Depois daquela madrugada, acordei com um cheiro de café fresco inundando a sala. Me levantei preguiçosamente e, fui seguindo cambaleando até a cozinha. Vi ainda com os olhos cerrados, Maki de camisola branca coando o café e cantarolando alguma coisa. Atrás de mim logo em seguida surgiu dona Riza, passando um dos braços sobre meu ombro e, me dando um beijo na testa.
- Bom dia dorminhoco. - Brincou dona Riza, se sentando em uma das cadeiras.
- Bom dia, bom dia Maki. O cheiro do café tá ótimo. - Disse, também me sentando à mesa.
- Bom dia. - Respondeu, passando o bule de café para cima da mesa cuidadosamente. Sentou-se em frente à mim, e começou a se servir.
Uma mesa muito bem feita. Pão fresco, margarina, café novinho, torradas, frutas. Tudo que havia ali, na minha casa somente tinha metade. Não comprava frutas e, não sabia fazer café. Vivia de macarrão instantâneo.
- E a dona Kiza? Volta que horas? - Perguntei colocando um pouco de café numa xícara, e esperando a resposta que veio rápido.
- Volta às quatro. Dia de Sábado, ela trabalha com a minha prima numa loja para músicos... Ou coisa do tipo. - Dona Riza estendeu a mão tentando pegar a forma onde havia os pães.
- Ela trabalha confeccionando numa loja de instrumentos, Milo. - Maki pegou a forma para a mãe e eu observei o ato delas. Como eram parecidas!
- Hum, me lembrei agora do baixo que tive que vender pra poder pagar a escola de inglês. - Comentei, desanimado.
- Sim. Ainda toca? - Maki falava de boca cheia, olhando para a torrada que havia em sua mão.
- Não, acho que desaprendi. - Fiquei calado depois. Gostava demais do baixo, ou melhor, do meu antigo baixo.
Depois do café, ajudei minha amiga com a louça, e arrumar a sala. Troquei de roupa e, peguei minha mochila, arrumei os livros dentro da mesma e coloquei-a nas costas. Iria acompanhar dona Riza até o mercado, já que o mesmo ficava perto do meu prédio, e era caminho pra lá. Voltaria para o café da tarde. Tinha coisas para fazer ainda em casa.
Vamos? - Disse ela pegando sua bolsa, dando um beijo em sua filha e seguindo caminho até porta.
Vamos. Maki, até às quatro. - Despedi-me dela com um abraço e um beijo na bochecha. Parti com dona Riza.
Pegamos o ônibus que, não demorou a chegar, subimos e nos sentamos.
Dia de Sábado de manhã era maravilhoso, não havia muita gente como as oito da noite em dia de sexta-feira.
Assim, passaram-se dez minutos até chegar no ponto de descida que, ficava defronte ao mercado. Nos despedimos rapidamente e comecei a andar.
Ouvi um grito ao longe...
- Se cuida e até mais tarde! - Disse dona Riza.
- Pode deixar! - Acenei de costas e segui uma grande rua reta, virando a direita no fim dela. Acenei para o porteiro quando cheguei, ele abriu o portão e sorriu para mim. Seu Gerard. Adentrei o prédio e fui andando até o segundo bloco.
Olhei para cima e vi as janelas de meu apartamento fechadas. Inspirei profundamente e empurrei a porta de alumínio, subi três lances de escadas, peguei a chave e, sem querer, tranquei a porta. Perdi um pouco de tempo até conseguir abri-la novamente.
Joguei minha mochila em cima da cama e fui me despindo conforme ia seguindo para o banheiro.
Liguei o chuveiro e deixei que a água morna caísse sobre meus ombros. Levei meia hora para tomar um banho. E arrumar aquele cabelo era muito chato, mas compensava. Gostava dele.
Pus uma calça jeans escura e uma camisa branca, um par de meias e prendi o cabelo.
Abri a mochila, peguei alguns livros e comecei a estudar. Ainda era onze e meia da manhã. Sentei-me na cama, joguei o celular de lado e enfiei a cara nos livros. Estava estudando demais nas férias, mas não tinha jeito, tinha que me garantir no último semestre.
