o.O.o

Tão rápido quanto foi o grito agudo que se desprendeu dos lábios da jovem, Ikki moveu-se em sua direção, enlaçando-lhe pela cintura e encostando a palma quente coberta de luvas negras na boca de Esmeralda.

- Shhhhh!!!!!!!!!! – pediu ele.

Esmeralda o fitava completamente atordoada, sem entender o que aquele homem poderia estar fazendo em seu quarto, ainda mais com ela vestida daquela maneira, quase nua!

- Promete não gritar?

Ela balançou a cabeça afirmativamente. Ikki, sorrindo, retirou sua mão vagarosamente, soltando-a. Sua outra mão, segurando o cordão com a pedra esverdeada, ergueu-se diante do rosto da jovem. Ela olhou do rapaz para o colar.

- Meu medalhão! – exclamou num enlevo, fitando os olhos do rapaz.

- Acho que esqueceu algo, senhorita! – ele disse, passando-lhe o pêndulo.

Esmeralda recebeu o cordão, sem retirar seus olhos da face coberta pelo tecido escuro. Estreitou a visão, ele lhe pareceu ligeiramente familiar, mas não pôde atinar com quem poderia parecer-se.

- Obrigada, senhor! – disse.

Ikki curvou-se e abaixando-se, pegou o seu medalhão, que ela, sem querer, havia deixado cair. Levantou-se, colocando-o no pescoço.

- É sempre uma honra servir a uma dama!

E tomando a mão dela, levou-a aos lábios, roçando-os pela pele fina e acetinada. Esmeralda sentiu as pernas tremerem.

- Quem está ai?

Um grito e várias passadas atravessavam, naquele momento os corredores, fazendo um barulho estrondoso. A voz imperiosa de seu pai ressoou pela casa. Ikki relanceou os olhos pelo quarto, como tentando situar-se. Guilty encontrava-se agora esmurrando a porta maciça de madeira.

- Esmeralda! – bradava – Você está ai?

Esmeralda atordoou-se. Se seu pai a visse com um homem, ainda mais um que se vestia tão estanho e ela assim, de espartilho, certamente assassinaria os dois.

- Meu pai! – sussurrou entre dentes.

Ikki ajeitou a capa e virando-se para Esmeralda, contra qualquer premeditação, agarrou-a pela cintura com firmeza e a puxou fortemente para si, seus olhos encontraram-se chamejantes uns nos outros.

E sem esperar, Esmeralda teve seus lábios comprimidos contra os dele num beijo tão avassalador quanto rápido. Ele soltou-a e caminhou rapidamente em direção a janela.

- Quem é você? – perguntou enlevada, vendo-o com meio corpo para fora da casa.

- Para você...- disse, olhando-a - ...Apenas Fênix!

E saiu no mesmo instante que a porta, pressionada pelos murros desbravados do governador enfurecido, abria-se com estrondo. Eiri, de camisolinha branca e toca de dormir, tremia andando atrás do patrão.

- O que aconteceu? – indagou Guilty, olhando em redor.

Esmeralda, apertando o medalhão com força na mão, fez cara de desentendida.

- Nada, papai! Não houve nada!

- Como nada? – esbravejou o homem – Você gritou!

- Me assustei! – ela desviou os olhos, corada – Só isso!

Guilty a fitou, desconfiado. Eiri encontrava-se atrás da patroa.

- E você, sua poia! – berrou Guilty para a criada – O que está fazendo aqui?

- Foi o senhor que me chamou!

- Cale-se! – rosnou Guilty – E a senhorita...

Apontou para a filha com ameaça, esta encolheu-se perto da companheira.

- Amanhã teremos uma bela de uma conversa sobre esta noite!

- Sim, papai! – concordou assustada.

- Vai me dizer exatamente onde esteve! – e erguendo o chicote – E espero que pense no que vai me dizer! Ou acha que cai na "dor de cabeça"?

Esmeralda engoliu em seco. Estranhara, decerto, o pai não lhe vir tomar satisfação ali mesmo, naquele momento, mas preferiu contribuir com seu, digamos, dia de sorte.

- Sim, papai! – abaixou a cabeça.

