Capítulo 3- Constrangimento
Quando Kagome avistou a casa de Kaede, não pôde conter um suspiro. Certamente nunca demorara tanto tempo para percorrer um caminho tão curto ao lado de InuYasha. Ela achou que a ansiedade logo seria manifestada por parte do hanyou, porém ele parecia conter seus sentimentos. Ela deixou seus músculos relaxarem.
- Kagome- a voz dele a sobressaltou.- Tudo bem?
Ela apenas afirmou com a cabeça, enquanto sem perceber, deixava que seus dedos afrouxassem o aperto na mão de InuYasha. Ele não resistiu, e logo suas mãos se separaram.
Ficara calada grande parte do caminho de volta, e não podia explicar o porquê. Agora que tudo parecia tão certo e constante, uma espécie de pânico se aflorara. Ela odiou-se mentalmente por estar agindo como uma criança.
- Sim...eu só estou- ela tentou achar palavras, mas logo desistiu. O hanyou olhou para a própria mão, agora solta. Depois, mirou a mão dela- seu olhar subiu pelo braço de Kagome até atingir seu rosto. Ela corou violentamente ao sentir-se observada tão de perto.
- E-eu- InuYasha parecia incapaz de articular corretamente as palavras. Ela pôde observar as orelhas no alto de sua cabeça moverem-se levemente, e soube que ele estava chegando a algum tipo de conclusão silenciosa.- acho melhor você ir falar com Kaede...
- O quê?- ela deixou que a pergunta escapasse de seus lábios.
InuYasha estava muito corado, os lábios cerrados quase formando uma linha. Kagome franziu o cenho e buscou sua mão novamente.
- InuYasha...?
Ele não relutou quando ela segurou suas mãos. Ela sentiu que ele estava realmente tenso, e procurou seus olhos, nervosa que alguém da vila pudesse aparecer e impedir que ela solucionasse o mistério por detrás dos olhos dourados do hanyou.
- E-eu não queria...e-eu- ele sacudiu a cabeça bruscamente.
- Do que você está falando?- ela abaixou o tom de voz, tentando repassar mentalmente qualquer fato que pudera ter tirado InuYasha do sério daquele jeito.
Ela pensou no momento anterior- o verdadeiro reencontro deles. Ela mesma estava se sentindo mais silenciosa que o habitual, ao pensar em tudo que haviam compartilhado nos últimos instantes. Todos aqueles anos de incertezas, a tensão constante entre os dois- e principalmente, os poucos momentos em que havia demonstrado seus verdadeiros sentimentos. Infelizmente, era a primeira vez que estavam realmente próximos daquele jeito. A primeira vez que podia trocar um abraço mais demorado, andar de mãos dadas... nunca havia tido coragem- nem circunstâncias possíveis- para que aquilo acontecesse.
Ela deveria estar feliz, sentindo-se completa. O medo era irracional...estúpido. O que ela tinha a perder?
Seu coração batia tão forte ao observar o hanyou diante de si- ela não conseguiria expressar em palavras a perfeição que enxergava nele. Ele ainda tentava falar algo, sua boca abria e fechava incansavelmente. Ela observou seus lábios, precisando conter a respiração ofegante que se seguiu. Não deveria pensar no momento anterior, em que estivera perfeitamente colada com a criatura parada diante de si. Ela não era daquele jeito! Não podia ser! Nunca estivera tão próxima de um garoto como estivera com InuYasha minutos antes- e o detalhe mais importante: nem garoto ele era, mas sim um hanyou, os quais poderes ela conhecia muito bem.
Tudo aquilo era tão confuso para ela. Mas ela já havia pensado tanto sobre aquilo nos últimos anos que parecia redundância relembrar todos os receios naquele momento.
- Me desculpe...- a voz dele foi tão baixa, que ela precisou raciocinar para entender que realmente viera dele.
- Pelo que?- ela retrucou, antes que pudesse se conter.
Ele apenas ficou mais vermelho.
- InuYasha...?
Ele conteve a respiração um minuto, tentando fazer sua mente voltar a funcionar de maneira normal. Como colocar aquilo em palavras? Ele jamais poderia falar aquilo em voz alta, ou poderia?
