Capítulo 2 – Devolva minha sanidade

Preciso de um minuto para me recuperar daquela voz dizendo o meu nome de forma tão fluida. Sentada na cama, ainda consigo me arrepiar de lembrar daqueles lábios naturalmente vermelhos, da pele levemente corada pelo sol delicioso desse lugar, e os olhos mais lindos que eu já vi na vida. Certamente, esse homem é uma tentação enviada só para me testar. Me provocando e me fazendo esquecer de tudo. Mas Bella, você não veio até aqui para se distanciar dos problemas e assim poder tomar decisões justas? Com esse último pensamento, inevitávelmente penso no meu apartamento, nos meus amigos, trabalho e em Jacob. E uma coisa que nunca fiz, foi mentir para mim mesma. Não posso continuar com essa relação, pelo menos do jeito que está. Se continuar junto com Jacob, vamos nos magoar mutuamente e depois nos odiar.

Mas se eu me envolver com o adonis onírico, com certeza o Jacob vai me odiar. De qualquer forma ele vai me odiar mesmo que eu não me envolva com ninguém. Se eu me interessei por outro homem depois de 6 anos junto de Jacob, isso quer dizer muita coisa. Quer dizer que não existem mais aqueles sentimentos que me aproximaram de Jacob no início. Não existe paixão, não existe amor... É melhor não ser tão taxativa, afinal eu tenho quase um mês de férias e estadia paga nesse hotel. O que não vai me faltar vai ser tempo para pensar.

Vou para a banheira e abro a torneira, enquanto a água vai caindo, eu adiciono meu sabonete líquido de verbena e óleo de mesma fragância. Só um banho, mesmo passando da meia noite, pode me fazer relaxar e ter um sono tranquilo.

Quando finalmente me deito na cama, limpa e relaxada, fecho os olhos e imediatamente adormeço. E então sinto umas mãos percorrendo a extensão da cintura até as nadegas detendo-se lá e me apertando. Lábios beijando o meu pescoço e ombros. Será que isso é real? Me viro tanteando a cama e encontros um par de olhos verdes me olhando intensamente, e então se tempo de protestar, sua boca se apossa da minha com beijos urgentes. O que Edward está fazendo aqui? Suas mãos descem a primeira alça da minha camisola, a outra mão se encaminha para minha calcinha e sua boa abandona a minha apenas para pousar em meu seio esquerdo, sugando-o lentamente. Isso não pode estar acontecendo. Com certeza é um sonho!

E então acordo e sento na cama ofegante. Era mesmo um sonho. Será que o calor desse lugar está mexendo tanto com a minha cabeça ao ponto de me enlouquecer? Estou louca, só pode.

No mesmo instante em que me dou conta do sonho que me deixou molhada e louca, a realidade me atinge e logo me estico até o criado mudo e olho para meu relógio de pulso que deixei alí quando cheguei. Três e vinta da manhã. Droga! Preciso de um banho frio, um banho de ducha só para aquietar minha mente. Já sei o que Edward é, ele é um feiticeiro! Ele anda por aí enfeitiçando mulheres por pura diversão. Ou o problema pode ser que eu esteja apenas carente e qualquer homem no mínimo interessante possa exercer um fascínio sobre mim inexplicável.

De manhã, as oito, eu já estava no mar sobre a minha prancha. Junto comigo se encontravam outros surfistas, inclusive outras mulheres como eu. Aquelas águas claras, ondas perfeitas, e eu sentindo toda ondulação das águas se agitando, num vai e vem gostoso.

Fecho os olhos por um instante apenas feliz por sentir os raios de sol na minha pelo como uma carícia e então escuto uma voz masculina forte e viril bem perto, tanto que tenho que colocar minha mão sobre a testa para proteger da luz do sol ao olhar na direção da voz:

– Aqui é um lugar muito bom mais pra meditar do que pra surfar, não acha? – e então rapaz sorriu revelando dentres brancos que constratavam com sua pele corada de sol.

– É, eu estava pensando o mesmo! Meditar aqui é tão fácil que a gente até se esquece de pegar uma onda ou outra. – Nossa! O rapaz tinha olhos azuis chamativos. Mas eu não conseguia tirar Edward da cabeça.

– Pablo. – ele disse agora com sua prancha bem perto da minha.

– Isabella. – dou o meu mais simpático sorriso, pois o pobre rapaz não tem culpa de não ser Edward.

Duas horas depois de conversarmos amenidades, nos encontramos na areia, pois eu resolvi sair da água e ficar na areia sentada pensando na minha vida e Pablo, se juntou a mim dez minutos depois, com seu Short John* agora aberto até cintura revelando o peitoral bem trabalho, finca sua prancha ao lado da minha e senta ao meu lado.

Conversamos por quase quarenta minutos. Pablo é argentino, é um surfista profissional que viaja o mundo para participar de campeonatos e que nesse momento está de férias, porém como ele mesmo disse, parar de surfar nunca, pois pra ele surfar não é profissão, é diversão.

Eu falo um pouco do que eu faço na vida, que estou aqui de férias por 4 semanas mas não revelo mais nada além do superficial. Ele até tenta me dar umas cantadas aqui e ali porém eu me faço de surda e ignoro. Pablo não tem nem um terço da sutileza e do charme de Edward. Infelizmente, mesmo que eu não tente jogar charme ou flertar, meu jeito natural vai indicar totalmente o contrário para ele ou qualquer outro homem. Mesmo que eu diga não de todas as formas educadas, eles vão estar pensando que eu quero dizer sim. Já vi acontecer milhares de vezes. Lembranças amargas.

– Olha, já deve estar perto do horário de almoço, e eu gosto de chegar cedo porque a salada está mais fresca nesse horário. – eu disse já tentando me levantar mas Pablo foi mais rápido, levantou e me ajudou a levantar me puxando de uma vez.

