Capitulo III
Dias depois de Saga ter "seqüestrado" Nysa, um certo alguém observava Saga voltar do treino, preparar o jantar e correr para seu quarto. Todo dia era a mesma coisa. Ele tinha uma idéia do que estava acontecendo, pois vivia escutando atrás da porta. A questão é que ele não tinha idéia de como seria essa "visitante". Teria que fazer algo, e deveria ser em um dia de treino do outro. Quando o silêncio se fez presente no quarto, ele voltou para seu quarto e foi dormir planejando o que deveria fazer.
No dia seguinte foi treinar no lugar de Saga. Avistou Shura e Aiolos caminhando e rindo de algo que viram no caminho para a arena. Achou que essa era uma boa oportunidade para por em prática seus planos.
- Olha só que vem lá, um casal alegre!
Aiolos e Shura olharam pra trás, não viram nada, olharam pros lados, nada também.
- De quem você está falando, Saga?
- Tem mais alguém aqui por acaso, Aiolos? É claro que é de vocês mesmo.
- O Saga está a fim de apanhar hoje...
- Eu apanhar de você, Shura? Nunca... vou fazer vocês dois lamberem meus pés hoje.
- É hoje que eu vou partir sua cara ao meio, Saga.
- Meninos, não percam a calma... Hoje vocês treinarão com os aspirantes a armadura de prata... – o mestre escutou Aiolos e Shura protestando contra, mas mesmo assim, não passou disso – Aiolos, você treinará com Orpheu, Shura com Asterion, e Saga com Moses. – aproximando-se de Kanon falou num tom sério – Quanto a você, astucioso rapaz, assim que terminar o treino, quero que vá ao templo principal.
Logo que se viram a sós com Saga, Aiolos e Shura comentaram:
- Dessa vez você conseguiu escapar, mas amanhã...
- É o que sempre digo, Shura. Saga é o protegido do Grande Mestre, e quando faz besteira leva apenas uma pequena bronca, enquanto que para nós, o tratamento é diferente. Mesmo assim, isso não nos impede de dá o troco no dia seguinte.
Era isso o que Kanon queria. Feliz com o resultado, treinou com Moses exibindo um sorriso vitorioso. Esse sorriso só desapareceu depois de algumas horas, diante das grandes portas do salão principal. Entrou, e prontamente ajoelhou-se diante do grande mestre, em sinal de respeito.
- Pensa mesmo que não sei o motivo pelo qual cria desavenças com seus companheiros, Kanon? Por mais este desatino, passará a noite toda limpando cada livro da biblioteca, e assim que terminar pode voltar para sua morada onde terá que ler estes livros. – o Grande Mestre apontou para dois livros encima da mesinha – Esteja pronto para debater o assunto depois de amanhã ao término de seu treino.
Kanon pegou os livros e saiu sem contestar para fazer a tal limpeza. Em seu caminho de volta ao templo de gêmeos, praguejava de todas as formas possíveis. Mas havia outro lado da moeda, ele pensava: "o fim justifica os meios". Sempre fora assim desde que começou a morar no templo de gêmeos.
Caminhava por entre o bosque, a procura do que comer, e teria que encontrar logo, pois estava anoitecendo, e logo não encontraria o caminho de volta. No entanto, ouve uma voz doce cantando uma música alegre. Foi em direção de onde supunha vir a melodia. Não muito distante, encontrou uma casa feita de madeira retirada do bosque, com alicerce de concreto. Aproxima-se procurando ver a quem pertencia aquela bela voz. No entanto não conseguiu ver. Dentro do casebre estava escuro. Escutou passos adentrando a casa e o emudecer da voz. Ficou apreensivo para saber qual fora o motivo para a melodia parar abruptamente, mas a noite já dava seus primeiros sinais no céu. Pôs-se a correr em direção ao bosque. Quando chegara a seu destino, tentou dormir de todas a maneiras possíveis. Tudo era em vão. Sua barriga denunciava a intensidade de sua fome, e sem nada para comer, passou a noite inteira em claro.
O dia seguinte pareceu promissor, pois escutou novamente a tal melodia, e desta vez, ele não teria que se preocupar com a fome. Estava satisfeito, e ainda tinha comida suficiente para passar a noite toda acordado se quisesse. Ele jogou umas pedrinhas na lateral da casa para poder ver se o anjo aparecia, e mostrasse seu rosto. No momento em que escutou os passos vindo de dentro da casa, se preparou para olhar bem. Os passos pararam ao escutar o barulho da porta se fechando.
