Everybody's looking for that something
One thing that makes it all complete
You find it in the strangest places
Places you never knew it could be


- Já vai sair James? – Perguntou o homem por trás do jornal.

O rapaz, que havia passado direto pela cozinha em direção ao hall voltou e entrou na cozinha, lendo a manchete principal. "Paz na Guerra: Mensagens dos japoneses e negociações de paz."

- Sim, pai. – Respondeu simplesmente.

- Por que não se senta por alguns instantes? – Sorrindo e balançando a cabeça ele obedeceu. - Posso saber para onde? – Ele virou uma página enquanto falava.

- Vou para a casa dos Evans. – Disse remexendo numa tigela de frutas a sua frente.

- Dos Evans? Por que ? – Uma das sobrancelhas se erguia por cima dos óculos do homem.

- Pretendo dar uma volta com Lily.

- Lily? Lily Evans? Oh sim, ela cresceu, que tolo. E como ela está?

- Linda. Bem, quero dizer... – James pensou um pouco. – Bem, ela está bem.

James não pode ver enquanto abaixava a cabeça envergonhado que seu pai sorria.

- Linda não é? E você encontrou com ela ontem, não é mesmo?

Não tinha necessidade do pai de James, Richard Potter, perguntar aquilo, já que na noite anterior seu amigo, Sirius Black, havia deixado bem claro que James estava caidinho pela moça.

- Isso mesmo.

- E Sirius estava falando a verdade? Você está sentindo alguma coisa por ela?

- Pai, você acredita em tudo que Sirius fala?

- Bem... Não. Mas não sou cego James, eu e sua mãe vimos como estava ontem a noite.

- Pai... Eu a conheci ontem, como...

- Reencontrou, quis dizer.

- É, tanto faz. Como posso estar gostando dela se a reencontrei apenas ontem?

- Você a afogava na lama James. Garotos de dez anos que fazem isso gostam da garota com o qual o fazem.

- Você mesmo disse que ela cresceu. E se ela se tornou uma garota mesquinha e mimada?

- Bem, se ela tivesse se tornado isso você não estaria com tanta pressa em vê-la novamente, estaria?

James odiava a maneira que seu pai interpretava suas ações ou suas frases, ou dos destaques invisíveis que dava a palavras.

- Ora James, não deixe a moça esperando! – Advertiu o pai e James o olhou incrédulo. Se levantou e deu as costas a ele, mas no meio do caminho se virou e perguntou:

- O Japão está mesmo nos mandando mensagens de paz?

- É o que dizem os generais. – James percebeu como ele deixava claro que não era a sua opinião, e o filho concordava.

- O senhor não confia nisso. – Disse.

- Nem um pouco. – James sorriu.

- Até logo pai. Deixe um beijo a mamãe.

- Até James.

5 de Julho de 1941.

Ainda não sei o que procuro. Parece que os meus sentimentos são furacões furiosos e sedentos por destruição. É como se minhas emoções passassem diante de meus olhos, mas eu não consigo vê-las de tão rápido que pssam, e logo vêem outra, e mais outra, e assim adiante. Acabei de me despedir de Marlene, ela teve que ir embora cedo, seu pai pediu, sua irmã está muito doente, e estou muito preocupada. No momento em que Marlene pisou fora de casa tive de ouvir minha mãe reclamando de tudo na festa ontem, e brigando comigo por causa de Rosier, que havia dito que eu estava fazendo coisas impróprias com James Potter e que ele tentou me ajudar, mas eu neguei.

Discordei, é claro, nada daquilo era verdade, só não comentei que ficaria feliz com a idéia de que James quisesse fazer coisas indevidas comigo. Isso é algo que só escrevo, e nem me atrevo a pensar. Mas afinal, se isso tivesse acontecido, qual seria o problema? Ele sim, é um perfeito cavalheiro, educado, bonito. Talvez minha mãe não aprove porque a fortuna dele não seja superior a dos outros que estão dispostos a sujar minha imagem. Também não comentei que não me importaria de James sujar minha imagem.

