Doze Casas. De forma indireta, ela ainda é a pessoa que mantém o Santuário em pé, afinal, ela ainda é a deusa Atena. Mas claro que o lugar tem outros apoios governamentais. Afinal, o Santuário presta serviços em campos de guerras, missões de salvamento, entre outras coisas, no mundo inteiro.

Shiryu fechou os olhos, encostou as costas na cadeira, adquirindo uma posição mais ereta, pensativa.

- Eu havia me esquecido desse detalhe. Na verdade o Santuário, ainda é uma grande potência.

- Sim, e apesar da partida de vocês, ele continua funcionando com toda força.

- Mas não foi uma escolha nossa abandonar o Santuário, Kiki.

- Eu sei muito bem disso, Shiryu. Estas foram ordens expressas de Atena. E todos nós sabemos que ela pagou um preço alto para vê-los livres.

- Mas eu preferia que ela não tivesse pago esse preço e que nós continuássemos servindo ao Santuário.

- Tenha certeza Shiryu. Ela teve um bom motivo, e creio que seja, porque vocês fizeram de mais por ela e pelo mundo. Agora deixem isso a cargo da nova geração que está sendo formada. Os campos de treinamento estão recheados de novos aprendizes. E boa parte das crianças que almejam as armaduras sagradas são filhos dos cavaleiros de ouro.

Kiki se levantou, indo até umas das prateleiras da sua oficina, em busca de mais materiais para continuar seu trabalho.

- Isso sim me impressionou. Eu não imaginava que àqueles guerreiros tivessem deixado filhos espalhados pelo mundo.

- Mas deixaram. - confirmou. - Ah, não! Acabou!

- O que foi, Kiki? – Shiryu saiu da sua pose de meditação e olhou o menino, que espalmava o fundo de um vidro, tentando derramar algo que não tinha mais lá dentro, em uma bacia.

- Acabaram as minhas Lágrimas de Dragão! Eu tenho que ir buscar mais!

- Lágrimas de Dragão?

- Vamos comigo, Shiryu?! E eu te explico o porquê desse nome. O lugar fica no alto de uma montanha, não é muito longe daqui.

- Porque você não usa o seu tele-transporte?

- Porque o lugar é sagrado, e é protegido por uma poderosa Kekai (5). Eu não consigo tele-transportar lá dentro.

- Entendo. Igual as doze casas.

- Isso mesmo.

- Então, vamos?

- Tudo bem, estava precisando de uma pequena aventura para me exercitar. – sorriu ele.

XXX

De volta a Rozan, China.

- Ieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee! (6)

Tanto a Senhorita Shineder quanto o pequeno Satoro, tamparam os ouvidos com as mãos ao ouvirem o grito inconformado de Ryu, ao saber que Shiryu havia viajado sem ele.

- Não grite desse jeito Kanagawa-kun! – pediu a doutora. - Aqui é uma clínica e os doentes precisam repousar!

- Mas como o Shiryu-sama viajou sozinho e me deixou aqui?

- Explique à ele, Satoro. Pois, eu também não entendi muito bem. Ele só falou com você.

- Eu já expliquei doutora, o túmulo que ele foi visitar é um lugar perigoso.

- E onde fica esse lugar? Porque é tão perigoso?! Se me disser onde fica, eu ainda posso alcançá-lo!

- Mesmo que eu soubesse, eu não diria, ele confiou em mim! – recriminou Satoro. – E pense bem, o Shiryu se preocupa com você, por isso não o chamou.

- Ele só queria se vê livre de mim... – conclui o menino, sentindo a cabeça pesar e os olhos se encherem de lágrimas.

A médica e administradora do lugar, soltou um longo suspiro.

- É de mais para mim, ver um rapaz bonitinho e forte como você, chorando por outro. Vem Satoro, me ajude a entregar os medicamentos da tarde. Kanagawa-kun, se quiser nos ajudar, estaremos esperando.

O menino não se moveu de onde estava, enquanto a dupla deixava o cômodo. Havia perdido o ânimo em ajudá-los. Olhou para àquele antigo quarto, onde ele e o Shiryu estavam alojados desde que chegaram. Um lugar nostálgico, que transpirava lembranças. Pegou o porta-retrato de cima da cômoda e admirou a foto da bela e sorridente Shunrey. Suspirou mais uma vez, e devolveu o porta-retrato no lugar.

- Eu nunca terei um lugar tão importante no coração do Shiryu, como essa bela moça tem.

De repente, o menino sentiu um estalo em sua cabeça. Havia tido uma grande idéia.

- Claro! – disse ele batendo uma mão na outra. - Eu posso conseguir que o Shiryu goste de mim de verdade, se eu conseguir as Lágrimas do Dragão! De acordo com que a senhora Shing Ling me contou, as lágrimas são capazes de realizar desejos! - Lembrou-se ele, dando um sorriso pervertido no rosto e esfregando as mãos uma na outra. – É isso!

Ele tirou o pergaminho que estava na mochila, o qual a mulher havia lhe dado para que levasse como lembrança.

- É isso mesmo! Isso é um mapa, eu tenho certeza. – observou ele, após abrir o pergaminho na cama – Apesar de não saber muito bem chinês, eu consigo chegar lá tranquilo se eu seguir o caminha traçado nesses desenhos! Ah! Isso é maravilhoso! Espere Shiryu-sama, você vai parar de me desprezar! Eu juro!

E após arrumar sua mochila, ele saiu à procura da tal fonte milagrosa.

XXX

De volta ao Santuário.

Seiya sentiu-se imergir em uma estranha nostalgia, ao mesmo tempo em que seus olhos deslumbravam as belíssimas armaduras divinas e douradas, montadas em sua forma original, no Salão das Armaduras Sagradas.

