"Realmente, não se devo me sentir elogiado ou ameaçado

"Realmente, não se devo me sentir elogiado ou ameaçado."

Fiquei um tempo encarando a primeira e única linha escrita no caderno sobre a mesa, fazendo a mesma pergunta a mim mesmo. Teria a minha aversão às pessoas me transformado em um serial killer que seqüestraria, torturaria e depois mataria garotos mudos e bonitinhos?

- Não acho que eu seja um assassino em potencial. – Não mesmo, mesmo às vezes eu tenha vontade de matar meu chefe com o grampeador ou arrancar os olhos dos idiotas que me olham esquisito quando passam na rua.

"Um estuprador, talvez?"

- Acha mesmo que eu tenho cara de estuprador?

"Ou quem sabe um maníaco sexual..."

- Você tá de gozação comigo.

"Viu? Vocabulário submiliarmente sexual."

- Eu não sou um maníaco sexual.

"Certo, vou fingir que não nos conhecemos hoje de manhã, você não ficou me olhando esquisito, não me trouxe para tomar café e não está olhando obsessivamente do meu rosto para a minha mão enquanto estou escrevendo. É, eu estou vendo."

Eu não soube responder.

"E também não diga que não está. Sabe que está."

É, eu estava.

- Na verdade eu acho que você deveria sentir-se elogiado. Faz realmente muito tempo que alguém não me desperta interesse.

"Falando como maníaco sexual."

- Dá pra esquecer a droga do maníaco sexual??

Em condições normais eu já teria levantado e ido embora, deixando apenas a gorjeta do garçom, mas alguma coisa nele me segurava ali. Alguma coisa naquela personalidade propositalmente irritante traduzida em linhas impecavelmente caligrafadas me prendia ali.

Eu não sabia se era o sorriso de diversão, os sentimentos das palavras transmitidos pelas sobrancelhas finas juntamente com a boca arqueada, se era o desejo de conhecer mais do que tinha naquele momento diante dos meus olhos. O desejo de descobrir que na verdade ele era doce e tão solitário quanto eu mesmo, que também escondia os cortes sob a camisa, deixando as pessoas pensarem que só haviam aqueles arranhões bobos em nossos braços e nos chamarem de fracos, mesmo que fôssemos de certo modo fortes por suportar a dor da carne e das palavras apenas para não termos de mostrar o que realmente nos afligia.

Se era a vontade de ter alguém. De amar alguém.

"Certo, eu vou continuar fingindo que você não age como um. Mas só pra avisar: eu tenho spray de pimenta."

- ... Será que alguém já tentou apimentar a comida com spray de pimenta?

"Só se for alguém mais idiota que você."

- Eu vou te bater.

"Eu to com a mão nele"

- Parei.

Silêncio.

"Você trabalha em quê?"

- Revista de gente acéfala.

"Explicada a sua acefalia."

- É serio, eu vou te bater.

"É serio, eu tenho spray de pimenta."

- Olha, dá pra gente conversar sem se xingar e ou ameaçar? Já é chato e complicado ficar lendo caderninho e a sua escrita me irrita de tão bonita que é. – Irritava, mas só por inveja. Até hoje tenho problemas para entender o que eu mesmo escrevo.

"Desculpe. Não resisto, você tem acara de quem faz isso o tempo todo. Quis dar o troco por quem não teve a oportunidade."

Sinceramente, eu queria bater nele.

Bem, o resto da conversa não foi mais produtiva que o começo, assim como nenhuma foi, é ou será, mas admito ter sido divertida. Falamos sobre coisas banais e aleatórias que não mereciam atenção alguma, mas que tomaram quase toda a noite – e eram tão aleatórias que sequer consigo lembrar o que eram.

Quando voltei para casa naquela noite, pensei em há quanto tempo eu não conversava com alguém durante uma noite inteira. Há quanto tempo eu não me prendia a uma conversa, mesmo que parte dela tivesse que ser lida. Há quanto tempo eu não interrompia alguém no meio da fala para ser "educado" ou mandar que calasse a boca. Não. Eu havia lido cada palavra que ele escrevera. Esperara que ele terminasse cada dos textos antes de abrir a boca.

Fora como... se estivesse reaprendendo a me comunicar "humanamente".

Eu não o vi nos dias seguintes. Porque nos dias seguintes, eu tive que chegar antes do horário do expediente para ajeitar as coisas do meu chefe, como uma... punição para não perder o emprego. O que eu fazia? Levava o café dele, colocava as revistas em cima da mesa e era o serviçal para qualquer coisa que ele quisesse. Eu tive que engraxar o sapato dele, certo dia.

Também não peguei um número de telefone com o moleque. Certo, eu não tinha exatamente como falar com ele no telefone. Isso me deixou um pouco... frustrado. Eu queria encontrá-lo novamente. Queria sentir raiva daquela caligrafia impecável, ouvir aquele silêncio leve ser quebrado apenas pelo som da caneta sobre o papel e ter que me concentrar naqueles lábios, nas sobrancelhas arqueadas para tentar captar como ele teria verbalizado aquelas palavras.

Queria me sentir estúpido e brigar comigo mesmo por estar tão obcecado por ele. Por estar tendo pensamentos e vontades como esta.

Levaram três semanas para que eu finalmente esbarrasse com ele de novo ao voltar para casa à noite. Esbarrar não é a palavra apropriada. Ele tropeçou em mim. Tro-pe-çou. Faz idéia de como isso me insulta?

Eu o convidei parar tomar um café, como da outra vez. Foi exatamente a mesma coisa, a mesma sensação de leveza, de estar me divertindo. Não aquela diversão em que todos bebemos muito, falamos montes de besteiras e rimos enlouquecidos. A sensação era semelhante a... Felicidade. Algo que eu não sentia há realmente muito tempo.