- E você...- Eiri encolheu-se amedrontada -...Durma aqui e não me deixa esta cabeçudinha sozinha!

- Sim, senhor! – disse Eiri.

Guilty relanceou os olhos a filha mais uma vez e estalando o chicote, saiu do quarto, batendo a pesada porta. Esmeralda e Eiri entreolharam-se.

- Eiri, você não vai acreditar!

Os olhos de Esmeralda brilharam e Eiri, com cara de quem nada entendia, deixou-se arrastar pelas mãos até a cama desta.

- Ele esteve aqui! – disse a loira, apertando nas mãos o medalhão.

- Ele quem?

- O cavaleiro mascarado!

Eiri certamente pensou que sua patroa pudesse estar a delirar. Talvez o ar de Atenas não estivesse lhe fazendo bem.

- Tem certeza? – indagou confusa.

- Sim! – Esmeralda esticou-se na cama.

- Por onde ele entrou?

- Pela janela! – Esmeralda fechou os olhos, encantada.

- Que romântico! – Eiri sorriu, deitando-se ao lado da amiga.

- Ele me beijou!

Eiri ergueu-se de repente. Fitou Esmeralda com seriedade.

- Na boca? – interrogou curiosa.

Esta balançou a cabeça afirmativamente.

- Foi meu primeiro beijo! – e sonhadora, passou os dedos pelos lábios.

Eiri a observava, mas seus pensamentos estavam longe, num certo rapaz em que batera a tarde. Já o via a entrar pela pequena janela de seu dormitório e suspirando, acomodou-se novamente ao lado de uma suspirante Esmeralda.

O.o.O.o.O

- Obrigada!

Shun, sentado defronte a mesa de madeira que serviam, entre outras coisas, de mesa de refeições, agradecia a chávena de café que Andrômaca lhe oferecia. Na sua frente, Hyoga devorava algumas torradas com geléia.

- Está melhor? – perguntou o loiro.

- Dói bastante! – reclamou Shun, o braço numa tipóia.

- Normal! Daqui a algumas semanas poderá tocar viola de novo!

Sorriram.

- Bom dia!

Hyoga fechou a cara, estreitou a visão, e relanceando os olhos pelo ambiente, fitou Shun com receio.

- Você ouviu?

Shun franziu a sobrancelha.

- O quê?

- A voz do Ikki a nos dar bom dia!

Ikki sorriu pelo gracejo e tomou seu lugar ao lado do irmão. Estalou os dedos e muito entusiasmado, pegou de um pão e pôs-se a passar geléia em cima. Shun e Hyoga entreolharam-se.

- Bem humorado, Fênix? – perguntou Yukida.

- Ora, Yukida! – Ikki brincou – Normal!

- Meu irmão está em nova paixão! – falou Shun.

- Qual número? – sorriu Hyoga.

Shun pegou do bloquinho ao lado.

- Qüinquagésima septuagésima...

- Querem parar? – pediu Ikki, sorrindo.

Shun, cinicamente, jogou de lado o caderno. Hyoga fitou o companheiro de cabelos verdes e depois voltou sua atenção para Ikki.

- Somos dois, meu caro!

- O quê? – Shun exclamou - Tem mulher no seu caminho também?

- E que mulher! – suspirou Hyoga.

- Você está arranjado, meu irmão! – Ikki bateu-lhe cordialmente no ombro.

Shun suspirou.

- E você Ikki, quem é a deusa da vez? – perguntou o loiro, sorrindo sarcástico.

- Adivinhem! – encostou-se no espaldar da cadeira.

Os dois rapazes balançaram a cabeça.

- Meu amor foi pousar na bela filha...- fez suspense - ...Do novo governador!

- O quê? – Hyoga estreitou a visão. – Ficou louco?

- Mas você me disse...- Shun tentava entender.

- A moça de ontem era ela! – Ikki exasperou-se – O que ela estava fazendo ali, não sei! Mas me disse com todas as letras!

- E qual o nome dela? - Perguntou Hyoga, interessado.

- Es-Me-Ral-Da! – Ikki saboreava as palavras.

Shun ergueu uma sobrancelha, enquanto Hyoga, sorvendo um gole de café, sorria discretamente.

