Envenenando um coração

Há uma abertura entre
Há uma espaço onde nós nos encontramos
Onde eu termino e você começa

Ele desceu as doze casas contrariado naquele dia e, por mais que jamais admitisse isso, estava nervoso por ter de cumprir aquela missão. Com tudo, pouco ou nada importavam seus escrúpulos, ordens eram ordens e ele tinha a obrigação de cumpri-las.

Queria ter metade do gênio de Aiolia. O colega de profissão não tinha nenhum problema em virar as costas ao Santuário se achasse que uma determinação do Grande Mestre ia contra seus princípios e sua ética pouco ortodoxa. O Leão sempre agia de acordo com suas próprias regras, arredio a qualquer tipo de ordem que contrariasse seu coração e nunca desperdiçava uma boa oportunidade de mostrar que jamais serviria ao homem que mandou matar seu irmão Aiolos.

Seu humor não melhorou quando topou com as duas amazonas que Cibele trouxe. Aiolia agia como se aquilo fosse um martírio, enquanto Milo, mesmo pensando que era absurdo um ritual daqueles em tempos modernos, sentia a ansiedade e a urgência de estar com uma mulher nos braços. Se bem que o termo "mulher" mal podia ser indicado àquelas duas meninas mascaradas.

Enquanto o Leão lutava com seus próprios ideais, Milo deu um passo à frente e tentou encarar o dever de maneira prática. Sua atenção se fixou na amazona que demonstrava melhor estrutura de corpo. Ela tinha um belo contorno, ainda que não estivesse totalmente desenvolvida.

Bastou uma simples pergunta e seu destino foi lançado, mesmo que ele não soubesse disso. Ela era arredia, esperta, geniosa, tudo o que ele mais prezava numa mulher. Tudo aquilo que fazia uma conquista valer à pena. Não podia admitir insubordinação de uma aprendiza enquanto fosse um cavaleiro de ouro. Tomou sua decisão sem pestanejar.

Agarrou-a pelo braço e a conduziu, com alguma de dificuldade, pelo caminho que levava às cabanas que serviam de alojamento para as amazonas. A garota tentava se livrar dele inutilmente e Milo a admirou por sua obstinação e teimosia, mas isso não significa que ele estava disposto a ser taxado de incapaz por não conseguir "ensinar" uma garota que nem havia recebido a sagrada armadura.

Sem muita paciência ele abriu a porta tosca da cabana entrou junto com a garota, fechando a porta em seguida. Observou a silhueta das costas dela, a pose rígida de quem se prepara para receber um golpe. Ele passou as mãos pelo cabelo nervoso. Shaina parecia uma muralha intransponível de orgulho e com certeza daria trabalho. Não conteve um sorriso sínico que se formou em seus lábios. A idéia do desafio o agradava.

Caminhou até ela convencido de que não teria muitos problemas para seduzi-la. Ela era jovem, inexperiente e não saberia como reagir ao charme profissional de um cavaleiro, ainda mais quando ele era o cavaleiro em questão. Bastou um toque no ombro esquerdo dela para que suas esperanças fossem mandadas para longe com um potente soco que Shaina lhe desferiu automaticamente na região do abdômen.

Milo caiu no chão estupefato e atordoado pelo ataque repentino. O que era um soco se tornou uma série de golpes de mãos e pernas violentos, dos quais o cavaleiro de ouro teve pouco tempo para se defender. Shaina não dava tempo entre um golpe e outro, mas sua técnica ainda era inferior, mesmo que fosse eficiente. O Escorpião se esquivou como pode, sabendo que ela logo se cansaria naquele ritmo frenético. Um segundo de descuido e ele a agarrou pelo pulso e imobilizou o braço da garota atrás das costas.

Shaina ainda tentou se soltar, mas foi inútil. Milo apertou o braço dela com mais força e colou o corpo dela ao seu. A amazona gemeu e aquele foi um erro grave. O que era uma luta inconseqüente se mostrou capaz de despertar outros sentimentos no cavaleiro. Ouvir o protesto dela o excitou, o corpo dela contra o dele era tentador e o cheiro da garota o estava tornando irracional.

Ele não era doente ou qualquer coisa, mas gostava de saber que estava no comando. Poder o seduzia e controle sobre a presa causava uma explosão de sensações dentro dele. Nunca antes uma mulher o havia recusado, fosse amazona, serva, ou civil. Ele se orgulhava de ser um sedutor nato, mas a maioria das conquistas acabava por torna-se monótonas. Shaina era o oposto das outras, era a negativa em pessoa e isso a tornava ideal.

Sua escolha foi mais do que acertada e por incrível que pareça ela continuava lutando pra se soltar. Milo usou sua mão livre para agarrá-la pelo pescoço, fazendo pressão para que o ar faltasse. Shaina engasgou.

- Eu tentei ser gentil e você age dessa maneira. – ele sussurrou perigoso junto ao ouvido dela – Eu devia quebrar o seu pescoço por isso, garota abusada.

- Você faz bem o tipo... – ela disse com a voz estrangulada – De homem que precisa bater em mulher pra se sentir macho.

- E você, sua cretina... – ele pressionou ainda mais seus dedos ao redor do pescoço dela – Vai me pagar por tudo isso. – em segundos Shaina perdeu a consciência por falta de oxigenação. Seu corpo pequeno pendeu e Milo a pegou no colo num movimento rápido.

