Capítulo 3 - Things Have To Change
Sumário: A chegada de uma paciente e a volta de uma antiga médica podem mudar alguns pontos de vista de John e Abby. Mas uma notícia chocante e irreversível soa aos ouvidos de todos do County e pode mudar ainda mais o rumo do casal.
Obs: Quem não assistiu as temporadas anteriores, principalmente a 4ª, pode não reconhecer a 'nova médica', mas isso não altera o entendimento do capítuloAcho que já acabei denunciando quem é... Enjoy it! E comentem ;D
"By the dawn, I'll be gone...
Ao amanhecer, eu terei ido..."
Pacientes e estudantes chegando, falta de atendentes e a reforma no PS; típico dia no County. Abby e John atendiam uma mulher com dores abdominais.
- Ela está com 7 centímetros de dilatação! - Abby avisou e Carter apressou o passo até o Trauma 1 - Você está grávida, sra. Bourdon? - a mulher sentia dores muito fortes mas conseguiu concordar com o que Abby perguntava. Ela não podia controlar seu choro. Não parecia estar muito feliz com a chegada do bebê.
- Não empurre ainda, sra. Bourdon. Seu bebê está quase pronto para nascer. - Carter tentava acalmá-la enquanto a examinava, mas parecia em vão. Ela estava completamente desesperada. Abby e Carter trocaram olhares, tentando entender o porquê. - Chame a Obstetrícia, Haleh.
Abby aproximou-se e pegou em sua mão delicadamente.
- Está quase na hora! Você só precisa agüentar mais alguns minutos. Quer que eu ligue para sua família ou seu marido? - Abby estava relutante. Sentia-se mal por ver uma mãe triste com o nascimento de seu próprio filho. Algum motivo tinha que existir.
A mulher negava e arriscou sussurrar: - Eu não tenho ninguém.
Abby ficou em uma situação difícil. Só o que ela poderia fazer era ficar ao lado dela e continuar segurando sua mão, sem dizer mais nada.
- Então...é isso! Você está com 9 centímetros. Só o que tem de fazer é empurrar o mais forte que puder, certo? - John esperou seu consentimento e as enfermeiras a ajudaram a sentar-se melhor. Ela se contorceu de dor logo em seguida. - Contração. Vamos, Joanne, empurre. - ela segurava firmemente a mão de Abby, que a incentivava para continuar empurrando. Isso era tão difícil para Abby quanto para a paciente.
- Continue Joanne. Está quase saindo! - ela estava esgotando todas as suas forças quando um último empurrão fez com que todos vissem o rosto brilhando de felicidade de John ao retirar o bebê e, em seguida, o choro que fazia todos sorrirem por completo. Seus olhos brilhavam e seu sorriso apontava para Joanne, que desviou o olhar cheio de lágrimas. John não entendeu aquela reação. Que tipo de mãe rejeitaria o filho logo no nascimento? Mas ele não podia tirar conclusões precipitadas e nem julgar.
- É uma linda menininha! - ele a cobriu com o cobertor e chegou perto de Joanne, tentando fazer com que ela a visse. - Você gostaria de segurá-la? - ela continuava hesitando e John olhava Abby nos olhos, procurando descobrir o que fazer.
- Vamos, Joanne. É sua filha! Você precisa segurá-la. Veja como ela é linda! - Abby tentou, mas estava quase derrubando lágrimas na frente de todos. Ela sentia como se fosse seu próprio bebê sendo rejeitado. As palavras já não faziam mais sentido em sua mente.
- Eu não quero! Ela destruiu a minha vida. Meu marido foi embora por culpa dela! - Joanne estava quase gritando e se tivesse forças, o faria.
Todos permaneciam em silêncio, encarando uns aos outros. Era definitivamente melhor levar o bebê para longe.
O que era pra ser o momento mais lindo do dia de todos ali presentes acabou sendo um dos piores, especialmente para Abby, que desenvolvia um instinto maternal muito sensível e intolerante à essas coisas.
