Love was kind for a time
Now just aches and it makes me blind.
This mirror holds my eyes too bright
I can't see the others in my life.

Quando a comitiva de Dorne chegou à capital, foram muitos aqueles que criticaram. Não era segredo que dornianos eram vistos com suspeita pelos outros reinos, mas a ligação entre a casa Martell e a casa Targaryen era longa e estava prestes a ser reforçada.

Jon nunca havia visto nada tão vibrante e colorido quanto às roupas e os estandartes da comitiva de Arianne Martell. Ele se lembrava dos rumores sobre aquele povo de pele escura, olhos penetrantes e temperamento forte, rumores sobre seus costumes e suas tradições peculiares, mas nunca imaginou que ficaria tão impressionado.

Nada daquilo era familiar a ele e tudo era diametralmente diferente da austeridade do Norte. O que mais o surpreendeu foi a quantidade de mulheres a frente dos estandartes de casas importantes. Algumas usavam armas, outras apenas se vestiam de acordo com as posições mais elevadas da nobreza. Guardando a princesa de Dorne, vinha três mulheres particularmente intrigantes, que ele supunha serem as filhas do lendário Oberyn Martell.

Ele lançou um olhar sorrateiro em direção à Arya. Ela estava diferente naquela manhã e ele supunha que Daenerys era a responsável pelas roupas que ela estava usando. Arya gostava de vestidos quase tanto quanto gostava de bordar, mas quando a rainha determinava que Lady Stark devia se vestir de acordo com aposição de noiva de um dos príncipes, então havia pouco ou nada que pudesse ser feito para evitar roupas femininas.

Eles praticamente não se falaram durante aquela semana. Ele tentou convidá-la para cavalgar, ou caminhar até o bosque sagrado, mas Arya sempre recusava. Ele queria se aproximar dela e comentar como era exótica a comitiva, ou como os cavalos eram esplendidos, mas não encontrou coragem para tanto. Arya não era dada a gastar palavras desnecessárias e quando não tinha o que dizer, ou simplesmente não queria falar, ela permanecia em seu silêncio austero. Vê-la tão distante e tão taciturna o entristecia mais do que poderia imaginar.

Em três semanas Jon a tomaria por esposa e eles seriam príncipe e princesa de Dragonstone, Senhores de Winterfell e Guardiães do Norte. Ela voltaria para o seu lugar de direito, o lugar de onde jamais deveria ter saído e a vida seria pacata novamente. Era tudo o que ele queria. Que tudo voltasse a ser como no tempo em que eles eram crianças e agiam como cúmplices. Era um sonho impossível e Arya jamais voltaria a venerá-lo como fez no passado, não depois que ele a despisse e cobrasse seus direitos de marido.

Aquele pensamento o incomodava mais do que qualquer outra coisa, como se já não bastasse a infelicidade dela por causa de todo protocolo e boas maneiras exigidas de uma futura princesa. Ela era Arya Stark, filha de Eddard Stark e Catelyn Tully, irmã de Robb, outrora Rei no Norte, e de Sansa Arryn, Senhora do Vale. Sua linhagem era mais antiga que a linhagem dos Dragões que unificaram o reino e em suas veias corria o sangue dos Primeiros Homens, um sangue que eles partilhavam. Ela era a noiva mais valiosa de todos os Sete Reinos e ainda assim Jon daria tudo para libertá-la daquele compromisso e permitir que ela fosse livre.

Mas o que era liberdade para Arya? Usar roupas masculinas, portar armas, ignorar as boas maneiras e cavalgar livremente pelo Norte, ou havia algo mais? Se ele pudesse dar a ela liberdade, permitiria que Arya zanzasse pelos Sete Reinos e além ao seu bel prazer? Permitiria que ela deixasse Winterfell por uma aventura, ou pior, por outro homem?

Não...Ele admitiu sentindo o gosto amargo na boca. Ele não permitiria que ela o deixasse outra vez, não importava o motivo. Ela era o Norte e seu povo austero, ela era a neve que caia no verão e o calor das lareiras acesas no inverno, ela era a cinzenta Winterfell, com suas paredes de pedra, suas fontes termais e o bosque sagrado. Ela era o lar dele, era tudo o que ele prezava e era egoísta de mais para abrir mão.

Arya não poderia mais deixa-lo depois do casamento. Estariam atados um ao outro em corpo e espírito diante dos deuses e dos homens. Era a única coisa que o confortava diante da impossibilidade de mudar a decisão da rainha.