Ela era mais leve do que ele esperava. O cavaleiro de ouro a levou para o quarto, ainda sentindo o efeito da raiva e do desejo queimando-o por dentro. Ela pagaria sim, ele não abria mão de sua vingança. Se toda aquela demonstração ridícula de força era para se proteger de uma noite com ele, então agora Milo tinha motivos reais para quere que o ritual fosse levado até o fim à sua maneira.

Ele a deitou na cama rudimentar talhada em madeira suspendeu os braços dela e, usando um pedaço do lençol, ele a amarrou pelos pulsos. Se Shaina acordasse teria algum trabalho pra se livrar das amarras. Milo foi até os lampiões que iluminavam o quarto e apagou as chamas deixando tudo na mais absoluta escuridão.

Milo não a desonraria daquela maneira, não a humilharia a ponto de forçá-la a matá-lo ou amá-lo, tinha ao menos algum respeito pela personalidade obstinada dela. Se fosse outra, talvez ele desconsiderasse este por menor, mas era Shaina quem estava ali e por mais que estivesse curioso para conhecer o rosto daquela serpente traiçoeira, ela merecia mais consideração do que aquilo. A final ela o havia desafiado em batalha e o mínimo que um cavaleiro poderia demonstrar por um inimigo era respeito.

Ele voltou para a cama e retirou a mascar fria que cobria o rosto da amazona. Seus dedos traçaram cada linha da face oculta dela, sentindo a textura acetinada. Com cuidado ele se livrou das roupas que ela usava, deixando-a nua. Depois de lutar contra ela parecia chocante vê-la tão vulnerável naquele momento. Retirou sua própria armadura e roupas, deitou ao lado dela, permitindo que suas mãos a tocassem livremente.

Shaina ainda estava desacordada e ele pensou que talvez tivesse exagerado na asfixia. No entanto, o momento que ele teve sozinho com o corpo dela e seus próprios pensamentos torpes lhe valeram um plano que talvez fosse mais eficaz do que o próprio ritual.

Ele não a queria desacordada quando estivesse dentro dela, tão pouco forçaria o ato a alguém incapaz de se defender, mas ainda havia algo que poderia ser feito. As amazonas chegavam ao Santuário muito novas, normalmente ainda na infância, e como o contato com homens era proibido até a semana do ritual não era de se espantar que fossem virgens.

Shaina era orgulhosa de mais e para ela seria muito pior do que a morte saber que foi usada por um homem enquanto estava desacordada. Ele havia prometido vingança e cumpriria a ameaça, mas não da maneira mais simples. Ele abriu um corte no antebraço e deixou que o sangue pingasse e manchasse o lençol branco. Com uma tira que havia sobrado da amarra que fez para ela, ele providenciou um curativo. Então começou a brincadeira.

Suas mãos a tocaram sem escrúpulos, descendo pelos seios, entretendo-se com os mamilos rígidos, espalmando a barriga lisa, arranhando as coxas até alcançar a entrada dela. Com dois dedos ele a massageou nos pontos sensíveis, deixando-a úmida. Então permitiu que seus dedos a invadissem, fazendo movimentos sinuosos, ora fortes e rápidos, ora lentos e cuidadosos. Ela sentiria a diferença quando acordasse e seria fácil chegara a conclusão errada.

Para Milo foi necessário todo autocontrole e determinação para lutar contra o impulso de possuí-la, mas ele conseguiu. Deixou a cama e foi ao banheiro, ainda nu. Trancou a porta e segurou seu membro rígido com uma das mãos, enquanto a outra se apoiava na parede. Movimentou a mão por toda extensão, pressionando levemente, alternando velocidades até conseguir aliviar o desejo que ela havia despertado.

E eu sinto muito por nós
Os dinossauros vagam a terra
O céu se torna verde
Onde eu termino e você começa

O plano ia servir para que ela jamais duvidasse das ameaças dele, mesmo que na prática ele não tivesse feito nada contra ela. Milo voltou para o quarto e se deitou na cama com ela, determinado a dormir por algum tempo antes dela acordar.

Mas o sono durou pouco. Shaina despertou e quando se viu atada daquela maneira começou a se debater e gritar. Milo levantou e desamarrou os pulsos dela e o que recebeu em agradecimento foi um tapa na cara. Não revidou por muito pouco, apenas segurou os pulsos dela para que Shaina parasse com a infantilidade.

- O que você fez comigo!? – ela gritou exasperada.

- Há sangue no lençol, estamos nus, tire suas próprias conclusões, menina. – ele respondeu ríspido – Agora fique quieta e me deixe dormir. – ele a empurrou de costas na cama e voltou a se deitar.

No silêncio da noite Milo sentiu a frieza de uma lâmina afiada contra o pescoço. Shaina segurava uma adaga pronta para cortar a garganta dele. O Escorpião não se moveu.

- Vá em frente e tente me matar. Amanhã será banida do Santuário, isso se não for condenada a morte e de que terá adiantado essa vingança ridícula? – Milo falou sério – Mas se é isso o que quer, vá em frente. – Shaina abaixou a lâmina lentamente e se afastou dele. A última coisa que Milo ouviu foi o barulho da adaga batendo contra a parede. – Como eu imaginei. Você não tem coragem de tirar a vida de alguém.