John a olhou nos olhos, como sempre fazia em momentos difíceis, depois de cuidar do bebê e colocá-lo na maca pediátrica ao lado, à espera da Obstetrícia. Ele podia jurar que a viu derrubar uma lágrima. Ela não estava nada bem. Sua cabeça começava a dar voltas e toda a sala girava ao seu redor. Ela tinha que sair dali e respirar um pouco de ar puro.
Segurando nas paredes disfarçadamente, Abby foi a primeira a sair da sala. John apenas a seguiu com o olhar, preocupado.
...
John procurou Abby depois de algum tempo, mas não conseguiu nem sinal dela. A preocupação dele aumentava até que viu um rosto muito conhecido na recepção, sorridente. Não podia ser verdade. Coincidências assim não aconteciam com frequência.
- Anna? - ele chamou entusiasmado. Pensou ser até outra pessoa, embora estivesse igualzinha há anos. Aqueles cabelos loiros e brilhantes, John não poderia esquecer. Ela correspondeu o chamado e seus olhos brilharam na hora quando encontraram os de John. Ele a abraçou e ela gargalhou com o gesto, o encarando.
- John, me coloca no chão que já é um começo, okay? - ele a levantou do chão no abraço, como costumava fazer quando reencontrava um amigo. Mas ele não podia esquecer que ela não era uma simples amiga. Ela era Anna.
- Por onde você andou todo esse tempo? Aposto que voltou pela saudade dos famosos ventos de Chicago, né? - John segurou delicadamente as mãos de Anna e imaginava o que a trouxe de volta depois de tantos anos. Abby saiu de seus pensamentos pela primeira vez em semanas.
- Na verdade, vim pelo mesmo motivo da outra vez. Emprego, você sabe...Ah não! Você não sabe porque não precisa de um! - ele envergonhou-se e ela sorriu, relembrando de sua situação aquisitiva e da sua última aparição na 'pequena' mansão de John.
- Todos precisam de emprego hoje em dia, Anna. - ele cortou o assunto. Não queria que as coisas viessem à tona agora. - Eu juro que estava falando de você há alguns dias atrás...É muita coincidência!
- Uau! Parece que sim. Mas estava falando mal ou bem? - ela indagava enquanto seu olhar dava voltas e voltas no pessoal, na recepção, nas salas, nos pacientes chegando, nos entulhos espalhados pelo chão...Tudo havia mudado. Será que John Carter também mudara?
- Juro que falava bem. - ele sorriu e encarou o chão ao lembrar daquela noite, com Abby. Ela o deixava nas nuvens com um sorriso bobo quando invadia suas melhores lembranças. John começou a caminhar pelo o hospital e Anna o seguiu. - Falava que nunca mais tive notícias suas pelas redondezas. Para minha... - futura esposa? Mulher? Noiva? Namorada? Ou apenas amiga? Não, Abby era muito mais que isso para ele. - ...namorada, Abby. Acho que você não a conheceu, ela entrou como estudante um ano depois que você saiu.
- Oh! John Carter está saindo com alguém do trabalho! E eu que achei que ainda tinha uma chance com você... - ela o olhou ironicamente e esperou que ele prosseguisse com a descrição de Abby.
- Acho que você chegou tarde demais, Dra. Del Amico! - ele sorriu de volta e finalmente avistou Abby saindo na porta do banheiro com Susan. Elas não pareciam estar tendo uma conversa muito amigável. Estavam sérias...
...
Abby parou na pia do banheiro e lavou bem o rosto. Queria esquecer. Queria voltar a respirar.
Olhou-se no grande espelho à sua frente e observou a si mesma. Imaginou a reação de John quando descobrisse sua gravidez. Como seria contar olhando em seus olhos? Quais palavras ela usaria? Quando seria? Era assustador demais
O medo das consequências que isso traria só não era maior do que o medo de perder John, assim como Joanne perdeu seu marido.
Abby nem sequer sabia quais eram exatamente os sentimentos dele para assumirem uma responsabilidade desse grau. Ele ainda estava arrasado com a morte de sua avó. Porém, sem ele, o que faria? Abby sentia-se muito fraca para conseguir qualquer resultado em sua vida. Também tinha tido um ano muito difícil.