Ora mais que coisa, eu o conheci apenas ontem! Estou sendo boba, só porque ele é novidade aqui não significa absolutamente nada. Bom, tenho que ir, a campainha tocou e Molly, minha ajudante, acabou de falar meu nome, provavelmente é para mim. E não queremos que ninguém descubra a sua existência, não é? Nem mesmo James Potter.

- Srta. Evans? – Molly bateu na porta e adentrou. – Uma visita para a senhorita.

- Quem é? – Perguntou prendendo o cabelo com um laço no alto da cabeça.

- Sr. James Potter. – Lily engasgou. Com o que? Talvez o próprio ar. – James? Aqui? – Perguntou se virando para Molly.

- Sim, no saguão, a aguardando.

Olhou para si mesma no espelho, sem maquiagem e com um vestido simples que não revelava nada além de sua clavícula, pensou se ele se surpreenderia com a cena. Passou um leve batom e um perfume de lavanda e saiu do quarto, tentando caminhar calmamente. Graças à Deus ele não poderia ouvir seus batimentos cardíacos, que, naquele momento, pareciam ecoar pelo corredor.

Desceu as escadas com a cabeça baixa, esforçando-se para não corar. Quando pisou no assoalho ergueu a cabeça e lá estava ele. Sorrindo. Ela sorriu, era inevitável não sorrir.

- Boa tarde Lily. – Cumprimentou animado beijando-lhe a mão.

- Boa tarde James. O que faz aqui?

- Eu tinha que voltar, você está com minha blusa não é? – Perguntou encabulado.

- Oh sim... – A decepção veio ao rosto de Lily sem que pudesse conter.

- Mas, - Acrescentou rapidamente. – Infelizmente, não está frio, pelo contrário, está calor. O que acha de irmos tomar um sorvete? Só que, bem, você terá que me guiar, eu voltei a apenas dois dias e não me lembro muito bem, mas se não quiser ir a gente pode, não sei, a gente pode...

- Vou avisar meu pai. – Disse Lily, interrompendo James rapidamente, ele sorriu, de novo.

- Quer que eu te acompanhe? – Perguntou.

- Claro, eu te mostro a casa. – Concordou, e andando lado a lado, Lily guiou-o até o escritório do pai. Bateu duas vezes na porta e chamou-o.

- Pode entrar querida. – Disse a voz grave. – Quer alguma... Ora, Olá James! Bem vindo a minha casa. – Se levantou da poltrona cor de terra e apertou a mão do rapaz.

- Eu estava pensando em levar a Srta. Evans até a sorveteria. – Disse James, com certo que de permissão.

- Ora mas que ótima idéia. O dia está quente mesmo, eu aviso sua mãe. – Com uma piscadela para os dois eles se retiraram.

- Seu pai é ótimo. – Disse James abrindo a porta da casa de Lily e segurando-a.

- O oposto de minha mãe. Não sei como ele consegue suportar as idéias loucas e de suas amigas fofoqueiras.

- Vai ver há mais do que podemos ver. – Opinou James. E Lily o olhou. – Se uma coisa que aprendi até aqui é que as coisas nunca são o que parecem, e nem as pessoas.

- Acho que tem razão, do contrário me julgaria pelos meus trajes ontem a noite.

- Dificilmente. – Admitiu atravessando o jardim com ela. – Não julgo as pessoas Lily. Outra coisa que aprendi.

- Parece que aprendeu muita coisa. – Observou ela. – Me pergunto se tem alguma coisa mais a aprender.

- Muita coisa. Inumeráveis. E muitas delas são... Sobre você.

- Sobre mim? – Lily riu. – Minha vida não é nem um pouco interessante, acredite.

- Discordo.

- Claro que discorda. – Disse Lily. – Bom, um cara comum acharia minha vida menos entediante que você, isso é certeza.