-CALE A BOCA! – ela gritou com a voz embargada pelo choro – CALE A SUA MALDITA BOCA! – Milo sentiu o coração falhar uma batida. Ele a havia feito chorar deliberadamente. Ele se sentou na cama e com cuidado a envolveu em seus braços. Shaina, por mais que o repudiasse, não tentou afastá-lo.

- Essas são coisas que o treinamento não ensina. – ele sussurrou para ela – Eu poderia ter sido bom pra você se sua teimosia não tivesse esgotado minha paciência. Você é boa de mais por debaixo de toda essa arrogância e orgulho infantil, seria uma lástima permitir que um coração tão bom permitir que ele fosse corrompido pela insensibilidade do nosso dever.

- Não diga bobagens. – ela disse entre um soluço e outro – Eu te odeio!

- Tem todo direito de me odiar. – ele disse a medida que sentia uma dor desconhecida se apoderar de seu coração, como um veneno letal que o matava aos poucos – Mas a culpa foi sua. Tudo poderia ter sido bem diferente.

- Você é nojento! – ela disse empurrando-o.

- E você é linda. – foi a ultima coisa que ele disse antes de se levantar e vestir suas roupas e armadura. Ele deixou à cabana enquanto o sol nascia no horizonte. Ela permaneceu no quarto escuro, com sua vergonha, sua raiva, seus medos e dores. No fim das contas, estavam sozinhos, cada qual em sua própria angustia.

Se encontrou com Aiolia quando o Leão estava subindo as escadas das doze casas. Um evento lastimável, já que Aiolia estava de tão bom humor quanto ele. Duvidava que o Leão tivesse levado a missão até o fim e por tanto não resistiu debochar dele, mesmo que fosse para esconder sua real situação de covardia. Acabou por levar outro soco do cavaleiro, aquilo estava se tornando uma rotina irritante.

Foi para casa tentar esquecer a noite miserável que teve com ela, ou quase isso. É claro que não deu certo e isso era irritante. Ela teve o que mereceu e ele não voltaria a procurá-la, mesmo que ainda pudesse "usufruir" da companhia dela por uma semana.

Se continuasse em sua casa por toda noite, sabia que acabaria louco. Ele se vestiu como um civil e foi para Atenas esquecer do mundo. Sempre que as coisas estavam ruins ele acabava fazendo isso, se misturando com humanos normais e procurando conforto nos braços da primeira prostituta que aparecesse.

Já era conhecido no bordel e não demorou a ser atendido. Escolheu uma que tivesse cabelos castanhos e um corpo bonito. Não era tão nova quanto ele gostaria, mas ia servir por uma noite. Só havia uma condição por parte dele. Poderia chamá-la do que quisesse e não foi surpresa quando ele gritou por Shaina no meio de um orgasmo animalesco.

Ele não voltou a procurá-la no decorrer da semana, ao invés disso procurava consolo nas mulheres da noite. Enquanto ele evitava a proximidade de uma amazona, Aiolia estava se afundado pouco a pouco num relacionamento perdido e o Escorpião não desejava isso para si.

Recebeu a notícia de quando ela conquistou a sagrada armadura de prata. Não foi surpresa alguma saber que ela era capaz do feito, ele nunca duvidou disso. Tão pouco era surpresa a constelação que ela representava, chegava a ser irônico. Afinal ela era uma cobra de verdade.

Eu estou acima das nuvens
Eu estou acima das nuvens
E eu não posso e eu não posso descer

Anos se arrastaram numa lentidão assombrosa. Vieram os conflitos, as revoltas e inevitavelmente as batalhas. Cavaleiros de bronze agora lutavam ao lado de uma "falsa" deusa Athena e era o dever dele ajudar a exterminar esta raça inferior de delinqüentes. Na Ilha de Andrômeda ele promoveu um verdadeiro massacre, não fez distinção de homem ou mulher, mesmo que atacar uma amazona lhe trouxesse péssimas recordações.

Queria poder dizer que o nome dela nunca mais foi lembrado por ele, mas seria uma grande mentira. Não houve um só dia que sua mente lhe desse descanso. Foi mais ou menos nesta mesma época que ele soube de um fato interessante, e aqui sintam a ironia.

Ele soube por um acaso que Shaina foi vista sem a máscara por um homem. Ninguém menos que o cavaleiro de bronze Seiya de Pégasu. O garoto que havia sido pupilo de Marin viu o rosto da garota e dês de então estava jurado de morte por ela. Milo soube de várias batalhas que foram travadas entre eles e, não importava que a fama de Seiya era quase lendária por sua inexplicável capacidade de ganhar combates tidos como impossíveis, Shaina nunca conseguiu matá-lo.

Então à noite em que ele a poupou lhe voltou à mente. Ela era realmente tão nobre que era incapaz de matar um descumpridor da lei? Shaina não era fraca a este ponto e sabia que estaria amparada pelo Santuário se tirasse a vida do fedelho. O que martelava a cabeça de Milo era outra coisa, uma possibilidade que ele preferia ignorar, mas sua natureza possessiva o impedia.