Ele a abandonaria? Não. Acima de tudo, Abby sabia que John nunca a deixaria dessa forma.
Conseguiu finalmente tomar coragem para pegar o teste de gravidez que comprara mais cedo. Apenas encarou a caixa. O futuro de seus medos e inseguranças estava ali, numa simples caixinha. O medo fora mais forte e forçou suas mãos a guardar o teste de volta. Será que ela preferia nunca ter certeza? Algo dizia que ainda não era a hora.
Ela confortou-se e ajeitou seu estetoscópio no pescoço. Manteria as coisas como estavam, por enquanto.
Quando virou-se para a porta, Susan a encarava.
- Susan! - Abby, surpresa com a sua presença, não sabia o que realmente dizer. Só tentou esconder o teste o mais rápido possível.
- Abby, você está bem?
- Claro, está tudo bem sim. Foi só...um trauma difícil. Uma mulher grávida não aceitou seu filho que acabou de nascer. Isso não pega bem logo de manhã... - Abby não conseguia olhar fixo para Susan. Não sabia mentir e esconder as coisas daquela que a conhecia melhor do que ela mesma.
- Tem certeza? Você tem agido estranhamente nesses últimos dias...Estou começando a ficar preocupada! Está até pálida. - Susan olhava dos lados e tentava ver o que Abby escondia atrás de seu corpo.
- Eu juro que está tudo bem. Só preciso de um bom trauma para aquecer! - Abby fingiu um sorriso e tentou sair antes que Susan se aproximasse. Mas era tarde demais. Susan já tinha visto o suficiente para entender sua palidez e seu modo de agir.
- Oh Abby! Você está... - ela estava um tanto surpresa e só esperava uma resposta positiva para abrir o maior sorriso que podia e felicitá-la.
- Não...Quero dizer...Não sei... - Abby tentou pensar numa resposta coerente e rápida, tentou inventar, mas seus pensamentos estavam tão longe que não mostravam nenhuma idéia. - Na verdade, eu ainda não o fiz. É apenas uma dúvida boba! Provavelmente não vai dar em nada. - Susan guardou seu sorriso e o substituiu por uma feição sem jeito. Não tinha a mínima idéia de como terminar essa conversa que não deveria ter começado. "Susan, é sua melhor amiga! Faça alguma coisa, fale alguma coisa!"
- Bom, eu preciso verificar a mais nova mãe 'feliz' do dia. - sem graça, Abby guardou o teste na sacola sem esperar que Susan disesse algo mais a respeito.
- Café mais tarde? Ou sei lá, um chá? - Susan sorriu sinceramente para Abby pela primeira vez naquele dia.
- Claro! - Abby saiu e suspirou profundamente. Quando isso tudo terminaria? Quando ela poderia parar de esconder coisas de todos que se importavam com ela?
Logo John e Anna cruzaram o corredor e avistaram Abby e Susan ao lado de fora do banheiro. Tentavam esquecer a conversa anterior.
- Estava procurando você por toda parte, Abby! Abby e Susan, essa é Dra. Anna Del Amico, foi pediatra aqui no PS há uns tempos atrás, época de Doug Ross. - Abby forçou um sorriso e Susan estendeu sua mão à Anna, a cumprimentando.
- Essa é minha grande amiga, Dra. Susan Lewis e esta é Abby Lockhart.
- Então é ela! - Anna encarou e observava Abby enquanto ficava no meio da troca de olhares do casal. - Muito prazer, Anna.
- Yeah! E falamos de Anna aquele dia, não é Abby?
- Sim, sim. - Abby sentiu aquela pontada de ciúmes no coração. Uma mulher muito atraente e um lindo corpo, que chamaria atenção por onde passasse. Sim, essa era Anna. Completamente diferente da visão que Abby tinha dela mesma. - Então...eu preciso checar alguns pacientes. No almoço a gente se encontra! - John a olhou, estranhando seu comportamento. Ele já estava entendendo, apenas pelo olhar. Ela já se afastava quando terminou - Anna, venha conosco também!
