Mais frio do que ontem, era tudo em que Shibuki conseguia pensar enquanto sua mãe docemente a chamava para tomar café da manhã.

A localização do País do Ferro justificava seu clima, no extremo norte fazia fronteira com o País do Trovão, além de grande parte de seu território ser cercada pelo mar; essa era a junção de fatores que determinava o imenso frio do lugar. Além do clima, o território não era propício para muitas atividades e, em razão disso, o quão mais ao norte a pessoa se situava, mais frio sentia. Essa era a situação do pequeno povoado que contava com nada menos que cem habitantes, sendo conhecido por fazer jus às origens e guardar um aspecto rústico, ou seja, um lugar que não tinha nada; como em uma história macabra; um conto de Edgar Allan Poe.

Após o silencioso desjejum com sua família, a menina acompanhou o pai até a floresta com o intuito de cortar mais lenha para aquela noite. Observando-o e juntando os pequenos galhos, ela o ouviu murmurar.

- Esse lugar me dá arrepios.

- Acho que todo mundo se sente assim – concluiu ela, abafando uma risada. – Estamos afastados do próximo bairro, rodeados por essa floresta sem fim e, ainda por cima, nossa maior construção é um cemitério.

O comercio local se resumia a nada mais que uma farmácia, um pequeno posto de pronto atendimento – vulgo, saleta com kit de primeiros socorros e alguém de que se dizia enfermeira –, uma mercearia e um açougue. Havia também a escola, a Igreja e o cemitério. "Ó, Vós que entrais, Abandonai toda a esperança".

Os dois olharam a seu redor. Um lugar esquecido por Deus era o que se passava na cabeça do velho Shimura. Não era de se espantar que o cemitério fosse maior que o pronto socorro. Continuava cortando a lenha enquanto se lembrava.

O homem era um monstro. O lobo em pele de cordeiro. Bonito, gentil, inteligente e simpático, porém quando menos esperava ele se virou contra todos e tirara várias vidas, inclusive quase tirou a de sua mulher. Sua querida Tsurama1. E agora o marido daquele demônio estava de volta à cidade e ele parecia o único a se preocupar.

Foi durante seus devaneios e descontando sua raiva ao cortar a lenha, que não percebeu quando sua filha sumiu de vista.

Andando há vários minutos entre a mata foi que a garota percebeu que estava perdida e continuava andando em círculos. Já fizera aquele caminho várias vezes, mas pela primeira vez se perdeu.

- Pai! – começou a gritar esperando que ele viesse em seu encontro, porém nem mesmo os corvos se mexeram.

Ótimo, pensou ela, distraído como sempre. Não me surpreende que tenha perdido uma filha.

Shimura Danzõ sempre acreditou que tinha a família perfeita. Uma esposa dedicada, um filho que era sua cópia e duas lindas filhas que se casariam com bons homens da região. Sempre se limitou a viver nos limites de seu país e achou que fosse o que precisava, até ele aparecer.

Passou anos até descobrir que Tsurama tinha um irmão e não pode esconder seu espanto quando o conheceu. Todos pareciam surpresos, o destino os levou ao mesmo lugar após tantos anos separados. Sua filha mais velha Shizuka, logo que conheceu o tio, se animou e convidou ele e o marido para um jantar na casa da família. Mesmo parecendo atordoados, logo aceitaram. O casal era completamente diferente, conheciam o mundo e passaram a noite contando histórias, entretanto não fora isso que intrigou o chefe da família Shimura. Se eram tão simpáticos e perfeitos, por qual motivo sua esposa nunca havia mencionado um irmão mais novo? Por essa razão, naquele momento decidiu que faria de tudo para conhecer melhor seus cunhados.

Os meses se passavam e as filhas estavam cada vez mais próximas dos tios. Isso doía no coração de Danzõ. Ver como suas meninas ansiavam por conhecer o mundo o fazia se sentir culpado por não permitir isso a elas. Certa noite, enquanto fumava um charuto que o Uchiha havia lhe dado e este bebia um copo de whisky, sentados nas cadeiras na varanda da casa, fora que o cunhado lhe perguntara o que o afligia.

- A nossa chegada os incomoda? – indagou o homem antes de prosseguir. – Acredite, não fazíamos ideia de que Tsurama morava aqui.

- Então você sabia da e...existência dela? – gaguejou o velho Shimura.

- Você não sabia de nós?

- O que quer dizer?

- Bom, meu velho, – continuou ele – acredito que eu...

Antes de concluir a fala, o cunhado veio e se sentou nas pernas no marido, interrompendo descaradamente a conversa.

- Acredito que Tsu esteja cansada e as crianças também, vocês deveriam ir – disse com sua voz aveludada.

O homem se levantou um pouco confuso e foi em direção à cozinha, mas não sem antes olhá-los sussurrando.

- Desgraçado – xingou ele, enquanto colocava toda a sua força para fazer o serviço.

As lembranças de que tudo desandou com a chegada deles no povoado, fez sua raiva aumentar. As lembranças da jovem Shizuka e de como ela foi morta justamente na casa dos tios. Mas ele sabia que havia sido o cunhado, se recordava de como este não pareceu nem um pouco comovido quando a menina desfalecera na sua sala de estar enquanto tomava um chá. Não havia dúvidas, principalmente com o rastro de tragédia que o homem deixou na aldeia.

Um dia ele iria pagar por matar sua garotinha.

Enquanto isso, Shibuki continuava andando no caminho que achava que iria levá-la de volta para casa. Quando viu que só adentrava mais a floresta; cansada e com frio se sentou, e abraçada aos joelhos chorou.

- Seu medo vai passar, meu amor, eu prometo.

Após ouvir uma voz aveludada sussurrando isso, tudo ficou escuro e a promessa foi cumprida.

Neste exato momento, na mesma floresta, um homem usava seu machado para cortar a lenha que iria usar para aquecer a ele, à sua mulher e aos seus dois filhos naquela noite.

Senju Tsurama é uma das personagens originais da história e será explicado mais sobre ela nos próximos capítulos.