Dream of a Spring Breeze

:: ::

::

Anko estava sentada numa das várias mesinhas com guarda-sóis espalhadas pela calçada. Aquela era uma avenida estritamente comercial, composta majoritariamente por estabelecimentos como confeitarias e quitandas imitando o estilo pós-revolução e vitrines cobertas com decalcomania, algumas com nomes em inglês. Todas estavam abertas – nas estações turísticas, a maioria dos lojistas viram pagãos.

A que estava acomodada se chamava O'Shivney's Café, a qual o dono teve a conveniência de ser irlandês. Antes um animado beberrão do que um russo turrão. Sempre que ela sorria agradecendo por alguma coisa eles lhe atiravam um olhar estranho, como se ela fosse uma maluca pronta para ir para o manicômio.

– Que dia! Que dia! – exclamava ele alegremente, mas não sem um pouco de espanto. – Poucas vezes a hera tem outra utilidade além de enfeitar o pavilhão.

Toda a avenida, de uma calçada à outra, era coberta por um teto de hera. Hoje (e durante muitos poucos dias ao longo das estações geladas) protegia do sol os transeuntes, deixando passar apenas alguns raios de sol, que pontilhavam as casas e o chão com respingos dourados. O termômetro da rua estava marcando 15 graus.

Ao avistar Shisui (impossível confundir aquela cabeleira ondulada), se levantou, já antecipando o sorriso enfurecido e a conversa vulgar meio maluca, mas ao reparar mais atentamente no estado do amigo, silenciou. A cabeça baixa, os ombros caídos e os pés arrastando-se com lentidão só podiam significar duas coisas: que dormira mal à noite ou que Shisui-Fez-Uma-Burrada e alguém ia pagar o pato.

Torcendo para que fosse a primeira opção (torcendo mesmo, porque da última vez que Shisui cometera uma asneira, levara para o ar quatro bandidos e uma cozinha chinesa), sentou-se e esperou ele chegar. Aquela postura curvada e o cabelo bagunçado... ele parecia estar vindo a pé dos confins da Terra.

– Você está atrasado – ela disse, quando ele puxou a cadeira à sua frente e se sentou. – Muito atrasado. E sempre foi pontual como um relógio. O que aconteceu?

Ele a olhou com os olhos cansados, raivosos.

– A culpa é sua, espero que saiba ao menos isso.

– Shisui, não comece...

Mas é! Eu estava quieto no meu canto, tentando aproveitar pelo menos um pouco das minhas férias nesse fim de mundo, e você me aparece com uma prostituta de luxo que me fodeu por dentro, por fora, de um lado para o outro e de cabeça pra baixo!

– Então, pelo o que você está me contando, não foi ruim.

Ele gemeu, começando a esfregar a testa.

– Anko, você não morre velha.

– Me conte uma novidade, benzinho.

– E quer saber qual a melhor parte? O máximo disso tudo? Ele cobrou quatro mil verdinhas por uma única noite. Dá para acreditar?

– Não sei do que você está reclamando. Você ganhou um bônus por serviços prestados à comunidade no início do ano, não ganhou?

– Gastei tudo no tratamento de meu pai – O'Shivney, o irlandês, veio perguntar se Shisui gostaria de alguma coisa. Ele pediu cigarros. – Ele teve uma hepatite séria e até hoje se queixa das coceiras.

Ele olhou para Anko e percebeu que ela o olhava de volta com olhos abertos e alertas, a xícara esquecida entre os lábios.

– O quê? – perguntou ele. – O que foi?

– Com que dinheiro você pagou o garoto, então?

– Para ser sincero, não paguei. Mandei-o às favas, disse que eu não sou esse tipo de... O quê? O quê?

Anko não parecia mais apenas alerta, mas atônita. Seu queixo tinha caído quase até a fivela do cinto.

– Você não fez isso – ela sussurrou depois de um minuto inteiro de silêncio. – Ah, seu maluco! Seu estúpido maluco!

– Anko, o que...