...
Na frente do PS, estavam John e Anna esperando por Abby, para almoçarem enfim. Ele não parava de observar o relógio e seu olhar a procurava por todos os lados.
- Ela deve estar ocupada, John. Não precisa ficar tão apreensivo assim.
- Eu não estou apreensivo. Só acho que ela deveria estar aqui há 10 minutos atrás se tivesse um pouco de consideração comigo... - John queria um conselho de Anna. Estava mesmo desesperado para saber o que fazer. Mas por que logo Anna? Susan normalmente era dona desse papel. Susan era, porém, a conselheira de Abby ao mesmo tempo. E era quem contava tudo que John dizia à ela. Ou seja, é óbvio que ela não pode ter confidências com os dois ao mesmo tempo...
De qualquer forma, ele tinha uma grande confiança em Anna, mesmo depois de tantos anos.
- Hey, calminha aí, apressadinho! Eu sei, você é apressado por natureza desde que te conheci... - ela sorriu e prosseguiu - Vocês não estão nos melhores dias, não é? - John estranhou. "Como ela sabia?"
- Está tão óbvio assim? - ele pausou e chutou o ar. Estava convencido de que Anna poderia ajudá-lo. - Muitas coisas acontecendo, muitas reviravoltas. Parece que tudo conspira contra nós... - ele começava a se abrir, enquanto Anna, secretamente, já entendia qual era o propósito daquela conversa.
- John, eu vi o jeito com que você olha para ela. Eu conheço muito bem esse olhar.
- Você acha? - ele sorriu sem graça e a fitou profundamente. Aquele olhar, assim como denunciou seu amor por Abby, descobriu que em Anna podia confiar toda sua história. - Eu não sei mais o que fazer ou o que falar. Ela está distante. Não parece feliz comigo.
- Eu não a conheço muito bem para poder dizer que ela não está feliz. Mas, o que eu posso dizer, é que você precisa descobrir ou entender ou que a está deixando assim.
- Não consigo nada. Ela não conversa comigo. Nunca sei o que ela está sentindo ou passando...Talvez ela não sinta... - ele pausou. Ele queria ter certeza de que ela o amava. Ele queria ter certeza de que a amava também. - ...o mesmo que eu.
- Você...a ama?
Ele desviou o olhar que antes estava aprofundado nos pensamentos de Anna. Uma parte de John o mandava gritar aquelas 3 palavras com a mais verdadeira certeza. Mas a outra era o orgulho, que deixava a razão comandar e o fazia achar que aqueles arrepios que sentia quando a via não passavam de golpes que o coração proporcionava momentaneamente.
Ela o fazia confuso. Perdido. Era a primeira vez que experimentava tal sentimento e podia confundí-lo com amor.
- Quer saber a verdade? - ele a olhou profundamente - Eu não sei...
O silêncio soprou nas idéias, os fazendo procurar soluções. Tentaram fingir que ainda esperavam por Abby.
- Você já foi para as Bahamas? - Anna quebrou o silêncio. Queria ver John feliz como era antes. "O que o deixou frio desse jeito?"
- Uma vez. Mas faz muito tempo...Lá é muito bonito!
- Você devia levá-la lá. Aposto que as coisas melhorariam, e muito... - Anna pensou que isso soaria sarcástico, mas John não pareceu entender desse modo.
- Você acha?
- Pare de perguntar o que eu acho, Carter. Apenas faça, não pergunte! - Anna deu um tapinha no ombro de John e ambos sorriram. As conversas entre eles sempre acabariam em risadas, não importava o que aconteceria.
- Talvez no próximo verão... - as imagens se formavam em sua mente, mas ele as bloqueava, olhando ao relógio novamente.
- Se tem uma coisa que aprendi nessa vida, é que talvez não tenha um próximo verão. Conquiste-a agora. Faça-a feliz agora. Esteja com ela agora. O momento é agora! - John ficou encorajado com as palavras de Anna. Ela estava mais certa do que nunca.