- Um cara comum? Eu não sou um cara comum? – Perguntou ele sorrindo.

- Bem... Diferente talvez, dos outros daqui. Incomum eu só poderei dizer com o tempo.

- O qual temos bastante. – Afirmou. – Mas então: Por que sou diferente?

Ela parou por alguns segundos, e um carro passou pela avenida principal. Continuaram a caminhar por uma das ruas que cruzava até que ela respondeu, tímida.

- Bem, você esteve na guerra. Suas... Aventuras, se é que podemos chamar batalhas de aventuras, foram grandes, sejam elas no céu, no chão. Acho que algumas escapulidas para festas e umas respostas atravessadas para mães neuróticas não seja um tema muito empolgante. – Entraram na sorveteria Dedos de Mel e se dirigiram a uma das mesas de frente a vitrine com as janelas tocando ponta a ponta.

- Ora Lily, pelo contrário. Você...

- Posso anotar o pedido? – Perguntou uma mulher baixinha e atarracada de cabelos loiros encaracolados espichados para todos os lados.

- Eu vou querer uma bola de creme com cobertura de chocolate. – Ela rabiscou o papelzinho e se virou para James.

- Uma bola? – James perguntou arqueando as sobrancelhas e se esticando por cima da mesa. – Qual é Lily, não me decepciona. Eu não sou pobre, eu posso pagar por... Algo maior.

- Isso é um desafio? – Perguntou Lily se esticando também.

- Que tal um Berry-Top Sundae? – Perguntou. O queixo de Lily se abriu. A garçonete olhou descrente para Lily. Ao ver isso a garota sorriu maliciosamente.

- E o que eu ganho? – Perguntou.

- Depende, o que você quer?

- Ainda não sei. Mas posso pedir qualquer coisa? – James pensou analisando o rosto de Lily.

- Desde que eu tenha direito a três condições, dependendo do seu pedido.

- Três? Nunca! No máximo uma. Prometo não pegar pesado. – Disse ela.

- Por que não consigo acreditar nisso? – Disse sorrindo.

- Eu vou comer o sorvete James, isso já é injustiça suficiente. Uma condição apenas.

- Certo. Uma condição. E se você não conseguir? – Perguntou se apoiando novamente no acolchoado do banco, uma mão na parte de plástico do mesmo. Um ar displicentemente lindo, pensou Lily.

- Te dou dez dólares. – Ele riu.

- Acho que não. Veja Lily, essa é a parte que mais me interessa, fora ver você explodindo sorvete pelos ouvidos. Mereço ter minha fé recompensada.

- Fé em que, exatamente, você está tendo James?

- Em você. – Ele sorriu sincero, a malícia fora de seu olhar. Mas então estava de volta. – O que me diz? Mesma condição para os dois?

Lily pensou por alguns instantes e sorriu.

- Um Berry-Top Sundae, por favor. E duas cocas. – Disse James sem desviar o olhar dela. – Como eu dizia, sua vida é interessante para mim. Você me diverte Lily.

- Então sou apenas uma distração? – Perguntou erguendo a sobrancelha. – Sou apenas um brinquedinho.

- Você, pelo visto, não interpreta as coisas do modo correto. Pelo menos não as coisas que eu digo. – Disse James um pouco mais sério.

- E o que você quis dizer?

- Que eu me divirto com você Lily. E acredite, depois de passar minha vida inteira convivendo com Sirius, isso é um elogio. – Lily riu.

- Ele deve ser uma figura. – A garçonete deixou dois copos e duas cocas.

- Sim. Ele é. Meu melhor amigo. – James disse saudoso enquanto servia ambos.

- Ele foi para a guerra junto com você, não foi? – Perguntou ela cautelosa.

- Sim. – Respondeu. – Minha asa direita. Mas e quanto a você, Lily? Percebi sua relação... Estreita com Rosier.

- É, acho que se você se lembra bem eles nunca foram flores que se cheirassem, só pioraram. Tinham dez anos mas causavam um pandemônio.

