Capítulo 3 – Amigo Canalha.

AMIGOS, AMIGOS, AMORES A PARTE

Não demorei para encontrar Vee. Ela estava conversando com alguns integrantes do Ezine - o jornal da escola -, e isso me fez lembrar do documento que teria que entregar para eles da matéria que fiz sobre a nova comida da cantina. Eu havia detonado a cozinheira na minha matéria, e eu não estava nem aí, a comida estava péssima.

— Olha o que temos aqui? - disse Vee quando me notou se aproximando do grupo, fazendo a atenção dos outros se voltarem para mim.

— Oi gente.

Variei meu olhar de Vee para Darlene, Jennifer e Ryan. Eles me cumprimentaram e logo Jennifer se manifestou:

— Nora, você já escreveu a sua matéria da cantina?

— Uhum. Vou levar no intervalo.

Ela assentiu com a cabeça e fitou Vee.

- Não se esqueça de que hoje temos uma reunião com os colunistas do esporte.

— Eu não vou esquecer.

— É para eu ir também? - perguntei, fazendo Jennifer me olhar.

— Não será preciso. - anui com a cabeça e voltou a fitar Vee.

- Depois da aula.

— Eu já falei que eu não vou esquecer. - repetiu Vee, num tom pouco rebelde.

Os três se afastaram em passos rápidos para dentro do colégio.

— Garota chata, não é à toa que finge ser loira. - ela resmungou enquanto revirava os olhos.

— Vee, só para você ficar ligada, você é loira.

Ela pousou seus olhos verdes cheios de rímel em mim.

— Mas acontece que a Jennifer é loira falsificada e eu sou totalmente natural.

Ergui uma sobrancelha, e apoiei todo o peso do meu corpo na minha perna direita.

— E o que você me diz sobre aquela caixa da Beautiful Color que estava encima da sua cômoda semana passada?

—Shiii! - ela pôs o dedo indicador sobre os lábios, aproximando seu rosto do meu. - Isso são questões para se manter abafadas e trancadas a sete chaves.

Suspirei enquanto revirava os olhos com o desajeiro de minha amiga totalmente pirada.

— E aí, qual a boa? - ela começou, quando começamos a entrar nos domínios do colégio.

— Não tem boa nenhuma.

Ela me olhou de ombro.

— E o cachorro do seu amigo?

Vee tinha o prazer de demonstrar o quanto ela detestava Patch, e essa rixa deles dois não vinha de agora. Vamos dizer que Patch era um pouquinho cruel quando criança e Vee era sempre o alvo principal, pois na época Vee era toda rechonchuda e fofinha, mas isso não a livrava de certos apelidos como: Bolo fofo, almondega, rolha de poço e aí se vai. Sem deixar de contar que sua vida no fundamental fora um verdadeiro inferno devido ao meu amigo.

— Está por aí. - murmurei, enquanto paramos em frente aos nossos armários.

— Na moral Nora, eu não entendo como você consegue ter Jev Antony Cipriano como amigo. - abri o meu armário e a olhei, ela estava a dois armários longe de mim.

— Nossas mães são amigas.

Aquilo não era mentira, devido à amizade de nossas mães e de uma sempre ir à casa da outra, contribuiu para que eu e Patch tivéssemos uma amizade, e que ficava mais sólida no decorrer dos anos.

Vee tirou um livro de lá de dentro e fechou o armário e me olhou.

— Mas isso não conta. Minha mãe é amiga da prima da sua mãe e nem por isso eu engulo a Mercie.

— São coisas completamente diferentes. - tirei meu livro de matemática do armário. - Você e Mercie não se suportam desde que vocês entendem por gente. - tranquei o armário e olhei para Vee. - E mesmo que Patch seja uma má influência, ele tem suas qualidades.

Vee soltou uma risada descrente.

— Você tem que rever sua lista de amigos...

Ela não conseguiu terminar a frase, pois uma voz eufórica a interrompeu:

— Nora!

Olhei para trás, a tempo de ver Mercie vindo com passos rápidos em cima daqueles saltos altos e naquela roupa minúscula de Líder de torcida. Podia fazer frio ou fazer sol, pois ela nunca abandonava aquele uniforme. Não sabia como ele tinha coragem de andar por aí com aquele pedaço de pano, pois roupa aquilo não era.

Escutei Vee resmungar ao meu lado. Ela e Mercie nunca se deram muito bem, e o fato de uma suportar a outra e ficar respirando o mesmo ambiente por mais de vinte minutos é devido a mim.

Mercie Millar é a minha prima de terceiro grau, nossas mães são primas e seu pai Hank Millar era o melhor amigo de meu pai e isso contribuiu para que crescêssemos juntas. E apesar de Mercie ser uma verdadeira vadia, eu gostava dela e de seu humor sarcástico.

— Nossa, até que fim te achei. - ela disse parando a nossa frente, enquanto tomava o fôlego.

— Que cara de desespero é essa? - virei meu corpo todo para ela.