Ela poderia ter feito a outra escolha. Amar um cavaleiro em segredo e tentar enganar ao mundo usando aquele orgulho barato que ela tanto prezava. Amar a um reles cavaleiro de bronze, quando ele próprio, Milo de Escorpião, pertencente à elite dourada, estava disposto a por constelações aos pés dela!

Não, ele não estava disposto a se humilhar por uma mulher. Deixaria que ela fizesse isso enquanto descia até o último nível de degradação na esperança de que aquele moleque mimado e imbecil esquecesse Saori Kido e reparasse nela. Ele assistiria de camarote a ruína dela até que Shaina estivesse definhando em desespero por um amor frustrado e ele faria da vida dela um inferno por tê-lo rejeitado e preferido um cavaleiro inferior.

Enquanto ele se envenenava pelo ódio e a vontade inexplicável de ver o chão de sua casa lavado pelo sangue vermelho sujo de Seiya, seus olhos se tornaram vermelhos e ele sentiu sua face ser manchada por algo que a muito ele desconhecia. E ele estava chorando de raiva, ódio e despeito, estava chorando por ela, destruindo tudo que estivesse em seu caminho naquele instante de fúria.

Shaina pagaria! E aquela era uma promessa que ele pretendia levar a diante. Já que ela era incapaz de matar Seiya, Milo o faria no instante que o garoto viesse até sua casa, na batalha do Santuário. Infelizmente, o protegido de Athena era abençoado com uma obstinação inexplicável e conseguiu sair do confronto vivo.

Proibido de se virar contra Seiya, lhe restava apenas à opção de desejar que outro desse cabo do maldito. Enquanto ele se encarregava de brincar com os sentimentos da amazona, como ela havia brincado com os dele.

Ele foi até a cabana dela algumas vezes, ficou a espreita para avaliar a movimentação do lugar. Ocasionalmente ele teve a oportunidade de admirá-la em momentos de relaxamento em que se tornava muito difícil lembrar que deveria odiá-la e não o contrário. Houve uma vez, quando ela estava carregando baldes d'água pra dentro de casa, que ele não resistiu a tentação de falar com ela. Saiu de trás de uma arvore com um sorriso debochado no rosto.

- Estão pesados de mais pra você? – ele perguntou apontando para os baldes. Shaina deixou que um deles caísse no chão, mas Milo o pegou antes que derramasse toda a água – É tão distraída nas tarefas de casa quanto é em batalha, amazona?

- Isso não é da sua conta, cavaleiro. – ela retrucou tomando o balde das mãos dele – O que raios está fazendo aqui?

- Isso também não é da sua conta, cobra. – ele retrucou – Mas como sou educado, posso dizer que estava apenas dando uma caminhada pelos terrenos do Santuário, às vezes fico entediado por não ter nada melhor do que as doze casas para observar.

- Então sugiro que passe longe da minha casa da próxima vez. Posso entender que é um invasor e garanto que não serei nada amigável. – ela ameaçou.

- Vindo de você, não há motivos para que eu me preocupe. – ele disse venenoso – Todos sabem que você é incapaz de matar alguém, a começar por um certo cavaleiro de bronze. Ademais, você já teve uma ótima chance para me matar uma vez e não foi capaz de fazê-lo.

- O que veio fazer aqui? Resolveu tirar o dia para me importunar? – ela disse evasiva enquanto tentava seguir seu caminho em direção a cabana. Milo segurou o braço dela.

- Só queria saber se você ainda não havia se cansado de correr atrás dele. – Milo disse em voz baixa e grave. Shaina trincou os dentes.

- Solte meu braço! – ela ordenou.

- Pelo visto não. – ele constatou com uma pontada de despeito – Satisfaça minha curiosidade. O que você viu nele para que valha a pena tanta humilhação e sacrifício?

- Eu não lhe devo satisfações da minha vida. Saia da minha casa imediatamente! – Shaina ordenou impaciente.

- Sou capaz de apostar que ele a viu num momento em que estava desprotegida, impossibilitada de se esconder atrás dessa sua carapaça de espinhos e veneno. Então ele foi amável como um maricas, gentil o bastante para que você esquecesse o seu dever! – ele botou pra fora sua indignação – Ele não é homem o bastante pra ter uma mulher como você! Aliás, duvido que seja homem para fazer qualquer coisa! Ele não passa de um fedelho efeminado e mimado, que não saberia o que fazer com uma mulher nos braços!

- E você sabe?! – Shaina gritou furiosa – Pelo que me lembro você é tão incompetente quanto diz que ele é! Não consegue uma mulher se não pela força e ainda se diz um homem! Pior, um cavaleiro de ouro honrado! – Milo perdeu a razão com a ofensa dela. O que ela sabia a final? Ele havia tido muito mais consideração com ela do que qualquer outro cavaleiro teria tido e agora era tratado desta maneira?! Tudo o que fez foi por que ela sempre o levou às raias da loucura! Sem pensar duas vezes ela a empurrou contra o tronco de uma arvore e Shaina deixou os baldes caírem no chão. Seu corpo prensou o dela enquanto sua boca se colava ao ouvido dela num sussurro de ameaça.