– Você não sabe – disse ela, inclinando-se para frente até apertar as coxas contra as beiradas da mesa – que todos – todos! – os cabarés daqui são ligados a traficantes? Ou pior, mafiosos? Mafiosos russos?

As engrenagens do cérebro de Shisui rangeram e foram aos poucos começando a se movimentar. A compreensão iluminou seus olhos quando ele percebeu aonde ela queria chegar. Encarou-a, emudecido. Estava ela pensando que, por causa do garoto, algum "amiguinho" dele iria bater à sua porta por ele não ter pago pelos serviços?

Anko assentiu.

– E eu não usaria o termo "amiguinho", Shisui. Eu diria que o garoto poderia muito bem mandar dois gorilões garantirem que seus braços fiquem dobrados de várias maneiras novas e interessantes.

Os cigarros chegaram, e ele acendeu um. Não iria se dar ao luxo de entrar em pânico. Deu uma tragada, tossiu, tragou de novo. Nunca havia fumado, mas aquele parecia ser um bom momento para começar. Shisui ficou pensando com seus botões que, se o caso era esse, um salário adiantado e um empréstimo do banco deveriam resolver o problema.

É impressionante como esse troço acalma, pensou, observando a fumaça subir, sumindo nos raios de sol e voltando a aparecer nas sombras. Não é a toa que as pessoas fumam sabendo que vão ter câncer antes de se aposentarem.

– Eu sugiro que você vá atrás dele. Eu tenho o endereço. Vá e faça o mea culpa com o máximo de franqueza que conseguir aparentar. E arranje o dinheiro. Com submundo do crime não se brinca, Shisui. Principalmente se nós não estivermos jogando em casa.

Ele sabia disso. Ele sabia e mesmo assim não sentia vontade de encontrar o garoto novamente. A maneira como ele o olhara pela manhã... Shisui se sentira como uma criança: chocado e envergonhado. Ninguém, além de seu pai, jamais o fizera se sentir assim. E seu pai parara de lhe dar puxões na orelha mais ou menos quando tinha quatorze anos. A quantia, por mais alta que fosse, parecia fichinha perto do desprezo que aqueles olhos castanhos haviam lhe lançado.

– Eu vou – disse a Anko, acompanhando com os olhos um grupo de garotas que passava, rindo e gritando alto como um bando de banshees [Demônio em forma de mulher do folclore irlandês]. – Não se atucane.

Ela suspirou e deu batidinhas em sua mão. Pegou um panfletinho num suporte para guardanapos, rabiscou o endereço e entregou a ele. Shisui o meteu no bolso da calça e se levantou, quando Anko segurou pela mão.

– Espere.

Ele tornou a sentar, olhando-a curioso. Ela pegou o café, assoprou com uma cara comprida (sem perceber que já estava frio), hesitou e depositou-o de novo na mesa. Quando o encarou, seus olhos estavam sérios e, pela primeira vez desde que Shisui a conhecera, culpados. Ele viu a mulher que ela seria dali a trinta, talvez vinte anos, e isso o assustou muito mais do que a possibilidade de correr perigo num país onde americanos tinham as cabeças servidas em bandejas de prata.

– Tem uma coisa que não lhe contei. Aperte seu cinto.

(oh, céus, minha cabeça vai EXPLODIR)