Durante o banquete de boas vindas a princesa Arianne ele observou como Arya interagia com as filhas de Oberyn Martell. Aparentemente, elas possuíam mais em comum do que apenas o gosto por armas. Ela sorriu algumas vezes e conversou com Arianne por um tempo considerável. Jon não pode deixar de notar o quão contrastantes elas eram.

Arianne tinha a pele morena, olhos de serpente e corpo pequeno e bem feito exposto de forma quase indecorosa por suas roupas feitas de seda esvoaçante. Usava tantos adornos que mais parecia um khal com suas sinetas. Arya, por outro lado, tinha a pele alva do Norte, o cabelo negro sempre preso numa trança folgada e os olhos eram cinzentos como um lago congelado. Ela raramente sorria, não gostava de adornos e os vestidos que usava quando obrigada eram de tecido encorpado e lhe cobriam o corpo por inteiro, como era pertinente a uma dama do Norte.

Ele decidiu que preferia a modéstia dela, a simplicidade de suas vaidades e seu espírito determinado, às maquinações e seduções dornianas. Arya era natural como a neve de verão e o vento frio, era uma visão familiar e agradável num lugar tão pouco acolhedor quanto a capital. Ao menos Daenerys não determinou que ele se casasse com uma mulher do sul. Aquilo sim seria um desastre.

Ao final do jantar houve música e Aegon se levantou para tirar a noiva para dançar. Arya permaneceu sentada, conversando com Nymeria Sand e ignorando os olhares que Jon lhe lançava. Aquele jogo de gato e rato o estava irritando mais do que ela poderia imaginar. Ele se levantou de seu lugar e foi até ela.

Quando ele lhe estendeu a mão Arya o encarou como se aquele gesto não fizesse o menor sentido. Jon conteve seu constrangimento e manteve a mão estendida.

Were we too young? And heads to strong?
To bear the weight of these lover's eyes
'Cause I feel numb beneath your tongue,
Beneath the curse of these lover's eyes.

- Me concederia esta dança, minha senhora? – ele perguntou usando todo protocolo que ambos odiavam. Arya arqueou uma sobrancelha.

- Não creio que esta seja uma boa ideia, Alteza. Posso acabar destruindo seus pés. – ela disse com um toque de sarcasmo em sua voz. Ele não estava acostumado a ser vítima do humor ácido, da indiferença, ou do rancor dela e aquilo o machucava.

- Eu insisto. – ele afirmou e Arya acabou concordando.

Nenhum dos dois tinha qualquer familiaridade com danças, apesar de terem sido criados em Winterfell. Jon não se considerava um lorde galante, como aquele das canções, tão pouco Arya gostava de se guiada ao som da música por todo salão enquanto os convidados estavam prontos para julgarem cada um de seus movimentos e dizerem o quanto ela era desastrada. Mesmo assim, ele a conduziu com cuidado e se esforçou para não fazer qualquer movimento que pudesse ser difícil para ela acompanhar.

- Gostando da companhia das outras mulheres? – ele perguntou genuinamente preocupado.

- Nymeria é ótima e Arianne não é nem de longe a princesa que eu havia esperado que fosse. – Arya admitiu – São melhores do que todas as damas dessa maldita corte.

- Fico feliz em ver que estão se dando bem. – ele disse sincero - Eu estava pensando se gostaria de cavalgar amanhã.

- Nós dois teremos um dia muito tumultuado. – ela disse seca – Você precisa agir como o príncipe que é e eu tenho que fazer de conta que sou o que se espera de uma dama.

- Vai continuar treinando durante estes dias? – ele perguntou tentando manter o diálogo.

- Tanto quanto possível. – ela respondeu.

- Eu posso assistir seu treino? – ele perguntou inseguro.

- E por que você faria isso? – ela revidou desconfiada. Aquilo estava ficando cada vez mais irritante.

- Me diga você. – ele disse – Eu ainda me lembro de como ficava fugindo das lições de costura pra assistir meus treinos com Robb.

- É diferente. Naquela época eu tinha esperanças de que me deixariam treinar também. – Arya respondeu constrangida.

- Eu gostaria de vê-la treinando. Saber o tipo de demônio que se tornou desde que eu lhe dei uma espada de presente. – ele disse.

- Faça como quiser, afinal você é o príncipe. – ela respondeu por fim.