Marin estava ao seu lado, trajada como uma belíssima sacerdotisa; ainda usava sua máscara. E agora Seiya entendera porque as crianças não sabiam o nome dela. Eles só a conheciam como "A Grande Mestra". Os jovens aprendizes também receberam autorização de subirem para visitar o Salão das Armaduras, apesar de que, todos eles haviam sido apresentados ao Templo assim que chegaram ao Santuário.

Mas Seiya, que não sabia da reforma, estava deslumbrado com o salão. As armaduras estavam dispostas em forma de uma grande espiral, que começava com as armaduras de pratas, vinham seguidas das armaduras de ouro, que seguiam em torno das cinco brilhantes Kamuis que protegiam a Sagrada Armadura de Atena ao centro. E Seiya entendeu que àquela era a mesma disposição hierárquica dos cavaleiros.

- Isso é... impressionante, Marin.

- Hã?! Ele a chamou de "Marin"? – cochichou uma das meninas trigêmeas.

- Como ele pode tratar "A Grande Mestra" de forma tão intima? – resmungou a outra.

- Que falta de respeito. – concluiu a terceira.

- Sim, Seiya, impressionante. – concordou Marin - Reconhece àquela armadura, a mais próxima da de Atena, ao centro?

Seiya fechou os olhos, como não a reconheceria? Sentiu seu cosmo brilhar e envolver a armadura.

- Vem... – sussurrou ele. E após se desmanchar emvários fachos de luz, a armadura o suspendeu no ar, envolvendo-o rapidamente. Arrancando assombro dos pequeninos que agora estavam em frente a um verdadeiro cavaleiro divino de Atena.

- Ohhhhhhhhhhh! – exclamaram eles, impressionados com o que viam.

- Crianças... – chamou Marin, com a voz um tanto embargada pela comoção, não só pela emoção em rever Seiya, mas por perceber que a armadura ainda o tinha com seu único detentor. E ela sabia muito bem, que enquanto os cinco guerreiros sagrados de Atena tivessem vida, àquelas armaduras seriam unicamente deles. - Esse é Seiya, meu pupilo, o mais fiel guerreiro de Atena: o cavaleiro divino de Pégasus.

As crianças sentiram um arrepio ao verem Marin retirar a máscara e segurar as mãos de Seiya, contemplando-o com os olhos imersos por lágrimas. Naquele instante todas as armaduras soaram como se fossem sinos saudando-o, pois nelas, estavam adormecidos os espíritos de guerreiros que reconheciam o quão grandioso, àquele cavaleiro fora para o legado da deusa. Era realmente uma visão divinal.

- Marin...

- Foram tantas as vezes que essa armadura foi mergulhada em seu sangue, Seiya. Que ela se reconhece como sendo uma parte sua.

Seiya não conseguiu falar e nem conter a emoção, sentiu as lágrimas desaguarem em seu rosto mesmo sem querer. Marin o abraçou. E àquelas crianças ali presentes, conseguiram ver, por um breve momento, os espíritos dos guerreiros mortos, emergirem das armaduras.

- Pai?! – chamou o pequeno Jean, correndo até armadura de aquário e abraçando-a.

- Seja forte, meu filho. – ouviu ele, uma voz suave, e um afago quente nos cabelos.

Tito que já era acostumado com o espírito do pai perturbando-o, apenas sorriu e acenou para ele. Os dois se mantiveram distante, não gostavam muito daquela coisa melosa de pai e filho. E além do mais, por ele ter o mesmo poder do seu velho, conseguia vê-lo mesmo quando não queria.

As trigêmeas rodearam a armadura de escorpião, retirando suas máscaras e sorrindo para o belo cavaleiro que também tinha um lindo e orgulhoso sorriso estampado no rosto.

- Vocês são lindas. Sejam sempre fiéis ao Santuário. E digam a mãe de vocês, que estou olhando por vocês.

- Sim, papai! – responderam todas em coro.

Perseu estava trêmulo e tampava os olhos com as mãos. Era vergonhoso para um cavaleiro. Mas sempre tivera medo de fantasmas. E teve um espasmo ao sentir a luva pesada da armadura de Leão tocar seu ombro.

- Não! – ele se agachou, tremendo e fujindo daquele toque.

- Sua mãe, acabou criando um trauma em você por causa de estórias idiotas de fantasmas!Não é, meu filho?

- Pai, pai! Eu sinto sua falta, eu juro! Mas, por favor, volta pro além!

Aiólia apenas sorriu, achando graça do filho. E voltou seus olhos para admirar o reencontro de Seiya e de sua mestra Marin. Sentiu um orgulho incomensurável invadir-lhe. Ele e todos os outros estariam sempre ali, guardando àquele salão, até que as novas gerações tomassem posse das armaduras. E também, estaria sempre ali, ao lado de sua amada Marin e do seu pequeno filho. Assim como seu irmão Aioros, que sempre esteve ao seu lado, mesmo após a morte.

-...

XXX

Em Jamiel, na fronteira entre a China e a Índia.

- Essa é a tal fonte do Dragão? – admirou Shiryu, uma grande estrutura de rochas esculpidas pela natureza, cujo formato lembrava mesmo a cabeça de um Dragão. E contemplou as fissuras que formavam os olhos do Dragão, por onde escorriam as "lágrimas", que desaguavam como uma pequena cachoeira em uma fonte em formato oval.

- Essa mesmo. – confirmou Kiki. - Conta a lenda, que uma jovem princesa era capaz de enxergar o Dragão Shenlong (7) atravessando os céus. E a beleza desse ser a encantou tanto que ela passou a recusar todos os pedidos de casamento, dizendo-se apaixonada pelo Dragão. E assim, a bela princesa passou a rezar todas as noites pedindo aos deuses que realizassem o seu desejo de encontrá-lo, nem que se fosse por uma única vez. Então, em uma noite, quando ela viu o Dragão se esconder nessa montanha, tão próxima do seu reino, ela não pensou duas vezes, e decidiu encontrá-lo.