- Pelo menos hoje você parou de cantar essas músicas irritantes. Vai logo dormir, que não quero ser incomodado por nenhum barulho. Logo terei que voltar ao trabalho... e só terei apenas uma hora para descansar.
O garoto desistiu de esperar a doce melodia voltar a soar. Retornou ao lugar onde morava, um lugar inóspito no meio do bosque. Toras de madeira apoiadas em uma grande pedra era o telhado, palhas reproduziam a idéia de um leito, um local para assar a carne da caça na brasa e uma cuia para beber água. Esse era o lugar onde este garoto de aproximadamente nove anos vivia. Ele mesmo perdera as contas de quanto tempo fazia que estava ali.
Mais um dia se passou, e nada parecia diferente. Foi feliz da vida escutar a melodia que lhe agradava tanto escutar, porém, tinha algo estranho. A voz melodiosa e alegre, agora parecia um suspiro de tristeza. O garoto se aproximou e jogou pedrinhas na lateral da casa como tinha feito no dia anterior. Eis que escuta uma voz arrebatada pelo choro:
- Quem está ai?
- Por que choras? Onde está aquele ser angelical que encantava alegremente qualquer ser vivo com a voz mais doce que o mel?
- Foi você que jogou pedras na minha casa ontem?
- Sim! Todos os dias venho aqui atraído por sua melodia, sem nunca poder ver o rosto de sua autora...
A garota pretendia responder com mais perguntas, porém escuta passos de alguém que estava prestes a entrar na casa.
- Vai embora logo. – disse baixinho – Antes que meu pai te machuque... desde que minha mãe amanheceu morta, ele ficou muito agressivo... mais do que o normal.
- E você? Ele pode te machucar. – o garoto disse escutando ele gritando o nome "Agnes" e derrubando algumas panelas no chão. – Venha, vamos fugir dele...
- Não! Ele não fará nada comigo... vai embora! Agora eu irei cuidar dele, e logo ele estará dormindo...
Sem muita opção pra se tomar, o garoto afastasse da casa, mas não fora muito longe. Ele ficou na entrada do bosque, de onde poderia escutar o que acontecia na casa. Imaginou que seu nome era Agnes, pois o homem que adentrou na casa a mandava trazer a comida e bebida. Algumas horas se passaram, e silencio parecia ter se instalado na casa. Um mero engano.
- Acorda, sua inútil... eu quero mais bebida... – ele passou por um candeeiro de qualquer jeito, fazendo-o cair no assoalho. – Eu passo o dia todo trabalhando, sabe pra que? Pra você ficar chorando pelos cantos, e cantando aquelas músicas irritantes.
A garota acordou no susto, e foi logo providenciar a tal bebida. Quando chega na sala, ela grita "fogo". O pai a pega pelos cabelos dizendo:
- Eu mandei você me dar mais bebida... vai fazer logo o que eu mandei... você é tão inútil quanto a sua mãe era...
Não teve jeito, ela teria que servir a bebida dele, e depois tentar apagar o fogo sozinha. Nervosa, deixou um pouco da bebida cair nas pernas de seu pai. Ele ficou furioso, puxando o cabelo dela em direção do fogo:
- Pare, papai... o senhor vai me machucar...
- Eu quero que você morra. Você é culpada da doença de sua mãe... morreu por sua culpa...
A garota chorava a cada palavra que ele dizia. Isso doía muito, pois sabia que seu pai só estava assim por causa da bebida. Ele ficava bêbado muito rápido.
O garoto sentiu um cheiro de madeira queimada, mas achou que se tratava de alguém cozinhando algo. Quando ele escuta o primeiro grito de Agnes, saiu correndo em direção a casa. Como já era noite, mal dava pra enxergar nada, e então o garoto prendeu o pé entre duas pedras. Estava doendo muito, mas não ia se deixar levar pela dor. Soltou seu pé, e foi mancando até entrar na casa. Havia muita fumaça. Ele cobriu a boca e o nariz com um pano para não se sufocar, e foi em direção da gritaria. Era Agnes dizendo que havia fogo e eles deveriam sair de lá, enquanto seu pai dizia que ela deveria morrer queimada como uma bruxa que era. O garoto consegue encontrá-los, e faz de tudo para que seu pai a soltasse. O homem joga a menina contra a parede perto do foco do incêndio, e já partia pra cima do garoto, tentando estrangulá-lo. Agnes não teve outra alternativa. Pegou uma panela de barro, e bateu na cabeça de seu pai com toda força. A panela se espatifou toda. O homem soltou o garoto, e caiu encima das chamas. Os dois saíram correndo na medida do possível, pois o menino ainda estava com o pé machucado. Eles escutam vozes de soldados se aproximando:
- Vai embora logo, pra longe do santuário. Se eles te pegarem, não irão querer escutar os verdadeiros fatos, e te punirão.
