Capítulo 03 – Intrigas

-Estamos investigando Rachel Weiz e precisamos de toda a informação que você puder arrumar. –Hayden foi direto, sem rodeios.

-Hhhhmm... –passou a mãos pelos cabelos castanhos. –Procuram algo especifico?
-Não, pode ser qualquer coisa, não importa. –Ewan olhou para os lados. –Quem são seus amigos, o que faz da vida, quais foram seus relacionamentos anteriores antes de casar...

-Tudo bem, vou começar hoje mesmo. –Matt esboçou um leve sorriso. –Se eu achar alguma coisa, com quem eu entro em contato?

-Liga pra loiraça primeiro, depois fala comigo, ok? –Hayden fez questão de dar ênfase ao apelido.

-Ainda te chamam assim, Ewan? –o jornalista perguntou, parecendo incrédulo.

-Não. Só que o babaca do Hay ainda não cresceu. –o loiro estava meio irritado.

Os três trocaram o número de seus telefones e celulares entre eles. Cada um tomou um rumo diferente. Ewan foi para casa, jantar com a esposa e filhas. Hayden voltou para a delegacia, pesquisar nos arquivos.

Matt continuou no jornal, fazendo seu trabalho corriqueiro, sem chamar a atenção de ninguém. Quando o horário de expediente já havia terminado, resolveu ir até o arquivo do prédio no primeiro andar, onde todas as informações eram guardadas.

Como era amigo do vigia, conseguiu entrar tranquilamente, se não teria que pedir autorização e demoraria muito tempo. O lugar se assemelhava a uma biblioteca, com dois andares, as prateleiras recheadas de caixas separadas pelos anos de publicação.

Matt subiu em uma daquelas escadas que rolam para o lado e começou a procurar o ano que lhe interessava. Quando achou 1983, retirou a caixa e desceu cuidadosamente. Colocou em cima da mesa e abriu a tampa, vasculhando o conteúdo com atenção.

"A socialite Rachel Weiz, foi mandada essa tarde para uma clinica de reabilitação em Nova York. Segundo amigos e parentes, ela consumia cocaína desde que seu namorado cometeu suicídio..."

Essa matéria na coluna social chamou a atenção, o jornalista procurou o nome de quem havia escrito e anotou num pedaço de papel. Afinal, o nome da clinica não havia sido publicado e essa informação era crucial.

Matt continuou procurando nos arquivos e só percebeu que estava muito tarde quando Larry, o vigia noturno entrou na sala.

-Com licença...

-Ah, oi Larry. –Matt cumprimentou. –Tom já foi embora?

-Foi sim, são onze da noite. –o vigia disse sério. –Se precisar de alguma coisa senhor, é só me chamar. Vou estar na portaria.

Ele guardou as coisas no mesmo lugar e deixou o prédio, com algumas informações e milhões de perguntas na mente. De alguma maneira, isso parecia ser apenas a ponta de um iceberg muito grande.

Pegou sua mochila e as coisas em cima da mesa, desceu até o subsolo. Quando entrou no seu carro, tirou os óculos e esfregou os olhos. Sentia-se esgotado, mesmo assim não iria deixar de ajudar seus amigos. Ligou o veiculo e dirigiu para casa, precisava tomar um banho e dormir.

(...)

Ewan estava sentado na cabeceira da cama onde Clara e Esther dormiam, lendo "Os Contos das Mil e uma Noites", o favorito delas. Era assim toda noite, o pai ficava ali perto até que as meninas pegassem no sono.

-... E assim, o ladrão foi preso e a inocência de Malik foi provada. –ele acabou de ler, fechando o livro.

-Nossa, adorei a história papai! –a mais nova comentou, os olhos brilhando de emoção.

-Conta outra? –a mais velha pediu, com um sorriso maroto nos lábios.

-Agora está na hora de vocês dormirem, meninas. –Ewan disse guardando o livro numa prateleira do outro lado do quarto. –Amanhã eu leio outra, ok?