Maldita a hora que ele cedera aos impulsos. Arrependia-se de ter sido guiado pelo instinto. Quando beijara Kagome e a garota agarrara-se ao pescoço dele, devia ter se afastado como fizera das vezes anteriores. Mas não havia se sentido capaz de fazer aquilo...e agora culpava-se e sentia-se um idiota ao pensar que havia a abraçado tão violentamente, deixara suas mãos passearem pelas costas de Kagome...quase alcançara o limite intransponível... e lembrar do gosto de Kagome e da maneira com que suas línguas haviam entrelaçado-se uma na outra não estava o ajudando a concentrar-se em manter o limite.
Não poderia mais encará-la!
Ele sempre a respeitara. E até mesmo quando tivera um relacionamento sério anteriormente com Kikyou, jamais chegara à etapa de sentir que não conseguiria parar. Ele achava, até então, que tinha seus instintos sobre controle.
Xingou Miroku mentalmente ao lembrar dos comentários maldosos do monge sobre permanecer em um lugar isolado ao lado da garota que se gosta. InuYasha sacudiu a cabeça ao lembrar da justificativa do amigo para já ter três filhos em tão pouco tempo de casamento.
- Eu não- ele precisava falar, precisa reunir coragem.- não queria...não quero que você pense que...
Kagome piscou diversas vezes, encarando-o. Parecia achar que ele estava falando em uma espécie de código.
- É por isso que você está calada, não é? Me desculpe se...eu ofendi você de alguma maneira...- ele terminou a frase bruscamente, buscando mais ar.
- Ofendeu?- ela parecia mais confusa ainda.- Do que você está falando, InuYasha?
Ele iria perder a paciência. Felizmente, quando ela agia como uma garota inocente, parecia clarear a mente dele. Ele a puxou com certa delicadeza para que se afastassem da casa de Kaede. Quando alcançou a árvore que já vivenciara muitas conversas dele, ele a soltou.
- Eu falei para você, Kagome...o quanto eu esperei que você voltasse...o quanto senti sua falta...- ele não corou ao dizer aquilo, porém a garota parecia ter sido atingida por um pico febril agora que conversavam sem o calor do momento anterior.- Você sabe o quanto significa para mim, Kagome...e eu não quero...não quero estragar o que construímos até agora...
- Estragar?- ela parecia zangada agora.- Inuyasha...você nunca falou comigo desse jeito! Você está me deixando confusa!
- Há!- ele virou o rosto, perdendo a paciência também.- Não consigo falar com você!
Ele já virava as costas, desistindo de tentar explicar algo tão constrangedor.
- InuYasha!- a voz dela estava alterada. Ele se encolheu, sabia o que sempre vinha depois daquele grito.- Nem pense em sair andando e me deixar aqui plantada!
Ele se virou a contragosto.
- Achei que havíamos deixado tudo claro!- ela se aproximou dele e segurou seu antebraço firmemente. Ele olhou para a mão da garota por um instante, tentando compreender porque ela não gritava mais com ele.- Você não precisa esconder nada de mim, então por favor...me explique porque você está se desculpando.
Ele sentiu o rosto quente novamente, porém controlou seu nervosismo. Fez sinal para que ela subisse em suas costas- procuraria outro lugar para conversarem. A cena que se seguiu foi completamente constrangedora- não conseguiram se locomover como geralmente faziam. Kagome mal encostou em seu corpo enquanto ele corria, e ele parecia correr de um jeito mais despreparado do que de costume. Quando ele achou que já estavam longe da vila o suficiente, a deixou sair de suas costas. A garota prontamente sentou na raiz de árvore mais próxima, esperando silenciosamente pelo discurso de InuYasha.
Ela ficou quieta, mas seu coração batia rápido. Uma hora atrás, ela poderia jurar que não havia a necessidade de falarem nada. E agora, repentinamente, as palavras pareciam estritamente necessárias.
- Kagome- ele estava de costas para ela, parecia mais a vontade para falar assim.- Eu estaria me repetindo se dissesse como estou me sentindo agora que você está aqui.
Ela lembrava bem das palavras dele.
"E esperei dia após dia...ás vezes parecia um sonho...cheguei a imaginar como seria o momento que você apareceria..."
