— E como você se sente em relação a isso?

Devia ser a vigésima vez que perguntava aquilo, somente naquele dia.

O relógio marcava o meio dia, mas a vontade de Marlene voltar para casa era nula. A cada vez que proferia a mesma pergunta, servindo como uma companhia muda, que apenas ouvia e mal falava, queria que tivesse alguém assim para ela. Alguém que a perguntasse se ela estava bem e o que sentia em relação ao que estava acontecendo na sua vida.

E então ela responderia que estava tudo uma droga. Todas as noites ela chegava cedo em casa, tentando preparar um jantar especial, fazer algo de diferente para ver se conseguia esquentar novamente as coisas que tinham esfriado desde que o 1º ano de casada tinha se passado. E então ela ficava esperando Aaron, o seu marido, chegar em casa, e sempre acabava adormecida ou ele chegava bem mais tarde do que tinha prometido.

— Senhora Tames — a secretária interrompeu os seus pensamentos pós consulta.

— Senhorita McKinnon — Marlene corrigiu-a — Eu permaneço com o meu sobrenome de solteira para todos os efeitos.

Ela assentiu, parecendo desconfortável, antes de dar um aviso qualquer, ao qual ela não prestou atenção, e sair. Logo depois, a porta abriu-se e Marlene ajeitou-se em sua cadeira para o próximo paciente.

— O que houve? — ela largou a prancheta em cima da mesa, pegando as mãos da adolescente, tentando passar confiança.

As horas se passaram e a única coisa que a alimentava eram as barras de cereal da segunda gaveta da escrivaninha. O trabalho ocupava a sua mente dos problemas. Escutar o problema dos outros fazia com que ela tentasse consolar a si mesma, dizendo que não estava tão ruim, que se todos podiam superar ela também podia.

Assim que chegou em casa, escutou o som de vidro quebrando-se na casa ao lado, mais uma vez naquela semana. Aquele vizinho descontrolado e irresponsável que ela tinha que suportar.

"Pelo menos ele se diverte" sua mente provocou-a.

Era fácil quando se vivia às custas de alguma fortuna familiar, já que não o via sair de casa para trabalhar. Saía tarde para alguma festa e voltava de madrugada, às vezes acompanhado por alguma mulher, e não eram nada discretos.

— Você é a assistente social, não é? — ela perguntou quando viu aquela mulher outra vez por ali — Diga ao seu cliente para controlar-se. Se eu escutá-lo quebrando os móveis outra vez essa semana, ligo para a polícia.

E fechou a porta da casa sem esperar por uma resposta da mulher, que não fazia nada além de seu trabalho, mas mesmo assim tinha recebido aquele desaforo de sua parte. Riu consigo mesma, era uma velha amargurada. Sentia o relógio biológico batendo, com cada vez menos força, anunciando que a sua capacidade de procriar estava se perdendo no meio das brigas e afastamentos matrimoniais.

Não tinha sido sempre aquele o seu sonho? Casar-se e ter filhos? O que tinha mudado? Onde tinha parado todo aquele amor que sentia por Aaron, e ele por ela?

Quando via ao seu vizinho rebelde trazer alguma mulher para casa, perguntava-se se Aaron estava mesmo lhe sendo fiel, quando dizia estar no trabalho. Talvez não fosse justo duvidar de seu caráter daquela forma, mas ele demonstrava todos os sinais indicados pela psicologia, todos os sinais que ela já ajudou pacientes a entenderem, a perceberem.

Pegou a lista telefônica na mesa ao lado do telefone fixo. Geralmente usava as folhas amareladas e velhas para aumentar o fogo da lareira, mas ela seria útil naquele momento, embora pudesse apenas pegar o seu celular. Lembrava-se de um número que tinha usado uma vez, mas que não guardou em seu celular. Assim que encontrou-o, decidiu ligar pelo fixo, já que o celular gastaria créditos demais e ela queria falar apenas o necessário.

— Alastor Moody? — ela perguntou, assim que a ligação completou — Sou eu, Marlene McKinnon. Eu quero que investigue o meu marido.

Tratou de todos os detalhes, antes de colocar o telefone de volta no gancho. Sentindo-se vazia, conforme olhava para os detalhes de sua casa, que não conseguia mais reconhecer como sua. Sua vida tinha se tornado oca. Passava mais tempo no trabalho para tentar compensar a falta que sentia de um parceiro, que passava o dobro do tempo em seu trabalho, vendo e revendo estatísticas de venda como se sua vida dependesse daquilo.

