A/N: Once again, a huge thank you for all the work MI is putting into translating this story. We both hope you're enjoying the story. Thank you for reading.
CAPÍTULO 2
Completamente apanhados de surpresa, ficaram todos sem palavras. Por um longo minuto, só o estridente grito de um pardal e a suave agitação das árvores provocada pela brisa marítima quebrou o silêncio no terraço.
Sara foi a primeira a recuperar – se é possível chamar-lhe isso. Balbuciando "Desculpem-me", girou rapidamente nos calcanhares e voltou a entrar em casa.
Dan viu-a retirar-se e voltou-se para Gil. "Vocês os dois já se conheciam?"
Huum? Gil pestanejou e forçou-se a olhar para Dan. "Oh. Sim." Engoliu em seco e respirou fundo. "Desculpem. Eu, aah –" Teve um vago gesto em direcção à porta que abria para o pátio antes de abandonar Dan, que parecia quase tão surpreendido e sem acção como se sentia, e Billy, que tinha esquecido de todo o seu petisco preferido e olhava para ele cheio de suspeitas.
Entrou na grande sala e parou como se tivesse ido de encontro a uma parede. E, de certa maneira, era o que lhe estava a acontecer. Um estranho dentro daquele espaço e, em tantos aspectos, dentro do espaço de Sara, como podia saber onde ela teria procurado um refúgio confortável para se recompor do choque de ter dado com ele no seu próprio terraço ao fim de tantos anos? Ele próprio ainda se sentia a tremer só por se ter encontrado frente a frente com ela. Tentou respirar calmamente, grato por esta pequena pausa, enquanto deixava os olhos habituaram-se à suave penumbra.
A ampla sala abria directamente para a acolhedora entrada, e tinha no centro a escada de carvalho escuro. Ficou tenso ao sentir passos leves, mas relaxou quando uma jovem surgiu por detrás da base das escadas. Interrogou-se se seria esta a Steph com quem Dan tinha falado mais cedo.
"Precisa de ajuda?" O tom era agradável, a voz acolhedora.
"Sou –" Estava prestes a dizer quem era quando se apercebeu de que o seu nome nada ia significar para esta jovem. "Vim com o Dan. Estou à procura da Sara".
"Ah, é o escritor amigo do Dan. A Sara disse-me que talvez viéssemos a ter outro hóspede. Já procurou na cozinha?"
Gil olhou para a maciça porta de seis painéis de carvalho, que ela lhe indicava à direita, e acenou em concordância. "Obrigado."
"De nada".
Passou por ele em direcção a uma das portas de vidros que flanqueavam a imponente lareira de pedra. Gil viu-a passar para o pequeno alpendre que tinha visto antes através da janela da cozinha de Dan, com o longo cabelo louro a baloiçar ritmicamente e a parecer depois uma massa dourada quando ficou debaixo da luz directa do sol.
Sustendo a respiração, virou-se na direcção oposta, e aproximou-se a pouco e pouco da porta de carvalho, entrando devagar e silenciosamente na cozinha.
Sara estava de pé frente à bancada, muito direita e rígida, de costas para a porta. Podia sentir a tensão dela pela postura, pela mãos cerradas e firmemente agarradas à bancada e pela pensativa inclinação da cabeça.
A porta fechou-se silenciosamente atrás dele. Ela parecia continuar a não sentir a presença dele e, por uns momentos, ficou ali parado a observá-la. Os olhos subiram das longas e bronzeadas pernas para a bem torneada curva logo acima, para a cintura estreita e delineada, até aos ombros firmes e definidos, de momento ligeiramente curvados. O espesso cabelo escuro estava mais curto do que era costume há seis anos atrás; agora mal lhe chegava aos ombros. E o corpo tinha curvas mais suaves do que ele se lembrava.
Mas ele continuava a sentir a forte e antiga atracção entre ambos.
E mais, muito mais.