Explodir talvez não fosse o termo certo. Seu crânio parecia mais estar rachando-se ao meio. Ele entrou no seu local de trabalho, àquela hora limpo e com as cadeiras viradas em cima das mesas, mas que logo estaria recendendo a cigarro e cheio das luzes do estágio, refletidas nos corpos oleosos das strippers que dançariam em seu palco. Hoje era dia de movimento ali, e embora soubesse que deveria ter ido deitar e tirado o resto da tarde de sono (ele provavelmente iria acordar se sentindo pior, mas quando se bebe tanto quanto ele havia bebido, não havia muito o que fazer), ele simplesmente engoliu dois comprimidos de Engov e foi para o bordel quatro horas mais cedo. Sentira que, se tentasse dormir, iria apenas rolar pela cama, porque estava com raiva demais para conseguir pegar no sono. Raiva de seu último cliente (que era a causa de sua enxaqueca – ele lhe dissera que simplesmente não conseguia ficar com tesão sem antes tomar um porre federal, e o obrigou a acompanhá-lo), raiva da vida que levava, furioso com o Sr. Decência-Mor daquela manhã, mas sobretudo, raiva de si mesmo. Fazia muitos anos desde que aquela debilitante sensação de desânimo dava as caras. E, como costumavam dizer por ali, quanto maior a espera, maior o peso. E ela voltava com surpreendente intensidade, como uma febre palustre, que deixava a carne para se esconder nos ossos, e que nunca realmente termina.

Achava que o local iria estar vazio àquela hora, mas se enganou. Limpando o balcão com um trapo velho estava Bozo Mermaid, o barman. Ele ergueu rapidamente a cabeça, sua expressão quase culpada, e sorriu aliviado ao ver quem era.

– Itachi, querido! Chegou cedo hoje.

– É – disse, pegando uma cadeira para si. – Quem achou que fosse?

A expressão culpada voltou ao seu rosto.

– Madara. Por mais que ele não faça nada contra os funcionários, sempre faz um comentariozinho cínico quando tem oportunidade... se bem que seria até compreensível se fizesse, pois não estou melhorando em nada a situação aqui. – Analisou a tampa do balcão, que estava cheio de finos farrapos do pano que usara. – Mas agora tenho com quem conversar. Aceita um drinque?

– Um drinque é a última coisa que quero nesse momento. Bebi tanto nas últimas três horas que minha cabeça parece estar aumentando de tamanho.

O barman fez um ruído longo de compreensão.

– Nesse caso, é melhor deixar quieto. Qualquer coisa que vá fazer só vai piorar, era o que minha mãe dizia.

Era o que minha mãe dizia. Contra a vontade, Itachi se lembrou da sua. Lembrou-se de quando saíram, ele e a família, para a parte sul do estado, numa temporada estranhamente quente de inverno, como naquele dia, e a neve estava úmida demais para grudar, frustrando o jovem aspirante a construtor de bonecos que ele era. Contudo, estava realmente obstinado num certo dia daquela

(férias? Aquilo fora férias? Será que meus pais algum dia realmente tiraram férias?)

viagem e se ajoelhou e tentou fazer um castelo. Quando uma torre tombou em seu colo, deu-se conta que ficara exposto muito tempo ao sol e acabara queimando o rosto, a pele sensível e parecendo no mínimo 5 centímetros mais alta que o habitual. Voltou para os pais tentando não chorar, mesmo sabendo que uma hora ou outra acabaria chorando, e os viu embaixo de uma árvore, observando um bando de gansos atravessando o céu. Não soube naquele momento, mas era daquele jeito que ele se lembraria deles pelo resto de sua vida. Mamãe e Papai, sentados na sombra de uma algarobeira, Fugaku ereto e o cabelo batendo nos ombros, Mikoto de vestido florido e o carregando Sasuke no ventre saliente.

A lembrança veio primeiro doce, depois amarga. Ele foi enchido de uma saudade muito forte, uma coisa selvagem, e se obrigou a parar de pensar nessas coisas, antes que começasse a lembrar de acontecimentos menos agradáveis e mais terríveis, como a noite em que

(Sasuke ACORDE)

Com a palma da mão, bate na testa para afastar esses fantasmas.

Não pense mais nisso, Itachi. Por mais que você os ame, eles estão mortos e fantasmas não têm utilidade alguma para você nesse momento. Deixe isso para lá.

– Falou alguma coisa? – Bozo perguntou.

– Eu não falei nada.

– Falou sim – ele disse. O olhava atentamente. – Disse o.k.

– O.k., eu disse o.k. – respondeu impacientemente, piscando sem parar para reprimir as lágrimas. – Minha mãe sempre falava que quem fala sozinho é porque tem dinheiro no banco.