- Você não sabe de nada a meu respeito. – ele disse baixo – E eu posso te provar aqui e agora que sou homem o bastante. – uma das mãos dele desceu pela lateral do corpo dela até alcançar a coxa e depois as nádegas. Milo apertou com vontade enquanto esfregava seu nariz contra o pescoço dela, sentindo o perfume. – Eu tinha me esquecido o quanto você cheira bem. – sussurrou num tom perigosamente amável. Shaina pode sentir que ele estava excitado, mas era impossível se mecher. Quando pensou que estava perdida ele apenas depositou um beijo cuidadoso na base do pescoço dela e se afastou. – Um dia vamos terminar esta conversa, até lá faça bom proveito daquele frangote.

Eu posso assistir, mas não posso levar parte
onde eu termino e onde você começa
onde você, você me deixou só
você me deixou só
.

Deu as costas a ela mais uma vez. Deixou-a sozinha como sempre fazia, simplesmente porque não agüentava aquela presença torturante. Queria se livrar da imagem dela, queria não entendê-la como fazia.

Era estranho, mas a pesar da máscara que ela usava, Shaina era um livro aberto para ele. Lia sua postura, as entrelinhas de suas palavras ásperas e mesmo nunca tendo visto seu rosto ele a conhecia melhor do que a si mesmo. A amazona nunca fez questão de esconder sentimentos ou qualquer outra coisa, deste modo ver seu rosto parecia algo desnecessário e trivial. De fato, era a primeira vez que pensava a respeito. Não exatamente pela curiosidade, mas pelo que isso implicaria.

Matá-lo ou amá-lo, ele tinha plena certeza de qual seria a opção que ela escolheria. No entanto, uma vez ela teve a chance em suas mãos e acabou por desperdiçá-la. Isso o fazia pensar que talvez ela pudesse sentir algo além de ódio e rancor por ele. Era uma esperança vã, mas estava tão atordoado por tanto tempo de insanidade que a simples idéia parecia tremendamente tentadora.

Em outro mundo, onde ele não fosse o cavaleiro de Escorpião e ela não fosse a amazona de Cobra, talvez tudo fosse mais fácil. Aconteceu algumas vezes dele acordar no meio da noite e sonhar que ela entrava em seu quarto e retirava a máscara. Milo nunca conseguia ver o rosto dela, era sempre uma imagem distorcida, mas ela caminhava até ele e o beijava.

Sonhou tantas vezes com isso que chegava a pensar que era realidade e quando acordava dava de cara com as paredes frias de sua própria casa e sua cama vazia. Ia acabar ficando louco e talvez já estivesse.

Uma vez ele teve a sorte de encontrar Seiya na arena. Soou como um presente divino aquela oportunidade única. Desafiou o garoto para um "treino". Nada de cosmo, ele queria extravasar. E como extravasou! Cada soco, cada pontapé, cada cotovelada nas costelas era uma benção.

Ver o sangue de Seiya pingando pelo chão da arena dava um novo animo ao cavaleiro de ouro e não havia Hades que pudesse dar naquele fedelho a surra bem dada que ele merecia! Aquilo era pra ele aprender a não mecher com aquilo que pertence a Milo de Escorpião e, pra ele, Shaina se encaixava nesta descrição.

Foi preciso que Aiolia e Mu viessem separar a briga. Milo saiu da arena quase arrastado, ainda querendo reduzir Seiya a pó e se não fosse pelos amigos provavelmente o teria feito. O cavaleiro de Leão levou Milo até em casa e depois de alguns minutos tentando fazer o escorpiano manter a calma eles finalmente puderam conversar.

- O que diabos você estava querendo, Milo!? – Aiolia gritou – Tem noção de que poderia tê-lo matado!?

- Era precisamente esta a idéia! – Milo retrucou no mesmo tom – Teria sido muito bom se você e Mu não tivessem me atrapalhado!

- Atrapalhado? Pare de ser idiota e pense no que estava prestes a fazer! Athena ficaria furiosa com você e só os deuses sabem o quanto Marin ficaria arrasada em saber que você matou o pupilo dela!

- ENTÃO VOLTA PRA SUA MULHER E FILHO E VÊ SE ME ESQUECE! – Milo berrou a plenos pulmões e o que recebeu em resposta foi um belo soco na cara.

- CAI NA REAL, RABUDO! – Aiolia gritou – Se você tem diferenças com o garoto então seja ao menos homem o bastante pra dizer a ele o porque ele está apanhando! Se você está querendo descontar nele todo seu remorso pelas merdas que você fez com a Shaina eu não ligo a mínima. Mas para de agir como um mau perdedor, porque você sabe que nunca deu motivo nenhum a ela pra gostar de você!

- PARA DE FALAR COMO SE SOUBESSE DE ALGUMA COISA! – Milo rugiu – Eu NUNCA fiz nada com ela! Shaina é tão virgem hoje quanto era há sete anos! – Aiolia soltou Milo totalmente pasmo pela revelação.

- O que está dizendo? – Aiolia perguntou chocado.

- O que você ouviu. Eu não cumpri o ritual. – Milo disse – Eu tentei conversar com ela, mas aquela louca começou a me golpear antes que eu tivesse qualquer chance de dizer uma palavra. Eu me defendi como pude, imobilizei-a pelo braço e ela me provocou tanto que eu perdi a paciência. Fiz ela ficar desacordada por falta de oxigenação. Simulei tudo. O sangue no lençol, nós dois nus sobre a cama, tudo pra que ela acreditasse que havia acontecido. Eu estava com raiva dela, queria que ela levasse um susto e funcionou! Até hoje ela acredita na mentira.