Mais do que pura atracção física. Emoções, inexplicáveis e profundas, tão poderosas que tinham derrubado a vontade de lhe resistir há seis anos. Emoções que continuavam vivas dentro dele, como compreendeu de imediato, cada uma delas a comê-lo por dentro, a incitá-lo, e a dar cabo dele com a mesma intensidade. E uma outra que nunca tinha sentido antes dela ter abandonado Vegas. Raiva.
Com um enorme esforço de auto-preservação, tentou distanciar-se de tudo isso e deu um pequeno passo em frente, parando quando os ombros dela se moveram ao inspirar profundamente, quebrando o silêncio. Ela também devia continuar a sentir o mesmo, pensou ele, porque, ainda de costas para ele, disse, "Bom, não era de você que eu estava à espera."
"Bom, isto foi inesperado. Porque esperou tanto tempo?"
"Porque sabia que, se começasse, não seria capaz de parar."
"E quer parar?"
"Quero ... , mas, que Deus me ajude, neste momento preciso de si."
Ela virou-se para o encarar, erguendo o queixo. "O Dan disse que você era escritor."
Gil concordou. "Entre outras coisas. A mim disse-me que você era fotógrafa ... e de grande talento."
"Entre outras coisas." De repente sorriu, com os lábios a curvaram-se do mesmo modo com que costumava provocá-lo e ele, apesar da sua resolução em permanecer imune a ela, sentiu de novo aquela velha agitação dentro do peito.
Por um longo momento fitaram-se directamente e, antes de ser dominado pela tentação de desviar o olhar e se esconder dela, respirou fundo e disse, "Desculpe se isto é estranho para você. Posso ir-me embora, mas acho que ainda vai ser mais estranho para o Dan".
"Não quero que se vá embora. Só fiquei... surpreendida. Agora já estou bem". E, confirmando a sinceridade do que acabara de dizer, dirigiu-se ao frigorífico, abriu-o e estendeu-lhe uma grande travessa cheia de bifes. "Ajuda-me a levar a comida lá para fora?"
"Claro".
A seguir passou-lhe outra travessa mais pequena com cogumelos "shitake" marinados, virando-se novamente para pegar numa taça com alface romana e o resto dos ingredientes de uma salada César.
Nenhum deles falou enquanto ele a seguiu em direcção ao terraço, onde Dan se ocupava a servir o vinho.
"A grelha já está a aquecer", disse Dan depois de lhes lançar um olhar preocupado. "Pode pôr isso aqui em cima, Gil", acrescentou, indicando o tabuleiro de ferro ao lado.
Sara posou a salada na mesa e passou a mão pelo cabelo de Billy. "Tenho limonada para você no frigorífico, se quiser".
"Tá". Levantou-se e, sempre a olhar para os pés, arrastou-se para dentro da casa.
"O que é que se passa com ele?!" perguntou Sara a Dan.
Este encolheu os ombros. "Vá-se lá saber? Adolescente. Tem mais alterações de humor que uma mulher".
"Hei!". Esperando de antemão a reacção de Sara, Dan já se tinha baixado a rir. "Continue e vai ver quem acaba a lavar os pratos".
Dan riu ainda mais.
Sentindo um aperto no peito, Gil colocou as travessas no tabuleiro e juntou-se a eles, sentando-se e aceitando o copo de vinho que Dan lhe oferecia.
Erguendo o seu, Dan disse, "Aos velhos amigos".
Enquanto bebiam, comemorando o brinde, Sara lançou-lhe um olhar fugaz sobre o copo.
"Então vocês já se conheciam...", brincou Dan. "Como –"
A pergunta foi subitamente interrompida pelo regresso de Billy, acompanhado pela jovem com quem Gil tinha falado antes.
"Sara, vou-me embora. Precisa de mais alguma coisa? A última carga de roupa já está na secadora e consegui aquela reserva para o Josh e o Brent. Disseram que não esperasse que regressem cedo esta noite."
"Obrigada, Steph. Oh, e antes de se ir embora, quero apresentar-lhe um velho amigo meu". Sara olhou descontraidamente para Gil pela primeira vez desde que tinham saído da cozinha. "A Stephanie é aluna da Faculdade Médica de Harvard, e o meu braço direito por aqui durante o Verão".