-Tudo bem... –elas disseram ao mesmo tempo.

Ele deu um beijo na testa de cada uma, desejando bons sonhos. Ficou ali parado, observando-as cair no sono. Em poucos minutos, entraram num sono profundo. Ewan apagou a luz e metade da porta aberta.

Desceu até o primeiro andar, tomou um copo de água gelada e foi ao escritório. Estava intrigado com uma coisa desde que havia chegado em casa. Abriu a gaveta e tirou a pasta dali.

Examinou cuidadosamente as fotos tiradas pelo paparazzi. Era muito estranho que Rachel estivesse entregando aquele embrulho de cocaína assim, em plena luz do dia. Isso poderia significar outra coisa, completamente diferente.

Franziu as sobrancelhas, o cérebro pensando em várias possibilidades diferentes. Aquilo não fazia muito sentido... Estava tão imerso em seus pensamentos, que não percebeu Eve entrando no escritório.

-Vai ficar trabalhando até tarde, querido? –ela sentou no canto da mesa.

-Não... Só estava pensando aqui, nada demais. –sorriu sem mostrar os dentes. –Já estou indo pra cama.

-Sabe, às vezes eu acho que você se dedica além do normal. –a mulher passava a mão pelos cabelos loiros do marido.

-O que quer dizer com isso? –fechou os olhos, sentindo o carinho.

-Seu trabalho é só tirar as fotos e entregar para a polícia... –agora sua mão estava na barba. –Mas você se dedica tanto, que se envolve com os casos e ajuda a solucioná-los... E o que ganha com isso?

-Apenas faço o que acho certo, amor. –Ewan abriu os olhos, encarando-a. –Não consigo só tirar as fotos e deixar de lado. O meu trabalho pode tanto absolver, quanto culpar uma pessoa.

-Eu fico tão preocupada com você... –Eve sentou-se no colo dele. –Eu te amo tanto...

-Fique tranqüila, sempre vou estar aqui. –ele abraçou-a, afundando o rosto nos cabelos castanhos e perfumados que ela tinha.

Eles subiram para o quarto e dormiram de conchinha, algo que não faziam há muito tempo. No meio da noite, Ewan acabou acordando sobressaltado. Teve um pesadelo horrível, no qual suas filhas eram seqüestradas.

O coração ainda batia acelerado no peito, a respiração ofegava. Demorou alguns segundos até que percebesse que tudo estava bem. Mesmo assim, levantou-se e foi ao quarto delas.

Clara e Esther dormiam profundamente, como verdadeiros anjos. As mãos de Ewan ainda suavam frio, mas pôde ficar mais tranqüilo. Desceu as escadas lentamente, tentando se recuperar do susto. A família era a coisa mais importante de sua vida.

Bebeu outro copo d'água e voltou para o quarto. Aquela sensação ainda persistia...

(...)

Hayden procurou no sistema da delegacia, alguma coisa que pudesse ser útil. Descobriu apenas algumas multas por excesso de velocidade. E uma vez que a polícia foi chamada porque estavam dando uma festa e o som estava atrapalhando os vizinhos, nada demais.

Suas costas doíam de ficar tanto tempo curvado sobre o computador pesquisando. Por isso, resolveu ir para casa e estudar as informações que já tinha. A responsabilidade que estava em cima de seus ombros era grande.

Depois de tomar um banho quente demorado, o telefone tocou. Era Sophie, uma ficante que tinha na cidade, antes de ir para Nova York. Marcaram de se encontrar no restaurante italiano.

Assim que terminaram o jantar, foram até o apartamento da morena, onde acabaram transando mais uma vez. Aquilo já era corriqueiro entre eles, relações sexuais sem envolvimento, sem pressão.

Hayden realmente era bom no que fazia e tinha orgulho disso. Dentro do grupo de amigos, era o galinha, saia com qualquer menina bonita que lhe desse mole. Ewan também tinha várias meninas em sua lista, mas sempre foi o cara responsável que namorava sério. Matt não era de relacionamentos com o sexo oposto e sim mais focado no trabalho.