- Mas... e você? Salvou a minha vida mesmo estando ferido...
- Não se preocupe! Eu sei de um lugar que não me encontrarão.
- Diga-me ao menos o seu nome... com toda essa fumaça não vi seu rosto.
- Kanon...
Agnes fugiu de lá, deixando Kanon tentando arranjar um jeito de se esconder. Foi inútil, os soldados chegaram no exato momento em que tentava se manter de pé depois do tropeção em uma raiz da arvore velha.
- Quem é você, e o que faz aqui? – Dizia o soldado sem poder ver o rosto escondido na penumbra da noite.
- Não está me reconhecendo, idiota? Sou, eu Saga... Estava com dificuldades pra dormir, então resolvi sorver um pouco de ar puro quando senti o cheiro de fumaça. Corri muito, e acabei me machucando.
- O incêndio tomou toda a casa. Agnes e seu pai devem estar carbonizados. O que devemos fazer? Levamos Saga para sua cabana?
- Não. Ele deve se apresentar no templo principal, e esclarecer todos os fatos ao Grande Mestre. Lembra-se que o Mestre disse que deveríamos levar Saga diante dele se saísse de sua cabana?
Assim foi feito. Kanon foi levado a presença do Grande Mestre que apenas ouvia o relato do garoto. E quando este terminou, a voz do grande mestre soou fria e distante:
- Suposto Saga, qual é o seu verdadeiro nome?
- Suposto Saga? Não sei do que o senhor está falando, Mestre... eu...
- Pode enganar qualquer um com sua aparência idêntica a Saga. Tanto que conseguiu se passar por seu irmão gêmeo diante dos guardas, mas a mim, este truque não funciona. Pretende falar seu nome, ou serei obrigado a entregar você aos cuidados dos guardas?
- Como o senhor sabe que Saga é meu irmão gêmeo?
- Sei de muitas coisas, Kanon Lycaios. – Kanon ficou em silêncio mediante ao assombro de ver que nada podia passar despercebido por aquele homem. O grande mestre prosseguiu assim que deu um tempo para o garoto recuperou-se do choque inicial: – Assim como também sei que demorou muito tempo para dar a graça de sua presença... Tenho uma proposta para você, meu jovem.
- Se quer me tornar seu servo como fez com Saga, a minha resposta é "não".
- Saga não é meu servo, e sim da deusa Athena. O dever dele é se tornar um cavaleiro de ouro e defender o mundo das ambições e maldades à solta... E você meu caro, não está excluso deste papel importante que deve ser desempenhado por ambos até descobrir a quem o destino reservou esta benção.
- O que o senhor quer dizer com isso?
- Que deverá se passar por Saga todos os dias em que ele não for treinar, e jamais sair do templo de gêmeos sem minha aprovação. Quando chegar o momento adequado, ambos digladiarão a fim de ver quem terá a honra de aderir nobre causa de Athena, usando a mais poderosa amadura entre todas as outras.
Nada mais foi dito, e ambos foram ao templo de gêmeos, onde Saga esperava pelo grande mestre. Seu rosto mostrava assombro. Nunca tinha visto alguém tão parecido com ele em toda sua vida. O Grande mestre explicou que Saga fora encontrado por uma garota, e que tinha um grande ferimento na cabeça, tornando possível esquecer seu passado. Anunciou que estava diante de seu irmão gêmeo, Kanon. Explicou todos os detalhes que deveriam fazer durante o dia-a-dia.
- Bom dia, meus amigos. – Saga sempre saudava Shura e Aiolos com este cumprimento e um doce sorriso.
- Realmente está fazendo um ótimo dia, não acha, Aiolos?
- Sim. Realmente ótimo para ensinar uma lição a um falso e descarado amigo.