"E este vai ser o último", disse Dan com indisfarçável orgulho.
"O Dan é um dos professores da Stephanie", explicou Sara. "E ela vai começar o internato no próximo Verão. Steph, este é Gil Grissom".
"Prazer em conhecê-lo, Mr.Grissom".
"Gil, por favor. E o prazer é todo meu".
Ela inclinou-se sobre a mesa para lhe apertar a mão e depois dirigiu-se a Sara, acrescentando, "Arejei o quarto do sotão e fiz a cama".
"O quarto do sotão. O quê? Você e o Dan..."
Dan piscou o olho a Stephanie e acenou em aprovação enquanto repetia silenciosamente "O Quarto do Sotão".
Sara reparou e dirigiu-lhe um franzir de sobrancelhas bem-humorado e depois sorriu a Stephanie "Divirta-se esta noite".
"Obrigada. É o que tenciono fazer".
Billy, que até aí não podia ter demonstrado um maior e mais óbvio desinteresse pela conversa dos adultos, animou-se subitamente. "Você vai sair com aquele sujeito da mota?"
"Vou."
Dan ergueu uma sobrancelha. "Outra vez?", perguntou, e parecia ir dizer mais qualquer coisa quando Billy interrompeu.
"Papá. Eu quero tanto uma motoreta. Por favor..."
Dan e Sara soltaram ao mesmo tempo um rotundo "Não". Depois Dan riu e abanou a cabeça. "Billy, já disse que falamos nisso quando tiver idade para tirar a carta de condução. Até lá, a sua bicicleta de dezoito velocidades vai ter que servir".
"Eu não ia para para a estrada... só pelos caminhos secundários de terra".
"Billy...", começou Dan em tom de aviso. Era evidente que não era a primeira vez que pai e filho tinham esta discussão. E também não a primeira vez que a tinham na presença de Sara.
"Pois." Afundou-se na cadeira e cruzou teimosamente os braços.
"Bom... Estou de saída", disse Stephanie. "Foi um prazer conhecê-lo, Mr.Gr – Gil. Sara, estou cá amanhã às oito".
"Divirta-se", respondeu Dan jovialmente, mas Gil detectou um ligeiro tom de sarcasmo na voz dele.
Stephanie devia ter sentido o mesmo, porque lhe lançou um olhar sombrio. "Obrigada".
Ficaram todos em silêncio durante uns instantes depois de Stephanie ter saído. Dan olhava para o líquido a agitar-se no seu copo enquanto o rodava suavemente sobre a toalha. As feições adolescentes de Billy ainda mostravam uma expressão amuada. Sara estava pensativa, os olhos castanhos sem fixarem nada em particular, mas evitando Gil cuidadosamente que, por sua vez, tentava compreender o subtexto entre todos eles.
Gil estava bem consciente da sua própria amarga disposição dentro deste pequeno grupo subitamente tão introspectivo. Se só o facto de rever Sara já o tinha abalado bastante, a afectuosa e fácil relação entre ela e Dan ainda mais. Nunca recriminaria Dan por nada, mas quando a sua imaginação o levava a pensar numa relação íntima entre as duas pessoas de quem mais próximo se tinha sentido através dos anos, sentia-se em conflito com um grande sentimento de posse em relação a Sara.
Precisando urgentemente de afastar aquela desconfortável onda de ciúme, recostou-se e elogiou-a sobre Summerhouse.
"Obrigada. Levou algum tempo mas estou satisfeita com o resultado. E é um belo negócio de Verão".
"O que é que faz no Inverno?"
Os lábios delam moveram-se num sorriso divertido. "Renovar. Esta velha casa precisou de muito trabalho antes de a poder abrir ao público. Fi-lo assim que tive as áreas comuns e duas suites prontas. Levou-me dois anos. Daí para a frente só podia trabalhar nos últimos quartos depois da época de Verão terminar. O quarto em que você está – o quarto do sotão", emendou rapidamente, "é o último".
