Revoadas de corujas em todas as manhãs; Potter flertando com variadas garotas; Sirius e Marlene agarrando-se; Pettigrew empanturrando-se de comida. Cenas que, como de costume, se repetiram por toda a semana. Com a quantidade absurda de deveres de casa, e o show que vemos a cada manhã, tarde e noite feito pelos Marotos, a semana passou num piscar de olhos.
Chegara o dia da festa e eu havia conseguido um horário no tão disputado banheiro – aproveitando a saída de Emmeline com o namorado – e estava começando a arrumar-me para a festa. Havíamos sido liberados das aulas da tarde para que pudéssemos nos arrumar com calma. E eu precisava de quatro horas para me arrumar com calma. Eu ri ao pensar nisso. A voz extremamente racional em minha cabeça perguntou – Quem você está querendo impressionar? – Eu não sei, respondi.
Perdi-me em pensamentos novamente, enquanto encarava as maquilagens de minhas amigas, espalhadas por todo o banheiro. E elas têm uma coleção admirável. Tantas opções, e não faço a mínima idéia de qual escolher. Peguei uma sombra escura, meu lápis, e um rímel. Ótimo.
- Quem está no banheiro? – ouvi Marlene perguntar de dentro do quarto.
- Lily – respondi.
- Não demore!
Despi-me então e entrei no chuveiro para tomar meu banho. Marlene havia sido tão civilizada que eu até estranhara. Mas durou pouco. Cinco minutos mais tarde, ela socava a porta e berrava:
- Sai logo daí, Lily!
Não tive escolha. Apressei-me no banho e saí.
Horas mais tarde, continuávamos nos arrumando. Eu tentava fazer alguns cachos em meu cabelo, enquanto Marlene lutava com sua fantasia – que eu continuo o a afirmar, mais parecia uma lingerie, tentando fazê-la caber em si. E Emmeline punha mais pó em seu rosto já cheio de maquilagem.
Enquanto descíamos as escadas, atraímos vários olhares para nós, incluindo o do trio encostado ao sofá. James, Sirius e Remus olhavam abestalhados a cena da bruxa Marlene, a anjo Emmeline e a princesa Lily. Andamos até eles, onde cada uma de minhas amigas abraçou seu namorado, enquanto eu cruzei meus braços. Sirius estava vestido de vampiro, e Remus de anjo – como Emmeline.
- De que está vestido, Potter? – perguntei irônica, fitando seu uniforme de Quadribol.
- Jogador de Quadribol – ele falou fracamente.
Estávamos sentados em uma mesa no canto de um salão ornamentado com bexigas e velas. Notavelmente. Sirius e Marlene dançavam na grande pista de dança ao centro; Emmeline e Remus haviam sumido; então restávamos eu e Potter, desviando olhares um do outro.
- Lily – ele chamou, quebrando o silêncio que reinava entre nós – Preciso conversar com você.
- Fale – disse, entediada.
- Poderia ser lá fora? – ele perguntou, apontando com a cabeça os jardins.
- Como quiser – falei, levantando-me.
Nos jardins
- O que quer? – perguntei, enquanto nos posicionávamos embaixo de uma árvore qualquer.
- Quero saber algo.
- O quê? – Seu mistério começava a irritar-me.
- Por que não acredita no que sinto por você?
- Não tenho provas de que seja verdadeiro, Potter – falei, obviamente.
- Quer que eu prove a você? – ele perguntou, no que eu balancei afirmativamente minha cabeça – E como faço isso?
- Não importam os meios, - encolhi meus ombros – apenas me prove.
Senti-o inclinando-se lentamente em minha direção, aproximando-se mais.
- Beijar-me não é maneira – falei rígida – Dessa forma apenas provará que me ama como ama a todas as meninas com que fica.
Ele olhou-me de forma estranha, talvez piedade por eu ainda acreditar em amor. Eu não sei.
Saí andando, pretendendo sair daquele local o mais rápido que pudesse.
Algum tempo mais tarde, eu mexia em um palitinho na mesa, procurando aliviar meu tédio, quando Sirius dirigiu-se a mim.
- Sabe onde James está? – perguntou.
- Na última vez que o vi, nos jardins.
- Pode chamá-lo aqui? – Fiz uma careta. – Por favor – ele pediu em uma voz suplicante.
- Farei o esforço – falei, revirando os olhos. O que seria pior que o tédio?
Chegando aos jardins, avistei arbustos, árvores, o lago, e todo o tipo estranho de bichos que só se vê em Hogwarts. Mas nada de Potter.
- Potter? – chamei-o – Potter?
Atrás de um arbusto, avistei uma menina de cabelos louros. Atracava-se com um garoto. De cabelos conhecidos. Eles interromperam o beijo, encarando-me. Dei as costas e pus me a correr, pensando em quão hipócrita James Potter era.
Cheguei ao dormitório com lágrimas no rosto. Lágrimas raivosas. Após sair correndo, sem olhar para trás ou para os lados, não sabia se minha reação havia chamado a atenção. E não me importava. Tudo o que queria era livrar-me da cena que ecoava em minha cabeça. E pensar que eu havia considerado o que ele havia me dito fazia as lágrimas correrem em maior quantidade. Se quisesse apenas beijar-me, levar-me para a cama, ou o que seja, não teria tido todo o trabalho de inventar um discurso eloqüente. Mas agora eu via claramente, seu discurso era eloqüente sim, mas de fato o que eu imaginava, uma mentira.
Cobri-me inteiramente com as cobertas, forçando-me a dormir.
Ainda tentava pegar no sono, quando Marlene adentrou o quarto.
- O que James fez? – perguntou, direta.
Desabafei a história à ela.
- Está caidinha por ele, não é, Lils? – perguntou, meio que retoricamente.
- Não! – exclamei prontamente.
- Se você diz – ela falou, dando de ombros – Estou voltando para a festa.
Mais um turbilhão de pensamentos invadira minha mente. Fazia algum sentido o que Marlene havia dito? Não, não, não! - a voz em minha cabeça berrava. Eu não sabia o que estava sentindo por ele, mas de qualquer modo, não queria sentir. Nada.