- Hei! Eu também era assim.

- Graças a Deus você mudou. Estou brincando James. Mas... Você entende, não entende? O que digo em relação a eles.

- Eu entendo Lily. – Concordou James, e se surpreendeu ao ouvir o tom dela.

- Mesmo? Acredita? Acho que é a primeira pessoa que concorda comigo.

- Primeira? – Questionou. – Mas e Marlene? Seu pai?

- Marlene sempre vê o melhor nas pessoas, e meu pai não julga. Nem comento sobre a adoração de minha mãe por eles.

- Marlene sempre vê o melhor nas pessoas.... E você? O que vê, Lily? – Perguntou se inclinando novamente. Lily parou e pensou, girando o copo com o líquido gasoso dentro.

- Tento ver a verdade. – Disse encarando-o de volta.

- Tenta? Por quê? Não consegue?

- Já me enganei antes. – Admitiu. – Mas não quero falar sobre isso agora. Ta? – Perguntou suavemente.

- Claro. – Respondeu ele, ainda se perguntando o que a havia deixado perturbada. Mas antes de pensar em qualquer coisa a garçonete veio com o sorvete de Lily. As pessoas se viravam para olhar enquanto a mulher caminhava e ficaram a observar enquanto a garçonete esticava a colher para Lily. – Então...

James esfregou as mãos sorrindo.

- Que a carnificina comece... – Brincou a garçonete olhando ao redor, e James a imitou, e todas as pessoas da sorveteria ainda os olhavam.

No momento em que Lily colocou a primeira colherada na boca. Algumas pessoas soltaram um 'UH' de expectativa. O sorvete com gosto doce que lembrava à Lily sua infância. Não que tomasse aquele sorvete, mas a cor azul dos sorvete o qual chamavam de 'pedaçinho do céu' e seu sabor a lembravam chiclete. Era indefinível, afinal. O sorriso desafiador de James aumentava a cada colherada.A calda de caramelo se unia as partes derretidas da massa e os confeitos e guloseimas afundavam na grande poça melada e colorida. O pote era quase do tamanha de uma tigela, e o dono da sorveteria o havia anunciado com a propaganda de um casal dividindo o sorvete.

Mas a ruiva, corajosamente, engolia colherada após colherada. Depois de alguns instantes, seu ritmo diminuiu, e as pessoas cercavam a ela e a James, esperando, o murmurinho de apostas corria solto e Lily deitou a colher e James se esticou.

- Desistiu Lily? – Perguntou ele.

- Me de um segundo. – Pediu levantando o dedo e respirando algumas vezes. A tigela estava pela metade ainda. Mas não olhou piedosa para James, tomou outro fôlego e resistente, pegou a colher e foi indo, ignorando a sustância que sentia. Faltava pouco menos da metade.

- Lily... – Disse James preocupadamente, o semblante risonho ainda presente. Ela ergueu os olhos para ele, que abriu a boca e a fechou.

Ela encarou o pote, havia mais líquido do que massa, alguns ursinhos de goma estavam afundados na gororoba azul caramelada. Sentiu a garganta entalada e observou enquanto os ursinhos tentavam nadas para a pequena bola de sorvete que ainda estava na superfície. Os confeitos caíram no líquido e um ursinho amarelo gritou para os outros salvarem suas vidas. Chacoalhou a cabeça. Por Deus, estava alucinando.

James riu e tirou a colher da mãe de Lily, se servindo de uma boa parte do sorvete e de sua gororoba mista.

- Uau. Faz muito tempo que não como um sorvete bom desse jeito. – Apreciou após engolir. Se serviu de outro pedaço, enquanto Lily abria a boca para reclamar, ele engoliu rapidamente e fez uma careta. – Eu estava com vontade Lily, não fiz isso pra te ajudar. A propósito... – Disse dando outra grande colherada, e lentamente engolindo. Pegou outro pedaço banhado na cobertura e mais outro.