- Você é um louco deturpado, Milo! – Aiolia exclamou, mal podendo acreditar no que estava ouvindo – Como pode fazer uma coisa dessas e fingir que era verdade por tanto tempo!?

- Acha que não me arrependo?! Eu teria desmentido tudo na mesma noite se ela não insistisse em me provocar tanto! Eu quis falar no momento em que eu a ouvi chorar. – Milo disse num tom rouco e sufocado - Eu estou ficando louco.

- Sim, você está. O que me dói é não poder ajudar você nisso. – Aiolia deixou a casa de Escorpião e seu ocupante sozinhos.

Estava ficando insustentável aquela situação. A que ponto havia chegado! Quase matar Seiya na arena não resolveria em nada seu problema. Pior que isso, tornaria o pivete um mártir e Shaina teria ainda mais motivos pra gostar do imbecil.

X marcará o lugar
como separar as ondas
como uma casa que desaba o mar.

Talvez fosse tempo de mostrar ao mundo um pouco de sua verdadeira face. Não era qualquer criatura que merecia ver o coração de Milo. Ninguém no mundo o entenderia por completo, ninguém conseguiria sentir as mazelas e infelicidades da vida, ou os prazeres da mesma, como ele conseguia. Não havia ninguém tão evoluído ao ponto de ser considerado por ele um igual, mas talvez, e apenas talvez, essa presunção devesse ser deixada de lado.

Duvidas sempre existiriam, mas a sua raiva havia controlado seus impulsos destrutivos por muito tempo. Ele destruiu a vida de Shaina, ainda que por uma farsa. Podia se vangloriar disso um dia, fora esperto e suficientemente hábil em sua dissimulação para enganar a mais sorrateira das amazonas.

Jamais admitiria em alta voz que, ao pensar friamente em sua vida pouco louvável, Seiya talvez tivesse muito mais méritos para ganhar o coração dela do que o cavaleiro de Escorpião. Não, ele não desceria tão baixo ao ponto de pronunciar tal coisa, mas era um pensamento incomodo.

Sustentou a mentira por um tempo longo e traumático de mais para ambos. Era chegada a hora de mudar as coisas. Ela tinha o direito de saber a verdade e decidir como seguiria sua vida. Era um risco grande que ele teria que correr. Shaina estaria totalmente livre de qualquer relação com ele e poderia optar sem maiores conseqüências por bani-lo definitivamente de qualquer recordação, fosse ela boa ou ruim.

Não ser lembrado de forma alguma era pior do que ser lembrando com raiva, ódio ou rancor. Ao menos ele teve a certeza de que ela havia pensado nele por sete anos. Ele não era romântico, tão pouco fazia qualquer esforço para sê-lo. Milo a desejava, não como desejou outras mulheres, mas uma mera atração física jamais o levara a cometer tantos atos escusos. Considerava-a sua propriedade legitima e como tal não veria com bons olhos qualquer um que tentasse se aproximar dela.

Então era isso. Tarde de mais para que houvesse alguma esperança para ele. Trocaria suas ultimas palavras com a garota que seguiu por tantos anos e depois se tornaria um nada para ela. Ela tinha esse direito e em algum lugar daquele espírito orgulhoso, vil, venenoso e censurável, deveria existir algo que merecesse o carinho e a dedicação de um homem. Ela merecia que alguém a olhasse com admiração e amor, e Milo lastimou em segredo não se encaixar nesta descrição.

Voltou à cabana dela e deu o azar dela não estar lá. Esperou por meia hora até que desistiu da idéia. Voltou para sua própria casa, mas os deuses estavam dispostos a brincar com ele. Shaina estava descendo as escadas das doze casas quando ele alcançou a casa de Escorpião. Encontraram-se.

Eu o comerei todo vivo
Eu o comerei todo vivo
Eu o comerei todo vivo
Eu o comerei todo vivo

- Sentiu minha falta, amazona? – ele perguntou debochado. Shaina rangeu os dentes.

- Se isso satisfaz o seu ego, então se iluda pensando assim. – ela retrucou mal humorada.

- Não preciso de você para satisfazer meu ego, mas já que você o faz com tão boa vontade, eu agradeço. – ele desdenhou.

- Eu não sei por que perco meu tempo aqui. – ela disse caminhando para longe. Milo segurou a mão dela.

- Você sabe sim. – ele disse sério – Só prefere fingir que o que você procura está em outro lugar quando na verdade está bem aqui.

- A única razão para que eu procure você é para matá-lo. – Shaina disse indiferente.

- Admita, você nunca me esqueceu. – ele retrucou.

- Como poderia esquecer um cretino machista, que sente um prazer obscuro em abusar de uma mulher desacordada? – ela respondeu ríspida.

- Meu instinto diz que você preferia que eu abusasse de você enquanto estava acordada. – ele disse provocante.

- Vai sonhando!

- Tem medo de gostar? – ele provocou – De não conseguir viver sem?

- Você é muito pretensioso! Me solte, seu louco doente! – ele puxou o braço com força, mas ele não a soltou. – Me larga!

- Não. – ele disse simplesmente.