No entanto, a jovem não esperava pelos riscos que enfrentaria ao tentar subir uma montanha como essa, sozinha. E ela acabou se ferindo muito, antes de alcançar o topo, e caiu em prantos ao perceber que morreria antes de ver seu amado Dragão de perto. Mas o seu pranto acabou despertando Shenlong que dormia nas proximidades. O Dragão furioso, foi de encontro à pessoa que o despertara do seu sono. Mas ao contrário do que ele imaginava, - encontrar um humano tremendo de medo - ele se deparou com uma linda humana, que ao vê-lo, levantou-se com dificuldades, e o abraçou sorrindo, declarando que o amava e que já poderia morrer em paz. O Dragão ficou comovido com atitude da mulher humana e chorou ao presenciar sua morte. Suas lágrimas criaram a nascente dessa fonte. Que banhou o corpo da jovem princesa morta. Então um milagre aconteceu, ele se personificou em humano e ela ganhou vida novamente. E os dois viveram uma romântica noite de amor. O problema é que só foi uma noite, no outro dia, a mulher amanheceu morta, e Shenlong, voltou a ser um Dragão.

- Que história triste. - lamentou, Shiryu.

- Pode até ser triste, Shiryu. – concordou o menino, enchendo seus potes com as lágrimas. - Mas os dois pelo menos viveram um momento feliz.

- Na verdade, Kiki. Essa estória retrata o desejo do coração humano. Que foi tão forte que gerou um milagre.

- Isso é verdade. Mas muitas pessoas ambiciosas, ao ouvirem sobre a lenda, arriscam suas vidas procurando esta fonte, acreditando que se beberem dessa água, terão suas ambições realizadas. Mas na verdade, a fonte não realiza desejo algum. É só uma lenda. As rochas que formam essa montanha são na sua maioria minério de ferro, desta forma, a água que sai daqui é rica de suas propriedades. Por isso eu preciso dela, para produzir uma liga na qual eu banho as armaduras recém consertadas, tornando-as ainda mais resistentes.

- Entendi, Kiki. Na verdade, ser ferreiro de armaduras, é quase como ser um alquimista.

O menino sente as bochechas rosarem.

- Hei, Shiryu! Não diga isso, eu me senti um bruxo agora!

O chinês sorriu com vontade do embarço do amigo e se levantou.

- Chega de estórias! Vamos pegar logo essa água e descer. Está começando a escure...

- Shiryu-samaaaaaaaaaaaaaaaa!

Os dois assustaram-se com àquele grito que ecoou entre as montanhas.

- Que foi isso? – assustou-se Kiki. - Será um fantasma?

- Não pode ser...

- Shiryu-sama! Eu não acredito que você veio atrás da fonte também!

E para desespero do chinês, era realmente quem ele imaginava, seu amigo Ryu. O garoto saiu correndo em meio as árvores e se jogou na direção do ex-cavaleiro de Dragão, que deu um simples pulo para trás, desviando-se dele e pousando em uma rocha. Enquanto ele, que não conseguira refrear a corrida, caíra de cara, dentro da fonte.

- Quem é esse cara esquisito, Shiryu? – perguntou Kiki, ao ver o rapaz tossindo tentando ficar de pé dentro da fonte.

- É uma longa estória, Kiki. Eu só não entendo, como ele conseguiu me encontrar aqui.

- Shiryu-sama! Você é mau!

- Ryu, como você...? – Mas Shiryu, que havia agachado na rocha para olhar o amigo dentro da fonte, deteve seu questionamente quando viu sair da mochila dele, algo que lhe pertencia. – Mas isso é... – ele retira a camisa e mergulha na fonte, indo atrás do pedaço de papel que boiava na água. E ao alcançá-lo e perceber do que se tratava, sentiu-se verdadeiramente irritado com Ryu. Era a foto da Shunrey que estava no porta-retrato do seu quarto. Ele mostrou a foto para o garoto. – Posso saber por que você pegou essa foto?!

- É... – o rosto do menino avermelhou-se de vergonha. – Eu acho que coloquei junto com as minhas coisas sem perceber, na hora que estava arrumando a minha mochila.

- Você não tem o direito de desonrar as minhas memórias da Shunrey dessa forma, Ryu! Eu achei que você pudesse ser um pouco mais compreensível! Mas vejo que foi um engano trazê-lo comigo!

- Shi- Shi- Shi... – O menino não conseguiu falar e começou a chorar. – Buáááááááááááááááááááááááááááááá! Me perdoe, Shiryu-sama! Não foi intencional!

O chinês saiu da água, sentindo o coração doer. Afagou a foto em seu peito e com os olhos lacrimejados, lamentou:

- Me perdoe, Shunrey. Se eu tivesse pelo menos uma noite com você. Eu lhe confessaria o quanto a amei.

- Shiryu? – ouviu ele, Kiki o chamando, retirando-o do transe. O menino prosseguiu. - Vamos montar acampamento. Já está de noite e não é bom descermos essa montanha no escuro. Amanhã cedo prosseguimos.

- Certo.

- Eu vou fazer uma fogueira e preparar algo para comermos. Mas... – Kiki olhou por trás do amigo, visualizando o rapaz que ainda chorava dentro da água; fungando alto e soluçando, como se fosse uma criança. - Você não foi muito duro com ele, Shiryu?

- Deixe-o! – pediu ele, certo do que estava fazendo. - Estou sendo bonzinho com ele até de mais, Kiki! Deixe-o ficar ali e pensar sobre seus atos. Subir essa montanha sozinho, correndo o risco que correu, não foi nada maduro da parte dele! Eu não me perdoaria se acontecesse algo com ele.

- Então porque não diz isso pra ele? Pelo que parece, ele acha que você o odeia.

Shiryu sorri.

- Não tem problema. Eu não posso demonstrar o que sinto, porque ele entenderia de outra forma.

- De outra forma? Como assim?