"E você vai para fora este Inverno", disse Billy desanimadamente, ainda sentado à esquerda dela.
Sara sorriu-lhe gentilmente. "Vou. Vai sentir a minha falta, companheiro?"
Billy torceu-se na cadeira e apoiou o queixo numa mão, encolhendo o outro ombro de forma pouco convincente. "Não vai estar cá no Dia de Acção de Graças ou no Natal". A tristeza na voz dele era muito mais forte do que o tom de acusação.
"Eu mando os seus presentes".
"Não é a mesma coisa", murmurou.
Sara olhou de relance para Dan. "Não, não é".
"Para onde vai?", perguntou Gil abruptamente, e com mais do que simples curiosidade.
"América do Sul".
Olhou-a surpreendido. "Porquê?"
"Nunca lá estive".
"Sara passou algum tempo na América Central antes de se mudar para aqui. Agora vai continuar a abrir caminho em direçcão ao Sul", explicou Dan com uma pequena gargalhada.
"Você foi para a América Central depois de – "
Sara confirmou com um aceno.
"Para onde? Quanto tempo?"
Ela pareceu quase estar a desafiá-lo quando respondeu. "A maior parte do tempo na Nicarágua". E, após uma ligeira hesitação, acrescentou, "Estive lá seis meses".
"Andou de mochila às costas pela selva esse tempo todo?"
Os olhos escuros relampejaram. "Como?"
"Já teve notícias da Sara?"
Gil suspirou, abanando a cabeça. "Não responde aos meus emails".
"Bom", disse Catherine, "deve ter mudado de endereço".
"Se a conta já não existisse, o servidor enviava-me mensagens a avisar que não conseguia localizar o endereço. Ela está a ignorar-nos, Catherine. Acho que está na altura de aceitarmos que ela se foi embora – de vez".
"Aceitarmos?"
"Certo. Está na altura de eu aceitar".
Queria saber porque ela tinha ignorado os emails dele mas, com Dan e Billy presentes, não era propriamente a altura para a confrontar sobre o assunto. Por isso refreou a sua vontade e dirigiu-lhe um leve aceno de cabeça fingindo que não tinha importância e, de seguida, despejou o vinho que ainda tinha no copo pela garganta abaixo.
Assim que posou o copo na mesa Dan voltou a enchê-lo. "Cada vez estou mais curioso. Como é que vocês os dois se conheceram?"
Mais que ciente da apurada atenção de Dan, Gil ficou em silêncio, contente por deixar a Sara a tarefa de o esclarecer. Na verdade, estava um puco intrigado por ela nunca lhes ter mencionado o seu passado como CSI em Vegas. Porque se tivesse, Dan teria percebido de imediato que se conheciam há muito tempo.
Olhando para ela, Gil ergueu uma sobrancelha à espera.
"Assisti a um dos seminários do... Gil, já há muito tempo, em Berkeley", disse, referindo-se a ele pelo nome próprio pela primeira vez em doze anos. Mesmo nos momentos mais íntimos sempre lhe tinha chamado Grissom, ou Gris. Ele reparou na ligeira hesitação dela e na forma deliberada como o disse depois, como se quisesse demarcar bem a diferença entre a relação deles agora e anteriormente. Mas não teve tempo para analizar e racionalizar esse ponto porque, logo de imediato, ela acrescentou, "Estou muito mais interessada em como é que vocês se conheceram".
"O Gil namorou a minha irmã".
Os olhos dela pularam para Gil. "A Melanie?"
Dan riu-se. "Vá-se lá entender, não é?"
Ela teve uma expressão de estranheza. "Pois.."
Sentindo necessidade de se defender, Gil começou, "Ela era – ", e não conseguiu encontrar palavras para terminar o que queria dizer na presença de Sara.
"Mais que bem proporcionada, Gil. Ou talvez prefira 'espampanante'."
Ele lançou ao amigo um olhar irritado. "Muito obrigado".
"Sempre às ordens, meu caro amigo".
