3º passo: negação

Esse capítulo é dedicado á Adara Black, á Ameria Asakura, á Lily, á Mary e á Deep Wesley. Obrigada por terem gostado da fic! Esse capítulo é para todas vocês! E me desculpem se ele está curto demais... \'

A lua iluminava fracamente o corpo que andava devagar na grama. Os passos eram suaves e macios, silenciosos, enquanto ele se arrastava na direção da Floresta. O corpo era esguio e alto, desengonçado, como de quem cresce demais em tempo de menos; os cabelos eram idênticos aos de quem acabava de acordar; os olhos, pareciam duas esmeraldas encrustadas no meio da pele alva - e esses mesmos olhos estavam marcados pelo sofrimento e a expectativa. Esses dois sentimentos eram tão marcantes, que mesmo quem o olhasse de longe, apenas sob a luz da lua, conseguiria nota-los. Mas os sentimentos marcados nos olhos eram pouco em relação ao que explodia em seu interior.

Angustia. Dor. Dúvida. Exaltação. Esperança. Medo. Não eram tudo, ainda, mas eram alguns dos sentimentos que ali estavam. Havia a angústia do não saber, e a dor da quase certeza, a dúvida sobre o seu próprio coração, a exaltação de ter conseguido sair da rotina, a esperança de um futuro melhor e o medo de que esse futuro não existisse.

Afinal, o que estava acontecendo? Ele estava se deixando levar, mais uma vez. Deixara-se levar uma vez por um pesadelo idiota, e Sirius acabara morto.

Os passos cessaram.

Oh, droga, não devia pensar em Sirius. Aquilo ainda o machucava terrivelmente, e se não quisesse morrer de dor, ele deveria parar de pensar sobre aquilo. Hei, mas por que diabos ele se importava? Ontem mesmo ele não estava se importando se estaria vivo ou morto. Não se importava se era a única esperança do mundo mágico. Queria que o mundo mágico se danasse, na verdade. Afinal, Sirius estava morto.

Fechou os olhos, se reprimindo mentalmente. Pare, disse a si mesmo, pare de pensar nele. Ele já bateu as botas, agora você tem de se virar.

Mas ele não tinha motivos para querer se virar.

Certo?

Okay, agora ele tinha. Ele queria saber o porquê de Luna tê-lo, hum, beijado.

Fechou os olhos e se pegou pensando nos lábios dela, e em como eram macios, em como o hálito dela era cálido e em como havia esperança e morte em seus olhos, e em como ele queria ampará-la...

PARA TUDO!

Ele não queria amparar Luna Lovegood e muito menos achava os lábios dela macios e seu hálito cálido. Ele era Harry Potter, e ela era Luna Lovegood. Ele era um grifinório e ela uma corvinal, Ele queria morrer e ela viver. Eram diferentes demais para dar certo. E, além do mais, ele era um ano mais velho. Estava com dezesseis anos, pelo amor de Deus. Não se interessava por meninas mais novas.

Mas e se estivesse se interessando? Afinal, Luna não era como os outros.

Ela era esquisita, se forçou a dizer.

E feia.

Mentira.

Ela não era feia.

Opa, sim, ela era feia! Harry não podia ficar com ela! Era um ano mais nova, esquisita e feia!

E aquelas palavras que ele disse em pensamento o magoaram mais do que quaisquer outras que tivesse dito antes. Até mesmo mais do que pensar em Sirius.

Gemeu baixinho e se recolocou a andar. Tinha de chegar na clareira e esclarecer tudo. Luna não tinha o direito de fazer a mente dele ficar assim, com apenas um beijo. Nem Cho fizera isso. E ele fora apaixonado por Cho.

E com esse pensamento, chegou numa conclusão aterradora, que o fez parar de andar mais uma vez.

Ele estava apaixonado por Luna.

NÃO! Ele não estava apaixonado por Luna Lovegood. Ela que fosse para o inferno!

E então, virou-se sobre os calcanhares e partiu de volta para o castelo imponente, sentindo seu coração partir com a própria decisão. Mas ele sabia que não devia ficar junto de Luna. Não podia.

Não podia.

Os trestálios relinchavam e bufavam perto dela. Era como se dissessem para ela esquecer a sua esperança infundada. A miravam nos olhos e soltavam baforadas de ar perto de sua orelha, como carinhos mornos. Ela apenas sorria tristemente.

"Acho que ele não vem" ela murmurou, afinal, fazendo um carinho manso nas costas de Moluti. O animal negro elevou os olhos para ela, cheio de compreensão, e ela deixou o sorriso sumir "Eu sei, eu sei que sou uma tola, Moluti. Eu sei que ele é um garoto e que nunca compreenderia. Mas... Achei que me faria bem tentar. Sabe, é tão triste vê-lo assim, perdido... Acreditei, que..." e o animal bufou em repreensão e ela sorriu "Sim, eu sou uma tola! Mas eu realmente acreditei que eu poderia ser o caminho dele, sabe?" mas ela sabia que eles sabiam. Aqueles animais negros e diferentes - tal qual ela - entendiam muito mais coisas do que se era esperado. Assim como ela. Afinal, tinha muitas coisas a ver com esses animais, e talvez fosse por isso que os amasse tanto.

Fechou os olhos e soltou um longo suspiro, sentindo as lágrimas vindo novamente aos seus olhos. E a situação lhe pareceu familiar. Quantas vezes antes estivera numa cena parecida? Milhares? Parecia á ela que sim. Havia chorado com os trestálios a perda da mãe, a perda do primeiro gatinho que tivera, a perda do emprego do pai, a morte da avó e do avô, a desilusão com Ronald Wesley, a tristeza que sentia pela exclusão do pai. E agora estava ali, mais uma vez, chorando a perda de Harry.

Harry.

Não tinha coragem de chamá-lo pelo nome completo. Parecia algo vulgar e indigno de se fazer. Algo como tachá-lo de estrela. E ela sabia muito bem que ele não gostava de ser uma estrela. Sabia o quão desesperadamente ele fugia do título de Harry Potter. Ela sabia que ele queria ser apenas Harry. E, para ela, ele era apenas Harry. Nada mais do que isso. Ele era Harry James Sem-Sobrenome.

Suspirou cansadamente e apoiou-se no trestálio mais próximo. A despeito de tudo, ela achava que eles eram bons travesseiros. Era ótimo sentir a gentil respiração deles elevando a sua cabeça para cima e para baixo, para cima e para baixo...

E foi nesse movimento suave que Luna derramou as últimas lágrimas daquela noite, ainda desolada, e dormiu.