- A propósito...? – Perguntou Lily. Ele suspirou e lentamente terminou o sorvete.

- Parabéns por ganhar a aposta. – Sorriu. As pessoas em volta conversaram felizes. Cada uma passando dinheiro para outra. Lily abriu a boca para protestar quando

alguém bateu palmas e se aproximou da mesa.

- Ora, ora, ora. O que temos aqui? – Perguntou o moreno se aproximando. – Com licença, melhor amigo passando, com licença. – Disse arranjando espaço. – Vocês vieram tomar sorvete e nem ao menos me chamaram?

- Não seja inconveniente Sirius. – Reclamou Remus se aproximando com um sorriso culpado – Olá.

Lily e James sorriram e logo Pedro se aproximou. Eles se sentaram a mesa e começaram a conversar distraidamente, a multidão já dissolvida e a calma conversa voltava ao normal. Lily riu de histórias, contou experiências e James parecia bem interessado na quantidade de vezes que Lily dera fora nos garotos, especialmente em Rosier.

Caminharam para fora da sorveteria e andaram até a praça, onde Sirius, Remus e Pedro seguiram para o tribunal da cidade a pedidos humilhantes do último, que teimava em conhecer a corte.

James e Lily seguiram em direção ao lago da represa. Na verdade, onde se encontravam era exatamente do outro lado, onde um pequeno cais de madeira se alongava alguns metros pela superfície cristalina e limpa do lago que refletia a luz do sol. Sentaram-se lado a lado, os pés de Lily raspavam pela água gelada, dando um toque refrescante.

- Tem certeza que não vai passar mal? – Perguntou James, apoiando as costas num tronco em que estava amarrado um pequeno barco. Lily tinha o olhar carregado de sarcasmo quando se virou para ele. Ele ergueu as mãos. – Desculpe, mas na minha opinião você é muito orgulhosa. Quando ia parar e pedir ajuda?

- Eu não ia pedir ajuda. – Disse dura.

- Exatamente. Daí teria passado mal. Deveria me agradecer por salvar você de uma tarde de vômitos.

- Eca, James! – Exclamou Lily tentando tirar as imagens de sua cabeça. – E se eu fosse vomitar seria em cima de você! – Ameaçou tirando o sorriso da cara dele.

- Bom... – Pensou rapidamente. – Eu pelo menos poderia cuidar de você. Ou você me chutaria para fora?

- Te chutaria, com certeza. – Confirmou sorrindo. Passaram alguns minutos em silêncio contemplando o céu limpo, azul e resplandecente. – Como é? – James a encarou, mas o rosto dela ainda estava voltado para o sol.

Admirou como a pele dela irradiava a claridade alaranjada do sol - seu cabelo estava da mesma cor - como seus olhos verdes brilhavam mais do que nunca, levemente estreitos por causa da luminosidade. Ela parecia mais macia do que qualquer coisa, mais suave do que qualquer pluma. James teve vontade de toca-la. Não, não toca-la, mas abraçá-la. Ter uma proximidade como quando estavam dançando na noite anterior. Queria sentir o perfume dela mais profundamente. Ele a queria.

- Como é o que? – Perguntou finalmente, com a garganta seca.

- Ver isso tudo, o mundo, o sol, as nuvens... De lá de cima. Dever ser tão...

- Mágico. – Disseram juntos num suspiro, e Lily se virou para ele sorrindo. Ele não evitou e sorriu também. Ela parecia emanar um calor e uma aura mais forte do que qualquer coisa. Por Deus! O que estava acontecendo com ele?

- É... – Continuou ele, a garganta ainda seca, virou o olhar para o Sol. – É como se você pudesse fazer qualquer coisa, mas ao mesmo tempo, não quisesse. Você poderia simplesmente parar de viver, se apenas continuasse a olhar o horizonte. Manter seus olhos lá. Nunca me cansaria. – James percebeu o quanto isso se assimilava a Lily. E ele nunca sentira isso antes.