E ele tinha. Seu trabalho podia ser física e mentalmente insalubre, mas lhe rendera quase 200 mil dólares, pouco mais, pouco menos, dependendo de como o mercado se comportara quanto às letras de tesouro e outras ações naquele dia. Com toda aquela grana, uma pessoa poderia dar no pé daquela terra gelada sem um olhar para trás e comprar uma casa na praia, vivendo o resto da vida de artesanato se quisesse. Mas Itachi não era qualquer pessoa, mesmo que Deus soubesse o quanto ele queria fugir dali. O destino gosta de brincar com a vida das pessoas – ele adora ferrar especialmente com a sua – e o fez tomar uma decisão terrível numa idade não muito distante dos brinquedos da infância. Passar-se-iam poucos dias antes de ter uma nova e mais verdadeira perspectiva do pacto que fizera, contudo, não lhe restava mais nada. "Não tinha onde cair morto" foram as palavras que Madara usara. Ainda lembrava com clareza do modo como ele estava sentado ao lado do corpo ensanguentado de sua mãe, sorrindo benevolente para Itachi. O garoto podia não ser burro, mas era jovem. A ideia de que podia morrer ali, na casa que vivia desde que se dava por gente, era hipotética demais. Passar a noite ali, no entanto – horas em cima de horas, pilhas de horas como pilhas de pesados livros negros na companhia do cadáver assassinado da mãe –, isso era real e inevitável.

Portanto, quando Madara lhe ofereceu um acordo, ele aceitou sem pensar duas vezes. Foi assim que se condenou. E isso ficou a vida inteira em sua cabeça. Foi o pensamento dentro de cada pensamento. Levanta-se pensando "Eu assinei um contrato" e vai dormir pensando a mesma coisa. Esta ideia se move por cada linha que escreve, em cada fala: "Eu assinei um contrato, e por isso minha alma jamais deixará o oriente". Pelo menos não enquanto Madara ainda vivesse, e Madara ainda pretendia viver uns mil anos.

Aos poucos, as pessoas começaram a chegar. Primeiro foram seus colegas, fazendo farra e se dirigindo ao banheiro público, onde ficariam se embonecando e fofocando como velhas – mesmo os rapazes – até o DJ abrir a pista. Depois entraram a elite da noite: homens elegantemente vestidos, usando ternos transpassados dos legendários anos 40 (chique é estar fora de moda, baby) e prendedores de brilhantes em suas gravatas vermelhas, azuis e brancas. Discutiriam sobre lucros e perdas, vida e morte, tragando seus charutos de cereja na área para fumantes. Então vinham as moças, nunca sozinhas, sempre acompanhadas de duas ou três amigas. A julgar pelo modo como os seios balançavam, era fácil certificar que estavam completamente nuas sob os vestidos. Era nessa hora que a campainha prateada do balcão começava a soar, intimando Bozo a se apressar. Bebidas eram servidas: Jim Beam. Wild Turkey. Gilby's. Sharrod's Private Label. Toro. Seagram's. Todos ali, todos à sua disposição, senhor, cintilando dentro de suas garrafas tampadas com sifões de prata. E muito depois do sol se pôr e do nascer das primeiras estrelas, o DJ começa a testar o ambiente com sucessos do verão, para então partir para as músicas com batida. Era nessa hora que os mundialmente conhecidos "corações partidos" chegavam. Eles sentavam-se calados e pediam qualquer coisa com teor alcoólico superior a 50%. E quando a bebida era posta no balcão, começavam a chorar. Eram cenas tão miseráveis que chegava a ser cômicas.

E a dor de cabeça de Itachi, que ele pensava estar indo embora, voltou em toda sua glória. Ele fechou os olhos com a dor, sentindo a caixa torácica ribombar com o ritmo da música. Ele se levantou do banquinho onde estivera sentado por todo aquele tempo e foi caminhando lentamente em direção ao banheiro público (a maioria de seus colegas o chamava de vestiário, mas um lugar com chuveiros sobre as privadas e sem armário para as toalhas seria sempre um banheiro público para ele), esbarrando em alguém ao entrar.