Até hoje pouca coisa mudou e de certa maneira gostava disso. Ainda não se sentia preparado para se amarrar a alguém e constituir família, como Ewan fez. Ter filhos nessa altura do campeonato realmente não era o seu maior plano.

Por isso, continuava com suas transas descompromissadas. Era a melhor coisa, prazer sem envolvimento.

Ele abraçou Sophie e fechou os olhos, sentindo o sono vindo aos poucos. Estava completamente exausto e não tinha forças para mais nada. Acordou na manhã seguinte com o sol batendo dentro do quarto.

A morena ainda dormia e nem se mexeu, quando Hayden levantou e foi para o banheiro. Depois lavar o rosto e fazer um bochecho com anti-séptico bucal, vestiu a roupa e saiu do apartamento, deixando um bilhete na cozinha. "Foi ótimo nos encontrarmos. Você continua maravilhosa na cama. Beijos, H."

Agora estava em seu próprio apartamento, fazendo a higiene matinal corretamente. Enquanto tomava sua xícara de café e esperava as panquecas ficarem prontas, o telefone tocou.

-Alô?

-Bom dia, Hay. –Ewan disse do outro lado da linha, parecendo nervoso. –Já viu o noticiário?

-Não... Por quê? –sentiu um frio no estômago.

-Liga no canal quarto, agora mesmo! Você não vai acreditar...

Hayden ligou a televisão de plasma e seu queixo caiu, conforme entendia o que estava acontecendo. Simplesmente Jude Law estava dando uma entrevista no canal mais assistido em São Francisco, dizendo que sofria ameaças da oposição e que estava sendo alvo de retaliações por parte da polícia.

-Acredito que seja muito mais benéfico para a população, que a CBI priorizasse outros assuntos, ao invés de perder seu tempo atrás de acusações falsas. –seu semblante estava sério, as sobrancelhas franzidas.

-O que deseja dizer com isso, senhor secretário? –uma repórter perguntou, levantando a mão.

-Não existe razão para que eu e minha esposa sejamos investigados. –os olhos azuis direcionados para a câmera. -Todos os cidadãos californianos sabem o quanto lutei para que a criminalidade fosse reduzida...

-Acredita que isso seja uma manobra da oposição para enfraquecer seu poder? –um jornalista perguntou.

-Sim, claro. Afinal, sou uma pessoa correta e integra. –os cantos dos lábios levantaram, insinuando um sorriso. –Duvido que consigam achar alguma coisa que acabe comigo.

-E quanto a sua mulher? É verdade que ela está envolvida com drogas novamente?

-Rachel superou seu passado e hoje é uma mulher limpa. –Jude continuava seu discurso. –Ela desenvolve projetos voltados para a reabilitação de viciados. Todo mundo um dia já errou, não é mesmo?

-Secretário, gostaríamos que o senhor nos explicasse o que significam aquelas fotos divulgadas pelos paparazzis...

-Minha mulher se encontrou com um amigo, que a auxilia nos projetos sociais, apenas isso. –encerrou o assunto. –Então...

Hayden não conseguia acreditar naquilo, estava sendo desafiado. Era uma pessoa muito competitiva e odiava quando isso acontecia. Se era guerra que Jude queria, agora teria que agüentar as conseqüências.

-Ei, você ainda tá ai? –o loiro perguntou do outro lado.

-Ah sim...Mas que porra! –disse, voltando a falar no telefone.

-Nem me fala... –Ewan comentou, parecendo pensativo. –Isso com certeza vai abalar a credibilidade da CBI com o público.

-E atrapalhar muito as investigações. –Hayden voltou para a cozinha, tirando as panquecas do microondas. –Estou indo para a delegacia, me encontre lá daqui a quinze minutos.