- Esqueça! Vamos preparar o jantar.

- Está bem.

Dentro da fonte.

- Shiryu-sama... – fungou Ryu, serrando os punhos. - Essa fonte é só uma lenda no final das contas! Ele ficou todo furioso só por causa daquela bendita foto! Eu queria ser essa garota pelo menos por uma noite e assim, poder ser amado de verdade pelo Shiryu-sama.

E sem que os dois percebessem, os olhos do Dragão de pedra brilharam, assim como a água que cobria os dois corpos.

Algum tempo depois, Kiki havia preparado a comida; após comerem, ele e Shiryu retomaram a conversa sobre o passado. Ryu sentiu-se ainda mais deslocado e enciumado. Kiki não havia trazido acampamento, e o Shiryu sugerira que os dois dividissem a mesma barraca. O que deixou Ryu enraivecido, ele se recusava a entender porque o seu Shiryu aceitara dividir seu leito com àquele garoto de cabelos de fogos e pintas esquisitas na testa, e não aceitava se quer, que ele lhe desse um abraço.

- Isso é injusto...

- Hei, porque está resmungando aí ainda? Junte-se a nós. – chamou Kiki.

- Humf! Eu não quero atrapalhar a conversinha animada dos dois. Eu vou dormir do outro lado, Oyasuminasai (8)! – desejou emburrado. Pegando suas coisas e indo para de trás da rocha.

- Não se afaste de mais, Ryu! Pode ter ursos nessas montanhas!

- Eu sei me cuidar sozinho, Shiryu-sama!

- Nossa, ele é bem teimoso. – admirou-se Kiki.

- Ele é estranho.

- Né, Shiryu-sama? – brincou Kiki, debochando do jeito formal que o menino o chamava.

- Não comece você também Kiki.

- Ele me lembrou o Seiya.

- Sim, é verdade. Agora que você mencionou.

- Falando no Seiya, sinto falta dele. Como ele está?

- Ele está bem. O Seiya mudou muito, Kiki. Ainda é o mesmo garoto brincalhão de sempre. Mas dá para perceber o quanto ele amadureceu. E às vezes eu sinto uma grande tristeza invadi-lo. Acho que no fundo, ele se sente frustrado como eu, por não ter vivido o amor que sentia pela mulher que desejava.

- Está falando da Senhorita Saore?

- Sim, ela mesma.

Os dois voltaram seus olhos para o céu, admirando as constelações que enfeitavam o céu. Mas perceberam que algumas nuvens de chuva começavam a se juntar.

- Espero que não chova, o Ryu não trouxe sua barraca...

XXX

Em Atenas, depois de um soberbo jantar, Seiya caminhava no teto do Salão do Grande mestre, admirando a imponente e gigantesca estátua de Atena. Sentiu o vento soprar seus cabelos e as lembranças de um passado tão próximo, mas que lhe parecia tão longínquo, invadiram sua mente. Então, suspirou:

- Saore-san...

- Eu não vou, Julian! Esqueça! – ao ouvir àquela voz, ele quase caiu do telhado. – Não, não e não! Eu acabei de chegar em Atenas e eu não vou dar meia volta! Eu não tenho culpa que você não tenha entendido a minha mensagem direito! – esbravejava a jovem ao celular.

"Isso, não é possível? Eu acabei de pensar nela e ela apareceu como se fosse mágica?"

- A reunião é amanhã! Eu vou passar a noite aqui! Ah! Julian! Não vem querer me dá ordens que eu não admito! Chega! Boa noite! – ela desligou o celular e em seguida o deixou cair no chão, observando o aparelho de última geração se desfazer em pedaços no chão. – Oh! Vejam que descuidada eu sou? Caiu... – disse ela ironicamente, pisando em cima do resto que sobrara do aparelho com seu sapato de salto alto. - Pronto, mesmo que queira me retornar querido, não vai ser possível, acidentes acontecem!

- Ela me dá medo... – Seiya tentou se levantar, mas acabou pisando em uma parte em falso do telhado, e apesar de conseguir desviar da queda pulando para trás, não conseguiu evitar que o pedaço de telha, caísse aos pés da empresária.

- O que é isso? – abaixou-se ela para analisar o que fora que caíra do céu. - Esse Templo acabou de ser reformado e já está caindo aos pedaços? – reclamou, se pondo de pé novamente e olhando para cima, no telhado, procurando por um possível invasor - Quem está aí?! – perguntou. – Olha, eu sei que tem algum engraçadinho me espionando e eu exijo que apareça agora! Eu não gosto de gracinhas! Eu também sou dona desse lugar e posso...

Seiya pula na frente dela, fazendo-a se calar.

- E você pode? – ele a desafiou a continuar com as ameaças, encarando-a fervorosamente.

- Se- Seiya? – Franziu ela a testa, ao contestar que ele era a única pessoa no mundo, que ela não imaginaria encontrar ali.

- Desculpe-me pela telha? Eu não sabia que tinha alguém aqui embaixo.

- Eu também... Eu não sabia... Digo... A Marin me... Mas que diabos você estava fazendo no teto?

- Admirando a minha imponente deusa. – respondeu ele, categórico.

Saore sentiu o coração disparar.

- É claro que estou me referindo a estátua lá atrás. – fez questão de ponderar.

O rosto da menina se contorceu e corou violentamente de raiva. Era óbvio que aquele garoto grotesco não estava falando dela.

- Ah, é? Então porque não continua a contemplação a sua deusa? – sugeriu ela forçadamente, passando por ele e esbarrando em seu ombro. – Me dê licença, eu vou ver a Marin.

- Saore?

- "Kido-san" para você Seiya! – ela o corrigiu, virando-se para ele, com o dedo indicador em riste e os dentes serrados. - Eu exijo respeito! Além de eu ter mais status que você, eu sou uma mulher noiva, quase casada, não é certo que um moleque fique me chamando de forma tão intima!