- Até quando vai me punir? – ele perguntou enquanto a girava pelo salão diante dos olhos de todos – Não fui eu quem decidiu por este casamento, então por que está me punindo desta maneira?

- Eu não estou punindo você. – ela respondeu enquanto executava um passo consideravelmente gracioso ao redor dele.

- Você me evita todos os dias. Recusa todos os meus convites. Mal consegue olhar para mim. – Jon enumerou. Ele levou a mão à cintura dela, dando meia volta ao redor de Arya – Não me diga que minha aparência se tornou tão ruim ao longo destes anos que você simplesmente não consegue me encarar diretamente.

- Não seja idiota. – ela resmungou – Você não mudou nada.

- Eu já não posso dizer o mesmo a seu respeito. – ele deixou escapar.

- O que quer dizer? – ela questionou imediatamente.

- Nada. Foi uma péssima colocação. – ele tentou se esquivar. Não queria admitir que havia passado quase uma semana fascinado por todas as mudanças que ela havia sofrido ao longo dos anos e admirando a bela figura que agora ela exibia sem nem ao menos perceber o que estava fazendo.

- Isso tudo não passa de um circo. Uma farsa em que nós dois estamos atuando. – ela resmungou mais uma vez – Não há menor possibilidade deste casamento ser uma boa ideia, por mais que politicamente seja a estratégia perfeita. – ela tentou se afastar, mas Jon a segurou pela mão e a puxou de volta, continuando a dança.

- Eu também estou tendo problemas em aceitar isso. – Jon disse firme – Mas já que não temos escolha, talvez o melhor seja tentar fazer o nosso melhor para que dê certo.

- Por que eu tenho que me casar, afinal? Por que nós temos que nos casar? Bran lhe jurou lealdade, Rickon e Sansa também, se é isso que precisa, de outro juramento, eu farei. Se um dia o Norte for chamado à batalha, eu posso comandar os nortenhos se Rickon não tiver idade. – ela continuou resmungando irritada.

- Os homens não a seguiriam. – Jon disse num esforço de fazê-la entender.

- Uma mulher pode liderar tão bem quanto um homem. As Mormont fazem isso, e as Serpentes da Areia também, por que eu não poderia? – Arya insistiu.

- Mulheres carregam os brasões, mas não as armas. Bastardos levam as armas, mas não os brasões. – ele repetiu a mesma frase de tantos anos atrás – Não fui eu quem fez as regras, Arya.

- Não, você só as segue. – ela reclamou – E às vezes chego a pensar que você não está suficientemente contrariado nem mesmo para reclamar. Você é um príncipe, mas age como se fosse um soldado raso. Já foi o Lorde Comandante, mas ainda pensa que é um intendente.

- E o que eu deveria fazer? – ele perguntou quando a música parou de tocar – Quer que eu me declare contra o Trono de Ferro, inicie outra guerra?

- Me deixe fugir. Não poderão fazer nada se eu escapar outra vez. – ela sussurrou. Jon travou a mandíbula instintivamente – Por favor, Jon.

- Eu não posso. – ele respondeu severo – Eu não consigo mais deixá-la ir e viver pensando se está viva ou morta, desejando que volte pra casa. Winterfell é o seu lugar e você sabe disso. Eu vou levá-la de volta pra casa.

- Mesmo que pra isso tenha que se casar comigo? – ela questionou irritada.

- Mesmo que tenha de me casar com você. – Jon admitiu – Eu sinto muito que as coisas sejam desta maneira, mas tudo ficará bem quando voltarmos pra casa, eu prometo.

- Não faça promessas que não pode cumprir. – ela se afastou dele ao fim da música e da dança, voltando para mesa e retomando a conversa com Nymeria Sand.

But do not ask the price I pay,
I must live with my quiet rage
Tame the ghosts in my head
That run wild and wish me dead
Should you shake my ash to the wind
Lord, forget all of my sins
Oh, let me die where I lie
Neath the curse of my lover's eyes.

Ele a havia perdido e isso estava muito claro. A Arya que ele desejou reencontrar por tantos anos se perdeu, deixando para trás apenas sua sombra vingativa e selvagem para assombrá-lo. Ela o culpava por não se rebelar contra a decisão de Daenerys e logo o odiaria para sempre.