"Durante todo esse tempo eu errei muitas vezes, Kagome... Tive todo o tempo do mundo ao seu lado...e ao mesmo tempo..."
Um frio na barriga se instalou, e ela tentou respirar calmamente.
- Eu não quero que você se afaste nunca mais de mim, Kagome!- ele quase gritou, cerrando seus punhos. Kagome sentiu o corpo tremer, e desejou fortemente que ele se virasse para que ela pudesse ver sua expressão.- Apenas um dia sem você me parece insuportável agora que eu pude saber como você se sente depois de tudo que passamos...
A voz dele era tão baixa. Ela se levantou de onde estava, observando as orelhas no alto da cabeça do hanyou detectarem o farfalhar de folhas nos seus pés, enquanto ela se aproximava dele.
- Inuyasha...- a mão dela alcançou sua veste vermelha, tentando puxá-lo para perto de si.
Ele permaneceu parado, com a cabeça baixa, impedindo-a de ver seu rosto.
- Eu não quero fazer nada que possa me arrepender depois.- ele manteve a voz firme.- E eu quero que você me diga caso eu esteja...esteja...fazendo algo que ofenda você ou...
- Me ofender?- ela riu novamente, vendo que ele não gostava graça que ela fazia da situação.
- Sim- a voz dele mais pareceu um ronco.- Antes...quando estávamos...quando eu...quando eu beijei você...
Ele se afastou um pouco dela, os dedos de Kagome deslizaram soltando-se do tecido.
- Foi diferente...- ele parecia sem fôlego.- Diferente de qualquer coisa que já tenha acontecido comigo...eu agi sem pensar...eu...
- InuYasha!- ela sentiu o corpo ficar mais quente conforme ele falava, sentindo-se lisonjeada ao escutar aquilo. Era verdade que ele nunca havia sentido algo parecido? Ele parecia tão certo do que estava fazendo, mas ao mesmo tempo parecia que ambos estavam se descobrindo naquele beijo.- Eu também nunca senti algo parecido...
Ela abraçou as costas dele antes que ele a impedisse. O corpo do hanyou estava tão tenso, ela sentiu os próprios músculos reagirem à tensão do momento.
- Mas Kagome...- ele tentou se desvencilhar.
- Não fuja de mim...- ela sussurrou. Ouviu um rosnar suave subir do peito de InuYasha até sua garganta. Aquela simples frase tinha algum efeito diferente nele? Ela descansou a mão no peito dele, colando seu corpo mais para perto. Descansou sua bochecha nas costas fortes do hanyou, apertando-o contra si. A mão dele alcançou a que ela havia depositado em seu peito, contendo-a.
- É exatamente desse tipo de coisa que estou falando...- ele sussurrou, e ela ficou feliz que ele estivesse de costas, pois não pôde conter um sorriso. InuYasha era tão corajoso e destemido, e naqueles momentos tão cheio de cautela e regras.
Ele se afastou, deixando a mão de Kagome suspensa no ar.
- D-desculpe, InuYasha...eu não...ora, quantas vezes eu abracei você assim!- ela corou violentamente, precisando fechar os olhos para conseguir continuar aquela conversa.
- É diferente!- ele gritou de volta!
Ela abriu os olhos e encontrou os olhos dourados dele finalmente a encarando, ele tão corado quanto ela.
Mas ela não iria continuar com aquela conversa. Ela não havia passado por tudo aquilo para ceder a regras e imposições. Ela queria estar ao lado dele, não queria ter qualquer tipo de bloqueio ou receio.
- InuYasha, seu idiota!- ela quase gritou, enquanto desfazia a distância entre os dois. Ele recuou alguns passos, mas ela segurou seu pulso e aproximou seus rostos deixando apenas milímetros entre seus lábios.- Você tem medo do que?
Ele ficou parado, aos poucos seu rosto perdendo o vermelho. Ele respirava rápido, mantendo o corpo para trás, tentando manter distância de Kagome.
- Você estava muito à vontade minutos atrás! Nós nos beijamos...e nos beijamos de novo...isso não é motivo para...
