PARTE 3 – O Grande Dia
O Leaky estava transformado num salão de festa. Havia uma espécie de altar, onde Amos Diggory esperava os nubentes. Os convidados estavam todos perfilados, uma profusão de Gryffindors e professores de Hogwarts, bem como alguns escolhidos de outras casas, a maioria do mesmo ano de Harry.
Uma música começou a tocar no ar, então eu fui para um dos corredores, Aberforth a meu lado. Então, do outro lado, num dos outros corredores, apareceu Harry. Meu coração quase parou.
Ele estava numa veste de gala bruxa, preta, mais lindo do que eu jamais vira. Se eu não estivesse tão bêbado, podia ter uma ereção ali mesmo. Arthur Weasley o levava ao altar, como um verdadeiro pai, e todos os demais Weasleys fazendo o papel de família orgulhosa.
Exceto, é claro, Ginny Weasley.
Ela irrompeu em direção ao altar, gritando:
– Não! Ele é meu! É meu! Esse lobisomem nojento já teve demais! Eu é que quero me casar com Harry! Era assim que deveria ser!
Houve um momento de saia justa, e eu já tinha dado um passo para agarrar a vadiazinha que tentava se atirar para cima do meu quase-marido. Aberforth me agarrou, mas então aconteceu algo que me deixou de olhos arregalados: Augusta Longbottom e Xenophilius Lovegood bloquearam o caminho de Ginny e usaram duras palavras para evitar que ela se agarrasse a Harry.
– Fica frio, Lupin – garantiu Aberforth. – Tudo está sob controle.
Olhando em volta, eu vi que estava mesmo. Muita gente estava desaprovando a atitude de Ginny, sem qualquer simpatia quando os dois convidados praticamente a arrastaram para fora. Aquilo me deixou um pouco mais tranqüilo. Aliás, tão tranqüilo que eu já estava até ficando mais sóbrio.
E foi bem a tempo, porque Aberforth me levou até o altar. Dizem que nessa hora, o casal casadoiro nada vê no ambiente, mas não é verdade. Apesar de passar o olhar pelo salão todos, como que cumprimentando e agradecendo a presença de todos, eu não pude deixar de notar uma mesa que se mexia de maneira característica, e parte de um vestido de festa aparecendo. Sorri, achando que os hormônios da gravidez atacaram mesmo Hermione.
Esticando o olhar, vi que Justin Finch-Fletchley estava sentado, de olho na mesa, a mão entre as pernas, tentando disfarçar não o que fazia, mas para onde estava olhando quando fazia. Esticando um pouco mais o olhar, vi que uma das gêmeas Patil também estava com o vestido levantado, engajada na mesma atividade.
Oh, bom, os convidados estavam se divertindo, pensei.
Harry me encarou, e eu tive que me apoiar em Aberforth para não dar vexame ali mesmo. Meu pau estava querendo se engraçar, mas graças ao álcool eu estava garantido de não embaraçar meu marido no dia do casamento.
Amos Diggory sorriu para nós ao iniciar sua preleção. Achei bem decente de Harry chamá-lo para oficiar o casamento. Agora que tenho Teddy, posso imaginar a dor de um pai que perde um filho. Amos ainda tem um ar triste, mas se emociona com Harry, lembrando que se não fosse por ele, o pobre Cedric não teria sido encontrado jamais.
A princípio, ali no altar, eu não consegui ouvir uma palavra do que Amos dizia. Eu só sorria para Harry, ainda sem acreditar direito que tudo aquilo estava acontecendo. Acho que o álcool estava realmente sendo absorvido rapidamente no meu corpo.
Ouvi um grande barulho que me fez virar discretamente. Hagrid estava assoando o nariz, chorando copiosamente. Aquilo me fez ficar ainda mais emocionado. Em compensação, outra pessoa chorava, uma que eu sabia que não era emoção, como Hagrid.
Draco Malfoy usava um refinado lenço com rendas para discretamente secar as lágrimas do canto do olho. Meu instinto de lobo se aguçou quando eu senti que ele estava lançando olhares para cima do meu marido. Meu. Meu.
Pela enésima vez, eu quis entender o que Harry pretendia quando convidou Draco Malfoy para o casamento. Ele falou em tentar fechar feridas na era pós-Voldemort. Mas eu me lembro dos Malfoy antes e durante a guerra. Por causa deles eu quase não tinha emprego, tendo que sobreviver praticamente na miséria e graças à bondade de outros devido às leis de restrições a criaturas mágicas.
E agora ele ficava chorando como se tivesse perdido o grande amor da vida dele? Prometi que mais tarde iria persuadir Harry a ensinar a esse pirralho como viver. E de novo não ouvira nada do que Amos estava dizendo. Algo sobre amor, harmonia, compartilhar magia.
Eu juro que tentava prestar atenção, mas o álcool se recusava a deixar meu corpo completamente, e eu tentava discretamente olhar os convidados. Molly também chorava, Arthur a seu lado, os olhos marejados. Os Weasleys estavam espalhados, mas os amigos de Harry (que tinham vindo em massa) estavam todos juntos.
Então eu vi Neville, perto da mesa das frutas, olhando para Hannah Abott e oferecendo uma... banana? A menina estava enrubescida. Ai Merlin. Será que todo mundo no casamento queria se dar bem?
E no fundo da minha consciência, eu consegui ficar alerta o suficiente para ouvir:
– E se alguém tiver alguma coisa contra esse casamento, que fale agora ou se cale para sempre.
Sempre achei o silêncio dessa hora uma coisa emocionante em todos os casamentos. Como alguém poderia ser dramático o suficiente para justamente entrar nessa hora? Quase me ri alto.
O sorriso quase caiu quando de repente a lareira criou vida. Imensas chamas verdes se acenderam, indicando que alguém estava para vir pelo Floo.
Aquilo atraiu a atenção de todos os convidados. Eles sabiam que o ambiente estva fechado para intrusos, então a surpresa foi geral.
– Mas a rede de Floo não estava fechada?
– Deveria estar.
– Será algum repórter?
O ministro Shacklebolt sinalizou para alguns Aurores, que se puseram discretamente em alerta. E o que quer que estivesse tentando entrar pela rede de Floo fez sua aparição nesse instante.
A figura saiu da lareira sob a luz verde inteiramente vestido de preto. A princípio, as pessoas não se deram conta do que estavam vendo – ou não conseguiam acreditar. Mas ficou difícil de negar a realidade dos fatos quando uma voz maviosa olhou a cena longamente antes de pronunciar:
– Ora, ora. Espero não ter chegado tarde. Afinal, não posso deixar que alguém tome o que é meu.