— Você tem que salvar a minha vida. - ela pôs suas duas mãos nos meus ombros, fazendo aquele drama que só ela sabia fazer.

Franzi o cenho.

— Por acaso quebrou a unha? - comentou Vee, atraindo um olhar furioso de minha prima.

— Fica na sua, Orca, que eu não estou falando com você.

Não precisou demorar muito para que as bochechas de Vee inflassem vermelhas, seu cenho franziu de imediato devido ao insulto sobre o seu peso. Era difícil fazer as pessoas entenderem que Vee não era gorda e sim curvilínea. Minha amiga cresceu, e com o tempo ganhou altura e perdeu aquele pesinho extra, deixando-a com um corpão de dar inveja a qualquer um. Mas sempre tinha aquelas pessoas que ainda via em Vee aquela imagem de garota baixinha e retrucada, e Mercie era uma dessas pessoas.

— Como e que é? - a voz de Vee saiu alta o suficiente para atrair olhares para nós. - Repete de novo se você for mulher, sua vadia de quinta!

— Chega vocês duas! - dei um basta, ficando no meio do fogo cruzado. - Eu mal cheguei na escola e tenho que ouvir briguinhas bestas de vocês? Fala sério!

Vee olhou para mim e apontou para outra que também estava com uma expressão zangada.

— Foi essa daí que adora encher o saco dos outros.

— Olha bem para mim e ver se eu estou dando confiança para você...

— Dá para as duas parar! - me intrometi de novo, variando meu olhar de uma para outra. - O que foi Mercie?

Ela desviou o olhar metralhador de Vee para mim.

— Você fez o trabalho de física?

— Fiz por quê?

— Você pode colocar meu nome?

Ergui minhas sobrancelhas para cima. Mercie era outra que amava me explorar.

— Sinto muito, mas estou fazendo com o Patch.

— O quê? — a voz estridente de Mercie fez com que meus ouvidos doesses, escutei uma risada de Vee.

— Esqueceu que eu estava fazendo com ele? – tentei lembrá-la

Ela murmurou alguma coisa que não entendi enquanto sua expressão entrava em desespero.

— Estou ferrada. - ela resmungou.

— Você não estava fazendo com o Dirlan? - perguntei.

— Estava, mas aquele imbecil estava pensando que era para ser entregue semana que vem e não hoje. Quase o matei agora pouco.

Mercie estava mesmo irada com Dirlan.

— Não posso fazer nada, desculpe.

Ela estalou a língua.

— Tudo bem, vou tentar dar um jeito nisso. - aquilo foi tudo que ela disse antes de se afastar.

Vee soltou uma risada, totalmente debochada.

— Quero só ver o que ela vai fazer para apresentar o trabalho.

— Também quero saber.

As aulas se passaram normalmente, tive o primeiro tempo de matemática, e o segundo de física, onde apresentei o trabalho junto com Patch. Apesar de ele ter pegado o conteúdo em cima da hora para dar uma lida antes de apresentar, até que ele foi bem. A única coisa que fazia Patch ficar com aquelas notas baixar no boletim era desinteresse, pois ele era bem inteligente.

Mercie por um milagre divino conseguiu se encaixar numa dupla com Eliot Saunders. Não sei o que ela fez para conseguir isso, pois pelo pouco que conhecia de Eliot, ele era certinho demais para deixar alguém tirar vantagem de seu esforço. Mas também conhecia Mercie para saber que quando ela queria, ela conseguia dar nó em pingo d'água. E eu nem quero imaginar o que ela fez para conseguir entregar esse trabalho e ter uma das notas máximas da sala.

Depois dessa aula cheia de trabalho tive mais duas pela frente antes de tocar o sinal do intervalo. Peguei as pautas com a matéria que fiz e fui para o último andar, lá ficava o laboratório de química, a biblioteca e a sala reservada do Ezine.

Não demorei em entregar a pauta da matéria que fiz na cantina, e logo já estava no refeitório comprando alguma coisa para comer. Um sanduiche natural de peito de peru e uma garrafinha de suco de laranja. Passei o olhar pelo local com as mesas cheias, procurando se via algum sinal de Vee, mas nada.

Vi Mercie do outro lado do refeitório, ela me olhou e sorriu de um jeito que tinha aprontado alguma, e fez um gesto de que queria falar comigo depois. Apenas assenti e voltei minha rota de procurar algum lugar para me sentar.

— Ei.

Olhei para a minha esquerda e vi Patch sentado numa mesa pouco afastado, ele estava sozinho o que era pouco estranho, já que ele sempre estava junto de seus amigos barulhentos ou estava em algum canto agarrando uma garota.

Aproximei-me e sentei na cadeira a sua frente, depositando a minha bandeja em cima da mesa.

— O que faz sozinho aqui? - perguntei, olhando de rabo de olho.

Ele engolia um pedaço de pizza que havia colocado na boca.

— Comendo.

Revirei os olhos.