Mas ela parou de falar, ao lembrar do próprio pânico que se abatera sobre ela. Agora, vendo a insegurança de InuYasha, parecia tão mais simples ser corajosa. Afinal, aquele era o InuYasha que ela conhecia. Era muito mais fácil lidar com a infantilidade dele...
-...você não precisa se assustar com o que está sentindo.
Ele observou os lábios dela se moverem apenas a poucos milímetros dos seus, tentando manter o corpo imóvel.
- Apenas me prometa uma coisa...- ele engoliu em seco, e continuou antes que ela o interrompesse.- Você não vai hesitar em usar o poder desse colar idiota- ele apontou para o próprio pescoço- caso eu aja como um idiota novamente...
- Você sempre age como um-
- Eu falo sério, Kagome!- ele segurou o pulso dela, invertendo os papéis. – Se eu ultrapassar qualquer limite...se eu...
- Eu entendi o que você quis dizer...- ela sussurrou, observando o semblante dele relaxar.
Ela sorriu internamente. Abaixara a guarda do hanyou.
- Mas nós ainda temos um problema aqui...- ela encheu-se de coragem, deixando que o hanyou segurasse seu pulso e mantivesse seus rostos perigosamente próximos.
- Kagome- a voz dele já era impaciente.
- O que faremos se eu quiser ultrapassar algum limite?- ela sussurrou, observando o choque no rosto de InuYasha. Ele já conhecia o jeito de Kagome, mas pareceu imensamente sem graça ao constatar até onde a garota podia chegar.
Mesmo os reflexos rápidos de InuYasha não puderam conter a aproximação abrupta de Kagome. Ela jogara seus braços ao redor dele, apertando-o fortemente contra si. InuYasha, ainda surpreso, segurou o corpo dela como pôde, tentando encarar os olhos da garota. Ela fez o melhor que pôde- não quebrou o contato visual, e sabia que aquele era o olhar mais significativo que já haviam trocado. Havia tanta coisa naquele olhar- medo, receio, paixão, amor...desejo. InuYasha não parecia controlar suas reações corporais da mesma forma que as palavras bonitas e cavalheiras que proferira anteriormente- Kagome pôde reparar nos arrepios que o tomaram enquanto ela o olhava daquela maneira. Sentiu as garras dele exercerem uma pressão dolorosa em seu braço, enquanto ela se perdia no dourado de seus olhos. Deixara InuYasha sem palavras. O olhar dele também foi mudando aos poucos, parecendo se preencher de entendimento sobre o que estava acontecendo. Foi a vez dela sentir arrepios por todo o corpo. Na cabeça dela, uma pergunta continuava girando: porque estavam tão próximos e ainda mantendo apenas contato visual?
Não houve muito tempo para ela tentar explicar aquela dúvida, sua visão já havia sido nublada, e quando ela percebeu seus olhos já estavam fechados. A boca de InuYasha tapara a sua de modo brusco, seu discurso tão bem elaborado parecia pura hipocrisia enquanto ele envolvia o corpo de Kagome com seus dois braços, sem se importar com limite algum.
Ela seria capaz de gargalhar, se não fosse a seriedade do momento. Então ela era realmente capaz de tirá-lo do sério! Tentou corresponder à altura, mas não parecia capaz nem de se mover. Um medo gostoso brincou no pé da sua barriga- ela era capaz de detectar a face youkai de InuYasha se manifestando naquele momento.
A velocidade do beijo não diminuía, e o contato dos caninos afiados de InuYasha, que deveriam lhe causar dor, apenas serviam para aumentar a ansiedade que a tomava. Ela segurou a nuca de InuYasha fortemente, tentando controlar a situação. Ao sentir Kagome reagindo de maneira mais brusca, o hanyou perdeu a última linha de controle que tinha. Kagome não soube responder como ele não tropeçara nas raízes da árvore próxima- sentiu o impacto forte em suas costas do tronco da árvore. Cravou as unhas nos ombros de InuYasha quando ele pressionou o corpo mais fortemente contra o dela. Ela ouvia sons desconexos, e conforme sua respiração pareceu se controlar, conforme InuYasha diminuía a velocidade do beijo, ela percebeu que não contivera pequenos gemidos que haviam se perdido dentro da boca do hanyou. Ele parecia bastante consciente dos sons produzidos pela garota, e intensificava a busca pelos cantos de sua boca, a língua ágil, enquanto um rosnado contido escapava de sua garganta. Kagome sentiu o corpo tremer violentamente quando ele apertou sua cintura e afastou seus lábios bruscamente. Ela achou que ele voltaria a si, e começaria com alguma discussão idiota novamente. Ficou feliz ao ver que ele estava tão alterado como ela. Felizmente, ela parecia ter maior controle sobre o próprio corpo. Tentava conter o instinto de puxá-lo para perto novamente, seu corpo parecia gritar, um calor infernal subia desde seus pés até suas bochechas.