- Onde você estava todos esses anos, Dra.? - ele abriu um sorriso charmoso, seu melhor jeito de agradecer. - Você precisa me colocar a par de sua vida!
Viu, logo em seguida, um movimento na recepção do PS. Um movimento diferente. Parecia um tumulto.
Eles entraram no hospital e todos começaram a encarar John. Chuny aproximou-se e falou com receio.
- É o Luka. - uma lágrima parecia escorrer dos seus olhos antes de prosseguir - Ele está... morto.
Abby olhara no relógio mais uma vez. Não podia controlar seus pensamentos que iam direto ao almoço que teriam. Por que ela não estava nada contente com isso? Aquele ciúmes continuava martelando seu coração. Olhou para a sala de trauma e viu Joanne arrumando suas coisas com muita pressa. Uma desculpa perfeita para fugir deles; um paciente.
- Joanne, você não pode ir! Você precisa ver sua filha.
- Eu preciso ir. Teria me livrado dela se eu soubesse antes da gravidez... - Abby se chocava com cada palavra que ouvia.
- Conte-me o que aconteceu. Talvez eu possa lhe ajudar. - ela teve de insistir um pouco para que Joanne desabafasse enfim.
- Eu tenho um distúrbio genético. Mas não o desenvolvi. E as chances de passar para o bebê são altíssimas. - ela começava a chorar, mas voltou a se deitar na maca - Meu marido não queria ter filhos comigo para não passar a doença. E...aconteceu. Ele saiu para trabalhar em um dia normal e...nunca mais voltou. - Abby não sabia o que dizer. Não podia se abrir para uma paciente, mesmo se fosse para servir de consolo. Ambas se encontravam em situações parecidas, mas Abby teria que passar por tudo isso para descobrir. Ou não.
- Mas não se pode ter certeza se o bebê adquiriu a doença. As chances são mínimas, acredite... - Abby tentava confortá-la e buscava conforto nas próprias palavras. - Vocês têm agora uma a outra. Nada separa uma mãe de um filho...É como se fosse uma conexão que nunca se rompe.
Joanne se calou. Não conseguia retrucar nenhuma resposta que a fizesse discordar do que a enfermeira havia dito. Abby estava mostrando seus sentimentos. Como se abrisse sua alma pela 1ª vez. Ela estava mudando. Finalmente, vivendo.
- Você promete que não vai sair daqui até ver sua filha? - Abby segurou seu olhar em Joanne, que continuava desviando. Estava confusa apenas. Precisava de um tempo para processar aquelas palavras com bom senso. - Logo que um quarto for liberado na obstetrícia, venho buscar-lhe, tudo bem?
Joanne permaneceu do jeito que estava. Abby tomou aquilo como um consentimento e saiu. Deu de cara com uma recepção tumultuada. Correu até onde seus olhos encontraram John e procurou se informar do que estava acontecendo.
- Mas...Como? - John estava inconformado com as palavras que acabaram de sair de Chuny. Luka tinha se tornado um de seus melhores amigos e agora, ele se foi assim como todos que apareciam em sua vida. Ele não suportaria mais essa perda sem fazer nada para evitar. Com o peso de que ele deveria estar lá, na África, com seu amigo, não demorou para começar a se culpar sobre o ocorrido. Seus olhos marejavam, mas escondeu o máximo que pôde cada lágrima que seria derrubada em segredo mais tarde.
Abby continuava sem entender o motivo de tanto suspense. Esperava tudo, menos aquela notícia.
- Luka...
- ...faleceu na África. - Susan completou, enquanto aproximava-se dos dois. Ela percebeu que John não podia terminar aquela frase sem desabar.
Abby sentiu aquela pontada no coração, como se lhe fosse arrancado uma parte dele. A tristeza a invadia novamente, mais forte agora. Aquela que a tinha abandonado quando John estava sempre presente para cobrir o vazio.