- Uau. Deve ser incrível. – Disse sonhadora. Voltaram seus olhares para o sol que começava a se esconder nas copas das árvores.

Assistiram lentamente, enquanto o sol era totalmente encoberto, e conforme as pequenas sombras, que envolviam a floresta ao redor do lago, se alargando até que uma brisa gélida despertou-os e Lily removeu os pés da água e passou as mãos pelos braços nus. James a olhou.

- Não seria melhor irmos? – Perguntou preocupado. – Está ficando frio. – Se ergueu e esticou as mãos para Lily, ajudando-a a se levantar. – Desculpe, hoje não tenho nenhuma jaqueta para te emprestar. – Disse ele.

- Relaxe James. – Lily disse despreocupada. – Mas...

- Mas? – Encorajou ele quando ela não continuou.

- Eu não quero ir para casa ainda, será que é muito feio da minha parte falar isso, porque, sinceramente...

- Lily. – Chamou ele, fazendo-a se interromper. – Eu não pretendo te levar para casa ainda, se não se incomoda. – Um sorriso gentil apareceu no final da frase. Ela retribuiu e continuaram andando até a esquina, onde a placa indicava a vila de Hogsmead. – Já foi ao Três Vassouras? – Perguntou ele.

- Não, na verdade, nunca entrei em Hogsmead, não desde os 15 anos.

- Ora, e por que não? – Perguntou surpreso.

- Bem... É só que ao lado fica a Travessa do Tranco e... Bem, eu não gosto de lá. – Disse firme, encerrando o assunto.

- Podemos ir então a outro lugar, que tal...

- Mas não me importo de ir com você! – Disse rapidamente. – É seguro. Ir... Com você.

- Mas é claro! – Comprovou sorrindo, mas por dentro se perguntava o que diabos estava acontecendo. Ela tinha medo da Travessa do Tranco? Lembrava-se muito bem de que seus pais e os pais de ninguém deixavam seus filhos irem lá, e eles próprios evitavam a travessa sombria e mal cheirosa que era o local. Mas Lily havia ido lá aos 15 anos. O que teria acontecido? – Vamos.

Ele pegou na mão de Lily e seguiram caminho. Parecia um local de Contos-de-Fada. A noite que havia acabado de chegar deixava o céu num azul que escurecia rapidamente, e as lâmpadas amareladas do lado de fora dos armazéns, lojas e casas se acendiam, alguns postes de luz também se acendiam, estendendo uma longa passarela onde pessoas simpáticas passavam e se cumprimentavam. O cheiro cítrico no ar, perfeito para uma noite tranqüila de verão ventoso como aquela. Alguns locais estavam amarrotados de gente, e James foi quem abriu passagem entre as pessoas, segurando firmemente a mão de Lily.

Ela tentava ignorar o que as duas mãos unidas causavam a ela, o toque firme dele, sua mão grande e áspera em contraste a sua macia, ou como ele virava e falava coisas rapidamente. Ou como ele ficava lindo ao sorrir e passar a mão livre no cabelo, e o jeito que seus olhos brilhavam quando fazia qualquer comentário com ela. A presença dele a deixava tonta. E ela quase bateu de cara nele quando pararam abruptamente. Olhou em volta ao perceber que haviam entrado num bar com muitas pessoas.

- Vem. – Disse puxando sua mão. Chegaram ao balcão onde James se virou para ela. – O que vai querer? – Perguntou alto por causa do volume das outras conversas e risos no bar.

- Não tenho idéia do que servem ai. – Respondeu no mesmo tom.

- Duas Cervejas Amanteigadas Rosmerta, por favor. – Pediu ele a atendente loira que Lily não teve tempo de analisar o quanto era bonita, já que James estava levando-a em direção a uma mesa que acabara de desocupar no canto do bar.

- Quanta gente! – Comentou ela.

- O que? – Perguntou.