Jon retomou seu lugar à mesa, ao lado esquerdo da rainha. Daenerys conversava com algum emissário de Highgarden, que insistia em reforçar o fato de que uma aliança com Dorne era pouco vantajosa. Como se os Tyrell não tivessem sorte de ainda estarem vivos depois da guerra. Era muita pretensão querer que os Targaryen esquecessem o apoio oferecido pela Flor ao reinado de Tommen.

Ele não estava com estomago para conversas políticas, nem para a comida posta diante dele. Não queria ouvir a voz de seu meio irmão, nem fingir que estava se divertindo com aquela farsa. Acima de tudo, ele não queria que todos vissem como o noivado com Arya estava acabando com ele aos poucos, ou como ele se sentia frustrado por não poder dar a ele o que ela queria e ao mesmo tempo se livrar do pensamento de que aquele casamento seria a única maneira de satisfazer seu desejo egoísta de nunca mais vê-la partir.

- Algo o perturba, querido sobrinho? – Daenerys perguntou a ele após dispensar o emissário.

- Não posso fazer. – ele disse sério, sem encarar a rainha – Eu sei que é a melhor maneira de pacificar o Norte de uma vez por todas, mas não posso me casar com ela.

- Pois eu achei que estavam se entendo muito bem durante a dança. – Daenerys disse sorrindo para ele de forma amistosa – Eu não vou voltar atrás nesta decisão, Jon.

- Por favor. – a voz dele era quase um sussurro – Eu a levarei para Winterfell, ela pode agir como minha conselheira e administrar a propriedade, mas não posso me casar com Arya.

- Meu querido sobrinho já está passando da idade de se casar. – Daenerys insistiu – Quando determinei que se casasse com ela, pacificar o Norte era apenas parte do objetivo. Você precisa de herdeiros.

- Posso dizer que sou estéril. – ele afirmou e Daenerys lançou a ele um olhar severo.

- Nós somos tudo o que restou de uma poderosa dinastia. – Daenerys disse em tom decisivo – Tanto você quanto Aegon sabem que eu não posso mais ter filhos, o que quer dizer que cabe a vocês assegurarem a continuidade do sangue do dragão. Uma Stark trouxe ruína a esta casa uma vez e eu não vou permitir que isso se repita. Eu não me importo se Arya Stark não deseja se casar, ou se vocês foram criados como irmãos. O que me importa é que o sangue do lobo pague pelo nosso sangue, o sangue do seu pai. O mínimo que uma Stark pode fazer por nós é parir crianças saudáveis, e quanto mais rápido, melhor.

- Minha mãe era uma Stark. – Jon disse sentindo a raiva borbulhar em suas veias.

- E por causa dela nossa família caiu. – Daenerys revidou – Faça com que a morte dela, de Rhaegar e de Eddard Stark não tenha sido em vão. Eu o acolhi nesta família, o legitimei e posso fazer de você meu sucessor, eu perdoei os Stark quando deveria ter pedido por suas cabeças e casando você com ela estou honrando a memória do homem que ajudou a derrubar minha família, tudo porque ele salvou você de Robert Baratheon. Não seja ingrato. Aceite o que lhe dei e cumpra seu dever.

- Arya está pensando em fugir. – Jon disse sentindo o coração apertar dentro do peito – Ela é bem capaz de fazer isso.

- Ela não vai. – Daenerys assegurou – As Serpentes vão cuidar para que ela fique aqui. Arya se parece de mais com a sua mãe para que os dornianos fiquem tranquilos vendo-a tão próxima a Aegon. Seu irmão a acha atraente, isso não é segredo, mas ele já deixou claro que honrará o compromisso com Dorne. Os Martell estão tão interessados no seu casamento que se preciso Obara Sand arrastará sua noiva para o leito nupcial pessoalmente. – a rainha falou em tom firme – Você deseja liderar? Pensa em me suceder um dia?

- Não tenho tal pretensão. – ele disse.

- É uma mentira. – ela respondeu a ele com um sorriso afável – Você comandou a Patrulha da Noite e o fez muito bem. Está acostumado a dar as ordens, a determinar o que deve ser feito. Talvez você me suceda um dia, mas para poder liderar, primeiro deve obedecer. Você devotou sua lealdade aos Stark por anos e o fez de forma honrada. Você dedicou mais uma parte preciosa de sua vida e sua lealdade à Patrulha da Noite. Agora é hora de dedicar sua lealdade a sua verdadeira família. Quais são nossas palavras?

- Fogo e Sangue. – ele respondeu contido.