Sara observou Gil com um olhar suave e contemplativo, mas não disse nada. No silêncio que se seguiu, este reparou que Dan olhava para Sara da mesma forma e percebeu que o modo como ela tinha rapidamente mudado de assunto não o tinha enganado. Tinha perguntas, muitas perguntas para os dois e, preferindo poder adiar o inevitável interrogatório cerrado, sentiu-se profundamente aliviado quando Billy declarou que tinha fome.
"Você está sempre esfomeado", respondeu Dan olhando para o relógio. "Mas acho que já está na hora de começar a tratar dos bifes". Dirigiu-se para o grelhador, perguntando ao mesmo tempo "Como é que quer o seu, Gil?"
"Mal passado".
"A Sara gosta do dela médio, Papá".
"Eu sei como a Sara gosta, filho".
Gil olhou para Sara espantado. "Sara?" Ela enfrentou-lhe o olhar com uma calma deliberada. "Você agora come carne?"
Ela encolheu os ombros. "Não me pareceu justo pôr de parte toda a espécie animal só por causa de um porco".
Gil sorriu divertido mas, por dentro, sentia-se assustado com as mudanças que encontrava nela. Perguntava-se qual seria a verdadeira Sara. A que tinha conhecido durante doze anos, ou a mulher sentada do outro lado da mesa com um leve sorriso provocador e um certo desafio nos olhos escuros, que se desvaneceram num segundo quando Dan se virou para eles erguendo uma sobrancelha.
"Você era vegetariana, Sara?"
"Fui, por uns tempos".
Dan considerou a resposta dela por um instante, mas decidiu não insistir.Voltou de novo a atenção para os bifes enquanto Gil e Sara trocavam um olhar conspiratório. Os seis anos de separação não tinham acabado com aquela capacidade especial de, ocasionalmente, lerem os pensamentos um do outro, e os pensamentos de ambos estavam a comunicar, muito claramente, que estava na altura de mudar mais uma vez de assunto.
"Então, miúdo, já arranjaste uma namorada?"
Desesperado, Billy deixou cair a cabeça sobre a mesa. Sara largou uma gargalhada e despenteou-lhe carinhosamente os caracóis.
O JANTAR FOI AGRADÁVEL, mas um pouco difícil para Gil. A atitude pouco sociável de Billy – que Dan e Sara faziam questão de fingir nem sequer notar - estava a preocupá-lo. Sentia o desagrado do rapaz sempre que Sara lhe prestava atenção, o que acontecia a todo o momento.
Ela era uma boa anfitriã. Interessou-se sobre a nova posição dele em Harvard e sobre o livro que estava a escrever e, após receber só umas breves e obscuras respostas sobre o livro, mudou de novo a conversa para outro rumo. Contou-lhe a história da casa, o estado em que se encontrava quando a tinha herdado e tornou a narrar alguns dos pormenores mais divertidos da renovação. Quando, finalmente, terminaram a sobremesa, um leve sorvete de morango, ninguém poderia adivinhar que alguma vez tivesse existido qualquer tipo de tensão entre ambos.
Mas, para Gil, continuava lá, como um nó sempre presente dentro dele. Sentia-se tão consciente dela como se estivessem ligados físicamente. Sentia o mais pequeno movimento e até a respiração dela. Era uma coisa que o desorientava e o forçava a estar sempre em guarda para não perder o rumo da conversa. E então, num breve momento de distracção, ergueu os olhos e deu com ela a estudá-lo com uma expressão atenta e intensa por entre as espessas pestanas. Foi como um golpe no peito que lhe cortasse o ar.
Sara corou e desviou o olhar. Perturbado, Gil perguntou onde era a casa-de- banho.
"Primeira porta à direita logo à entrada", respondeu ela e, olhando para o relógio, levantou-se e começou a recolher a louça. "Quer que lhe mostre a casa?"
"Claro", disse Gil, tentando que a voz não o traísse ao recordar a sugestão de Dan de que ficasse em Summerhouse durante o Verão. O que antes parecera a solução ideal para um problema era agora o problema em si.