— Isso eu estou vendo. - abri a garrafinha de suco e escutei uma pequena risada dele. - Mas estou perguntando do fato de não estar junto de seus amiguinhos.

— Quis passar o intervalo com a minha amiga. Não posso?

Ergui meu olhar para cima e pude ver o pequeno sorriso torto em sua boca. Revirei os olhos e dei um gole do meu suco.

— Patch.

Nós dois olhamos ao mesmo tempo para uma garota que estava em pé, ao nosso lado. Se eu não me engano ela era do terceiro ano, não sabia seu nome, mas ela fazia parte das líderes de torcida, já que ela estava com o mesmo uniforme curto que Mercie usava.

— Posso falar com você? - ela perguntou.

— Você já está falando.

A garota parecia pouco desconcertada com o descaso de Patch e de sua expressão de indiferente.

Ela lançou um olhar para mim como um Vaza e olhou novamente para Patch.

— A sós.

Patch uniu as sobrancelhas e comecei a me levantar, mas ele me impediu com a mão no meu pulso, e voltou a olhar a garota.

— Pode falar.

A expressão da garota parecia desgostosa com o ato de Patch de me fazer participar da conversa. Não discuti sua ordem, apenas me mantive no meu lugar, pois não estava afim de procurar outro lugar para passar o intervalo.

Foquei minha atenção no meu sanduiche e apenas escutei o que a garota queria.

— Você ficou de ligar para mim e até hoje estou esperando.

— Acabei perdendo seu número, foi mal. - a resposta estava na ponta da língua.

Fiz menção de revirar os olhos com aquela desculpa totalmente esfarrapada dele. Não entendia como essas meninas ainda corriam atrás dele sabendo o quanto ele era descarado.

Não era preciso olhar para a cara da garota e saber que ela tinha tirado as mesmas conclusões.

— Então nós podemos fazer algo essa noite.

Patch coçou a cabeça com um dedo.

— Ashley...

— É Lana. - ela o corrigiu, sua voz estava pouco abalada.

Patch fez uma careta.

— Isso! - murmurou. - Não vai dar, tenho coisas importantes para fazer.

— O quê? - a voz da tal Lana agora estava alterada.

Estou prevendo que isso não vai acabar muito bem.

— Fala um pouco mais baixo, está chamando atenção para cá. - Patch disse com uma voz calma, fazendo Lana o olhar descrente.

— Você está de sacanagem, não é? Você não pode fazer isso comigo depois de tudo que a gente fez.

Patch bufou, passando o olhar por todo o refeitório, impaciente, até voltar o olhar para ela.

— O que você quer que eu faça? Que te peça em namoro? Desculpe te decepcionar, mas eu não sou esse tipo de cara que se amarra em relacionamentos.

A expressão de Lana estava em choque depois desse fora, algumas pessoas até olhavam para cá, e isso só aumentou a humilhação daquela garota.

Num ato rápido Lana pegou a minha garrafinha de suco e entornou tudo em cima da cabeça de Patch.

— Ei. - reclamei do meu suco jogado fora enquanto via Patch se levantar da cadeira totalmente molhado com o meu suco, abrindo os braços para evitar que não molhasse mais.

— Você é louca! - ele ralhou, metralhando a garota com o olhar.

— Isso é para você deixar de ser idiota. - ela rebateu antes de dar as costas e sair do local.

Apenas fiquei olhando para ele, estava passada com suas atitudes cretinas.

— Merda! - ele murmurou, passando a mão na camiseta preta, tentando tirar um pouco daquele líquido, mas sem sucesso.

— Custava você ser menos grosseiro com a garota? - perguntei, medindo meu tom.

Ele me olhou.

— O que você queria que eu dissesse? - ele sentou-se na sua cadeira. - Só assim elas saem do meu pé.

Soltei uma risada incrédula, balançava minha cabeça para os lados.

— Então por que você pede o telefone se não vai ligar?

— Eu nunca pedi telefone algum. Ela que me deu. E foi ela que decidiu que eu ligaria.

Eu o olhei totalmente descrente.

— Você é inacreditável. A cada dia que passa você fica pior.

— Você diz como se eu fosse alguma espécie de vilão. - ele disse, nada abalado com que eu disse. - Eu nunca prometo compromisso depois que transo, e muito menos corro atrás de alguma mulher. Elas que vem até mim. Eu só pego o que me é oferecido.

Não acreditava que estava escutando aquilo. Eu não estava escutando aquilo. Sei nem por que ainda me surpreendia com ele, sabia que Patch sempre será assim.

— Você é um canalha, e da pior espécie. - levantei-me da cadeira, não iria mais ficar escutando as barbaridades dele.

— Ei, para onde vai? - ele se levantou também.

Ergui meu olhar para ele.

— Estou indo para sala. Eu já vi o bastante vindo de você. - dei as costas e comecei a me afastar, mas parei e o olhei novamente. - Ah, você me deve um suco.

Não fiquei para ver a sua reação e muito menos dei ouvidos a seu chamado. A minha cota de Patch havia espirrado naquele dia.