O seu celular vibrou e ela viu uma nova mensagem.

Aaron Tames

Online há 1 min

Teve uma queda da bolsa aqui (17:45)

Vou precisar ficar (17:45)

Não me espere acordada (17:45)

Ela bloqueou novamente a tela com um suspiro.

— O que aconteceu com a gente? — sussurrou.

As coisas sempre tinham sido daquele jeito e ela nunca notou? Ele sempre tinha sido tão afastado e frio? Ela não queria mais aquilo para a sua vida. Destampando a garrafa de licor que estava abandonada em uma gaveta, ela lembrou-se de quando tornou-se aquela pessoa tão vazia. Uma cega por amor estúpida.

— O que você pensa que está fazendo? — Aaron gritava.

— Eu só estava me divertindo! — Marlene disse, assustada, tentando cobrir o seu corpo, que tinha somente um biquíni cobrindo-o.

— Estamos noivos, Marlene! Noivos! Quando você vai se dar respeito?

Ela sentiu raiva, abrindo a boca, indignada, enquanto lágrimas começavam a escorrer de seus olhos pela mágoa.

— Você está sendo um idiota.

Ele então disse, como sua última palavra:

— Se você continuar desse jeito, não vai ter mais casamento.

Passou a adolescência inteira sem importar-se com o que diriam dela, e então fizeram uma verdadeira lavagem cerebral nela. Estava tão apaixonada, iludida, acreditando finalmente ser amada pela família, que só estavam tratando-a melhor por estar em um relacionamento com um publicitário de tanto sucesso como ele. Ela não percebeu que estava abandonando a si mesma, a sua personalidade, tornando-se uma pessoa que não era ela.

E para quê? Para ter sempre as suas vontades negadas? Para não ser digna do mínimo de sua atenção e consideração?

Ela foi até o quarto, abrindo a porta do guarda roupas e tirando todas as suas roupas de lá, revirando, procurando. Encontrou um par de meia calça arrastão e estendeu-o à sua frente.

— Você vai mesmo usar essas meias de prostituta no nosso primeiro encontro?

Marlene abaixou-se, tirando os saltos altos para colocá-la por baixo de sua saia, que ia abaixo do joelho. Voltou a procurar, encontrando um top que amava usar com uma jaqueta de couro durante a sua adolescência, e que parecia ainda caber em suas medidas.

— Eu não entendo o que a agrada tanto em mostrar a barriga desse jeito. É vulgar!

Ela fez o blazer deslizar por seus braços, caindo ao chão, junto com tantas outras roupas, e abriu os botões da camiseta social branca. Tirou o sutiã também, já que o top era tomara que caia, e colocou-o, sentindo-se realizada por ainda caber nela. Olhou-se no espelho, admirando as mudanças de visual que estava fazendo, perguntando-se como Aaron nunca notou aquelas roupas escondidas, teria jogado fora sem hesitar. As suas costas desnudas, mostrando as suas covas logo na região acima da bunda.

— Você precisa aprender a se vestir como a futura esposa de um publicitário respeitado.

Mesmo que estivesse empolgada por ter tão poucas roupas cobrindo-a, pegou a jaqueta para pôr por cima do top. Mesmo assim, sentiu a saia desagradá-la. Tinha várias como aquela, não?

— Você está agindo como uma qualquer.

Como podia ter se apaixonado por um cara como aquele?

Como podia ter se deixado manipular por tanto tempo?

E como podia só ter acordado agora?

Pegou a tesoura que estava guardada dentro de uma gaveta e passou-a pelo tecido solto da saia. Começou a cortá-la, cada vez mais insatisfeita com o comprimento. Até que atingiu o que ela gostava, apenas alguns centímetros abaixo da sua bunda.

Puxou o elástico que prendia o seu cabelo, deixando os fios cobrirem toda a extensão que alcançavam. Voltou a calçar o seu salto alto.

Pegou uma bolsa menor que tinha, pegando apenas o dinheiro e as chaves de casa. O celular ficou em cima do balcão da cozinha, vibrando. E Marlene saiu para voltar com a sua vida dupla.

— Sabe, Emme, eu acho que nunca servi para casar.