Não conseguia prestar a atenção em absolutamente nada. Estava com a cabeça cheia de coisas. Dormir na casa de Maki me fez relembrar dos meus pais, haviam morrido quando havia completado quinze anos.
Meu pai tinha arranjado uma namorada nova, mas morreu dois anos depois de ter se casado com ela e a minha mãe.. Não lembro dela. As memórias do meu passado foram levemente apagadas depois de uma doença que tive com dezesseis anos.
Ano passado.
Tudo muito recente e estranho pra mim.
Duas horas se passaram e, eu ainda não havia lido nenhum paragrafo de nenhum livro. Jogado na cama acabei adormecendo. Acordei quinze minutos depois com alguém me chamando ao longe. Procurei em volta de mim mesmo pela cama, mas estava sonolento, quando percebi, era uma voz familiar me chamando lá embaixo.
- Hey Milo! - Um garoto acenou para mim, colocando um sorriso enorme no rosto.
- Você!? - Disse olhando para baixo e encarando o rosto de Aioros. - Sobe aqui!
- Calma aí! - Desapareceu de repente da minha vista. Corri até a porta esperando ele chegar, não demorou cinco segundos. Abri a porta para ele e nos abraçamos.
- Nossa, como você mudou! Deixou o cabelo crescer é? - Aioros me soltou e me encarou ainda sorrindo.
- Pra você ver. E você?! Pegou uma cor hã..
- Pra você ver, as minas gostam.. - Ele piscou pra mim.
Rimos por um tempo e nos sentamos conversamos e zombamos um do outro como sempre.
- E, como tá a Maki? Tá viva?
- Tá, ainda hoje passo lá de novo.
- De novo? - Ele me olhou com tom malicioso.
- Aioros, não começa, ela é minha amiga.
- Mas todo mundo sabe que ela tem um... tombo por você.
Ele gostava de tocar nesse assunto sempre, ele sabia que Maki gostava de mim, entretanto, eu não gostava dela. A não ser como amigo, é claro. Mas mesmo assim ele sempre fazia alguma pirraça para ambos ficarmos juntos. Não adiantava.
Aioros e seu irmão moravam no mesmo prédio que eu, Aioria que era bem mais velhos que nós. Morava no outro bloco mas no mesmo andar, e às vezes conversávamos pela janela, somente para atentar os vizinhos chatos que moravam abaixo de nós. Principalmente uma tal de Saori, que nunca havia visto pessoalmente, mas sempre ouvia os berros quando brigava com seu pai.
Passado um tempo, nos despedimos e mandei um abraço para o irmão de meu amigo. Já era três e meia da tarde, e eu tinha que ajeitar o apartamento, ainda. Arrumei pouca coisa, mas já parecia casa de gente decente. Peguei algumas camisas do trabalho e pus num cesto. Iria passá-las mais tarde.
Quatro horas desci para a casa de Maki. Dessa vez tranquei a porta e fui rodando a chave no dedo com a outra mão no bolso da calça.
Enquanto andava pela rua, chegando na escola, passei por duas meninas que me fitaram de um jeito estranho. Ouvi de longe uma falar para a outra, "chegar em mim", mas não tiveram coragem. Comecei a rir.
Virei a esquina da cada de dona Riza, dei de frente com um Corsa vinho estacionando. Era dona Kiza chegando junto comigo.
Ela buzinou e eu acenei.
Acabamos entrando juntos, logo depois de nos cumprimentarmos.
-Chegamos!
-Chegamos? -Maki olhou para nós, eu estava atrás de dona Kiza, mas a diferença de altura era relevante.
-Chegaram bem na hora! -A menina de traços japoneses levantou e seguiu até a mesa da cozinha.
Depois de um breve café da tarde, com direito a um bolo de chocolate, sucos, e frutas, paramos todos defronte a tv. Maki sentada ao meu lado agarrada no meu braço me fitando enquanto conversava com sua tia. Dona Riza assistia a sua novela sem se incomodar com nosso tom de voz.
-E esse emprego mocinho? Não pretende arrumar um mais perto não?
-Eu queria, mas não tem onde achar um emprego por aqui que paga o que eles pagam.