Ele ficou em silencio, se desarmara totalmente perante àquela má resposta.

- O que você quer? – perguntou ela, impaciente.

- Esqueça! Eu achei por um instante, que sua memória pudesse ter voltado. Mas vejo que não.

- A minha memória nunca esteve em tão perfeito estado, Seiya! E sinceramente, toda vez que eu o vejo, eu agradeço aos céus por tê-la perdido. Eu não consigo me imaginar sendo sua amiga, então a minha vontade é que ela continue como está. – concluiu ela, voltando a caminhar em direção ao salão do grande mestre.

Seiya sentiu-se vazio. Não era raiva, nem ódio, nem remorso, na verdade, só sentiu-se um grande nada. E há muito tempo não se sentia assim.

- Engraçado, até tinha me sentindo importante alguns minutos atrás, no Salão das Armaduras. No entanto, essa mulher mesquinha conseguiu destruir tudo, em poucos segundos... – ele engoliu a vontade que sentia de chorar e respirou profundamente, tentando acalentar seu coração.

Saore entrou no salão da Grande Mestra trovejando.

- Marin, eu quero saber o que àquele cavaleiro, digo, ex-cavaleiro está fazendo aqui? Você não tinha ordens expressas da deusa para não deixá-lo entrar?!

A mestra saiu do seu trono e ajoelhou-se perante Saore, encostando a testa no chão.

- Sim, minha deusa. Foram ordens, expressas da senhora. – Marin fez questão de corrigi-la, deixando-a envergonhada. - Eu bem que tentei impedi-lo. Mas eu não posso arriscar a vida das crianças que estão em treinamento. Todos os outros cavaleiros adultos estão em missão. E mesmo que tivessem aqui, não há ninguém vivo que se iguale ao nível do poder de Seiya, um cavaleiro divino. Peço-lhe meu humilde perdão por descumprir suas ordens. Mas Seiya também é meu discípulo e eu queria muito vê-lo. Ele irá embora amanhã bem cedo, eu prometo.

A garota torce os lábios, soltando um grande lamento. Não tinha o que argumentar.

- Pode se levantar. Eu não gosto desse exagero de cumprimento. E eu não sou essa deusa que vocês tanto idolatram!

- A senhora é, minha deusa, só não se lembra.

- Marin, não vamos retomar essa discussão! Me diz, porque me chamou aqui?

- Eu a chamei? – se fez de desentendida, levantando-se em seguida.

- Marin! Você está brincando comigo?!

- Senhorita, eu lhe mandei um e-mail chamando-a para uma reunião que será daqui há um mês.

- Hã? – O rosto dela ficou vermelho. "Então, Julian estava certo e eu estava errada?! E ainda quebrei um aparelho de telefone novinho!"- Lembrou-se ela, sentindo suas sobrancelhas tremerem de raiva.

- Senhorita? Está tudo bem?

- Ahhhh! Horóscopo mentiroso! Ele disse que hoje eu teria uma surpresa agradável! E a única certeza que tive até agora é que não deveria ter levantado da cama! – suspirou ela.

- De qualquer forma, vou mandar que preparem seu quarto, senhorita. Sumimasen(9)?

-...

XXX

A chuva começou como uma leve garoa na fonte do Dragão na fronteira da China com a Índia. Entretanto, começava ganhar intensidade. Shiryu, que não conseguia dormir pensando em Ryu, olhou Kiki, em sono profundo e resolveu se levantar e procurar o amigo. A barraca era pequena para os três, mas já era madrugada, eles poderiam seguir a viagem de volta. Pensando assim, ele saiu da barraca. E assombrou-se ao sentir as gotas de chuva que molharam seu rosto, àquela chuva não estava fria como imaginara, na verdade, os pingos eram mornos, quase como se fossem gotas de lágrimas. Olhou para o céu; percebeu que quase não havia nuvens e a lua brilhava intensamente deixando o lugar claro.

"Que chuva estranha. Mesmo assim, preciso chamá-lo!"

Ele seguiu na direção que o menino havia tomado e assustou-se ao encontrar o lugar vazio. Procurou em volta da grande rocha e nada.

- Ryu?! – ele o chamou, sentindo o coração disparar. "Meu Deus! E se ele resolveu voltar sozinho naquela escuridão?", pensou assustado, puxando fôlego para dentro dos pulmões e gritando com mais força: – Ryuuuuuuuuuuu!

Ele parou. "Preciso me concentrar, tentar ouvir algum batulho que me guie." Pensando assim, Shiryu fechou os olhos e passou a prestar atenção nos sons a sua volta. Ele ouviu as gotas da chuva que caíam no chão, nas folhas das árvores e na fonte. Tentou aguçar um pouco mais a audição. Mas não conseguiu identificar nenhum barulho estranho, nada! Não havia vento, nem o farfalhar das folhas. Sentiu o desespero tomá-lo. Abriu os olhos. Foi quando ouviu algo diferente. Parecia um fungar, um lamento.

"Um choro? Sim, estou ouvindo um choro!", animou-se e saiu correndo na direção do barulho, contornando um grande arbusto, encontrando ali uma pessoa, vestida com um pijama masculino, agachada nas margens da fonte. No entanto, não lhe parecia o desenho de um homem.

- Ryu?! – aproximou-se de vagar, e conforme a aproximação era vencida, ele sentiu uma corrente elétrica lhe percorrendo o corpo e o paralisar a poucos passos daquela pessoa. "Será que minha mente está me pregando uma peça?". Mas a jovem que estava agachada, chorando, ergueu seus lindos e brilhantes olhos para fitá-lo e Shiryu constatou abismado, sentindo seu corpo todo tremer, era a sua amada...

- Shun- Shunrey?

- Shiryu? – perguntou ela, admirando-o. - É você mesmo, Shiryu?