- E sabem o que vou fazer? – disse Ikki, levantando-se.

- Invadir o quarto dela de novo? – perguntou Shun.

Hyoga fitou Ikki, surpreso.

- Invadiu o quarto dela? – exclamou entusiasmado.

- Vou agora mesmo a casa do governador!

- Para quê? – indagou Shun.

- Sou um dos proprietários que deveria ter comparecido a festa! Mas devido a problemas pessoais...- Ikki sorriu - ...Só pôde apresentar-se hoje pela manhã!

- Você não presta! – disse Hyoga.

- Meu caro, é sempre melhor começar com atrevimento!

E despedindo-se, Ikki pegou do chicote e montou num cavalo de cor marrom. À mesa, os dois amigos fitaram-se sarcasticamente.

- Nem dou mais ouvidos! – disse Shun – Esta Esmeralda só vai durar até ele encontrar outra mais bonita ainda!

Hyoga não respondeu. Sem entender por quê, seu pensamento convergiu para aquela moça, uma mera criada, que andava tão desastrada pelas ruas. Onde será que ela morava?

O.o.O.o.O

- Está terminantemente proibida de sair sozinha!

- Sim, papai!

- E a partir de hoje, não mais sairá a pé!

- Sim, papai!

Sentada numa poltrona, Esmeralda, num vestido leve de verão, todo florido e os ombros a mostra, assentia de cabeça com todas as resoluções paternas. Nem ela mesma acreditara na história da pobre mulher que estava a parir e que ela, muito gentilmente, oferecera-se para acompanhá-la até um médico.

- E mais! – Guilty voltou-lhe o dedo em riste

- O que, papai? – perguntou, assustada.

- Deixe para fazer suas caridades a luz do dia!

- Está bem, papai! – suspirou

- E por favor... – Guilty a fitou entre o aflito e o mordaz - ...Não desapareça esta noite!

- Não se preocupe, papai! – ela levantou-se – Estarei aqui durante o jantar!

- Esta sim é minha filha obediente! – declarou Guilty, orgulhoso da autoridade – Pode ir!

Esmeralda o cumprimentou e saiu acompanhada de Eiri, que sob ordens expressas recebida aos berros, não a podia largar um só instante.

Sozinho na sala, Guilty acendeu um charuto. Fechou os olhos apreciando aquele belo produto cubano, suspirou. Uma criada apresentou-se, tirando-lhe da concentração.

- O que foi agora? – rosnou ele.

A pobre mulher aproximou-se com cautela...

- Um senhor está ai fora para vê-lo! – disse ela

- Quem é? – berrou.

- Diz ser um dos proprietários! – completou com cuidado

.

- Diga que eu morri! – grunhiu.

A mulher balançou a cabeça solenemente e preparou-se para cumprir as ordens.

- Espera, criatura! – chamou Guilty

- Senhor? – ela o fitou amedrontada.

- Mande-o entrar!

- Sim, senhor!

- Quantos patifes mais terei de conhecer?

O soalho rangeu sob o peso das botas bem lustradas de Ikki. Ele ajeitou a camisa e estufou o peito antes de entrar na saleta. Aproximou-se com cuidado. Guilty retirou da boca o charuto ao vê-lo aproximar-se. Não demonstrou, mas surpreendeu-se por se deparar com um homem tão jovem.

- Bom dia! – cumprimentou o rapaz com voz grave.

- Seja breve!

Ikki fitou o homenzinho a sua frente com olhar pertinaz, enquanto este, muito calmo, impacientava-se pela demora.

- Vim lhe dar meus cumprimentos, senhor! – declarou Ikki.

- Sabe quantas vezes já ouvi isso? – rosnou o homem – Chega a ser insuportável!

- Decerto...- tentava continuar a conversa – Mas como não pude comparecer a sua solenidade...

- Você não foi? – perguntou Guilty.

- Por motivos pessoais....

- Sabe que nem notei! – e soltou uma imensa baforada de fumo.

- Receio que sim! – Ikki começava a impacientar-se.

- O senhor ainda não me disse o que pretende!

- Com o quê? – o rapaz franziu a testa.