- Eu disse: quanta gente! – Disse ela rindo.

- É assim por aqui, pelo que pude perceber. – Respondeu.

A mesa de canto em que se sentaram tinha banco almofadado e era o local mais aconchegante do bar. Sentaram-se lado a lado e logo Rosmerta apareceu com as duas canecas. Uma mulher loira e simpática com seus 27 anos que mais parecia ter 18. Sorrindo ela se retirou deixando os dois a sós.

- Como você a conhece? – Perguntou Lily. – Você esteve fora todo esse tempo.

- Eu voltei dois dias antes da festa. E o primeiro ligar que Sirius queria vir era aqui.

- Por que isso não me surpreende? – Questionou olhando ao redor, James riu e a encarou sério. Queria perguntar a ela sobre a Travessa do Tranco, sua garganta coçava de curiosidade.

- Não acredito que você nunca veio aqui antes. – Soltou num impulso. Percebeu que ela ficou rígida assim que terminou a frase.

- É, deve ser um bom lugar para se divertir. – Disse com um sorriso, mas o olhar sério. Ele se aproximou dela.

- O que houve Lily? – Encarou-a até que ela ergueu os olhos, olhando- intensamente.

- É... Nada, James. Nada.

- Você não me engana. Você sabe que pode me contar. – Disse sério. Ela bebericou sua cerveja, engolindo seco.

- Eu encontrei Rosier, só isso. – Ela falou rápido demais.

- E o que aconteceu? – Perguntou ele.

- Nada, James. Esqueça, está bem? Não importa. – Ele decidiu, resignado e petulantemente, seguir seu conselho.

E pela quarta vez naquele dia conversaram sobre suas vidas, suas experiências e seus pensamentos. O relógio batia dez para as nove quando se levantaram para ir embora. James havia deixado uma nota de dez debaixo do pires e saíram. Começavam a caminhar de volta quando ouviram alguém os chamando. Era Remus, que apoiava um Pedro cambaleante no muro. Começaram a se aproximar, lutando um pouco com a multidão quando Lily sentiu alguém envolver sua cintura e a puxar para o lado. A arrastou alguns segundos e a pressionou contra uma parede de tijolos. Uma mão tapou sua boca e ela podia ver a placa do outro lado do beco indicando que estava na Travessa.

- Nos encontramos de novo Lily. Parece que gosta de cometer os mesmos erros.

Era Rosier, que tinha seus lábios perto da garganta de Lily. Tentou erguer as mãos, mas ele as segurou soltando sua boca, aproximando seu rosto do dela.

- Grite o quanto quiser Lily. Ninguém vai te ouvir. Nem mesmo o Potter. Aposto que ainda nem notou a sua ausência. Isso é bom, teremos quanto tempo quisermos.

- Me solta, Rosier. – Disse ela, a voz embargada.

- Ora, não chore Lily, não há motivos. Qualquer garota dessa cidade daria tudo para estar em seu lugar.

- Por que não fica com uma delas então? E me deixa em paz? – Perguntou.

- Você é um grande desafio, Lily. Eu adoro desafios. Assim como o Potter. Já parou pra pensar que o que ele quer é apenas divertimento depois de tantos anos fora daqui?

- E você já pensou que ele poderia quebrar a sua cara feia se ele nos visse?

- Mas ele não vai ver, Lily. E eu sei que você não vai contar. Porque pra isso, você teria que contar tudo a ele. E você não faria isso. Porque você sabe que alguma hora do seu dia, você fica sozinha. Seja na cozinha, na sala, no banho... – A mão dele passou pela coxa da garota, que tentou se esquivar e acabou mais prensada na parede. – E quando essa hora do dia chegar, eu estarei lá.

Ele deu um leve beijo em seus lábios, rápido o suficiente para ela não ter reação, e depois se enfiou por entre os becos, rapidamente. Como um covarde, pensou Lily erguendo a alça do vestido que havia caído pelo ombro em algum momento.