Aiolos e Shura estavam muito hostis naquela manhã. Sua surpresa seria maior se não conhecesse Kanon tão bem quanto conhecia. Teria que arranjar um jeito de escapar apenas com pequenos ferimentos para ter forças suficientes o bastante e dar uma boa lição em Kanon. Entretanto, seria muita sorte se conseguisse sair de lá por suas próprias pernas. A desordem só cessou, quando uma voz feminina, porém, forte se fez presente.
- O que está acontecendo aqui?
Os três olharam para a autora de tão intimidadora voz, vendo que se tratava de uma amazona de cabelos verdes claro. Shura, sorrindo desdenhoso, respondeu:
- É algo, reles amazona, que não lhe diz respeito.
Sem perder tempo, a amazona derrubou Shura com um simples, porém, ágil golpe que fora incapaz de ser visto pelos futuros cavaleiros. Com uma voz mais desdenhosa que outrora Shura mostrava seu sorriso, anunciou:
- Subam agora mesmo para o templo do Grande Mestre.
A amazona ofereceu a mão em auxilio de Saga, mas este desvencilhou com orgulho estampado na voz:
- Sou capaz de conseguir caminhar sem a ajuda de ninguém.
- Não duvido.
A amazona fala sarcasticamente. Saga estava se esforçando ao máximo para dar um passo atrás do outro com dignidade. Não deixaria que uma amazona percebesse seu estado lastimável. Ao chegarem no templo principal, os três se ajoelharam respeitosamente perante o grande mestre. Ao verem a direção que o rosto encoberto pela máscara do grande mestre enviava, olharam também curiosos. Lá estava, a amazona sem demonstrar respeito algum a segunda maior autoridade do santuário depois de Athena.
- A amazona em questão, é Phebe Stoneheart, que retornou ao santuário após longo tempo distante. – dizia o grande mestre com um tom reprovador na voz – Seu humor é questionável assim como seu comportamento, no entanto, sua habilidade e destreza de amazona é incontestável, tornando-a indispensável a frente de defesa do santuário.
- Que terei a honra de prestar meu auxílio em último caso.
- Mestre, não precisamos de amazonas para defender o santuário... principalmente desta que podemos ver nitidamente se tratar de uma covarde com pompa fajuta de mais forte dentre todas.
- Para seu próprio bem, meu jovem, sugiro que seja mais amistoso com Phebe... podem voltar a seu treino.
- Mas a gente nem se apresentou. Eu sou...
- Afável Aiolos, aspirante a armadura de Sagitário. Ao seu lado está o pedante Shura, aspirante a armadura de Capricórnio, e por fim, Saga, com sua cara metade à prova, talvez imaginável aspirante a armadura de gêmeos.
Saga foi o único que recebeu aquelas palavras da amazona com extremo choque estampado em seu rosto. Os olhos dos outros dois estavam arregalados, sem poder dizer uma palavra que demonstrasse seus espantos, mas não tanto quanto os dele, nem o coração de Shura e Aiolos podia estar tão acelerado quanto o de Saga. O silêncio cessou-se quando a voz firme do Grande Mestre ecoou:
- Podem retornar a seus treinos.
Assim que estavam saindo, Saga escutou apenas uma única palavra proferida pelos lábios da amazona: "Kanon". Ficou tenso no mesmo instante. Quaisquer dúvidas sobre o quanto aquela amazona sabia de sua vida estavam escancaradas em forma de resposta depois da abrupta risada dela. Phebe Stoneheart sabia de Kanon. Escutou ao fundo o Grande Mestre reprovando novamente a as atitudes da amazona.
- Vejo que o bom senso continua excluído de seu vocabulário, Phebe.
- Pode ter certeza que no lugar dessa palavra adicionei outras piores, Grande Mestre.
Saga pensava muito sobre o que escutou ao sair do grande templo, tentando entender o motivo daquela amazona saber tanto sobre sua vida. A forma que ela descreveu cada um deles insinuava que sabia não só dele como de Shura e Aiolos. Continuou treinando pela tarde com estes pensamentos assombrando sua mente a tal ponto que lhe impediu de lembrar que deveria voltar correndo pra cuidar de sua hóspede. Nem mesmo passou pela cabeça o motivo que fez seu irmão agir errôneamente de propósito. Sempre soubera que ele fazia coisas do tipo com alguma finalidade a mais do que vê-lo apenas pagando por algo que não cometeu.
Continua...