- Vai fazer o que comigo? Me amarrar de novo? Vai tentar me levar pra cama a força? Agora não há um "ritual" para justificar seus atos contra uma amazona e eu ficaria muito feliz de vê-lo sendo julgado como Aiolia foi, mas com um final bem diferente! – ela se debatia para afastá-lo. Milo a puxou com força para seus braços e a abraçou por trás. Shaina entrou em pânico quando ele a arrastou para dentro da casa de Escorpião. – O QUE PENSA QUE VAI FAZER?!

- O que eu preciso dizer a você não deve ser testemunhado por ninguém, muito menos um outro cavaleiro de ouro. – ele disse uma vez que estavam longe da exposição pública.

- Você é um sádico, louco, deturpado! – ela gritava ainda tentando se livra dos braços dele.

- A despeito de todas as suas tentativas de me elogiar, eu não sou nada do que você acha que sabe a meu respeito. – Milo disse soltando-a. – Eu só preciso falar com você.

- Não há nada que eu queria ouvir da sua boca. – Shaina retrucou.

- Mas vai ouvir. – ele disse num tom que ela não conseguiu contestar – Eu não sou o sádico desprezível e doentio eu você pensa.

- Não? – ela questionou sarcástica – Faz-me rir!

- CALE A BOCA, MULHER INFERNAL! – ele gritou furioso – É por culpa dessa tua boca maldita que eu me descontrolo e acabo fazendo coisas que contrariam todos os meus princípios!

- Princípios?! E dês de quando Milo de Escorpião tem algum?! – ela disse empurrando-o com força.

- Dês de que abri mão do meu direito na noite do ritual! – ele retrucou segurando ambos os punhos dela e empurrando-a contra uma pilastra.

- O que?! – ela perguntou confusa enquanto tentava se soltar.

- Você não perde a oportunidade de me acusar todas as vezes que me encontra. Diz que me aproveitei de você enquanto estava desacordada, mesmo que eu tivesse o direito de fazê-lo, mas a verdade é que eu não fiz e só os deuses sabem o quanto me arrependo disso as vezes!

- Está mentindo! – ela gritou e ele sorriu.

- Pela primeira vez digo a verdade e você me acusa de mentiroso. – ele gargalhou cheio de desespero e ironia – Isso tudo é porque te agrada a idéia de que eu já estive dentro de você? Gosta dela mais do que quer admitir, é isso Shaina? – ele continuou – EU FINGI TUDO!

- Eu acordei dolorida no dia seguinte... – ela disse confusa.

- É claro que acordou, lutou contra um cavaleiro de ouro e esperava não sentir o protesto dos músculos?! – ele debochou.

- O sangue... – ela continuava tentando entender.

- Olhe bem para o meu pulso esquerdo, há uma cicatriz grande em sentido longitudinal nele. Era o seu sangue que estava lá! – ele retrucou e Shaina lançou um olhar furtivo ao pulso esquerdo dele. Havia uma longa cicatriz, como ele havia dito. – E o motivo para que tenha sentido algum desconforto em sua parte íntima foi porque eu não consegui resistir a vontade de tocá-la, mas nada além disso aconteceu.

- Por que está dizendo isso agora? – ela perguntou e ele encarou o próprio rosto refletido na máscara, desejando não vê-lo em momento tão vergonhoso. – Depois de todos estes anos...

- Pode considerar isso um lapso de consciência. – ele respondeu desanimado – Você tinha o direito de saber.

- Espera que eu acredite que você simplesmente acordou esta manhã e pensou que era certo que eu soubesse que passei os últimos sete anos pensado que minha vida foi arruinada por causa de uma mentira sua! O QUE VOCÊ ESPERA QUE EU FAÇA?! TE AGRADEÇA, PORQUE UMA MENTIRA É MELHOR DO QUE SE TUDO TIVESSE ACONTECIDO DE VERDADE?!

- EU NÃO ESPERO QUE ENTENDA NADA! – ele gritou em resposta – SAIA DAQUI! VOCÊ ESTÁ LIVRE AGORA, VÁ E CORRA ATRÁS DO SEU PRECIOSO SEIYA!

- Você é absurdo! – ela retrucou – Não passa de um bastardo, manipulador miserável!

- Pra quem era acusado de estuprar uma mulher inconsciente isso já é uma melhora considerável! – foi a resposta seca dele. – VÁ EMBORA DAQUI!

- NÃO SEM ENTENDER TODA ESSA MERDA! POR QUE ESTÁ ME DIZENDO ISSO AGORA?! – ela gritava descontrolada.

- ESTOU FALANDO HEBRAICO POR UM ACASO?! – ele respondeu sem saída. Milo permitiu que sua cabeça pendesse e que seus lábios chegassem a milímetros do pescoço dela novamente – Eu te amo...Eu não consigo mais lidar com isso...Sinto muito. – ele beijou o pescoço dela com carinho e Shaina sentiu suas pernas vacilarem. – Eu sou egoísta mesmo, não tenho escrúpulos e morro de ciúmes daquilo que considero como meu. Por muito tempo eu quis sustentar a idéia de que você me pertencia de alguma forma. Eu errei e foi um erro grave.

- Por que agora?