Ela teve um vislumbre da semelhança entre InuYasha e Sesshomaru quando seus olhos se encontraram novamente- não havia dúvidas de que vira novamente a face youkai de InuYasha. E o mais incrível era saber que ela mesma provocara aquilo.
- O seu cheiro...- ele parecia sem fôlego, quando descansou a testa na curva de seus pescoço. A respiração dele batendo em sua pele não estava ajudando-a manter a calma. Ela sentiu a ponta do nariz de InuYasha percorrendo o caminho pelo seu pescoço.
- Ahn...- ela não conteve o que estava sentindo. Apertou um dos braços dele fortemente, enquanto deixava sua respiração sair em arquejos. Mas ela queria que ele continuasse a falar...explicasse o que tinha de diferente em seu cheiro.
- Eu nunca pensei que ele poderia ficar melhor...- ele respirou profundamente no pescoço dela, enquanto sua outra mão deslizava suavemente, quase sem tocá-la, subindo de seu pescoço para seu queixo. O braço que ela apertava permaneceu obediente, parado.
- Inu...Yasha...- era a primeira vez que sentia aquele calor arder tão forte na pele. Já presenciara situação parecia em sonhos, mas jamais imaginara que fosse tão perfeito na realidade.
Ele continuava percorrendo o caminho pelo seu pescoço, repetidas vezes, parecendo se acalmar ao fazer aquilo. Ela pensou que talvez fosse uma tática para ele voltar ao controle anterior- ela não queria que aquilo acontecesse.
- Kagome...- ela sentiu os lábios dele se moverem, quase colados a pele do seu pescoço. O arrepio foi instantâneo, e ela sentiu a risada contida de InuYasha bater em sua pele.- Você nunca escuta o que eu falo, não é?
Ela ficou em silencio, sentindo a magia do momento ser quebrada. O seu corpo ainda gritava, implorando por um contato maior com o hanyou.
- Eu deveria estar arrependido...- ele falou mais para si do que para ela. Ela gostou de ver que ele podia ser verdadeiro e esquecer todas aquelas regras que falara anteriormente.
Ele a encarou- a mão dele novamente subiu pelo seu pescoço lenta e delicadamente, dessa vez alcançando sua bochecha, sorrindo ao ver o vermelho que as tingia.
Kagome tinha os olhos semi-cerrados, InuYasha estava conseguindo a hipnotizar mais do que geralmente fazia. Ele beijou seu rosto delicadamente, buscando seus olhos no instante seguinte.
- Viu?- ela respirava em arquejos- Você tem um ótimo controle da situação.
Ela queria soar irônica, mas sua voz parecia cansada.
- Controle...- ele debochou. Ela sorriu, era bom ver que aquela face de InuYasha não se perdera. Aquela energia que ele mostrava nas batalhas estava ali, diante dela. Direcionada para algo completamente diferente.- Você não tem nenhum...
Ele usou aquele tom ofendido novamente, um sorriso brincalhão em seu rosto. Ele deixou os caninos á mostra, e Kagome se perdeu olhando para eles. Novamente aquele medo gostoso a tomou- ele realmente tinha mais de youkai do que ele próprio sabia.
- Eu não mencionei que tinha...- ela quase suspirou.
O semblante dele suavizou, mas ao mesmo tempo seus músculos ficaram contraídos.
- Vou levar você de volta à vila...- ele falou, se encará-la.
- O quê? Mas...
Ela já ia puxar o corpo dele para próximo dela novamente, a distância que os separava era tamanha que já não parecia mais haver a euforia do momento anterior.