- Com sua visita! – disse Guilty, também impacientando-se – Está me atrapalhando!

- Não pretendo nada! – respondeu o jovem de maneira rude, aquilo o estava cansando e nem ao menos vira sequer sua companheira de aventura – Vim apenas me apresentar!

- E então por que não diz logo seu nome e vai embora?

"Mas que homem insuportável!".

Descobriu que Esmeralda, quando queria, tornava-se tão chata quanto ele!

- Me chamou Ikki Amamiya! – estendeu a mão – Tenho uma pequena propriedade aqui perto!

- Já? – Guilty exclamou sem atentar na mão do rapaz.

- Já o quê?

- Já se apresentou?

Ikki encolheu os ombros.

- Então meu rapaz, é uma pena que esteja tão apressado...- Guilty deu-lhe as costas - ...Decerto poderíamos passar uma bela manhã a tagarelar!

- Senhor...

- Eu sei, eu entendo! Muito trabalho, não é! Somos homens importantes!

- Mas...

- Melina! – berrou o homem

A criada acudiu prontamente.

- Acompanhe o senhor Amamuya até a saída!

- Amamiya! – corrigiu o rapaz, nervoso.

- Como?

- É Amamiya e não Amamuya!

- Isso! – e fez um gesto com a mão.

Ikki respirou forte, tentando controlar-se o mais que podia e olhando a criada que, trêmula, o esperava na porta, encaminhou-se:

- Passar bem, senhor!

- Ei, meu jovem? – chamou Guilty; Ikki voltou-se para ele. – Me daria grande honra se viesse jantar aqui esta noite!

Ikki por um momento pensou em mandá-lo pegar aquele jantar e o enfiar....Contou mentalmente até 10 e com um sorriso severo, disse:

- Certamente!

- Será um prazer! – falou Guilty, com enfado.

- O prazer será literalmente meu! – exclamou cinicamente.

E fazendo um pequeno aceno, retirou-se, imaginando as delícias que o esperava logo mais, a noite. E enquanto caminhava lançava olhadas fortuitas por todos os cômodos sem, no entanto, vislumbrar um vestígio sequer de sua amada, como se fosse uma deusa que tivesse remontado aos céus.

O.o.O.o.O

Jango levantou-se espreguiçando-se. Caminhando pela alcova envolta na penumbra, apanhou os cigarros em cima da cômoda e acendeu um. Aproximando-se da janela, abriu-a de par em par. O sol iluminou os músculos rijos e nus.

- Já é dia?

Helena, desperta pela luminosidade, enrolou-se mais no lençol. Jango observou as ruas com as mãos espalmadas no parapeito.

- Já são dez horas, querida!

- Ainda?

Ele voltou-se para ela, dando uma forte baforada.

- Que tal se levantar e ir embora?

Helena o fitou enfadonha.

- Vou pedir para a criada trazer nosso café aqui! – disse ela sorrindo.

- Não! – Jango alongou-se – Gosto de comer sozinho!

E jogando uma toalha por cima dos ombros, pegando de uma camisa, vestindo uma calça que estava no chão, dirigiu-se para a porta do quarto.

- Quando eu voltar, espero que já esteja de pé!

E saiu deixando a amante sentada na cama sem emitir uma palavra sequer. Jango, calçado em chinelos, desceu as escadas pressurosamente. Entrou na cozinha.

- Bom dia, senhor!

June o olhou aturdida. Tratava-o bem mais por receio que por respeito e fingindo não notá-lo, voltou aos seus afazeres, virando-se para o fogão e mexendo algo dentro de uma panela de barro.

Ele a sorveu com o olhar, aproximando-se sorrateiramente. Apertou-lhe a cintura com força e encostando-lhe os lábios ao pé do ouvido, fê-la arrepiar-se de asco.

- Essa noite você escapou por conta da condessa...

Sussurrou, roçando-se no corpo dela. June fechou os olhos com uma fúria contida. Sentiu vontade de chorar.

- Mas hoje... – ele continuou - ...Voltará aos seus deveres noturnos!

Numa tentativa de safar-se daquele assédio, ela tentou soltar-se de seu braço, sem êxito. Jango puxou-a com força, impedindo-a de afastar-se. Pousou um beijo forçado nos lábios, que só não lhe foram negados por receio de uma agressão.