- É o que nos une, Jon. – ela afirmou – Fogo e Sangue forjaram esse reino. Por mais que as palavras dos Stark afirmem que o inverno está chegando, fogo é o que faz o reino sobreviver e sangue é o que nos mantém unidos. Nós vivemos sobre terreno instável, um deslize e tudo o que temos irá pelos ares outra vez. Quer viver até a velhice e em paz? Quer garantir que o Norte será prospero por gerações? Quer que sua preciosa Arya viva bem e segura por muitos e muitos anos?

- Sim. – ele concordou.

- Então cumpra seu dever.

Cause there's no drink or drug I've tried
To rid the curse of these lover's eyes
And I feel numb beneath your tongue
Your strength just makes me feel less strong

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Daenerys foi bem clara ao dizer que ela não poderia deixar a capital antes de se casar com Jon e a guarda severa que vigiava cada passo dela era uma prova contundente disso. Bran chegou a enviar emissários e Rickon estaria presente para entregá-la. Sansa não estaria presente, mas lordes do Vale testemunhariam a cerimônia.

Arya avaliou os guardas que a vigiavam de perto e não achava que seria impossível passar por eles, mas isso foi antes das Serpentes chegarem. Nymeria e Tyenne eram mais perspicazes do que ela imaginava e ao invés de achar nelas aliadas em potencial, descobriu que Daenerys havia dado a elas ordens para mantê-la entretida e cuidar para que Arya não fizesse nada irresponsável.

Ela voltaria a Winterfell como Jon havia prometido. Aquele era um pensamento que deveria deixá-la feliz. Voltar pra casa. Mas seu pai e sua mãe não estariam lá esperando por ela, tão pouco os criados que a viram crescer, ou Robb e Bran. Winterfell já não era mais a casa dela e quando ela chegasse ao Norte, seria Jon sentado no cadeirão onde o pai dela costumava se sentar e no bosque sagrado. Seria ela cuidando do castelo ao invés da mãe.

Aquela era uma realidade que ela não queria encarar, pelo menos não tão cedo. Winterfell era habitada por fantasmas e memórias de um passado feliz que foi perdido para sempre. Ao menos Jon havia prometido que eles iriam a Dorne primeiro, antes de seguirem para o Norte, mesmo que isso não tornasse a situação mais fácil de aceitar.

Ela entrou em seus aposentos e encarou o vestido colocado sobre a cama dela. Um presente de Arianne para ela. Era ao estilo da capital e feito de seda cinza clara e com aplicações de renda e placas de madrepérola. Era o vestido que ela usaria no casamento e agora só restava a Arya uma semana.

Aquele mês foi uma tortura lenta. Ela não conseguia aceitar a determinação real, tão pouco conseguia encarar Jon sem sentir um aperto em seu peito. Pensou em todas as vezes que desejou reencontrá-lo durante os anos que viveu como um Homem Sem Rosto, tentando sobreviver de alguma forma.

O sorriso dele era o que a mantinha viva e a fazia continuar seguindo em frente. A esperança de revê-lo, de chagar até a Muralha e sentir a mão dele bagunçando seu cabelo, de ouvi-lo terminar suas frases junto com ela e chamando-a de irmãzinha. O rosto dele era tão sagrando quanto o bosque onde viviam os deuses antigos e o silêncio da cripta. Era o rosto dele que ela via sempre que tocava o punho de Agulha.

Ela devia estar feliz por revê-lo, por ter ele por perto e saber que Jon estava vivo e bem. Ele agora era o senhor de Winterfell e com certeza seria um lorde tão bom quanto o pai dela e Robb foram. O problema é que Jon não era mais o meio irmão dela. Eles eram primos e por ordem da rainha se casariam para garantir que o Norte seria pacificado e governado por uma linhagem com sangue Stark e Targaryen. O sangue dos Primeiros Homens e da Antiga Valyria.

O pai dela havia dito que ela se casaria com um grande lorde e seus filhos seriam cavaleiros, lordes e príncipes. Ela seria uma lady e governaria o castelo de seu marido. Em algum lugar na outra vida Eddard Stark deveria estar satisfeito com o destino dela. Um destino sem assassinatos, sem guerras, vivendo segura em Winterfell sob a proteção de um homem cujo significado de honra havia sido ensinado pelo próprio Lord Stark.

Por que tudo não poderia ser como antes? Por que ela e Jon não poderiam viver em Winterfell como irmãos para sempre?

