Capítulo III
Excertos do Diário de um Adolescente Biótico
DIA 1
Hoje cheguei da escola e encontrei os meus pais na sala, acompanhados de dois homens engravatados. Fiquei logo assustado, porque reparei que a minha mãe estava a chorar, enquanto o meu pai lhe envolvia os ombros com o braço, mas, quando me aproximei, vi que ele estava com um ar contente. Intrigado, avancei e quando me viram, nem me deixaram pousar a mochila que trazia nas costas, levantaram-se rapidamente e abraçaram-me. Fiquei confuso e pedi que me explicassem o que se passava, então pareceu que se lembraram de que eu não tinha assistido a toda a conversa e começaram por me apresentar aos dois homens que ali estavam.
Os dois sujeitos eram representantes da empresa Conatix Industries, a qual estava encarregue de descobrir crianças que haviam sido expostas acidentalmente ao Elemento Zero, tal como eu enquanto ainda estava na barriga da minha mãe. Os dois estavam em minha casa para me levar para Gargarin Station – Jump Zero, como era mais conhecido – onde me fariam testes para determinar se estou apto para me colocarem implantes e me enviarem para uma escola para jovens bióticos como eu.
Ao princípio, fiquei assustado com a ideia, não me queria separar da minha família, nem ser operado para me porem uns implantes experimentais no cérebro, mas, por outro lado, fiquei bastante entusiasmado por ter a oportunidade de conhecer outras pessoas iguais a mim e deixar de ser aquela aberração de quem toda a gente se ri e, até certo ponto, teme.
DIA 3
Estou na nave que me vai levar para Jump Zero. Os meus pais estão muito contentes no geral, mas a minha mãe estava um bocado triste e nervosa durante a despedida. Ainda bem que o meu pai estava lá para a sossegar, ele até disse que tinha a certeza de que eu estava destinado a grandes feitos (coisa que eu não me acredito muito, mas é sempre bom de ouvir) e que esta oportunidade me ajudaria a formar uma boa carreira na Aliança, tal como a dele.
Estão outros rapazes e raparigas mais ou menos da minha idade a viajar comigo, mas ainda não tive a oportunidade de falar com ninguém. Tem sido um dia cansativo e as expectativas para amanhã deixam-me nervoso. Só espero poder festejar os meus 16 anos, daqui a quatro meses, em casa, com os meus pais.
DIA 6
Passei os últimos dois dias a fazer testes. Alguns achei difíceis, mas dei o meu melhor. Na verdade, o que me aborreceu mais foi a parte dos exames médicos, porque detesto agulhas. Pelo menos, no final, fui recompensado, já que eles acharam que eu estava apto para o Programa e vão-me fazer a cirurgia nos próximos dias.
Conheci, também, alguns dos colegas que estavam a fazer os testes comigo, mas só uma rapariga conseguiu passar à próxima fase. Chama-se Rahna e tem o cabelo e os olhos pretos, é muito bonita. Disse-me que vem da Turquia e que, quando acabar o Programa, me vai visitar ao Canadá, já que nunca lá foi. Fiquei muito contente por termos passado os dois e espero que possamos ser amigos.
DIA 10
Estou no hospital à espera dos meus pais, que foram autorizados a verem-me se eles próprios pagassem a viagem.
Ontem, a Rahna deu-me uma pulseira que fez com conchas que apanhou numa praia em frente à casa dela, na Turquia. Disse-me que era para me dar sorte na cirurgia, como um amuleto, e eu fiquei bastante envergonhado por não ter nada para lhe retribuir. No entanto, ela disse-me que a nossa amizade chegava para lhe dar sorte.
DIA 25
Já passaram duas semanas desde que fiz a cirurgia e os médicos dizem que estão muito contentes com a minha recuperação. Eu nem quero imaginar o que os outros, que não têm tanta sorte, têm que passar, porque eu tenho tido dores terríveis de cabeça. Aliás, durante a primeira semana após a operação, nem me conseguia levantar, ou comer, ou até dormir. As dores eram tão fortes que só me apetecia virar o barco. Quando as dores estabilizaram, no início desta semana, começaram a fazer-me exames. Todos os dias são exames e mais exames quando o meu desejo é fechar-me no escuro e no silêncio.
Espero que a Rahna esteja a recuperar bem.
DIA 45
Agora que estou pronto para sair do hospital, chamaram novamente os meus pais para se despedirem de mim, porque durante o treino uma das regras principais é o isolamento do mundo exterior. Mas, ao menos, vou ter a Rahna comigo. Vi-a várias vezes nos corredores, enquanto nos levavam de sala em sala para fazermos os exames, e admiro sinceramente a força dela, sei que se deve sentir tão mal ou pior que eu e, mesmo assim, tem sempre um sorriso para quando me vê. Espero que toda esta experiência me fortaleça também.
DIA 47
Hoje mostraram-nos as instalações e deram-nos o dia livre para descansar e conhecer os colegas. Pelos vistos, amanhã vai chegar o nosso instrutor e eu ouvi rumores de que seria um turian.
Um turian a treinar miúdos humanos preocupa-me porque sei perfeitamente que ainda existem muitos ódios e rancores devido à Guerra do Primeiro Contacto, combatida há 8 anos, entre humanos e turians. Seja como for, eu e a Rahna pusemos a conversa em dia e ainda conhecemos mais uns colegas com que nos divertimos a contar anedotas. Nunca me tinha sentido tão aceite como hoje.