- Amor!

A voz fina da condessa o fez soltá-la, piscando-lhe um olho. June, fazendo um grande esforço por controlar-se, voltou-se novamente para o fogão.

- O que é, Helena? – resmungou, subindo de volta ao quarto.

- Quero água quente!

...

- O senhor vem almoçar?

Acanhada, June proferiu aquela pergunta sem o fitar, enquanto servia chá a condessa, que lia regaladamente o jornal matinal.

- Não! – respondeu ele – Nem jantar!

- Esta noite será bem interessante! – comentou a mulher.

- Espero que você faça seu trabalho direito! – atalhou o homem, um tanto enfadado.

- O governador já é meu!

June relanceou um olhar aos dois, sentados na mesa, pegou da travessa vazia e retirou-se para a cozinha. Dentro de poucos minutos, o casal saia para a agitada manhã ateniense.

Deixando a condessa Heraclys num coche, Jango, batendo a bengala no chão enquanto caminhava, dirigiu-se para a delegacia. Não se surpreendeu ao encontrar o juiz Villefort lá.

- Feliz encontro, vossa senhoria! – cumprimentou-o

- Já soube? – retrucou o velho juiz.

- De quê?

Parado diante deles, o chefe da guarda permanecia de cabeça baixa, muito acanhado e bastante taciturno.

- A armadilha fracassou!

Jango pousou os olhos ferozes e interrogativos na figura esquálida do magistrado.

- Como assim?

- Fênix! Ele voltou!

- Fênix é apenas um! – berrou Jango.

- Mas os nossos belos soldados não conseguiram dar conta dele! – ironizou o juiz.

- Isso é ridículo! – rosnou Jango.

- Havia uma mulher com ele! – atalhou o homenzinho, timidamente.

- Que mulher? – interrogou Jango.

- Não sei, senhor!

- Não adianta! – suspirou Villefort – Teremos de arrumar outro caminho para afastar os Amamiyas das jazidas de chumbo!

- Cretinos! – esbravejou Megarous.

- Eu ainda vou acertar minhas contas com ele! – interferiu o juiz.

- Acerte com quem quiser, mas o Ikki é meu! – gritou Jango.

- Não se meta em meus assuntos, Jango! – Iannis o fitou, feroz. – Aquela família me deve caro!

- Bem o sei, juiz! – Jango sorriu sarcástico – Ainda não superou ter sido trocado pelo velho Amamiya por uma mera cigana!

- Fui humilhado! – Iannis ressentiu-se – Mas terão seu pago!

Ao lado, o pobre policial enxugava o rosto suado com um lenço já roto.

- E eu posso saber como pretende expulsar os irmãos das explorações do Norte? – corroborou Jango.

- O governador pode ser um grande aliado!

- De que maneira?

- Digamos...- Iannis abaixou os olhos, dissimuladamente -...Que eu conheça nosso caro governador "muitíssimo bem"!

- Com licença..

Uma voz fraca e envelhecida se fez presente no três homens voltaram-se ao mesmo tempo. Na porta, um velho de estatura mediana, trajando roupas austeras, entrou a passos lentos e compassados.

- Poderiam me dizer onde posso encontrar o responsável por esta prisão?

Villefort, curvando-se respeitosamente diante do monsenhor, pronunciou-se.

- Eu! Juiz Iannis Villefort!

- Poderíamos conversar a sós, pois não?

- Claro! – Villefort estreitou a visão – Com quem falo?

- Morpheus Petrys! Procurador geral da coroa!

Todos se entreolharam.

Villefort, sem entender bem o significado daquela visita, fez um gesto para que o idoso o seguisse. O procurador, educadamente, cumprimentou a Jango e ao soldado ao passar por eles, desaparecendo por trás da porta ao lado do banheiro.

- Sente-se! – disse o juiz, indicando-lhe uma cadeira

Os dois homens acomodaram-se um diante do outro e Morpheus, pousando um olhar severo, por trás dos óculos redondos, no rosto do juiz, anunciou:

- O assunto que me traz aqui é de cunho sigiloso e político!