Ela encarou o próprio reflexo no espelho. Cabelos desarrumados, roupas sujas e puídas, uma espada presa na cintura. Um rosto longo e solene, uma cara de cavalo. Ela não era nada daquilo que se esperava de uma lady, ou de uma princesa. Além disso, havia a questão da sucessão.

Daenerys disse que o príncipe que tivesse o primeiro filho seria nomeado herdeiro do trono de ferro. O primeiro filho homem...

Jon poderia ser rei e faria grandes coisas pelo povo. Poderia até mesmo vingar a família dela, e fazer todos aqueles que ela ainda não havia conseguido matar pagarem por seus crimes. Jon poderia se sentar no Trono de Ferro um dia se...Se ela lhe desse um filho.

Alguém bateu à porta e Arya permitiu que quem quer que fosse entrasse em seu quarto. Não chegava a ser uma surpresa ver Jon parado de pé, esperando por um sinal dela para se aproximar.

But do not ask the price I pay,
I must live with my quiet rage
Tame the ghosts in my head
That run wild and wish me dead
Should you shake my ash to the wind
Lord, forget all of my sins
Oh, let me die where I lie
Neath the curse of my lover's eyes.

- O que quer aqui, Jon? – ela perguntou desanimada.

- Saber como está. – ele disse – Saber como foi seu dia.

- Eu estou bem e meu dia foi como o esperado. – ela disse sentando-se sobre a cama – Vou acabar enforcando uma das damas da corte se tiver de comparecer a mais um chá da tarde planejado pela rainha.

- Logo não terá de comparecer a nada disso. – ele disse numa tentativa de animá-la – E se serve de consolo, eu também estou exausto de discutir política e caçar com Aegon.

- É bom saber que você e seu irmão se dão bem. – ela disse calma enquanto brincava com um pedaço da renda do vestido sobre a cama.

- Este é o vestido do casamento? – ele perguntou timidamente.

- É. Um presente da princesa Arianne. – Arya disse apática.

- É muito bonito. – ele disse – Tem a cor dos seus olhos. – ela ergueu os olhos em direção a ele, sem saber o que dizer.

- Odeio vestidos. – ela resmungou por fim e Jon sorriu para ela.

- Eu sei. – ele concordou – Fico feliz que algumas coisas não tenham mudado. Eu tenho um presente pra você. Acredito que uma espada, ou uma adaga seriam suas preferências, mas dificilmente poderia usar uma arma durante a cerimônia. – Jon entregou a ela uma caixa entalhada. Arya aceitou a caixa e a abriu.

- Isso é...- ela ponderou por um momento. Apesar de não gostar muito de joias e adornos, ela tinha que admitir que aquilo era impressionante. A grossa corrente de ouro sustentava um pingente com um rubi em forma do losango e três perolas em forma de gota. Havia também brincos para combinar.

- Exagerado? – ele sugeriu temeroso – Se não gostou eu posso procurar por algo que ache mais adequado. – ela balançou a cabeça negativamente.

- Não. – ela disse – É lindo. Muito lindo mesmo. – Jon se acalmou quase que instantaneamente e sorriu satisfeito.

- Pensei que safiras poderiam ser mais adequadas. – ele confessou – Mas o rubi é a pedra que representa a dinastia Targaryen então suponho que seja uma boa escolha.

- Obrigada. – ela disse.

- Eu chequei os preparativos para a viagem. – ele disse parecendo nervoso – Partiremos para Dorne três dias depois do casamento.

- Pensei que iríamos logo no dia seguinte. – ela pontuou.

- Os dias após o casamento podem ser...Cansativos. – ele respondeu ainda mais constrangido e Arya entendeu a que ele se referia – Além disso, Daenerys não permitirá que deixemos a capital antes deste período.

- É um tempo razoável. – ela concordou – Jon, posso lhe pedir uma coisa?

- Se estiver ao meu alcance, pode pedir o que quiser. – ele concordou.

- Após o casamento, quando for o momento de irmos para o quarto...- ela disse insegura – Poderia impedir o constrangimento de sermos despidos diante da corte inteira?

- Não vou permitir que seja exposta desta maneira, se é o que deseja. Particularmente a ideia também não me agrada. – ele disse calmamente – Tyrion Lannister criou um precedente que podemos usar.

Eles ficaram em silêncio por algum tempo, sem saber o dizer, ou fazer na presença um do outro. Arya olhava o vestido sobre a cama e as joias sobre seu colo, sentindo as paredes do quarto se fecharem ao seu redor numa sensação claustrofóbica.