- Miroku!- Inuyasha gritou, fechando os olhos, aparentemente controlando a raiva.- Achei que você tinha três crianças para cuidar!
Kagome sentiu o rosto corar violentamente, protegendo-se atrás de InuYasha.
- Não se preocupe- o hanyou sussurrou para ela.- Eu ouvi ele chegando há metros de distância...
Ela sentiu o peito inflar e uma felicidade inexplicável a tomou- por isso ele parara repentinamente com todo aquele comportamento eufórico.
- Achei que ele estava espionando- ela levou uma mão ao peito, querendo sentir seus próprios batimentos.
- Há!- InuYasha debochou.
Miroku finalmente apareceu, porém tinha a expressão relaxada.
- Kagome- sama!- ele a cumprimentou educadamente.
Kagome relaxou ao ver que InuYasha, como sempre, estava um passo à frente. Ela morreria se soubesse que alguém presenciara o momento anterior entre ela e o hanyou.
- Kaede- sama estava preocupada. Não encontramos vocês na casa de InuYasha e- o rosto irônico finalmente aparecera. Kagome controlou a raiva que borbulhou dentro de si.
- Já estávamos indo- Kagome respondeu sem pensar.
Miroku trocou um olhar com InuYasha e rapidamente saiu de seu campo de visão.
- Ah, eu vou sofrer com as perguntas...- o hanyou passou a mão pelos cabelos.
- M-mas...- Kagome sentiu o pânico aflorar- V-você disse que ele não viu nada!
- Sim! As perguntas viriam de qualquer jeito...- ele olhou para Kagome, segurando sua mão delicadamente.- Porém seu rosto corado pode ter dado asas à imaginação do Miroku...
Ela sentiu que corou mais ainda.
- Isso é culpa sua!- ela tentou soar brava, mas não conseguiu. InuYasha sorriu fracamente para ela.
- Precisamos voltar...- ele pareceu triste com a constatação.- Eles devem estar realmente nos procurando...planejando algo provavelmente para comemorar sua volta...
- Ah, claro...- ela não se importou de soar desapontada.
InuYasha pareceu gostar da expressão em seu rosto.
- Vamos andando...- ele a guiou pela mão, e ela agradeceu mentalmente por não precisar montar nas costas de InuYasha em um momento como aquele, considerando a maneira como tudo havia terminado.
Ele estava diferente agora, novamente querendo manter uma distância desnecessária entre os dois. Kagome agora entendia que era uma maneira dele se desculpar pelo momento anterior. Mas ela não queria que ele se desculpasse!
Sem pensar duas vezes, ela enlaçou seu braço no dele e recostou a cabeça em seu ombro. InuYasha pareceu surpreso, mas no instante seguinte, enlaçara o braço ao redor do corpo da garota. Ambos continuaram caminhando daquele jeito- Kagome nunca imaginou que fosse algum dia caminhar abraçada daquela maneira com InuYasha.
Sango foi a primeira que viu o casal chegando à vila. Abanou alegremente para eles. Kagome contraiu o corpo, esperando que InuYasha se afastasse a qualquer momento. Mas ele não o fez.
Ele pareceu agüentar muito bem as brincadeiras e comentários que se seguiram, tanto de Miroku quanto de Shippou. Kagome fez uma anotação mental para agradecer Sango por permanecer imparcial e não fazer nenhuma piadinha a respeito do romantismo estampado entre ela e InuYasha.
Ele não saía do lado dela, gostava de saber que Kagome estava se tornando uma pessoa tão confiante e forte graças a ele. Observou ela discutir longamente com Kaede o estudo que iniciaria sobre ervas terapêuticas, ela parecia bastante empolgada.
Ele teve algum tempo para pensar sobre tudo que acontecera com os dois, enquanto todos silenciavam para apreciar o jantar preparado especialmente para comemorar a volta de Kagome. Sentados ao redor da fogueira, deixaram que pequenas conversas surgissem.