A voz era da sua Shunrey, os olhos, o corpo. Estava imaginando coisas? Olhou para fonte. Será que...? A fonte era realmente mágica?

- Shunrey?! – ele correu em direção dela. E ela por sua vez, também foi ao seu encontro.

Os dois se abraçaram chorando. E ele teve certeza, era ela, sua Shunrey. E estava viva, não era um espírito.

- Shunrey, isso não é um sonho?

- Parece que não, Shiryu. Você desejou tão intensamente, que aconteceu.

- É o coração humano fazendo milagres. – Lembrou-se ele da magia da fonte, tocando os ombros dela, em seguida o rosto. – Você é mesmo de carne e osso! – confirmou sorridente. – Como pode ser possível?

- Eu também não sei.

- É a fonte. No fim, a fonte realiza mesmo os desejos.

- Mas eu vou voltar, Shiryu. Isso eu posso sentir.

Ele sorriu.

- Sim, eu sei. Conforme a estória de Kiki, só irá durar uma noite. Mas é o suficiente para que eu lhe diga...

- Eu sei. – ela o interrompeu. - Eu sempre soube.

- Mas eu nunca lhe disse. Eu deixei você morrer sem lhe dizer o quanto eu a amava.

- Mas eu sentia, Shiryu. – ela tocou o rosto dele, acariciando-o. – Eu sempre senti seu amor. E acredite, eu não morri infeliz por ter deixado esse mundo. Sou feliz por ter vivido momentos maravilhosos ao seu lado.

Ele a abraçou com mais intensidade ao ouvir àquilo. E enfiou os dedos dentro dos cabelos volumosos dela, desmanchando a grande trança. Em seguida, sorriu maravilhado, ao admirar os cabelos emoldurarem o rosto de boneca. Ele a beijou na face. E deslizando as mãos por seus ombros, fez com que a roupa que ela usava - e que era desproporcional ao seu corpo pequeno - escorregasse até o chão.

Ela também, de forma mais delicada, abriu o traje chinês que Shiryu usava, escorregando seus dedos pelo peito do seu amado, suspirou, sentindo o rosto corar violentamente.

Shiryu a contemplou, ela estava graciosa. Os dois se admiraram por algum tempo, e sem dizerem mais nenhuma palavra, deixaram seus lábios tomarem rumos sozinhos, e se encontrarem em um longo, doce e terno beijo.

-...

XXX

Em Atenas, Saore havia terminado de escovar seus vastos cabelos e fitava seu reflexo no espelho da penteadeira. Por algum motivo, não conseguia parar de pensar em Seiya e no que seus olhos firmes queriam lhe dizer. Pegou suas coisas de banho, iria aproveitar e tomar banho na banheira gigante da sala do grande mestre. Afinal, não conseguia dormir.

Enquanto ela não chegava ao local. Seiya e Marin, que já ocupavam o banho, conversavam.

- Não tem problema mesmo eu tomar banho aqui, Marin? – desconfiou Seiya, sentado na borda daquela banheira, que mais parecia uma piscina olímpica, observando a água tremular com o toque dos seus pés.

- Claro que não, Seiya. – confirmou a mestra, que terminava de enrolar uma toalha na cabeça. - Essa banheira é para o Grande Mestre, não é? E eu sou a Grande Mestra, não sou? Se eu estou permitindo não há problema algum. – completou ela, se levantando, após fechar o seu roupão. – Eu vou me deitar, fique a vontade.

- Marin? - Seiya a chamou de volta, antes que ela deixasse o ambiente.

- Hai?

- Você tem algo haver com essa visita estranha da Saore, aqui, nesse momento?

- Ai, Seiya. – ela suspirou, balançando a cabeça negativamente. – Você e ela se parecem, às vezes, sabia?

- Não brinque! Eu nunca seria tão esnobe como ela.

- Não me referi, a essa parte, exatamente. E sim, porque os dois desconfiaram da mesma coisa. Mas, respondendo: não tenho nada haver com isso, eu juro. – confirmou ela, seguindo rumo a saída. - Oyasuminasai.

- Oyasuminasai, Marin-sama.

Assim que sua mestra saiu, Seiya retirou a roupa de dormir que vestia e se jogou na banheira, mergulhando até alcançar o fundo, queria esfriar sua mente. E nesse meio tempo, Saore adentrou a área do banho. Ela retirou seu roupão, sentiu primeiro a temperatura da água com as pontas dos dedos do pé, para em seguida adentrar de vagar na banheira.

- Que água maravilhosa. Estava precisando disso. – relaxou ela, mergulhando para molhar os cabelos.

Mas, ao abrir os olhos dentro da água ela piscou uma, duas, três vezes, até seus olhos lhe provarem que estavam errados no que transmitiam para o seu cérebro. Ela estava ficando louca, ou havia mais alguém se banhando ali também? A pessoa se aproximou nadando rápido e quando os dois se encontraram, submergiram tomando fôlego. Mas... O grito de nenhum dos dois saiu, porque um havia tampado a boca do outro. Se gritassem ali, colocariam o Santuário todo em alerta. E depois de algum tempo, de olhares arregalados e atentos, os dois balançaram a cabeça positivamente, concordando em destamparem as bocas ao mesmo tempo. E assim que Saore desocupou sua mão, ela esbofeteou o rosto de Seiya, que caiu sentado na água.

- Porque fez isso?! – gritou ele ao se levantar.

- Como ousa a invadir o banho de uma dama?!

- Aonde tem dama aqui? – irritou-se ele, estralando todos os dedos das mãos. - E outra coisa, quem invadiu foi você! – ele a apontou. - Eu estava aqui primeiro!

- Seiya, seu grosso! Com ousa... – por algum motivo ela se deteve porque viu o nariz do menino sangrando. E só então ela percebeu, que tinha ficado de pé para gritar com ele, mostrando seu corpo nu. Novamente ela o esbofeteou, desta vez tão forte que ele caiu quase desmaiado para trás.