– Descu...

– Itachi! – Era uma garota que ele conhecia, morena e de cabelos compridos, mas não lembrava o nome. Ana? Nana? Vanya, a Periquita Paraguaia? – Queriiiiido, você não está com uma cara boa. Acho melhor parar com essa cocaína, ou seu nariz vai cair.

– Nossa, que engraçada que ela é – disse ele. – Vai acabar entrando para o Letterman.

– Ééééé, a Hana aqui tem mesmo senso de humor. – Hana. É esse o nome dela. Ela riu e o abraçou bem forte. Itachi identificou um cheiro acre nela, apesar de seu perfume e da fumaça de cigarro do ambiente.

– Hana, você está bêbada?

– Nãããão estoooou nãããão – trombeteou, e deu-lhe um beijo estalado na face. – O que acha de fazermos amor de um modo que nunca irá esquecer? Teremos lindos bebês.

– Obrigado, mas essa eu passo.

– Ei, Hana! – chamou um dos homens de terno do lado de fora. Ele já estava sem o paletó e a camisa desabotoada até a metade. Seus pés estavam descalços. – Até quando pretende me deixar com uma ereção, meu bem?

– Tenho que ir, doçura – disse a Itachi. – Meu povo precisa de mim.

E ela desapareceu em meio à multidão, parecendo muito bonita e sensual em sua microsaia de borracha preta e botas de plataforma que a deixavam um pouco mais alta que seu companheiro. Hana adorava animais e tinha uma fauna deles em casa. Com o pai foragido, tinha que ajudar a mãe na renda da casa e cuidar do irmão menor. Estudava pela manhã, trabalhava numa lanchonete do McDonald's à tarde e frequentava o bordel três vezes por semana (É, doçura; a vida não estava fácil para ninguém). Provavelmente pararia dali a uns cinco anos, quando pendurasse o diploma da faculdade de veterinária na parede da sala. Coisa que Itachi nunca teria o orgulho de fazer.

Trocou de roupa, substituindo sua calça de tricô e seus mocassins por um short Diesel preto tremendamente apertado, e botas de cano curto, saltos cubanos e bicos pontudos. Era um calçado que ali eles costumavam chamar de "topada fina", e que Bozie, praticamente um integrante da velha guarda, conhecia por "botas dos Beatles". Quando tirou a camisa, a pele dos braços imediatamente arrepiou-se e sua cabeça pulsou com força. Naquele dia, a temperatura aumentara, mas não para acima dos 10 graus.

Pegou um estojo verde de dentro de sua bolsa e dirigiu-se para o único espelho do banheiro, cercado por duas garotas que disputavam um batom.

– Deem licença, senhoritas. Preciso pôr minha maquiagem.

– Cara, você é uma vadia – disse uma delas.

– E quem aqui não é? – murmurou, passando com cuidado o delineador. A garota apenas riu com desdém e começou a passar o batom da outra, que já estava à beira das lágrimas.

Itachi tinha prática e fez o melhor que pôde, mas não conseguiu esconder os círculos debaixo dos olhos. Saiu do banheiro vestido daquele jeito – botas, short e sem camisa, os pelos eriçados e os bicos dos mamilos erguidos. Uma mão afoita passou por nádega e ele a afastou com um tapa distraído, mas violento, como se estivesse espantando um mosquito impertinente. Pensou ter ouvido uma risada, mas a música estava alta demais para poder ter certeza.

Se me dessem quinze centavos por cada par de mãos que já tirou uma casquinha de mim, seria um pouquinho mais rico, pensou, e fungou. Um martelo de prata deu um piparote em sua testa. Ele voltou para o bar e sentou-se na ponta, pois o meio estava ocupado por funcionários e seus respectivos clientes. Duas garotas estavam engajadas numa luta furiosa, incitadas por uma pequena multidão que entoava "Vai, vai, vai!" como uma espécie de mantra. Elas se beijavam, mordiam e arranhavam, as mãos se movendo tão rápido que Itachi não conseguiu distinguir quais mãos pertenciam a quem.