- Preferia que fosse Aegon ao invés de mim? – Jon quebrou o silêncio, fazendo Arya encará-lo.

- Por que esta pergunta agora? – ela revidou.

- Daenerys disse que não é segredo pra ninguém que Aegon a acha atraente e isso deixa os dornianos desconfortáveis. – Jon disse sério – Isso me fez pensar que talvez você preferisse a ele como noivo, ou se você sente algo por ele que a impede de aceitar a ideia de se casar com o irmão errado. Não que qualquer coisa que diga possa mudar a ordem de Daenerys, mas eu gostaria de saber.

- Não, Jon. – ela respondeu – Não importa com quem eu tenha que me casar, as consequências seriam as mesmas.

- Não sente nada por ele? – Jon insistiu e aquilo a estava irritando.

- Ele é atraente, eu suponho. – ela respondeu – Diferente por causa dos traços Targeryen, mas isso não quer dizer nada. Aegon Targaryen ser um homem bonito é senso comum, qualquer outra mulher lhe dirá isso, mas não é minha preferência.

- E quais são as suas preferências? – ele disse aquilo em tom de desafio e ela sentiu o sangue subir para as bochechas, aquecendo-as imediatamente.

- Não gosto de homens tão refinados. – ela disse. Ele abafou o riso e Arya o encarou indignada.

- Acho que me surpreenderia se dissesse que preferia um bom lorde. – Jon disse ainda rindo – Fico mais tranquilo sabendo disso. Não me considero um homem refinado, afinal sou tão nortenho quanto você.

Jon caminhou até ela com passos cuidadosos e Arya permaneceu sentada encarando-o. Quando ele ficou diante dela, ele se inclinou como se fosse beijar a testa dela. Jon ergueu o queixo dela e seus olhos se encontraram. Por um momento ela achou que Jon queria dizer alguma coisa. Seus olhos eram intensos e havia algo nele, como uma curiosidade não aplacada, que Arya não sabia descrever, mas antes que pudesse tentar os lábios dele estavam sobre os dela.

Seus olhos se fecharam instintivamente. Era seu primeiro beijo e Jon era gentil ao roubá-lo. Seu coração acelerou, seu sangue corria quente e furioso nas veias e ela imaginou se aquele era o sangue do dragão agindo sobre ela.

Ele se afastou e antes que ela pudesse protestar, ou até mesmo perguntar porque ele havia feito aquilo, Jon se endireitou e encarou-a com serenidade.

- Era apenas justo que me retribuísse o presente de alguma maneira. – ele disse – E se tudo isso é inevitável, seria melhor nos acostumarmos com este tipo de intimidade.

Ela abaixou o rosto, sentindo as bochechas queimarem. Arya protestar e se indignar de alguma forma por estar agindo como Sansa, ou qualquer outra mulher idiota, mas não conseguiu. Seu coração estava acelerado de mais.

- Seus lábios são macios. – ele comentou deixando-a ainda mais constrangida. Jon acariciou o rosto dela com cuidado – E seus olhos ainda são tão bonitos quanto eu me lembrava.

- Por que fica dizendo estas coisas? – ela perguntou sentindo todo seu ser estremecer.

- Porque eu devo me esquecer da menina que você foi e me concentrar na mulher que se tornou. É esta mulher que será a minha esposa. – ele disse num tom melancólico.

Jon fez uma breve reverência e deixou o quarto. Arya ficou sozinha com todas as coisas que representavam o fim de sua juventude inquieta e rebelde. Um vestido de seda, uma caixa de joias e um beijo roubado.

And I'll walk slow, I'll walk slow
Take my hand, help me on my way.
And I'll walk slow, I'll walk slow
Take my hand, I'll be on my way.

And I'll walk slow, I'll walk slow
Take my hand, help me on my way.
And I'll walk slow, I'll walk slow
Take my hand, I'll be on my way.

Nota da autora: Olha só o Jon sendo lindo XD. Pois é, a Arya está aceitando "bem" só porque ela está sendo vigiada constantemente. Dany não está tão boazinha quanto parece, pra piorar, nosso Jon agora está com a pulga atrás da orelha depois de ouvir que Aegon acha Arya atraente. Próximo capítulo tem casamento duplo. Música: Lover's Eyes do Mumford & Sons.

Bjux

Bee