- Seiya, seu pervertido! – acusou ela, afundando-se na água novamente.

O garoto se levantou com o rosto muito vermelho.

- Eu vou ceder o banho para a tal "dama", e sair daqui, antes que eu morra!

- Não ousa a se levantar na minha frente!

- Ore (10)? Você está falando como se nunca tivesse visto um corpo de homem nu na sua frente!

- Está insinuando o quê?

- O natural, oras! Quando se namora, se faz coisas. E imagine então, quando o estágio já avançou de namoro para noivado.

- Seiyaaaaaaa! – Ela serrara os punhos ameaçadoramente, enraivecida pelo comentário audacioso de Seiya. No entanto, se desanimou rapidamente, por concluir que não poderia ferí-lo com tapas e nem socos. Afinal, ele era um poderoso cavaleiro e ela era uma frágil dama. Suspirou, vencida. – Saia então!

- Porque ficou tão irritada com o que eu disse?! – quis saber ele, antes de sair.

- Não é da sua conta!

Seiya começou a rir com a conclusão de que ela e Julian ainda não haviam passado pelas preleminares do namoro.

- Não me diga que você e o Julian ainda não...?

- Seiyaaaaaaaaaaaa! – gritou ela, atirando a escova de lavar as costas na cabeça dele. - Isso não é da sua conta!

O menino, que fora atingido em cheio, reclamou, chamando-a de bruta; dando as costas para ela e informando que já estava saindo.

- Então saia de uma vez! – ordenou ela, virando o rosto para o lado oposto. Mas de repente, algo nas costas dele chamou sua atenção, e ela voltou a fitá-la. Eram inúmeras cicatrizes. E de repente, sentiu-se culpada por àquilo. – Seiya?

- Hã?

- Foi muito duro? – perguntou ela, com o rosto totalmente corado.

- O quê? – Ele virou-se para ela e a viu com o olhar triste, as mãos juntas no peito. Estranhou. Não parecia a mesma Saore que esbravejara com ele. Agora parecia a deusa por quem se apaixonou.

- As batalhas? - Tentou perguntar de outra forma. - Elas foram duras não foram? É que seu corpo, está...

- Ah! – O moreno coçou a cabeça, um pouco encabulado, compreendendo enfim do que ela estava falando. – São cicatrizes de guerra. - confirmou, passando a mão em seu próprio peito, sentindo-as. - Eu tenho orgulho delas. São marcas que provam o quanto me esforcei para manter a paz e a justiça no mundo.

Ela levantou-se, desta vez, sem se preocupar em mostrar sua nudez. E aproximou-se dele.

Seiya ao sentir àquela aproximação, engoliu em seco. Seu coração disparou loucamente no peito. Os cabelos molhados eram a única coisa que tampavam as partes íntimas dela. E mesmo assim, a visão que teve era sublime. O corpo de Saore era extremamente perfeito.

Ao ficar frente a frente com ele. Saore repousou a mão sobre um dos ombros dele, em seguida, desceu as pontas dos dedos para o peito, delineando as pequenas cicatrizes.

- E por algum motivo, eu também tenho orgulho delas, quero dizer, tenho orgulho de você.

Ele sorriu, tocou o queixo dela com delicadeza, e o ergueu para olhá-la nos olhos.

- Eu a amei, Saore. – confessou. - Eu ainda a amo.

Ela fechou os olhos, sentindo àquelas palavras inflarem o seu peito e ao mesmo tempo enche-la de angustia. Seu rosto corou e o seu coração passou a bater forte, descompassado. Sorriu docemente.

- Você amou e ama, a deusa Atena. Não eu, Seiya. – confessou ela pesadamente, se aproximando dos lábios dele. – E eu sinto inveja desse amor... – declarou ela, beijando-o nos lábios.

Seiya se assustou com àquela iniciativa vinda dela. No entanto, sentiu um imenso calor lhe tomar. E abraçando-a, correspondeu àquele beijo. Não havia duas Saores, nem duas Atenas em seu coração. Eram uma única pessoa, tinha certeza disso. E por isso, a pessoa que ele amava, era àquela ali mesmo, em seus braços.

-...

XXX

Os primeiros raios de sol tocaram os dois corpos deitados nus no chão. Shunrey estava aninhada no peito de Shiryu e apenas seus longos fios, cobriam a nudez dos dois. A madrugada havia sido maravilhosa. E ambos haviam chochilado um pouco tempo, mas acordaram ao ouvir o cantar dos pássaros.

- Shiryu? – chamou ela.

- Sim?

- Eu tenho que ir.

Os dois se sentaram no acolchoado de Ryu, e só então Shiryu voltou a se preocupar com amigo. "Eu me esqueci completamente dele!".

- Shiryu... – A menina começou a sentir um tremor pelo corpo. – Eu tenho mesmo que ir, viva sua vida intensamente. Eu te amo...

- Shunrey, eu sempre a amarei. – declarou ele, segurando o rosto dela e puxando-o para si, para beijá-la pela última vez.

E enquanto eles se beijavam, o corpo da jovem começou a pulsar e a passar por uma estranha mutação. Ele estava dobrando de tamanho, ganhando músculos, os seios escolheram, as pernas engrossaram e se tornearam. Shiryu estava alheio àquela transformação. No entanto, o jovem, no qual ela se transformara, despertou do que parecia ter sido um transe. E não acreditou no que seus olhos viam e principalmente, no que a sua boca sentia. E concluiu que só poderia ser um sonho, afinal, estava sendo beijado pelo seu Shiryu.

"Talvez não seja um sonho. Talvez a fonte dos desejos funciona de verdade!", pensou ele, sem parar para raciocinar direito. O coração dele disparou. E a única coisa que ele queria naquele instante, era responder àquele beijo, e pensando dessa forma, abraçou Shiryu fortemente e correspondeu ao beijo de forma intensa.