Massageou as têmporas com movimentos circulares, apoiando-se no balcão de imitação de mármore, polido por milhões de cotovelos antes dos dele, quando ouviu outra pessoa fungar. Olhou e viu um rapaz bem-nascido – dava para saber pelo corte curto do cabelo e a jaqueta de caça marrom e branca. Talvez tivesse cinco a mais que Itachi, mas o modo curvado das costas e o rosto abaixado o fazia parecer dez anos mais novo. Tinha um copo de gim-tônica intocado à sua frente.

– Isso não é o frio, certo?

Ele olhou para Itachi com uma expressão sobressaltada e envergonhada. Tentou sorrir e não conseguiu. Realmente, ele parecia um garotinho, longe de casa, sem saber ao certo como havia parado ali.

– Posso sentar ao seu lado?

Ele fez um gesto com a mão e Itachi pulou um assento para à esquerda.

Você não está com frio? – o rapaz lhe perguntou, olhando para o pelo arrepiado dos seus braços.

– Não por muito tempo.

O rapaz assentiu, sem se surpreender.

– Mesmo assim, você deve ter muito colhão.

– Com certeza. Tenho dois. Como você.

O rapaz arregalou os olhos, jogou a cabeça para trás e riu, parecendo mais à vontade. Riu tanto que se balançava em seu assento, atraindo o olhar de algumas pessoas. Itachi esperou pacientemente ele acabar, sorrindo educadamente.

– Tem dois! – exclamou, por fim. – Cara, essa é boa. Essa é quente! Se incomoda se eu falar isso para todas as pessoas que me perguntarem?

– Claro que não. Desde que me conte por que você está recolhido neste canto, fechado como uma ostra.

O garoto pegou sua gim-tônica, o sorriso murcho, e bebeu até quase esvaziar o copo, olhos apertados, o pomo-de-adão trabalhando. Bateu com o copo na mesa.

– Aaah.

– Melhor?

– Sim. Um pouco. Acho que não vou conseguir contar para você, parceiro, mas obrigado por se disponibilizar.

– Foi seu namorado? – Itachi perguntou astutamente. – Ele o traiu?

O garoto virou a cabeça tão rapidamente que Itachi pensou ter ouvido sua espinha estalar. Milhões de pensamentos e ideias pareceram passar por seus olhos, como uma fita de teleimpressor correndo numa supervelocidade. Era como se estivessem prestes a saltar das órbitas. Ele viu as lágrimas fáceis da embriaguez aflorarem-lhe aos olhos.

– Ei, não – disse, tocando seu ombro. O rapaz virou o rosto bruscamente para o lado. – Não chore.

– A culpa não é sua – ele disse, num murmúrio quase inaudível. – Só é difícil, sabe? Não namoramos há muito tempo, mas tem sido tão bom que sinto como se o conhecesse há anos... ou achava que conhecia. – Então, num jorro: - Eu apenas não consigo entender por que ele fez isso! Aconteceu alguma coisa e eu não tomei conhecimento? Sou eu? É ele? Será que ele não podia ao menos ter me contado, antes de eu tê-lo pego se enroscando com aquele capitão do time de basquete no refeitório e tudo ter desmoronado como se alguém tivesse soprado o castelo de cartas da nossa relação? Ele estava quase comendo o filho-da-puta em cima da mesa!

Desceu ambos os punhos sobre o balcão. O copo perto da beirada saltou no ar e caiu no chão sem qualquer barulho, derramando o pouco de gim-tônica que ainda restava.

– Eu pego – disse Itachi, quando ele fez menção de levantar. Se abaixou (e quando sua cabeça ultrapassou o nível da cintura, ele teve de novo a certeza de que ia explodir), pegou o copo e, quando o depositou na mesa, o rapaz já havia recuperado o controle sobre ele mesmo. Mais ou menos.