-Eu podia arranjar um emprego pra você na loja de música, o salário é minimo mas é bem mais perto. Se você estiver interessado.
-Tia.. -Disse Maki olhando para tia com cara nervosa. -Deixa ele.
-Vou pensar e fazer algumas contas. Quem sabe.
Maki me olhou indagada, parecia que não queria. O motivo? Não faço idéia, mas ela saiu de perto de mim e foi para o quarto, dona Riza seguiu a filha, fiquei olhando para a porta sem saber muito o que fazer. Decidi voltar para casa.
* * *
O resto do fim de semana foi como os outros que conseguia folga, arrumava a roupa do trabalho, passava, lavava, ajeitava, guardava. Mal saia de casa a não ser quando Aioros ou Maki me chamavam, mas dessa vez nem que se eu quisesse, fiquei preocupado com a minha amiga, não ligava, não dava noticias. Mesmo que, só tenha passado um dia sem ela. Aquilo era preocupante!
Quando bateu Sete horas no celular, decidi dar uma volta pelo prédio. Desci as escadas e sentei num banco que tinha por ali. Sentia o calor da noite junto com uma brisa abafada passar diante de meu corpo, assim passando o mesmo a se arrepiar levemente. Uma sensação boa e gostosa.
Ouvi passos rápidos vindo na direção da portaria do prédio. Uma garota de cabelos longos e roxos falsos, olhos verdes e pele pálida, gritava mais do que a garganta conseguia. Decidi então achar que aquela era a tal da Saori, com quem Aioros vivia reclamando. Comecei a rir da cena. Sua roupa era negra e justa, parecia uma gótica desajeitada.
-O que você tá olhando!? -Gritou ela de longe.
Meneei a cabeça e fiquei quieto. Era comprovado que essa daí, era louca. Vi as luzes apagadas na casa de meu amigo, devia ter ido na casa de Dohko, outro amigo nosso que estava na mesma sala que nós. O viciado em cigarro e bebidas.
Deu oito da noite e eu ainda estava ali parado olhando para o céu estrelado, precisava dormir, o outro dia seria longo, trabalho, estudos, Maki.. Não sabia se iria para a casa dela amanhã, mas arriscaria.
Levantei do banco e fui seguindo caminho até minha casa. Foi aí que lembrei daquela mulher, a tal de.. Clarye. Ela havia sumido também. Provavelmente teria ido com o marido naquela conferência com o marido. Meu chefe Shaka.
Quando cheguei em meu apartamento, tranquei a porta e me joguei na cama, arrumei o despertador. Só havia retirado a camisa, dormi de calça jeans e tênis, não tava com saco para nada naquele momento.
* * *
Acordei com o barulho irritante do relógio. Meti a mão em cima dele, parou apenas por alguns segundos e, voltou a tocar novamente. Puxei o fio para baixo e desliguei-o de vez. Havia acordado de mau-humor.
Não enrolei como das outras vezes, peguei uma toalha limpa e fui me banhar na água fria do chuveiro. Não demorei mais que dez minutos e já estava pronto. Peguei meu celular milagrosamente e parti como de costume, sem tomar café.
Estava esperando o metrô pacientemente, estava mais cedo do que de costume. Mas o problema era, mais lotado do que o costume. Fu espremido como sempre, tanto no metrô como no ônibus. Tinha que carregar o bilhete ou se não, não iria para o trabalho amanhã.
Cheguei oito horas no serviço. O carro de Clarye estava estacionado defronte ao prédio de administração onde trabalhava. Camus estava lá também. Apenas Shaka e Dinna não estavam lá. Esperei na calçada sentado em cima da minha mochila, abrindo e fechando o flip do meu celular.
Meu chefe havia chegado vinte minutos depois de mim, oito e vinte da manhã eles estavam abrindo os portões do prédio. Estacionando os carros na garagem e indo para seus escritórios. Puxei minha mochila e adentrei também. Oito e meia em ponto, já estava começando a digitar no noteboock e atender telefonemas. Dinna chegou logo em seguida, me trazendo o expresso de sempre e saindo sem demora. Aquela sina pelo Senhor Shaka estava ficando perigosa.