Um amigo que podia confiar fora perdido da forma mais cruel e isso a incendiava por dentro. Um impulso a jogou nos braços de John, como se suas pernas não a suportassem. Esperando que talvez ele pudesse substituir a sua dor, ela o abraçou fortemente. A dor deles juntou-se e nada que alguém dissesse aliviaria. Apenas aquele abraço...
O mundo deixou de existir, apesar de estarem observando os dois envolvidos um ao outro o tempo todo. Continuaram unidos enquanto todos voltavam ao trabalho.
...
- Kovac! - ele já estava perdendo a paciência com o homem ao outro lado da linha - K-O-V-A-C! - ele verificou seu relógio pela décima vez naquela mesma hora - Como não? Era para eu estar junto com Luka na...Alô? Alô? - despencou o telefone no gancho e entrou na SDM furioso. Todos na recepção se encaravam e Abby guardou suas lágrimas e saiu logo atrás dele. "O que diabos ele está pensando em fazer afinal?"
Abby o assistiu voar de canto a canto na SDM, procurando algo que ainda estava subentendido.
- John, o que você está fazendo? O que pretende fazer? - ela começava a preocupar-se. Conhecia muito bem suas manias de ser o herói da situação.
- Eu preciso fazer algo. Vou tentar encontrar pelo menos...o corpo parece que ainda não foi encontrado. - ele parecia convencido de que estava fazendo o mínimo pelo seu falecido amigo. Toda a mágoa que ele guardou naqueles meses começavam a deixá-lo desolado e corroido por dentro. Por mais que não admitia, o vazio estava atrapalhando seus pensamentos até demais.
- Você não pode ir. Lá é perigoso e... - seu suspiro tremido não a deixou continuar. Por seu rosto, descia um rio de tristeza, onde as lágrimas não podiam ser mais controladas. Ela tinha que tentar com todas as suas forças fazê-lo permanecer ao seu lado. John não podia estar indo para a África. Não agora!
Ele começou a circular pelo PS e Abby continuava atrás, implorando cada vez mais alto com cada lágrima que caía, que agora já não eram mais evitadas.
- Por favor, John. Não faz isso. Eu preciso de você aqui. - ela prendeu seu olhar desesperado no de John, que continuava jogando todo tipo de remédios dentro da bolsa que havia pego. - Ainda mais agora que eu estou... - John a olhou espantado. A frase, mesmo sem terminação, tinha um sentido. Aliás, fazia todo o sentido.
Abby perdia seu olhar marejado em todos os cantos daquela minúscula sala, pensando no que dizer. Ela não podia usar a desculpa de estar grávida para segurar Carter.
Ele esperou algum tempo, tentando usar seu raciocínio para puxar a verdade de Abby, porém, logo voltou a pegar os remédios, indignado.
- Eu odeio quando você mente para mim. Você nem faz idéia do quanto... - Abby nunca o vira tão nervoso antes. Mas ele já havia deixado claro que não aceitava mentiras.
Não surgia palavras para Abby pronunciar. Ela só queria que ele não a deixasse sozinha.
- Eu não minto para você. - quase num sussurro, Abby tentou deixar claro a verdade. Mentir não era a questão e sim, esconder.
- Pare com isso! - ele gritou e socou uma das prateleiras sem usar de muita força mas que já deixava pior o desespero de Abby. Os olhares se encontraram pela primeira vez naquela briga. John finalmente enxergava tamanho medo em Abby. Ela permanecia estática, com apenas as mãos tremendo e as lágrimas partindo de seus olhos brilhantes. Ele piscou demoradamente e conseguiu se conter em vista do estado de Abby. - Céus, Abby, a última coisa que quero é brigar com você. Por favor, eu preciso saber antes de ir. Você está grávida? - ele tentava trazer conforto no tom de voz suave e tentava fazê-la soltar a verdade de uma vez por todas. Ela desviou o olhar e respondeu com descaso:
- Não. - talvez pelo medo, pela raiva de ele a estar deixando ou porque apenas não estava pronta, negou novamente.