InuYasha olhou para o céu estrelado, tentando pensar sobre tudo que acontecia com ele. Sentia- se completo, mas ao mesmo tempo eufórico. Estar ao lado de Kagome, sabendo que ela estaria por perto dia após dia, mexia com ele. E o universo era testemunha que ele tentara manter a calma todos os momentos, por mais que seu instinto gritasse com ele desde a primeira vez que haviam trocado aquele beijo mais ousado. Mas o que ele deveria fazer? Impedir que momentos maravilhosos como o daquela tarde acontecessem? A própria Kagome parecia diferente agora que sabia o que ele sentia por ela- mesmo que ele não tivesse colocado em voz alta. Parecia decidida, certa do que queria. Ele não tinha forças para pará-la. Ele tinha a experiência de lutas de quem vivera muitas batalhas sangrentas, havia tido o coração dilacerado...havia sobrevivido a muitas coisas...e por mais improvável que parecesse, perto de Kagome, ele era uma pessoa completamente diferente. Ela conseguia mostrar lados dele que ele achou que se envergonharia, mas perto dela parecia tão mais controlado...e o mais importante: ela parecia gostar dele por inteiro.
Precisava pensar com calma...se acalmar...deixar que Kagome se adaptasse à nova realidade.
Foi com aquele pensamento em mente que ele se despediu dela naquela noite, enquanto todos ainda conversavam sentados ao redor da pequena fogueira.
- Você tem muito trabalho pela frente...precisa descansar...- ele falou baixinho, abaixado próximo à ela.
- Você precisa mesmo ir?- o olhar suplicante dela era de partir o coração. Algo dentro dele ressonava quando ela usava aquele tom de voz. Ele precisou se manter firme em sua decisão.
- Amanhã bem cedo estarei aqui...eu tenho um casa agora, lembra? Não se preocupe...não vou dormir em um galho de árvore qualquer...
Ela riu de um jeito espontâneo. Ele sentiu um impulso quase doloroso de beijar seus lábios novamente. Mas ele tinha plena consciência de que todos os olhares estavam sobre eles dois naquele momento, mesmo que todos disfarçassem.
- Tudo bem, então...- havia algo mais naquele olhar, mas ele não soube decifrar.- Boa noite, InuYasha...
Ela sussurrou, observando as orelhas dele se agitarem no alto de sua cabeça.
- Boa noite, Kagome...- ele se afastou rapidamente, sem aviso prévio. Mas o sorriso continuou no rosto de Kagome, enquanto observou ele se afastar.
Ele estaria ali no outro dia...ela precisava se preocupar um pouco com os estudos que seguiria com Kaede. Se adaptar à nova vida.
- Kagome!- a voz de Shippou a tirou de seus devaneios.- Vou lhe mostrar onde você vai dormir!
Parecia que ela nunca estivera fora três anos. Todos a trataram como sempre, e ela sentia-se grata por isso.
Sentiu uma pontada de saudades de sua família...como estariam Souta, vovô e sua mãe? Ela suspirou feliz ao deitar a cabeça no travesseiro e pensar, que havia todo o tempo do mundo- poderia visitá-los ao lado de InuYasha, contar tudo que estava aprendendo naquela Era.
Ficou com medo ao constatar que estava tão feliz. Momentos de felicidade como aqueles geralmente não duravam, ou duravam? Depois de tudo que haviam passado, nada mais justo que ela e InuYasha pudessem viver inteiramente felizes.
Pensar nele fez com que aquele frio no estômago voltasse. Imagens daquele dia voltaram à sua memória. Tudo aquilo acontecera mesmo, ou era apenas sua mente pregando peças?
Ela fechou os olhos, cobrindo-se e virando-se de lado para dormir. Kirara ressonou baixinho com a movimentação dela. Ela sentiu-se completa. Pertencia verdadeiramente àquele lugar. Nunca se sentira tão bem.
O que InuYasha estaria fazendo naquele momento? Estaria pensando nela? Relembrando os mesmos momentos?
Ela sentiu o sono chegar e não lutou contra ele. Aquele primeiro dia lhe dera inspiração suficiente para ter uma boa noite de sonhos povoada pelo lindo hanyou de cabelos prateados e olhos dourados, dono de seu coração.
Continua...
N.A: Desculpem a demora! Muitos compromissos que tomam meu tempo ¬¬ Uau, adorei as reviews! O brigada a todos que leram até aqui! E sim, a classificação etária da fic está começando a dar as caras! Itekimasu!