– Desculpe por estourar desse jeito – disse. – É só que essa porra é tão...

Itachi pegou seu rosto entre suas mãos e o fez olhar para ele. As lágrimas haviam começado a escorrer, e ele as enxugou com movimentos suaves, delicados, dos polegares, beijando o canto de sua boca em seguida. Mas quando o rapaz se inclinou sobre ele (tão espontaneamente quanto uma flor virando as pétalas para acompanhar o sol), buscando seus lábios, Itachi o fez recuar, de modo gentil, mas firme.

– Não faço isso. Desculpe.

– Ah.

O desapontamento em sua voz fez Itachi sorrir.

– Vamos subir – disse-lhe, encostando os lábios em sua orelha. – Você veio aqui para tentar esquecer, não veio?

– Olha, eu realmente acho que... Ooh, merda – arfou, quando sentiu um ponto erógeno de pele sendo chupado. O rapaz gemeu, um som que Itachi não ouviu propriamente, mas sentiu pelas cordas vocais vibrando na palma da mão que havia subido até a garganta. Envolveu a cintura dele com as mãos e o trouxe mais para perto, chupando, mordendo e lambendo, até que o rapaz empurrasse seus ombros, ofegante.

– Certo, vamos subir.

– Trouxe dinheiro?

O rapaz o olhou ao mesmo tempo ofendido e magoado.

– Que tipo de vacilão você acha que sou?

– Desculpe. Um sujeito me passou a perna hoje pela manhã. Não tem importância. Venha.

Pegou-o pela mão e o conduziu em direção às escadas.

– Ei, Itachi! – chamou uma moça. Era uma das garotas que estavam se amassando, para deleite da plateia. – Que lhe parece um ménage à trois?

– Vão para um quarto, você duas.

Elas gritaram de tanto rir. Aquelas já ultrapassaram o estado de "alegrinhas" há horas. Voltaram a se beijar. Alguém gritou "Tirem as roupas!", e multidão fez coro, numa nova cantoria.

Subiram as escadas. Ali no corredor, a música e as conversas continuavam audíveis, porém ficavam abafadas, vindas de uma antiga conexão telefônica de longa distância. Chegando de Moscou, digamos. Ou de Mercúrio.

Entraram num dos quartos. Eles diferiam na colocação dos móveis, mas todos tinham a mesma cama de casal, a grande janela que dava para as luzes da cidade, a cômoda com o cinzeiro embutido, o armário de gavetas com apetrechos que fariam qualquer dona de sexshop chorar.

Foi tudo muito calmo, muito silencioso. Quando estavam ambos nus, o rapaz (que Itachi nunca soube o nome, mas que àquela altura já sabia o seu) o abraçou na frente da janela. No seu ouvido, ele sussurrou:

– Então, me faça esquecer. Console-me. E mesmo que seja tudo mentira, eu vou acreditar.

No dele, Itachi sussurrou de volta:

– Fique tranquilo, está tudo bem.

Era assim que as coisas funcionavam com ele. O público alvo de Itachi eram aquelas pessoas bêbadas, mal-humoradas e tão potencialmente perigosas como nuvens de tempestade cheias relâmpagos. Pessoas que procuravam alguém para colocarem foco, alguém para lhes dizer o que fazer. Ele assumia esse papel e as dava a mais perfeita ilusão de paixão e carinho que conseguia reproduzir; as fazia sentirem-se cuidadas. Itachi não era um filho-da-puta que gostava de brincar com os sentimentos dos outros – não era isso. Ele realmente queria que as pessoas esquecessem o que se passava fora daquelas paredes e tivessem uma noite prazerosa, por uma vez que fosse – era uma maneira um pouco mais digna de levar seu trabalho. A angústia de uma pessoa não pode simplesmente ser aliviada por gim-tônica e sexo.

Contudo, ele nunca pertenceu a nenhuma delas. Nunca.

Lá fora, era quase noite fechada.

