Folhas de papel rabiscadas

"Being a writer of fiction isn't like being a compulsive liar, honestly."
Neil Gaiman


Disclaimer: Não me pertencem.

Nota: Fanfic pertencente ao projeto Quinzena VK 2017, no qual foram selecionados 15 temas para serem desenvolvidas fanfics do ship Sailor Venus/Kunzite. Esta fanfic é do dia 7, folhas.

Essa fanfic estragou meu rolê das fics fofas/engraçadas e ia ser eliminada do mês VK, mas aí eu não consegui escrever nada para o tema... Aí ficou isso aqui mesmo.
E está fora de ordem de novo.


Tinham tantas folhas de papel jogadas no chão que uma pessoa desavisada acharia que ali era algum tipo de papelaria vítima de um furacão. Mas, no caso de ser realmente uma livraria desorganizada, só tinha dois tipos de papeis: folhas escritas e amassadas e folhas escritas soltas por todas as superfícies possíveis. Ela se abaixou e pegou uma das bolas de papel tão bem amassada que parecia ter sido feita em um momento de fúria. O suspiro que se seguiu era de pesar. Ele escrevia tão bem, era mágico como ele unia as palavras e a fazia querer ler mais e mais, mesmo ela não sendo tão chegada a literatura. Só que ela não estava ali para isto. Mamoru tinha ligado para ela na noite anterior e a feito que iria ver como ele estava. Mamoru estava preocupado com ele e só isto já era um sinal ruim.

"Saitou?" – ela chamou baixinho. Ela não se considerava a melhor pessoa para estar ali, mas, ao que tudo indicava, era a única opção de Mamoru. O que era, ao mesmo tempo, triste e dolorido. Eles já tinha sido muitas coisas, de forma intensa, e agora não eram nada. Respirou fundo e o chamou desta vez mais alto. – "Saitou?"

"Poderia perguntar como você entrou aqui?" – a voz dele era baixa, ela não lembrava de ter ouvido usar um tom de voz alto desde que apareceu, mas não tinha qualquer sinal de irritação por ela estar ali.

"Mamoru-san pediu para checar você." – ela respondeu, dando a volta no sofá onde ele estava deitado – "Disse onde estava a cópia dele da chave da sua casa."

"Hmm" – ele respondeu como se isto não interessasse ele e continuou deitado com um dos braços sobre os olhos.

"Você está bem?" – ela perguntou. Ela era muito boa em ignorar lugares bagunçados, caso contrário não conseguiria abrir o próprio guarda-roupa, mas era mais complicado não notar quando a bagunça era uma pessoa.

"Você pode dizer para o mestre que estou bem." – ele respondeu.

"Não foi bem isto que eu perguntei." – ela comentou.

"É esta a resposta que você veio buscar." – ele ainda usava o mesmo tom sem emoção – "Você veio me checar e dizer para ele como estou. Para ele, estou bem."

"Não parecer que você esteja bem."

"E desde quando você se importa?" – a pergunta veio rápida. Rápida demais para quem estava tentando ser displicente.

"Desde quando sai da minha casa em pleno feriado para ver como você estava." – o tom de voz dela era estável e até simpático. Aquilo o irritou de alguma forma.

"Você já fez o que tinha que fazer aqui, Aino." – ele falou ao se sentar no sofá e olhar para ela pela primeira vez desde que aquela conversa tinha começado – "Pode ir para casa ou sei lá onde pretendia gastar seu precioso feriado."

"Feriados são tédios quando todos estão viajando." – ela respondeu, olhando para ele de relance. Era um pouco intimidador encará-lo quando ele estava naquele humor. – "Sabia que existe uma coisa chamada lixeira? Dá para jogar as folhas de papel dentro dela e deixar as coisas um pouco mais organizadas."

"Você está preocupada com a arrumação da minha casa agora?" – ele ainda estava sentado e a olhando.

"Não. Na verdade, não..." – ela olhou para ele antes de continuar a falar – "É só que... Essas folhas todas espalhadas pela casa falam muito mais sobre seu estado de espirito do que de organização."

Saitou fechou os olhos por alguns instantes e respirou fundo.

"Você realmente pode ir." – ele falou com um pouco mais de suavidade – "Eu vou ligar para o Mamoru e atualizar ele sobre como estou."

"Sobre o que você está escrevendo, Saitou-san?" – ela perguntou, ignorando o que ele falou.

"Por que você está insistindo em ficar aqui?"

"Tenho interesses em processos criativos." – ela respondeu como se fosse obvio – "É legal saber qual como um autor escreve seus livros, um músico compõe..."

"Você já leu meus livros?" – ele estava incrédulo.

"Pode parecer surpreendente, mas eu sei ler." – ela respondeu com um sorriso que o irritou. A maioria dos sorrisos dela eram irritantes.

"Não entendo o porquê de você se autodepreciar assim."

"Não me deprecio." – ela argumentou com outro sorriso – "É só um comentário engraçadinho."

"Seus comentários engraçadinhos são cheios disto, auto depreciação e sorrisos falsos."

Minako suspirou e revirou os olhos antes de jogar a bolsa em qualquer canto. Não fazia muita diferença em escolher um lugar para isto já que tudo estava fora do lugar mesmo. Pegou uma das folhas não amassadas que estava na poltrona e se sentou sem ser convidada.

"Não é possível ser autodepreciativa e rir de verdade." – ela respondeu, passando os olhos pelo papel – "Você soa amargurado nestas linhas."