- Em que posso ajudar? – Villefort parecia intrigado.

- Segundo a coroa, há informações que uma mulher esteja presa aqui...

Villefort empalideceu. Sua mão encontrou o nó da gravata e o folgou.

- Uma mulher? – repetiu.

- Sim! Uma mulher cuja identidade poderia trazer grande embaraço para a família real!

- Esta prisão abriga apenas homens... – explicou Villefort - ...As mulheres são mandadas, geralmente, para Esparta!

- De qualquer modo.. – o procurador o encarou – ...Tenho ordens de inspecionar a prisão!

Silêncio.

- Agora?

- Agora! – confirmou Morpheus.

- Mas excelência...

- O senhor irá me acompanhar ou devo ir sozinho?

Villefort engoliu em seco e levantando-se, rendeu-se.

- Acompanhe-me!

Morpheus o seguiu. O juiz, ao passar pela saleta onde se encontrava à entrada do procurador, fez um gesto para o chefe de guarda, que prontamente o atendeu. Jango já não se encontrava ali.

- Onde estão os outros soldados? – perguntou ao cabo.

- Estão em fila, senhor! – respondeu este, depois de bater continência.

- Abra o portão, vamos ver as celas! – disse Villefort.

Apressadamente, o homenzinho pôs-se a executar a tarefa. Ao longo de uma hora, haviam inspecionado três dos quatro corredores existentes na cadeia, faltando apenas a ala dos presos doentes.

- Tem certeza, excelência? – indagou o juiz – São todos loucos!

- Todas as celas! – esbravejou o procurador.

- Sim, excelência!

Chegaram por fim ao último cômodo. Morpheus, de mãos cruzadas nas costas, saiu do cubículo desconfiado. Seus olhos recaíram com consideração sobre uma pilha de feno seco que se amontoava na parede a sua frente, cobrindo-a.

Aproximou-se, repuxando alguns blocos. Sua visão acendeu quando pôde observar uma pequena grade por trás de toda aquela "cortina de fumaça".

- Aonde leva esta passagem?

- A uma pequena adega! – sorriu Villefort.

- Abra!

- Mas, senhor...

- Ou o senhor abre ou abro eu!

Villefort o encarou e fazendo um sinal, pôs-se a desobstruir a passagem com a ajuda do guarda. Entraram, mas não havia nada além de várias garrafas de vinho.

- Viu? – Villefort atalhou – Apenas uma adega!

- O que é isso?

Abaixando-se, o procurador notou alguns tijolos soltos, e erguendo um deles, fitou um aturdido juiz, que mais uma vez, folgava a gravata.

- Abra! – ordenou.

Villefort e o policial entreolharam-se.

- Senhor, não há mais nada lá embaixo! – disse Villefort com tom sério.

- Quero averiguar!

- Está duvidando de minha palavra?

- Duvido de seu julgamento! Abra!

Abaixando-se, o juiz e o policial principiaram a arrancar as pedras, deixando a vista uma da tocha que o guarda havia trazido consigo, Morpheus desceu cuidadosamente os degraus da íngreme escada, chegando a uma sala escura e fria, pequena e cheirando a umidade.

- Ah!!!!

Não pôde segurar a exclamação de espanto e satisfação quando o fogo iluminou a figura de uma mulher emagrecida, pálida, as mãos presas por correntes e a boca tapada por um gradeado.

Ela o fitou aturdida, reconhecera-o. Pousando a luz num arco, o procurador aproximou-se, ajoelhando-se diante da mulher de longos cabelos dourados, grandes e assustados olhos verdes, feições devastadas, mas que não haviam perdido a beleza.

Ele tinha as mãos trêmulas e ela, esgueirando-se, tentou impedir a sua aproximação, amedrontada pelos anos de terror que lhe haviam sido impostos. Ele sorriu através das lágrimas que lhe inundavam os olhos tão idosos, achou que jamais fosse reencontrá-la.

- Sophia!

Mas antes que pudesse fazer qualquer outro movimento, tudo escureceu e antes de tombar para frente, a última coisa que sentiu, foi um forte golpe na base de sua cabeça.

O.o.O CONTINUA... O.o.O