(como eu vim parar aqui mesmo?)

Oh, claro. O callboy. A dívida. Pedir desculpas a ele, por mais agressivo que isso fosse ao seu ego. Deixar Anko nua no deserto, foi isso que ele havia pensado? Muito pouco. Isso era para guris que espiavam as irmãs no banho. Anko merecia ficar amarrada numa cadeira e ser forçada a escutar Rebecca Black até o cérebro começar a escorrer das orelhas. Então Shisui esquartejaria seu corpo e o mandaria para todos os cinco continentes, para que nunca mais pudesse ser remontado de novo. É, isso era melhor.

Ficou parado olhando para o prédio, um monólito com todo o gosto e estilo de um muro de concreto. O prelúdio do pôr do sol, radiante demais para ser visto sem cerrar os olhos, fazia seus três andares parecerem estar sob uma sutil ampliação. O Kremlin de Cazã [Complexo Arquitectônico e Histórico do Kremlin de Kazan é a cidadela histórica principal do Tartaristão, república onde se passa a história], um dos mais bonitos da Rússia, flutuava na distância longínqua. A sombra de Shisui estava agora tão comprida que parecia um guindaste.

Ele ficara perambulando por aí o dia inteiro, indo de lugar em lugar, assombrando os shoppings da cidade. Almoçou sem realmente ter consciência disso (depois de quase meia hora percebeu que estivera encarando fixamente sua carne com legumes e que algumas pessoas olhavam para ele) e, quando terminou, deu-se conta de que não estava com fome nem a mais, nem a menos. Era como se a comida tivesse se comportado feito dinheiro político: vindo do nada, ido para o nada.

Saíra do restaurante com um cigarro na boca e fones de ouvido enganchados nas orelhas, tocando a todo volume. Olhou para um instante para um pessoal que fazia a manutenção de um bueiro, e tentou novamente pensar: Quatro mil dólares a menos, quatro mil dólares a mais, isso não faz diferença. O que importa é que você vai sair dessa bagunça toda incólume e pronto para outra. Você tem um pai para cuidar e uma cidade para manter na linha, portanto não banque o sentimentalóide e mande ver.

Pausa. Mas quatro mil dólares é dinheiro para caramba.

Cada vez que pensava nisso, dava uns risinhos e aumentava o volume do iPod. Não importava de que jeito ele visse a situação – como já dizia Mamãe, todos os caminhos davam na venda. E naquele dia, a Oferta do Dia estava por um preço promocional imperdível: Afogue-se em Dívidas Por Apenas Quatro Mil Dólares Sem Juros. Fique Com Seu Saldo Negativo e Espavore Seus Parentes. Ah, meu Deus, eu mereço ser fuzilado.

Enxotou o pensamento. Ele fingiu sumir, mas durante o dia inteiro continuou rastejando de volta, como o urso branco de Tolstoi [fenômeno chamado de efeito Urso Branco, em alusão a uma história descrita por Leon Tolstoi, na qual seu irmão relata a dificuldade de parar de pensar em Ursos Brancos, caso se esforçasse para fazê-lo].

Cá estava ele agora. Trouxera seu distintivo, apesar de saber que mostrá-lo só iria pôr obstáculos em seu caminho ao invés de removê-los. Corvos, pardais, tordos e estorninhos estavam empoleirados nos fios dos postes de luz, observando-o com seus olhos pretos, sem pestanejar. Eles pareciam um júri.

Era a hora. Se ele iria levar isso adiante, tinha que entrar naquele momento, discretamente, sem levantar suspeitas, e esperaria até o garoto dar as caras. Então o puxaria para um canto, diria sua conversa para boi dormir, e voilá. Eles sairiam com uma bela amizade improvável.

Lembre-se do que Anko lhe contou.

Olhou para os pássaros. Eles o olharam de volta. Estava nervoso. Zombou de si mesmo por isso, mas o nervosismo era um fato. Deboche não o faria desaparecer.

Eram 18h01.

::

:: ::