"Você nunca parece sorrir de verdade." – ele insistiu.

"Isto é o tipo de coisa que só dá pra ser dito depois de muita observação." – ela continua lendo o que está na folha que ela segura.

"Eu sou um escritor, minha função é observar tudo e escrever sobre." – ele respondeu.

"Você vai continuar a me encarar o tempo todo assim?" – ela perguntou.

"Você vai continuar a evitar o meu olhar o tempo todo?"

"Não." – ela murmurou, jogando a folha no chão e o encarando.

"Pode não parecer, mas tenho um sistema de organização aqui e você acabou de jogar esta folha aleatoriamente no chão."

Ela olhou para folha como não se importasse, e ela não se importava mesmo, e voltou a encará-lo.

"No começo, eu achei que estava vendo coisas onde não existiam." – ela falou com cuidado – "Sabe, quando parece que você está sendo meio paranoico e todos insistem em te jogar isto na cara? Uma coisa neste estilo."

"O que você está tentando me dizer?"

"Mamoru realmente me pediu para checar se você estava bem. Parece que 3 dias sem notícias suas o deixam preocupado." – ela respondeu – "Acredito que o estereótipo de escritor amargurado e deprimido lhe cai bem. Não tenho dúvidas que algumas destas folhas jogadas por aí devam ser alguma receita médica."

"É a segunda vez que você me chama de amargurado."

"Sim e eu posso lidar com a sua evidente amargura, a mágoa que já me deixa sem reação." – ela respondeu como se escolhesse as palavras com cuidado apesar de estar falando rápido – "Voltando a minha paranoia, quanto mais eu lia os seus livros, mas eu achava... Coisas que os outros não viam. Eram detalhes bem sutis."

"Você quer discutir literatura comigo?" – ele perguntou com a sombra de um sorriso. Minako percebeu que a barba dele estava por fazer.

"Não, não tenho pretensão de discutir literatura com um escritor quando eu escrevo só listas de coisas a serem feitas." – ela respondeu, balançando a cabeça – "A questão é que eu sempre me acho no que você escreve. Então queria te perguntar, estou sendo paranoica e vendo coisas demais?"

Ele se inclinou para trás e apoiou as costas no encosto do sofá.

"Como já disse, eu escrevo o que observo." – ele respondeu evasivamente.

"E as obras que você escreveu antes de nos conhecermos?"

"Isto realmente importa?" – ele perguntou.

"Nós mal trocamos meia dúzia de palavras, Saitou." – ela apoiou os cotovelos sobre as próprias pernas como se tentasse de aproximar dele, mas ainda respeitando o espaço pessoal dele. – "Não nos olhamos nos olhos e não sabemos nada um do outro. Você não me conhece e me coloca nessas folhas que estão jogadas no chão. Eu até entendo o apelo disto, eu realmente te colocaria em algo só para te destruir mesmo que figurativamente assim." – ela pegou outra folha e a amassou com muito mais força do que era necessário. – "É poético."

"Você quer o que, Minako?" – ele coçou os olhos com os dorsos das mãos. Ele parecia cansado agora. – "Quer que eu lhe dê os créditos como musa inspiradora?"

O som que ela fez podia ser confundido com uma risada.

"Musa inspiradora..." – ela repetiu sem esconder um tom meio venenoso.

"Não gosta do título?" – ele perguntou – "Posso achar outro mais adequado. Do que você gosta?"

"Eu gosto quando você não gasta suas palavras com coisas dolorosas." – o fantasma de um sorriso passou pelo rosto dela.

"Você mente com seus sorrisos. Eu preciso dizer a verdade com as minhas palavras escritas."

"Eu pensava que a ficção era um tipo de fuga."

"Talvez. Para o leitor."

"Para o escritor não?"

"Para mim, é o melhor jeito de... Tentar lidar com tudo."

"Escrever é seu escudo." – ela murmurou.

"Escrever é guardar memórias. É... Uma forma de reviver o que aconteceu."

Minako o olhou por alguns instantes.

"Quais são as chances do seu último banho ter sido há 3 dias atrás?"

"Você está fugindo do assunto?" – ele perguntou quase achando graça.

"Não, mas eu realmente vim aqui para ver como você estava." – ela sacudiu os ombros – "Eu preciso fazer um relatório para o Mamoru e tal."

"É só fazer o que eu te disse antes, falar que estou bem e que vou ligar para ele depois" – ele falou.

Ela se levantou e desamassou os vincos da saia. Pegou a bolsa do canto que tinha jogado e caminhou pela sala.

"Não sei se foi uma boa ideia fazer a vontade do Mamoru-san. Ou te perguntar o que você ainda não respondeu." – ela falou baixinho – "De certa forma me sinto mal por tudo, mas sei que a culpa não é minha."

"Não precisa se preocupar comigo." – ele ainda estava apoiado no sofá – "E... Não é impressão sua, eu escrevo sobre você. Todas essas folhas espalhadas pela casa..." – ela gesticulou com os braços abertos – "Só para conseguir ficar um pouco mais perto."

Minako colocou as alças da bolsa em um dos ombros e se aproximou dele por trás do sofá. Tirou alguns fios de cabelo da testa dele e o beijou no topo da cabeça.

"Eu vou voltar amanhã para ver se você ainda está vivo, Saitou." – ela falou.

"Tudo bem." – ele acenou com a mão – "Faça como quiser." – e suspirou quando a viu sair pela porta da frente.