Olhou seu reflexo num vidro sujo de uma loja e se arrumou rapidamente, limpando e controlando as lágrimas.

- Lily! – Ouviu assim que pisou de volta na parte de Hogsmead. Era James, ele estava ao seu lado. – Que susto que você me deu. Num segundo você estava lá e no outro você sumiu. – Seu olhar preocupado feriu Lily. Lembrava-a o motivo dele ter ficado assim. Sorriu corajosamente, e como Rosier bem sabia, mentiu.

- Eu achei que alguém tinha me chamado do outro lado, e quando virei tinha perdido você de vista.

Ele a encarou por alguns segundos, analisando-a.

- Você não está bem. – Constatou.

- Claro que estou. Eu... Só me sinto insegura perdida no meio de gente que não conheço. – Mentira numero dois, disse o cérebro dela. Ele sorriu culpado.

- Desculpe. Quer ir pra casa?

- Quero. – Disse quase não contendo as lágrimas. Começaram a caminhar lado a lado e ela perguntou o que havia de errado com Pedro. James disse que estava bêbado e que Sirius havia arranjado uma briga por causa do estrago que Pedro havia feito na camisa de um empresário de Detroit. Ele a fez rir.

E ela ficou maravilhada, mais tarde naquela noite, enquanto se arrumava pra dormir, como ele poderia fazer tudo parecer tão bem. Se lembrou do beijo delicado que ele havia depositado em sua bochecha e lhe desejado boa noite, a olhando intensamente. Prometendo que voltaria pela sua blusa. Sorriu, enquanto se cobria, ao sentir o cheiro de seu perfume, impregnado em sua pele. Pegou seu diário e abriu-o, lamentando não poder contar a ela o que estava prestes a escrever.

Querido diário.

Hoje foi um dia... Mágico. James é uma pessoa incrível, e me sinto ligada a ela a cada segundo. Eu nunca senti isso antes. Gostaria de saber o que é isso. Mas tenho medo. Medo de contar para alguém, e quando não der certo, essa pessoa ficará com pena de mim. Pensando na pobre coitada da Lily, que não tem uma relação amorosa de sucesso desde Amos Diggory.

Teria sido perfeito, se não tivesse o encontrado. Ele me da nojo, e eu me sinto uma idiota na mão dele. Odeio que ele possa me manipular tão fácil, como um patinho.

Não sei se quero escrever isso. Acho melhor só manter as lembranças boas do meu dia, que são muito mais do que as ruins.

James é especial. E espero que entenda o que estou sentindo. É angustiante não poder saber o que se passa comigo. Frustrante ser tão suscetível a ele. Ele poderia me manipular de um modo muito diferente. Se ele apenas pedisse, acho que faria.

Estou sendo uma boba, não estou? Só sei que estou cansada.

Talvez amanhã eu possa pensar melhor no que fazer. Será que vou ver ele amanha? Espero, com todo meu ser, que sim. É como se quando eu estivesse com ele, eu não precisasse de mais nada. Ai, quero parar de pensar nisso.

Boa noite monte de papel, bons sonhos.


It's little things that only I know
Those are the things that make you mine

'Cause you're my special thing
I'm flying without wings


N/A: Bom gente, é isso. Por favor, me digam o que acharam do cap 2 e do final. Ai Deus, não sei o que me deu. Espero, realmente que tenham gostado. To meio na dúvida em reescrever. Mas quero opiniões e críticas e xingos, MAS COMENTEM! Não custa nada, até emagrece, sabiam? Aqui a tradução das estrofes da música que eu usei, chama flying without wings, e é do westlife:

"Todo mundo está procurando por aquilo
Uma coisa que torna tudo completo
Você encontra nos lugares mais estranhos
Lugares que você nunca sabia que poderia estar

São pequenas coisas que apenas eu sei
Essas são as coisas que a fazem minha

Porque você é minha coisa especial
Estou voando sem asas."