DIA 48
Esta noite fiquei sem jantar, foi o meu primeiro castigo por ter – supostamente - provocado o novo instrutor, que é um parvo e odeia claramente humanos. Afinal, apresentou-se como Vyrnnus, "o soldado que matou o teu pai". Eu respondi-lhe que o meu pai nem sequer tinha estado na guerra e isso bastou para vir para a cama sem jantar e com promessa de castigos ainda mais severos. Felizmente, a Rahna trouxe-me um pão às escondidas.
DIA 68
Quando me admitiram neste treino, nunca pensei ter que passar por este inferno. Estamos todos esgotados. Passamos os dias, desde que acordamos até nos deitarmos, a fazer tudo bioticamente. O Vyrnnus só nos deixa comer se puxarmos os pratos com a mente, senão bem que podemos ir para a cama com fome. Além disso, se nos recusarmos a cumprir as suas ordens, castiga-nos fisicamente. No outro dia, espancou um rapaz que apenas precisava de descansar, porque as dores de cabeça eram tantas, que estava a perder a visão. Até já vi a Rahna sangrar do nariz mais do que uma vez com o esforço que faz nos treinos e, por cada gota que vejo escorrer-lhe até aos lábios, mais o meu ódio pelo Vyrnnus toma forma.
DIA 98
Ontem foi o meu aniversário e a Rahna lembrou-se. Então, em conjunto com outros colegas, juntamo-nos todos num dos dormitórios e conversamos a noite toda, escondidos do Vyrnnus. Foi um alívio poder passar aquele bocado apenas a conviver, longe dos treinos, das dores de cabeça e dos constantes insultos que o turian insiste em cuspir-nos durante todo o dia.
Tenho saudades dos meus pais e do meu quarto em Vancouver. Quem me dera voltar para a Terra e levar a Rahna para longe de tudo isto.
DIA 190
Hoje assistimos à terceira morte aqui no Brain Camp. Uma das raparigas não aguentou a pressão e enforcou-se com um cinto, ao contrário dos outros dois colegas, a quem o corpo apenas não mais resistiu à brutalidade dos treinos.
Estou cada vez mais preocupado com a Rahna, já a apanhei escondida a chorar por duas vezes e nem quero pensar no que faria se a perdesse. Ela tem um medo de morte do Vyrnnus e ele aproveita-se disso para me afectar. Ele marcou-me desde o primeiro dia e, ironicamente, a maldade dele para comigo é uma das razões que me faz ser mais forte e não lhe dar a satisfação de me ver quebrar, então ele ataca a Rahna, por saber que somos tão chegados.
DIA 273
Estou aterrorizado. Sinto-me completamente paralisado e perdido.
Há dois dias, durante o jantar, a Rahna sentia-se exausta e adoentada e a única coisa que queria era um pouco de água fresca. Então, esticou o braço para chegar ao copo, porém o Vyrnnus andava ali perto e viu-a. Correu para ela e agarrou-lhe o braço com tal violência que o partiu. Ela gritou e caiu no chão e eu não me consegui controlar e empurrei-o bruscamente. Mas ele era mais forte do que eu e atirou-me ao chão, começando a pontapear-me com força. Todo o meu corpo doía e senti-me humilhado. Quando ele parou, subitamente, olhei para cima e, num espaço de poucos segundos, vi-o pegar numa faca e aprontar-se para me golpear. Então, nesse momento, lancei toda a força biótica que tinha contra ele, uma onda de energia reforçada com toda a raiva que tinha acumulado durante todos estes meses. Ele voou para trás e, quando caiu no chão, ouvi um som bizarro de osso a partir. Aproximei-me e vi que a cabeça dele estava pousada num ângulo estranho e aí raciocinei: tinha-lhe partido o pescoço!
Alguns seguranças aproximaram-se a correr, seguidos de um médico. Olhei em volta e todos os meus colegas me olhavam também, em silêncio. Então, virei-me para a Rahna, ainda caída no chão, e aquela expressão de medo que ela tinha nos olhos sempre que via Vyrnnus tinha-a agora, enquanto me olhava a mim. Ainda a tentei chamar, mas dois seguranças levaram-me rapidamente para fora da sala, para um dos escritórios. Esperei algumas horas por um representante da Conatix que me interrogou. No fim, puseram-me num quarto sozinho, separado de todos os outros.
DIA 300
Já estou há algumas semanas de volta a casa e desconfio que os meus pais não sabem a verdade do que se passou, mas eu também não tenho a mínima vontade de voltar a falar do sucedido. Tudo o que sei é que o Programa de Treino foi fechado e nunca mais tive contacto com ninguém, nem com Rahna. Tudo o que fiz foi para a defender e, no entanto, agora não passo de um monstro para ela. Será que o sou mesmo? Afinal de contas matei um homem! Turian ou não, sádico ou não, era um homem.
Não sei o que fazer do meu futuro, sinto-me perdido e sozinho mais uma vez. A única coisa que prometi a mim próprio é que nunca mais me vou poder deixar levar pelas emoções, vou aprender a viver com esta maldição e a controlá-la, por mim e pela memória da amizade que um dia tive com a Rahna.
