Guilhotina — Parte III
Por Dana Norram
O ar dentro da sala ficou repentinamente mais abafado, e Harry sentiu como se todo o sangue do seu corpo tivesse subido com uma força tão grande que sua cabeça começou a pesar de dor. Sentia que naquele instante era capaz de tudo e tudo que Harry Potter queria era se levantar daquela cadeira e matar Draco Malfoy com suas próprias mãos.
Nunca ouvira tanta asneira de uma só vez. Muito menos faladas daquela forma tão convencida. Dona de si. Harry provavelmente só não se levantou porque sabia que na verdade não teria coragem ou razão para matar Draco e sabia também que o barulho atrairia atenção, e ele não queria ser arrastado dali. Não mais. Não agora.
Agora que começara precisava ouvir até o fim.
"Durante sete anos eu pensei que você era o cara mais idiota do mundo todo, Malfoy." Draco piscou, sua expressão reagindo de maneira curiosa à menção de seu sobrenome. "E se por um único instante eu tive alguma dúvida com relação a isso, ela acaba de sumir. Como assim 'merecer'? Merecer? Você acha que merece a morte, é? Você ficou maluco, isso sim. Não sabe o que está dizendo. Você não merece morrer."
Draco encarou-o com irritação, quase raiva. Era óbvio que Harry acabara de ir longe demais.
"Eu não estou louco, Potter."
"Eu duvido disso", retorquiu Harry sem desviar o olhar. "Ninguém em seu juízo completo iria querer morrer. Eu sei que você tomou algumas decisões erradas, sim, mas isso..."
"Eu não estou louco e não admito que ninguém, muito menos você, questione as minhas decisões. Eu tenho orgulho delas, Potter. Até das quais eu me arrependo."
Harry apoiou as mãos na mesa e endireitou o corpo. Queria ir embora. Agora queria. Agora mais do que nunca. Queria ir embora porque de alguma forma sabia que Draco o chamara ali para se vingar. Se vingar dele. E havia razões, era claro. Por Harry tê-lo esnobado quando eram apenas crianças. Pelos anos de guerrinhas e intrigas idiotas. Por ele, Harry Potter, ser o representante de tudo que Draco fora ensinado a repudiar. Ele sabia que o loiro queria vingança por ter sido ele, Harry Potter, o herói, o Menino-Que-Sobreviveu, que lhe puxara para fora do buraco mais fundo do qual já caíra. Queria ir embora porque sabia que tudo, no fim, não passava de um ajuste de contas.
Draco Malfoy se sentia humilhado por Harry Potter ter sido o único que lhe estendera a mão.
"Eu não fiz nada de mais..." Harry balbuciou, sem coragem de encarar Draco agora que compreendera suas reais intenções. Sentia-se, de alguma forma, traído. Decepcionado em pensar que tudo o que eles tinham vivido fosse acabar assim, numa guerra de egos, uma guerra no qual ele não queria entrar. Harry Potter não queria continuar encarando aquele rosto pálido e duro, lavado de emoções. Não fora esse o Draco Malfoy que ele salvara. Esse era o Draco por quem ele não moveria um dedo.
Esse era o Draco que ele deixaria morrer.
"Você não precisava disso tudo..." Harry ergueu as mãos, aparvalhado, indicando Draco a sua frente. Preso, acorrentado. "Qualquer um... qualquer um teria feito o que eu fiz por você."
E Draco começou a rir. Repentina e totalmente despido de seu ar tranqüilo e sarcástico. Ele gargalhou com vontade. Alta e perturbadoramente. Era um ato tão inesperado que Harry se assustou. Certamente era sua primeira atitude espontânea naquela tarde. Talvez tivesse sido a primeira atitude espontânea de sua vida. De uma vida regrada e planejada desde a primeira tragada de ar. Ar que começava a lhe faltar de tanto que ele ria e ria e ria. Harry levantou-se, decidido a acabar com aquilo.
"Sobre a parte de ir para cama comigo, quem sabe…" Draco parara de rir tão repentinamente quanto começara, o rosto assumindo uma expressão mortalmente séria. Harry se deixou cair de volta na cadeira, os ouvidos latejando diante de suas palavras. "Talvez sim. Talvez sim. Alguns poderiam chegar nesta parte e depois darem as costas até que bem satisfeitos. Mas duvido muito que teriam voltado, Potter. Que pensariam em tirar o pobre Draco Malfoy daquela vida dura. Acho mais provável que eles chegassem numa rodinha de amigos e dissessem: 'Adivinhem só quem eu encontrei dando o rabo num bordel trouxa?'. E eu viraria motivo de piadas mas... talvez... talvez Norton acabasse conhecendo mais alguns dos meus velhos colegas dias depois."
Harry sentiu um arrepio involuntário à menção daquele nome e estendeu sua mão sobre a mesa, procurando pela do loiro instintivamente. Recolheu-a um segundo depois. Norton estava morto, e, Draco, longe de ser confortado.
"Admita, Potter. Ninguém teria feito o que você fez. Livrado a cara do sonserino metido. Jogado a sujeira debaixo do tapete. Ninguém teria me oferecido ajuda."