Mas ao ser abraçado com àquela força e beijado daquela forma exagerada, o ex-cavaleiro de Dragão se sobressaltou. Havia algo de errado, àquelas mãos grossas e àquela força não poderiam ser da sua delicada Shunrey. E assim, abriu os olhos e quase enfartou ao perceber que estava sendo agarrado pelo amigo Ryu. Não, ele estava imaginando coisas novamente, fechou os olhos e levou as mãos no peito dele apalpando-o para certificar-se de que ali haveria um par de belos, redondos e macios seios. Ficou pálido e travado ao constatar que não havia seios redondos e sim... um peito musculoso. Não era a sua Shunrey. Suou frio.

- Porque parou de me tocar, Shiryu-sama? Continue, suas mãos são tão...

- Ryuuuuuuuuuuuuuuuuuu! – Shiryu empurrou o rapaz com tanta força, que o lançara de volta na fonte que estava há alguns metros de distância deles. – O que você pensa que está fazendo, seu pervertido?!

- Era bom de mais para ser verdade...

Continua...

XXX

Ufa! :D

Para contestar as reclamações dos fãs e até mesmo do próprio ator, sobre sua escassa aparição em Os Garotos! Esta aí um capítulo inteiro, quase todo dedicado ao nosso belo Dragão chinês, com direito a lendas chinesas e tudo mais. O Shiryu só dividiu os holofotes dessa vez, com o não menos importante: Seiya. (Que amo também :D).

Dedico o capítulo em especial, ao meu filho Duuh que começou a ler a segunda temporada (e é fã incontestável do Shiryu), obrigado amor! Mas deixe seus comentários aqui na fic também! E para Naluza, fã incondicional do Shy. E agradecimento ao novo leitor, o Andarilho das fics (O Ikki também é o meu favorito e ele será só um porquinho possessivo)! Prometo no próximo capítulo, responder todas as reviews! *levanta a patinha* :D

Só um pequeno detalhe, essa lenda da princesa que se apaixonou pelo Dragão Shenlong foi inventada por essa minha cabecinha loira aqui. Não tem nenhuma ligação com os mitos chineses. Há não ser, claro, a utilização do próprio Dragão Shenlong, que realmente existe na mitologia chinesa, e que todos já conhecem, ou pelo menos ouviu falar, da série Dragon Ball.

Esse capítulo também estreou os meus episódios "viagem na maionese". Como foi o "O presente do Antiquário" na primeira temporada. Afinal, foi a única forma que vi para o Ryu ganhar um beijo do Shiryu, e também para resolver a situação do Shiryu com a Shunrey, que deixei meio apagada na primeira temporada. Mas diferente dos capítulos dos anjos, dessa vez, eu peguei leve. Mas tenho certeza, que alguns vão achar estranho esse poder de metamorfose da fonte. Se não entenderam o que se passou aí (apesar de que pra mim, ficou claro) no próximo capítulo terá uma explicaçãozinha básica, para deixá-los situados. :D

Adorei fazer esse capítulo, por mais dois motivos. Primeiro, estava tão preocupada com o casal principal (Shun e Hyoga), que estava com medo de não conseguir trabalhar bem os outros personagens e desenrolar esse capítulo tão facilmente me deu um alívio. Segundo, por trazer de volta, o clima do Santuário. A cena que fiz do Seiya e da Marin, foi algo bem especial mesmo. Para mostrar para os fãs, que não esqueço em nenhum momento do que eles realmente foram, e ainda são, cavaleiros.

Acho que uma das surpresas desse capítulo, ficou por conta do aparecimento dos "little golds" os pequenos filhos dos dourados. Por esta eu tenho certeza que vocês não esperavam, hai? :D

Bom, chega de conversa! Obrigado pelos comentários, e já sabem, continuem comentando!

Ah! Só um merchan básico, já que o Diih (Aédil) faz questão de sempre divulgar a minha fic na fic dele. Leiam: "O Filho de Zeus!" do Aédil-kun, fic muito boa!
Vocês vão gostar.

E de quebra, também divulgar as fics da minha noiva Vane (você não leram errado é "noiva", ela me pediu em casamento e eu aceitei, óbvio! :D), ela é uma pessoa que me dá uma mão não só com a fic, mas sobre escrever em geral, afinal, ela é uma escritora profissional e eu gostaria de um dia, me tornar profissional também. Então, repito aqui, o que já disse para ela: Acho que todos os fãs de Saint Seiya deveriam ler as fics escritas por ela, o enredo é realmente perfeito, bem embasado e minuciosamente detalhado, para que tudo se encaixe perfeitamente com a série e a personalidade dos Saints. Então, leiam, eu garanto, não vão se arrepender. Pelo menos, a minha preferida "O último dia de Aioros" eu garanto! (Eu descobri o segredo da Valentina! *pula de alegria* :D).

Ainda por problemas técnicos, meu amado RafaChoquito não estará presente com seu programa nesse capítulo. Mas, esperamos que ele esteja de volta no próximo!

Meu beijo coletivo!

See you next!

XXX

Vocabulário

1 Onegai shimasu: por favor. (forma polida);

2 Matte Kudasai: espere, por favor. (forma polida);

3 Matte – espere.

4 Kamui – armaduras divinas;

5 Kekai – barreira;

6 Ie – Não.

7 Shenlong - literalmente "espírito de dragão", é um mito chinês do dragão que controla o vento e a chuva. Essas entidades têm o poder de flutuar no céu e, graças a sua pele azul, dificilmente pode ser visto. Shenlong governa o vento, as nuvens e a chuva, e de suas graças depende a agricultura. Se ofendido, pode ficar furioso, o que atrairia mal tempo, chuvas e tempestades.

8 Oyasuminasai – boa noite, para quem vai dormir.

9 Sumimasen – com sua licença (formal);

10 Ore – Hã; como; hein;