- Olhe nos meus olhos e diga que você não está esperando nosso bebê. - ele aproximou seu polegar do queixo de Abby, fazendo seu rosto ficar diante do dele, sem escapatória. Pela primeira e última vez, ela mentiria olhando profundamente em seus olhos.
- Não, eu não estou grávida! - ele a trouxe logo em seguida para seus braços confortáveis e acalentosos que a tranqüilizou um pouco e que a fez quase esquecer de que aquele dia estava mesmo acontecendo. Porém, sua consciência estava insuportavelmente dolorosa.
- Eu voltarei o mais rápido possível, Abby. Por favor, me deixe pelo menos fazer isso pelo nosso amigo. - Abby tremia em seus braços e ele sentia seus soluços fazerem seu corpo pular. Ela nunca havia ficado dessa forma antes.
- Eu não quero te perder como o Luka... - Abby murmurou quase que para si mesma sem medir as palavras e esquecendo seu orgulho por um tempo.
- Eu prometo que isso não vai acontecer. - ele sabia que não poderia prometer estar vivo. Da pequena noção teórica que ele estudara, conscientizou-se de que na África, a morte, o perigo e a mais pesada tristeza predominava. Ele se afastou do corpo tenso e assustado de Abby antes que não conseguisse mais prosseguir com sua jornada. Abby limpou suas lágrimas e se recostou na parede, tentando se recompor.
Quando finalmente terminou de encher sua mala com suprimentos, John fitou Abby, tentando lhe passar a tranqüilidade que também parecia não conseguir sentir. Chegara a hora da despedida.
- Avisa a Weaver que eu reembolso tudo que peguei depois...Eu preciso ir agora, Abby. - Carter não disse e não fez mais nada além de sair arrastando as pernas, desejando ficar ao lado dela mais do que nunca.
Não! As coisas não podiam ficar assim. Abby respirou fundo pela última vez e correu atrás de John novamente.
- Quer saber... - ambos andaram até o lado de fora da emergência, com todos assistindo Abby segurar o braço de John com força, fazendo-o parar bruscamente. - Eu não posso continuar fazendo isso! Vá para a África, mas não espere me encontrar de braços abertos quando voltar. - ela fez soar como um ultimato. Todas as esperanças de John em relação as suas mudanças foram por água abaixo com aquela frase. Ela continuava a mesma orgulhosa de sempre.
Abby cruzou os braços e esperou que ele tomasse a palavra.
A raiva o compenetrou com a frase e finalmente desabafou:
- Não há nada aqui, Abby. - ela arqueou as sombrancelhas mostrando indignação - Se você não me esperar, por mais que esteja desapontada, eu não voltarei para Chicago...
O silêncio após discussão só era encoberto pelo som dos raios que ameaçavam descarregar em todos que estivessem sem proteção no local. O dia parecia ser encoberto por uma sombra enorme, onde bastava apenas uma aproximação de duas nuvens para que tudo ficasse completamente escuro e sombrio, sem sinal algum daquele sol caloroso.
Sem saber que estava interrompendo, Chunny gritou na porta da Emergência:
- Abby, sua paciente do Trauma 1 sumiu! E parece que deixou seu bebê na OB... - Abby olhou para trás mas logo voltou a encarar John, esperando que ele tomasse uma decisão.
Eles fitavam-se, mas nada os fazia dizer o que realmente queriam. Abby pensou que ele mudaria de idéia, provocando-o. John pensou que ela mudaria seus atos, dizendo coisas que ele sabia que podiam machucá-la.
- Só prometa manter seu coração... - ele não sabia se aquilo era o certo a se dizer mas, simplesmente disse - ...partido. - "Porque eu vou voltar para consertá-lo, Abby!"
Ele não esperou suas lágrimas caírem novamente. Apenas partiu quando a chuva despencou de imediato não só do céu, mas também dos olhos castanho-escuros de Abby.
Esse capítulo me dá uma angústia...Só de pensar que ele foi e não conseguiu voltar por muito tempo já traz aquela saudade...
O jeito é viver no mundo das fics e se contentar!
Próximo capítulo vindo, porque as coisas sempre podem piorar...
-Lê