"Mas eu deveria ter esperado pelo o que você fez, não é?" Harry interrompeu a verborragia de Draco, se permitindo sorrir de verdade pela primeira vez desde que pusera os pés ali. Não precisava agüentar calado tudo que o outro dizia. "Eu deveria ter imaginado que você era idiota demais, orgulhoso demais. Que morderia a mão que tentava te ajudar, igual a uma cobra peçonhenta."
"Eu não aceitei a sua ajuda, confesso, Potter, mas também não tentei... como você ilustrou tão bem... ah, morder a sua mão? E isso teria sido tão simples, tão fácil. Me diga: você tem sempre aquele sono pesado ou foi só porque trepou comigo a noite toda?" Draco abriu um sorriso cheio de dentes diante da vermelhidão que se espalhou pelas bochechas de Harry. "Sim. Eu poderia tê-lo matado."
"Então estamos quites." Harry tentou afastar as imagens daquela noite de sua mente, sem sucesso. O rosto de Draco contorcido, os lábios entreabertos... "Eu não te devo nada. Você não me deve nada. Acabou, Draco."
O par de olhos cinzas fitou Harry com tanta intensidade que por um instante ele pensou que Draco estava tentando ler seus pensamentos.
"Não. Não acabou." Draco se remexeu na cadeira com impaciência e as correntes apertaram seus braços com força. Harry pensou ter visto a cor fugir do rosto já pálido e fez menção de se levantar para ajudá-lo, mas o olhar firme do outro o manteve quieto. "E só vai ter acabado, Potter, quando você puder pensar no nome Draco Malfoy e não sentir nada mais do que ódio."
Harry empertigou-se no lugar, as mãos descendo e se fixando aos braços da própria cadeira. Sentiu seu coração pulsar devagar. Mais fraco. Sabia que não iria gostar do que ia ouvir, mas também sabia que não tinha forças para impedir Draco de dizê-las...
"É por isso que eu pedi ao Ministério que o chamasse aqui hoje. Minha decisão. Minhas últimas palavras. E elas são suas."
O loiro soltou ar pelas narinas, jogando a cabeça para trás e, quando falou, sua voz era totalmente desprovida de calor.
"Quando eu matei Norton, você se culpou. Eu sempre soube que você queria ter feito aquilo no meu lugar, mas eu nunca entendi bem o porquê. E nós passamos aquela noite juntos e você foi tão..." Draco mordeu o lábio inferior por alguns instantes, talvez buscando por uma palavra ideal. "... tão correto. Não fez nada de errado. Me tratou tão bem. Como se trataria alguém de quem se gosta. Não como um inimigo. Mas no fundo você se culpava por ter me tirado da vida que eu mesmo escolhera e não saber o que fazer comigo. Se culpava por eu ter manchado as mãos por algo que você mesmo provocou. Se sentia culpado por estar gostando de me ter ali, bem debaixo de você. Isso ia contra tudo que você acreditava, não é mesmo? Contra os seus valiosos amigos, contra suas idéias de certo e errado. Até hoje você se culpa de ter sido eu a dar um fim naquilo, não você."
O moreno sentiu o silêncio pesar sobre seus ombros, a compreensão chegando aos seus sentidos tão dolorosa como agulhadas na planta dos pés.
"O que você quer de mim, Malfoy?" a face de Harry estava impassível, mas seu coração agora batia com uma força cruel e indesejada.
Draco balançou a cabeça, soprando os fios que lhe caíam sobre o rosto, podendo, assim, olhar diretamente nos olhos de Harry.
"Quero lhe dizer o quanto fiquei aliviado por você ainda estar dormindo quando acordei naquela manhã. Quero que saiba que eu teria ficado. Teria ficado caso você estivesse acordado para me dar outro sorriso igual àquele de quando disse 'boa noite' e puxou o lençol para me cobrir. Eu teria dito 'sim' naquela hora porque, do meu jeito, eu gostava de você e sabia que aquilo nunca daria certo. E eu senti alívio por você... por mim. Me senti feliz por poder virar de costas e simplesmente deixar aquele sentimento para trás."
Os olhos verdes brilharam por um único segundo, mas logo o brilho se foi, tão rápido quanto o sopro numa chama. Tão rápido que talvez não chegara a existir.
"E você conseguiu, Draco?" a voz de Harry soou levemente embargada. "Conseguiu deixá-lo para trás?"
"Sim." Respondeu Draco sem sorrir. "Eu o deixei com você."
Continua
Nda.: Err, sorry pela demora, pessoas. O capítulo já estava escrito há séculos, mas eu me envolvi em tanta coisa no final do ano que acabei postergando a postagem, mas aqui estamos! O próximo (que, aliás, é o último) deve ser postado na semana que vem, eu acho. Só depende de vocês. xD Reviews são muito bem-vindas!
Meus eternos agradecimentos a todos que estão acompanhando e, principalmente, comentado: Caliope Amphora, Lily Carroll, K-CHAN - Kaoru, Nicolle Snape, Gisele.M, Pan Grey, Watashinomori, GêBlack, Elizabeth Bathoury Black, Tabris, rafael9692, Re Tonks, Jhon, Condessa Oluha, Lady Yuuko e Ananda, MUITO OBRIGADA!