– Quanto a isso você tem razão! Sou vegetariano e as saladas têm que estar bem fresquinhas para me deixar satisfeito. Olha, aceita almoçar comigo, Bella? – ele me lançou um olhar especulativo. – Posso te chamar de Bella?

– Não quero que me leve a mal mas não me chame assim. – e esclareci depressa quando percebi seu olhar atônito. – Meu noivo me chama assim e eu vim pra cá para poder me esquecer dele um pouco, esfriar a cabeça pois nós brigamos feio e se você me chama assim, isso me faz lembrar dele e me magoa um pouco. – e segurando um pouco mais forte suas mãos que ainda estavam nas minhas desde quando ele me levantou da areia, eu disse séria. – Será que você se contenta com a minha amizade apenas? Longe de mim tentar parecer presunçosa, estou apenas sendo sincera com você e com qualquer outro que demonstre interesse. Não quero dar falsas esperanças. Entende isso, Pablo? – olhei em seus olhos de forma profunda, tentando ao máximo mostrar que eu estou falando sério.

– Claro Isabella! – ele sorriu abertamente e eu soube que ele realmente não ia tentar mais nada. – Eu sou um cara solto, sabe? Amo a minha liberdade e posso entender perfeitamente quando as pessoas querem se sentir assim. Vou respeitar isso sim, como não poderia? – ele soltou minhas mãos. – Mas almoçar como amigos nós podemos, não podemos? Estou faminto!

Eu apenas concordei com a minha cabeça e ele tocou levemente em meu ombro direito para me indicar o caminho e acompanhá-lo. Fomos ambos para nossos quartos, e marcamos de nos encontrar no restaurante.

Ao nos encontrarmos na entrada do restaurante, demos um sorriso enorme na expectativa de finalmente podermos comer alguma coisa. Estamos os dois, famintos. Tanto que nem nos falamos, fomos logo pegando um prato, aproveitando que era buffet de frutos do mar. Pablo atacou as saladas, os bifes de gluten e eu os peixes fritos e a salada de camarão.

Sentamos em uma mesa um pouco mais perto da mesa de sobremesas. Pablo era uma pessoa fácil de se gostar porque era engraçado e contava tantas estórias, por ter viajado tanto e ter estado com todo o tipo de gente. Ele realmente não tentou dar em cima de mim o tempo todo em que almoçamos juntos. Descobri que ele só ficaria no hotel por mais 3 dias pois estaria viajando para outras praias no litoral brasileiro.

– Você deveria visitar a Bahia algum dia, Isabella! Aliás fazer um tour pelo litoral brasileiro, tenho certeza de que vai se encantar. E claro, se divertir à beça. – e olhando direto nos meus olhos, completou. – Me parece que você está precisando mesmo se divertir um pouco.

– Também acho, Pablo! – seu olhar intenso me desconcertou um pouco e eu sorri meio sem graça. – Você deve estar por dentro dos points mais badalados daqui, me indique um.

– Um pequeno grupo de turistas que surfam lá naquela praia onde estávamos alugaram uma van com motorista e vão para uma boate na cidade amanhã a noite. Eu vou junto apesar de não ser muito baladeiro mas adoro uma aventura. Se quiser, podemos ver um lugar pra você na van. – e quando percebeu o meu olhar meio contrariado tratou logo de esclarecer. – Não se preocupe, não vou dar em cima de você e não vai ser a única mulher no grupo fique tranquila. – sorriu ao ver que era exatamente isso que me incomodava. – Isabella, eu te dei minha palavra de que não vou te paquerar. – e me deu um olhar solene.

– Tudo bem, eu topo! – dito isso, olhei no meu relógio de pulso e exclamei espantada. – Minha nossa! Já são duas da tarde e eu tenho aula de dança daqui a meia hora. Eu tenho que ir, Pablo. Desculpe. Até mais tarde!

Corri para o caixa, paguei pelo almoço e sai, sem olhar para trás, em disparada pro meu quarto para trocar de sapatos e colocar uma saia mais rodada. Cheguei ao salão do estudio de dança dez minutos antes de começar a aula e fiquei feliz de não estar atrasada, mas estava suada por ter me apressado tanto.

Olhei a minha volta e os casais pareceriam em sua maioria, mais velhos e claro, casais. Percebi tarde demais que essas aulas eram na verdade para casais ou amigos que gostavam de dançar juntos. Merda! Mil vezes merda! Com quem que eu vou dançar? As pessoas já estavam se reunindo e se posiocionando no meio do salão, a instrutora, uma senhora baixinha e simpática dizia para todos pegarem seus pares. E ao perceber meu olhar confuso perguntou, me lançando um olhar de solidariedade.

– Está sem par, minha jovem?

E antes que eu respondesse ouvi uma voz que vinha da entrada do salão e que ecoou devido a acústica da sala. Edward!

– Eu vou ser o par dela, senhora Pereira. – Edward diz e ao se aproximar, me dá um beijo na testa pegando minha mão esquerda e me conduzindo para junto dos outros. – Surpresa?

Eu apenas afirmei balançando a cabeça para cima e para baixo. Perdi a voz diante da surpresa. E que surpresa! De repente, a sala parecia pequena e abafada ainda mais quando aquele homem, de uma vez só, me agarrou pela cintura e se posicionou nos preparando para começar a aula. Nossos rostos de frente, quase colados, ele me encarando com aqueles incríveis olhos verdes. Ele estava me guiando, e entre um passo e outro encostava sua boa na minha orelha.

– E então Isabella, quem era o sujeito conversando com você hoje no restaurante?

*Short John: Roupa de borracha usadas na pratica de surf.