"Já vou ter consigo daqui a pouco", respondeu Sara continuando a empilhar os pratos.
Dan levantou-se e segurou-lhe as mãos. "Vá andando e deixe isto comigo".
"Eu vou com a Sara", disse Billy.
"Mais devagar, jovem", ouviu Dan dizer ao filho enquanto entrava na casa. "Você vai é ajudar a tratar da louça".
Um Billy contrariado a tentar argumentar "Paaaai..." foi a última parte da conversa que Gil ouviu antes de se trancar no pequeno lavabo.
Demorou-se mais do que precisava, a tentar recompôr-se. Decidiu-se finalmente a sair quando ouviu o ruído de pratos e a voz de Dan ao fundo, vinda da cozinha. Sara juntou-se a ele vinda da secretária da recepção e assumiu imediatamente o seu papel de "anfitriã da mansão".
"Esse lavabo é recente", explicou ela. "Originalmente, tudo isto fazia parte da cozinha, até à porta para o terraço. Eu não precisava de uma cozinha desse tamanho, mas precisava de uma sala comum maior e abri o espaço para criar esta grande sala". Pôs a mão numa coluna redonda, pintada de branco e com acabamentos decorativos no topo e na base. "Infelizmente aqui era uma parede-mestre e por isso é que tivemos que acrescentar estas colunas. Ao princípio não me agradou nada ter que cortar a sala, mas agora estou satisfeita. Acabou por me dar dois espaços com que trabalhar. Todos os quartos têm televisão mas os hóspedes, às vezes, preferem assistir aqui, ou entreterem-se com jogos de mesa, e não interfere com as pessoas que preferem mais tranquilidade". Ele seguiu-a para além das colunas e da porta que dava para o terraço até à outra parte da sala. Com um breve gesto, indicou-lhe o grande e antigo piano. "Às vezes temos a sorte de receber um hóspede que sabe tocar e os outros juntam-se para ouvir. Já tivemos noites bem agradáveis e animadas".
"Você sabe tocar?"
Ela olhou-o com um meio-sorriso. "Não bem".
"Huumm... É-me francamente difícil imaginá-la a fazer seja o que fôr sem ser bem".
Ela quase tropeçou, e corou com o elogio. Lançou-lhe um olhar meio-envergonhado e ele pensou que ia dizer qualquer coisa, mas limitou-se a agradecer e, com um profundo e audível suspiro, continuou, levando-o pela porta de vidros à esquerda da lareira.
"Isto também é recente", indicou, referindo-se ao alpendre resguardado com tela que se estendia pelo fundo da casa. "Repare que as abas da tela se alargam ou pouco para fora e pendem. Evitam que a chuva entre desde que o vento não esteja a soprar nesta direcção. E, mesmo assim, toda a mobília aqui é à prova de água". Passou a mão pelas costas de um cadeirão de rattan enquanto caminhava ao longo da rugosa parede de pedra em direcção à outra porta de vidros do outro lado.
Ele observou melhor a porta quando voltavam a entrar na grande sala, reparando que era uma porta exterior. "Você fecha isto no Inverno?"
"Sim. Substituo a tela por vidro e fecho tudo. Evita os custos do aquecimento. E também não preciso dessa área no Inverno". Atravessaram a sala em direcção à entrada principal onde se encontrava uma secretária antiga, perpendicular à porta. Para além de uma pequena campainha, um laptop e um telefone, não havia mais nada sobre a escura e lustrosa madeira. "Aqui", continuou Sara apontando para uma abertura na parede à esquerda da entrada principal, "é a sala de jantar". Moveu o interruptor e um imponente candeeiro antigo inundou intensamente o tecto com uma luz alaranjada.
"Huauh".
Sara sorriu. "É autêntico e já pertencia à casa", esclareceu sobre o brilhante tecto de cobre. Tinha um desenho intrincado que conferia à sala uma elegância rústica. "Com uns cinquenta anos de sujidade acumulada".
"Foi você própria que o restaurou?"
"Fui".
"Estou francamente impressionado".
