Gabriel olhou para cima e notou que certa claridade começava a tomar conta do céu. Mexeu-se desconfortavelmente contra as pedras da ponte onde ainda estava, subitamente consciente do quanto eram duras, e então parou. Apoiada nele estava a jovem que ele salvara havia algumas horas, e ele olhou para ela cheio de dúvidas. A respiração cadenciada revelava que ela finalmente caíra no sono e Gabriel não tinha certeza do que fazer agora.
Ele conseguiu se afastar sem acordá-la, e ela passou a encostar-se contra a borda da ponte. De pé, o homem a encarou e fechou o cenho, imaginando como sairia daquela situação. Levou a mão ao rosto, aflito.
Sua parte mais fria e racional dizia que tudo aquilo não era exatamente problema dele, mas, na realidade, ele já havia se envolvido muito mais do que gostaria de admitir. Começara a se envolver um mês antes quando a viu correr rua a baixo pela primeira vez. Não poderia deixar a mulher abandonada na calçada, principalmente depois dos acontecimentos da madrugada.
Apesar da manhã que chegava, o tempo frio não parecia prestes a mudar, e a figura encolhida no chão tremeu levemente com um calafrio. Gabriel tomou sua decisão e suspirou, frustrado e preocupado. Ergueu a mulher e iniciou a curta caminhada até seu apartamento.
Droga... Já não bastassem todos os problemas que tinha, havia arranjado mais um...
O lugar estava em silêncio. Por um instante ela pareceu suspensa no tempo, viajando entre o sono e a consciência, mas em seguida rolou na cama e um raio de sol acertou em cheio seu rosto. A jovem suspirou tentando fugir da luz e voltar a dormir, porém agora já notava o som regular de um relógio e as pessoas na rua, lá fora. E, principalmente, notava a forte dor em sua cabeça.
Tentando ignora-la, ela se espreguiçou e abriu os olhos lentamente. O que enxergou a fez sentar-se na cama tão rápido que pequenos círculos pretos se formaram em sua visão e ela foi obrigada a fechar os olhos novamente, tomada por uma tontura.
Quando se recuperou, calçou suas botas, que haviam sido postas ao lado da cama, e se pôs de pé. Olhou o quarto ao seu redor. Não se lembrava de como tinha chegado ali. Outras memórias, no entanto, começaram a invadir sua mente e ela passou a mão sobre a testa, envergonhada de si mesma. Sentiu suas bochechas ficarem vermelhas de raiva e vergonha. O que seu pai teria dito daquilo tudo?
Estava distraída quando um barulho no cômodo ao lado fez sua cabeça latejar e a deixou em alerta, afastando os pensamentos sobre a noite anterior e os colocando em segundo plano. Ela andou o mais silenciosamente que pôde até a porta entreaberta e, através da fresta, espiou a sala do apartamento.
As cortinas estavam fechadas e o lugar permanecia praticamente imerso na penumbra. Havia um sofá velho, à esquerda, assim como uma pequena estante que merecia uma arrumação. Do lado contrário, observou uma mesa e mais um móvel, sobre o qual descansavam garrafas, quatro livros, chaves e mais alguns objetos. Deslizando o olhar um pouco mais para o lado, a jovem se deparou com um homem.
Ver o outro parado na entrada do que parecia ser a cozinha, a encarando, fez com que ela se assustasse. Agarrou a maçaneta da porta em que se apoiava com mais força. Mas então, juntando coragem e atrevimento, escancarou a porta e deu dois passos para fora do quarto.
Os dois permaneceram em silêncio por um instante. Quando ela não disse palavra alguma, ele tomou para si o direito de iniciar uma conversa.
- Boa tarde. – disse, e indicou o relógio pendurado na parede ao fundo. Já eram 5 horas da tarde! – Finalmente acordou.
O homem caminhou até a mesa, puxou uma cadeira e sentou-se. Sobre a superfície de madeira havia uma cigarreira. Ele a abriu, pegou um cigarro e o acendeu. Ofereceu um à jovem. Ela pareceu tentada por um momento. Porém acabou declinando a oferta.
- Quem é você? – ela perguntou subitamente. Seu tom exigente não agradou muito o outro. Ele a fitou com irritação.
- Você devia tentar ser mais educada, moça. Não sei se posso lhe pedir gratidão, já estraguei sua diversão na noite passada, mas pelo menos você está aqui hoje. – ele fez uma pausa e a observou corar levemente. – Sou Gabriel. – ele respondeu, preferindo omitir seu sobrenome que nunca causava uma impressão muito boa nas pessoas. Ela, ainda encabulada, não fez questão de perguntar, apesar de achar estranho o fato dele não se apresentar mais formalmente. De qualquer modo, decidiu seguir o exemplo do outro.
- Sou Tania.
Gabriel deixou a fumaça do cigarro escapar por entre seus lábios suavemente, pensando sobre toda a situação. Tania, enquanto o observava, imaginou o que viria a seguir: uma série de perguntas e um sermão de um desconhecido. Não estava muito disposta a interrogatórios e sermões, já lhe bastava sua consciência. Ainda havia a terrível dor de cabeça, e...
- Sei que não é de minha conta, mas não consigo imaginar porque alguém como a senhorita se comportaria do modo como fez ontem. – ele disse de repente.
Tania o encarou. Estava pronta para lhe responder que realmente não era da conta dele. Mas algo a impelia a falar.
- Desde que posso me lembrar, minha família é feita apenas de meu pai e eu. Ele sempre cuidou de tudo, e há alguns meses investiu todo nosso dinheiro num empreendimento, que acabou fracassado. É obvio que ele não sabia o que iria acontecer, mas o fato é que toda a fortuna desapareceu. Durante os últimos 30 dias só havia dividas, dividas e dividas. Assim, tivemos de passar a vender o que pudéssemos. – ela fez uma pausa, obviamente angustiada. Gabriel entendeu porque sempre a via carregando algum objeto. –Meu pai, porém, enfraquecia, tendo que lidar com todos os problemas. – ela virou-se para a janela, caminhando até lá. – Ele morreu há dois dias. E agora...
Não havia quem a socorresse, estava só. Não sabia como iria pagar todos a quem devia ou se sustentar, não havia mais o que vender. A vida que levara até então – repleta de facilidades financiadas pelo dinheiro – não lhe ensinara nenhum ofício e as únicas opções que lhe sobravam a faziam ter calafrios de medo. Na noite anterior havia tentado esquecer, mas, Deus, como havia sido tola! Percebia agora que devia procurar por uma saída com mais determinação.
- Eu sinto muito. – Gabriel disse. Ela parecia mais firme, agora, parecia merecedora de sua simpatia. Ele sinceramente pretendia oferecer ajuda a mulher, mas ela o interrompeu antes que pudesse falar.
- E eu sinto muito por ter lhe causado tantos problemas, senhor. Não se preocupe, não vou lhe atrapalhar mais por hoje. Desculpe-me.
Aproximou-se dele e lhe apertou a mão, assegurando que seria eternamente grata.
- Adeus. – ela disse, e partiu o mais rápido que conseguiu, permitindo a Gabriel apenas que a observasse virar de costas e desaparecer, fechando a porta atrás de si .