Como de costume, meu feche após alguns telefonemas, havia saído do escritório. A porta ficava entreaberta. Assim não passou muito tempo até que a mesma fosse aberta, e passos delicados e femininos foram soados do chão de madeira negra da sala.
-Com licença?
-Um momento por favor. -Desliguei o telefone e, olhei para cima vendo o rosto de Clarye.
-Hoje.. Você pode me acompanhar no almoço? -Disse ela sorrindo para mim.
Olhei para o relógio e em seguida para ela, assenti positivamente com a cabeça. Ela saiu do escritório de seu marido encostando a porta levemente. Chamei Dinna pelo telefone e disse o que havia acontecido minutos atrás, ela entendeu e não desanimou. Voltei a fazer minhas tarefas.
* * *
-Por que quis almoçar comigo hoje?
-Preciso te falar a verdade não é mesmo?
Estávamos numa praça de alimentação por ali perto. O sol estava forte, arregacei as mangas da camisa, ela fitou meus braços por um tempo, prendi meu cabelo deixando apenas umas mexas da franja soltas. Ela sorria enquanto mexia na salada de frutas.
-Sim. Precisa. -Disse eu por fim voltando a comer meu pedaço de sanduíche vegetariano.
-Ham.. Por onde começo.....
-Por onde você me conhece.. -Disse de boca cheia.
Ela começou a dizer algumas coisas sem sentindo no começo, apenas reparava no timbre de sua voz, era doce pausada e delicada. Tudo nela era assim. Rosto, corpo, jeito, tudo. Sempre fitando suas próprias mãos, quase nunca me olhando nos olhos.
-Você não se lembra de mim né? A Clarye..... -Lágrimas brotavam de seus olhos, mas eu apenas meneava a cabeça.
-Não lembra da esposa de seu pai? Nem de nada que aconteceu antes do incidente daquela doença?
Olhei firme para os olhos dela. Tentando lembrar de alguma coisa que havia acontecido anteriormente mas nada vinha a minha mente. Não estava passando nada bem. Estava zonzo e confuso, senti minhas pernas travarem e meu corpo adormecer. Não lembro de mais nada...
* * *
-Hey Milo.. Tá vendo aquela moça bonita ali?
-Onde? Que moça?
-Aquela, aquela ali.. Se chama Clarye, to pensando em chegar nela, o que você acha?
-Pai, não começa com gírias por favor...
-Desculpa. Mas que tal?
-E a mamãe? Como ela fica? Ela ainda gosta de você..
-Ela vai ter que suportar Milo. Não tem jeito...
* * *
Ouvia sussurros vindo de longe, algumas vozes conhecidas, sabia de quem era aquele perfume, aquele toque. Maki. Abri os olhos lentamente, com muita dor de cabeça. Mal conseguia ver o que tinha na minha frente, já me encheram de remédios e perguntas. Estava onde afinal?
-Milo, está tudo bem? Tá tudo bem com você?
-Maki, deixe o garoto respirar.. -Conheci aquela voz, era dona Kiza.
Então percebi que estava na casa de Maki junto com sua mãe, sua tia e Clarye, estavam todas me rodeando, estava deitado no sofá com alguma coisa molhada em minha testa. Ouvia outra voz, mais grossa e conhecidas. Shaka também estava lá.. Mas, porque todos estavam reunidos ali em volta de mim?
-Sim.. Acho.. Acho que sim... -Disse com dificuldades, tentando me levantar, fui negado pelas mãos de dona Riza que me empurraram delicadamente, deitando-me no sofá.
-Mas..
-Não fala nada, apenas fique quieto ai e descanse menino, vou fazer um chá para você.
…..
{{ Tá ai mais um capitulo da fic. Como eu disse, eu ia falar mais sobre a Clarye bom, eu disse.. Mass não esclareci tudo. Bom, nem precisa não é? Já sabem quem é ela né não? Mas, alguns nós ainda vão se fazer nos próximos caps. Então.. se tiverem sugestões, criticas, me manda ;D
A sim agradeço a Gabi por ter betado metade da fic e ter dado nome ao porteiro! Obrigada best.a!! Bjs até o cap. 4 ;D
