Assim que coloco meus pés para fora do hospital uma chuva extremamente forte começa a cair, me fazendo ter certeza que aquele não era nem de perto meu dia de sorte

Assim que coloco meus pés para fora do hospital uma chuva extremamente forte começa a cair, me fazendo ter certeza que aquele não era nem de perto meu dia de sorte. Corro o mais rápido possível até chegar ao carro, mas mesmo assim, quando sento no banco do motorista e fecho a porta, percebo que estou encharcada.

Vou cautelosamente e com calma até chegar em casa, dirigir na chuva nunca tinha sido minha maior habilidade. Para descer do carro, uma nova maratona que me deixa ainda mais molhada. Abro a porta e a primeira coisa que faço é me livrar das minhas roupas e deixa-las na lavanderia.

Caminho rápido até o banheiro, querendo esquentar meu corpo o mais rápido possível. Entro embaixo do chuveiro, para logo sentir a água morna batendo contra meu peito trazendo uma sensação confortável. Eu podia ficar ali pela eternidade, a água sempre me trazia uma calmaria, mas infelizmente, eu ainda não tinha me tornando sócia da companhia de água.

Saio do banho enrolada num roupão felpudo e vou até o armário procurar algo quente e confortável, em meio às blusas empilhadas na prateleira encontro uma camiseta dele. É claro que mesmo depois de tanto tempo ainda haviam muitos objetos pessoais de Luka espalhados pela casa, mas alguns deles tinham um significado especial, assim como aquela camiseta.

Assim que Luka morreu, eu mal a tirava do corpo, era uma das poucas peças que ainda mantinham o cheiro dele. É claro que com o tempo, aquele aroma foi ficando cada vez mais vago até desaparecer, mas ainda assim eu nunca tinha tido a coragem de tirá-la dali, quando a vestia, tinha a sensação de que de alguma forma era Luka que estava ali, envolvendo meu peito em mais um de seus abraços.

Pensei em mais uma vestir a peça que me trazia tantas lembranças, mas eu não podia voltar a viver assim. Coloquei-a estendida sobre a cadeira da escrivaninha, sem parar de encará-la por um minuto no meu caminho até a cozinha. Eu nem tinha tanta fome, mas algo haveria de entrar no meu estômago.

Vendo a geladeira vazia, abro o armário a procura de algum macarrão instantâneo, que me poupasse tempo e trabalho. Olho pra cima, avistando o pacote amarelo na prateleira de cima, onde minhas mãos não podiam alcançar.

- Droga! - reclamo a mim mesma, enquanto pego uma cadeira para poder chegar até meu objeto de desejo. Quando estou a um centímetro de conseguir, o barulho lá fora me assusta, e a casa fica toda escura. A casa? Sim, a casa, assim como a dos vizinhos, da rua e, provavelmente no bairro.

Desço da cadeira com cuidado naquela escuridão. Meu dia não podia terminar pior! Nada estava ajudando. Vou tateando os móveis até chegar à sala. TV, móvel da TV, gaveta. Isso. Coloco minha mão dentro, procurando pela lanterna que deveria estar ali. Deveria. Sem sucesso, volto até a cozinha, topando com a perna da cadeira da sala de jantar.

- Merda! - Grito, ao sentir a dor no meu pé. Era incrível como nossos dedos tinham afinidade com esse material. Procuro pelas gavetas, atrás das velas, mas sabia que elas não habitavam minha casa há muito tempo. Ah, sim! Lembro, finalmente, que a lanterna maior deveria estar no armário da escada, junto com as ferramentas de Luka.

Posiciono meus braços em frente ao meu corpo com medo de topar em mais algum móvel e em passos curtos vou fazendo o caminho já gravado em minha mente até o armário. Um pouco mais perto, um pouco mais... Agora! Finalmente sinto minhas mãos tocando a porta e procuro o puxador pra abri-lo.

Mal eu sabia que chegar até ali tinha sido a parte mais fácil da minha aventura. Achar alguma coisa dentro daquele armário num breu total, não seria nada fácil, principalmente porque a única pessoa que o abria era Luka, e diríamos que ele não era lá dos mais organizados.