Ele engoliu as panquecas e foi para a delegacia. O lugar estava explodindo de tanta agitação, mesmo sendo nove horas da manhã. Seguiu direto até a sala do seu chefe, passando batido por Erick, sem ao menos lhe dirigir um olhar.

Morris berrava ao telefone com uma pessoa qualquer, o rosto vermelho transparecendo raiva e cuspindo saliva. Após alguns segundos de discussão, bateu o telefone no gancho, resmungando e afrouxando a gravata.

-Será que dá pra acreditar nisso? –passou a mão pela careca, tentando se acalmar. –Os jornalistas não param de ligar, fazendo mil perguntas!

-Esse Jude é um babaca! –Hayden jogou-se na cadeira em frente ao chefe. –Você viu como ele nos desafiou?

-Vou te falar... É cada uma que me aparece! –Morris levantou, vestindo o paletó. –Tenho que me encontrar com o superintendente geral. Você e Erick cuidam das coisas enquanto estou fora.

-Sim, senhor.

O jovem saiu da sala aborrecido, as mãos enfiadas no bolso da calça. Ia andando até o banheiro, mas a recepcionista o chamou, dizendo que um homem queria vê-lo. Quando notou que era Ewan, fez um sinal para que o outro se aproximasse.

No momento em que Hayden chegou perto de sua mesa, viu que Erick estava sentado na cadeira, folheando um jornal, parecendo desinteressado. Os cabelos negros penteados para trás, os olhos cor de mel correndo pelas páginas rapidamente. Parecia um gangster italiano com aquele terno preto, camisa branca e gravata vermelha.

-Será que dá pra sair da minha mesa? –Hayden estava com os nervos à flor da pele.

-Claro, claro... –levantou-se, com um sorriso esnobe no rosto. –Já viu os jornais por um acaso?

-Fala logo o que você quer! –sua paciência diminuía a cada segundo.

-Se o secretário fez essa coletiva de imprensa, é porque a informação vazou! –Erick jogou o jornal na mesa, os desdém sumindo.

-E por acaso você acha que eu fui o responsável? –Hayden levantou uma sobrancelha, cruzando os braços.

-Não estou dizendo isso... –ele apertou os olhos e apontou o dedo para o rosto do outro. –Mas se foi, vou providenciar sua expulsão eu mesmo!

Sem mais uma palavra, saiu do local com passos decididos. Ewan arregalou os olhos, sem entender muito bem a cena que tinha testemunhado.

-O que foi aquilo?

-Erick me odeia... Só porque eu peguei na namorada dele. –o jovem sentou na cadeira, bufando. –Mas ela não me disse que era compromissada... Isso já faz uns três anos.

-Ah, sim... Agora tudo faz sentido. –Ewan encostou-se na mesa. –Mas então, o que vamos fazer?

-De certa maneira, aquele merda tem razão. –passou a mão pelos cabelos castanhos. –A informação de que estávamos investigando-o vazou. Alguém daqui de dentro contou pra ele.

-Isso quer dizer que a pessoa deve estar plenamente envolvida com as investigações. –o loiro coçou a barba, pensativo. –O que acaba delimitando o grupo de suspeitos, porque nem todo mundo sabia sobre a operação.

-Você está certo, mas vamos pensar nisso depois? –Hayden levantou-se. –Não agüento mais ficar aqui...

Pegou o celular e discou um número. Depois de alguns minutos conversando, encerrou a ligação e voltou seu olhar para o amigo.

-Matt descobriu o nome da clinica onde Rachel se internou e foi até procurar mais informações. Também soube que as empresas do pai dela estavam falindo quando se casou com Jude.

-Talvez isso signifique que o casamento deles foi para salvar o império financeiro do pai. –ficou de pé. –Que tudo isso é uma farsa...

-Quem sabe? –Hayden parecia mais animado. –Tem como você monitorar os passos dela pra mim, durante uma semana?

-Hhhmm... Vai ser meio complicado, mas vou tentar. –Ewan deu um sorriso fraco.

-Preciso dar uns telefonemas...