Ela corou de novo e apontou para a porta de madeira apainelada ao fundo da ampla sala. Tinha um letreiro "Privado" em pequenas letras de latão. "Por ali vai-se para a cozinha. Ao contrário da maioria dos B&B, prefiro manter os hóspedes fora dos limites da cozinha".
Ele seguiu-a novamente até à escadaria central. "Porquê?"
"Por várias razões, e a principal é o meu quarto ser mesmo ao lado. Além disso, como já viu, não é muito grande, portanto não me dá jeito as pessoas andarem por ali a atrapalharem-me enquanto estou a preparar o pequeno-almoço".
"Só serve o pequeno-almoço?"
Ela confirmou. "Sim".
Ao cimo das escadas ela virou à direita para um longo corredor. Tal como no resto da casa, o chão era de boa madeira, rica e escura. Uma comprida passadeira, igualmente antiga, cobria-o e abafava os passos. Ao fundo do corredor havia um conjunto de portas envidraçadas que abriam para uma pequena varanda sobre o pórtico da frente. Ele calculou que deveriam deixar imensa luz durante o dia. Agora, cada quarto era decorado e iluminado por um pequeno candelabro de parede.
"Não lhe posso mostrar os quartos porque estão todos ocupados", disse ela. "Neste andar há quatro, todos tipo suite e com casa-de-banho".
Isto surpreendeu Gil. "Deve ter custado uma pequena fortuna só em canalização".
"E custou. Nunca poderia ter feito isto se tivesse tido que comprar a casa. Assim, hipotequei-a e contratei um arquitecto para redesenhar o espaço. Este andar foi todo modificado. Originalmente tinha cinco quartos de bom tamanho e uma única casa de banho. Enorme".
Abriu a última porta à direita e ligou o interruptor da luz, que accionou em simultâneo a ventoinha do extractor de fumos. Era um pequeno quarto sem janelas, pouco maior que um normal roupeiro. Na bancada ao longo da parede havia um mini-frigorífico, um dispensador de água fresca, um microondas, uma máquina de café para duas chávenas e uma torradeira. E, por cima, prateleiras e armários que calculou, continham louça e talheres.
"É assim que consigo manter os hóspedes fora da cozinha", disse ela com um sorriso.
Ali, de pé junto a ela, à entrada daquele pequeno quarto, Gil entendeu que nada em Sara tinha mudado. O cabelo dela continuava a emanar um aroma quase animal mas muito suave que se dissolvia e integrava num todo cítrico, meio-doce e meio-ácido, uma fragrância profundamente feminina e exclusiva dela. Conhecia essa fragrância intimamente; o corpo dele tinha respondido a ela muito antes de a sua mente tão científica ter conseguido racionalizar a força e o poder daquelas feromonas. O aroma de Sara era como uma droga para ele, a que tinha resistido durante tanto tempo e, depois de ter finalmente provado, lhe tinha sido tirada e negada por seis anos.
Olharam um para o outro. A respiração dele era pesada. E a mente voava, como a de um viciado que precisa tão desesperadamente de uma dose que fica cego em relação a tudo o resto.Até da realidade. Neste momento sentia-a mais num nível físico do que emocional. Tinha consciência das longas pernas, da pele suave, da pequena e perfeita curva do rabo. Lembrava-se de como o corpo nu dela se tinha moldado ao dele, da sensação dos seios dela contra o seu peito, do sabor dela, e da euforia que tinha vivido entre aquelas coxas macias.
Antes dela, só tivera conhecimento de tal êxtase pelos livros. Queria mais, desesperadamente. Queria-a tanto, e tão intensamente, que teve que enfiar as mãos nos bolsos para evitar tocá-la.
Sara respirou profundamente e apagou a luz. Ele deu um passo atrás quando ela fechou a porta bruscamente. Virou-lhe as costas e dirigiu-se à outra porta, do outro lado da pequena entrada. Rebuscando no bolso direito dos jeans, tirou uma chave e disse num tom absolutamente profissional, "Esta é a suite Ninho da Águia. Se a quiser é para si".
TBC