- Porque eu não agüentava mais enlouquecer toda vez que pensava em você. – ele sussurrou – Eu quase matei Seiya esta manhã. Teria matado se meus amigos não tivessem me impedido. – Milo continuou enquanto sentia seus olhos queimarem – Morro de inveja dês do dia em que soube que ele viu o seu rosto. Um fedelho imbecil, um reles cavaleiro de bronze, conseguiu a única coisa que eu me dei ao trabalho de cobiçar mais do que qualquer outra honra ou tesouro. – ele riu uma risada sem graça – É humilhante. Ter inveja de um cavaleiro inferior. – ele soltou os punhos dela e se afastou lentamente. Os braços de Shaina penderam.

- Você é louco. – ela sussurrou.

- Pode ir para a sua casa, não vou mais perturbá-la. – ele disse sério – Só gostaria que não revelasse a ninguém o que aconteceu aqui.

Milo deu as costas para ela, esperou para ouvir os passos da amazona deixarem a casa de Escorpião, mas nenhum som veio. Então esperou por um golpe, que também não veio. A única coisa que o cavaleiro ouviu foi o distinto som do metal contra o mármore, um barulho estridente que o fez virar o rosto para encará-la.

Ele havia se enganado quando presumiu que conseguia ler todas as reações dela. Nunca poderia imaginar aquilo. Não, Shaina não lidava com situações críticas de modo racional, ou minimamente previsível. Então eles estavam diante um do outro e pela primeira vez Milo via todas as nuances de um rosto desconhecido de uma mulher movida por sentimentos intensos.

Ela era linda e ele não era dado ao exercício do autocontrole.

Avançou até ela e tomou aqueles lábios num beijo desesperado e quente. Permitiram que as mãos se perdessem nos cabelos um do outro. Nada era simples, nada era fácil, mas dane-se o mundo quando ele estava pronto para se atirar no inferno junto com ela.

As unhas dela cravadas em seu pescoço, arranhando-o sem piedade por tantos anos de mentira. A boca exigente dele, cobrando por todos os desaforos que a dela proferiu. Peças de roupa deixadas deliberadamente pelo caminho até o quarto dele. Peles se incendiando, queimando tudo em seu caminho. Mãos espalmadas sobre cada milímetro exposto, tocando, deslizando, acariciando e ferindo sem medo ou pudor.

Jogou-a sem o menor cuidado sobre a cama. Mordeu-lhe o ombro, separou-lhe as pernas dela, enlouqueceu de desejo quando ela o alcançou com uma das mãos, tomando-o rígido e pulsante sem o menor cuidado. Movimentos torturantes, ele estava indefeso, estava entregue, estava descontrolado. Parou-a antes que fosse tarde, beijou-lhe os seios, a barriga, mordiscou e lambeu até alcançar o pondo de prazer e o sabor oculto. Deliciou-se com o gosto e com o gemido prolongado dela quando se permitiu o prazer em seu auge.

Voltou a beijar-lhe a boca, furioso, animalesco. Penetrou-a com cuidado, sentindo-a se contorcer de dor e prazer de baixo dele. Abraçou a garota com força, tomando-a pra si numa estocada firme. Lento, muito lento, dançando dentro dela, amando-a como só ele seria capaz. Rápido, mais rápido, levando-a a loucura a qual ela o havia atirado uma vez. Shaina o sentia inteiro, pulsante, urgente, feroz, lascivo e sedento por ela. Enlaçou-o com suas pernas nuas, exigiu mais, muito mais.

Inverteram posições, ela o dominava agora, sem esforços, cavalgando-o. Bendita visão a que ele tinha daquele corpo, daquele rosto e suas expressões de desejo e prazer primordiais. Ela dançava sobra ele, mãos espalmadas sobre seu tórax encharcado de suor e as mãos dele deslizavam sobre todas as curvas dela. Agarrou-a pelos cabelos e voltou a ficar por cima dela, aumentando o ritmo ainda mais, resistindo por mais alguns segundos antes de se renderem por completo um ao outro.

Shaina emitiu um gemido rouco e alto, enquanto ele dava sua ultima estocada chamando por ela. Caíram um ao lado do outro, exaustos, entorpecidos, completos. Sem amarras, ambos gozando de plena consciência e lucidez, na medida do possível, consentindo um ao outro aquele momento de prazer compartilhado. Talvez o amor fosse só uma estrada tortuosa, com seus trechos incompreensíveis. Talvez fosse uma droga poderosa, que corrói um coração aos poucos, da qual não se pode evitar o vício. E no final das contas, ambos eram venenosos a sua maneira.

Aqui não há mais mentiras
Aqui não há mais mentiras
Aqui não há mais mentiras
Aqui não há mais mentiras.

Nota da Autora: A pedidos de todas as reviewers, aqui está o famigerado capítulo dedicado a Milo e Shaina/ Shina. O que dizer deste capítulo? Eu simplesmente adorei escrevê-lo e me perder na cabeça caótica do Milo. Dá pra entender esses dois? De um jeito complexos, errôneo, torpe, descontrolado e imoral, dá sim. Eles são apaixonantes de fato e cá pra nós, ele me saiu muito mais bonzinho do que aquilo que eu pretendia inicialmente. Espero que tenham gostado e continuem comentando.

A música que coloquei é do Radiohead, se chama Where I end and you Begin. Agradeço à Bell pela sugestão.

Bjux

Lady Bee