Vou tateando, sentindo todos os tipos de textura passarem pelas minhas mãos, a maioria delas, coberta de poeira... Eu realmente precisava fazer uma faxina ali. Quando já estou quase perdendo as esperanças consigo achar a lanterna e antes de pressionar o botão 'on', peço silenciosamente em meus pensamentos para que ela funcione.

Finalmente! Um pouco de luz. A primeira coisa que faço é iluminar o armário, curiosa de mais para saber o que tanto havia ali. Algumas peças de roupas velhas, objetos sem uso, e caixas e caixas devidamente etiquetadas... A não ser por uma, um pouco escondida na ultima prateleira que instiga ainda mais minha curiosidade.

Apoio à lanterna no chão, focando sua luz naquela caixa misteriosa... Com calma tiro tudo o que estava em cima dela, tentando manter aquela bagunça organizada, e puxo a caixa que por sinal, era bem mais pesada do que eu pensava.

Levantei do chão, peguei a lanterna e a caixa em minhas mãos e caminhei até o centro da sala, a posicionei em cima da mesinha de centro e me sentei de frente para ela no sofá. Antes de retirar a tampa, a sacudo um pouco para remover do pó, talvez uma idéia não muito sábia, já que começo espirrar logo em seguida.

Depois de conseguir acabar com a minha crise de espirros, retiro a tampa de papelão para matar minha curiosidade...

Nada de novo, nenhuma surpresa... Apenas o rádio transmissor do Luka, vulgo o aparelho eletrônico mais velho existente na face da terra.

Mexi em alguns botões que eu não tinha a mínima idéia para que serviam. Luka tinha essa geringonça há muito tempo, desde que eu o conheci. Ele me contou que foi usado na guerra da Croácia, que pertencia ao pai dele e, não sei por que motivo ficou para ele. No final era até divertido. Às vezes ele se comunicava com o pai e o irmão por lá e eu ficava ouvindo. Era um meio um tanto quanto obsoleto, mas não era de todo o mal.

Depois de mexer um pouco, acabei por constatar que aquilo já estava quebrado. Luka não usava aquilo desde a morte do seu pai, há muitos anos. E colocar isso ainda mais 10 anos... Deus, aquilo era muito velho. Deixei aquilo por lá mesmo... Nunca conseguiria colocar aquilo lugar naquela escuridão. Voltei à cozinha, voltando a preparar meu jantar... Se não ficava muito bom com luzes, câmera e ação, na escuridão então, ficava era péssimo.

Deixei a louça pela pia mesmo. Ainda não estava totalmente bem e aquela penumbra só me deixava ainda mais depressiva. Subi as escadas com a lanterna em punho, iluminando o caminho que eu fizesse. Eu não tinha sono algum e isso me deixava ainda mais desesperada... Eu só queria que aquele dia acabasse e minha vida voltasse a pacatice de sempre.

Deitei na cama e assim que a luz voltou liguei a TV do quarto, peguei minha agenda e, com a luz do abajur ligado, fui anotando algumas coisas, contas, cheques a serem descontados, contas a pagar, cartão de crédito, enfim, tudo o que não me sobrava tempo de organizar em outro horário. E o maldito sono que não vinha.

Eu já estava quase terminando quando ouvi um ruído estranho vir da sala. A principio, apenas ignorei pensando ser um delírio da minha mente, mas quando o barulho se repetiu alguns segundos depois, me sentei na cama atenta para ver se ele persistia, e assim foi novamente, e de novo e de novo, me deixando eu diria... Apavorada!

Aquele era um dos inúmeros malefícios de se morar sozinha, qualquer barulhinho, por menor que fosse, me deixava assustada da cabeça aos pés, dessa vez, não era nem um pouco diferente. Levantei da cama e caminhei até a escada, tentando ver alguma coisa antes de descer, mas a escuridão profunda era indecifrável.

Respirando fundo, e criando coragem desci o primeiro degrau, iluminando meu caminho com a lanterna até conseguir chegar no interruptor. Na metade da escada ouço novamente aquele barulho, que me faz pular e quase rolar escada abaixo. Enquanto recuperava o fôlego eu decifrava aquele barulho que agora sim fazia algum sentido... Uma voz masculina que vez meu medo duplicar.