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O Segundo Rato Cego
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Ninguém dormiu no barco naquela noite.
Misao revirou-se na cama a noite inteira, abraçada ao travesseiro como se ele pudesse protegê-la de alguma forma. Caiu no sono uma ou duas vezes, mas sempre acordou passados pouco mais de dez minutos.
Aoshi ficou sentado numa cadeira, aguçando todos os sentidos ao máximo. Por vezes levantava-se e conferia o quarto de sua protegida, ou abria ligeiramente a porta do corredor. Os dois lugares estavam calmos como a morte e o fizeram estremecer. De frio, ele convencia a si mesmo antes de fechar a porta, apenas de frio.
Yahiko forçou-se a ficar acordado a noite inteira, embora mal estivesse consciente quando o relógio bateu duas da manhã. Sanosuke estava montando guarda do lado de fora da porta, mas ele queria estar acordado caso alguma coisa acontecesse. Não queria ser tratado como criança.
Do lado de fora, Sanosuke estava sentando ao lado do sake que conseguira contrabandear da cozinha. Não era e primeira noite que varava acordado, e certamente não seria a última.
Megumi e Kaoru ficaram deitadas em suas camas, entreolhando-se às vezes, mas sem trocar nenhuma palavra. Megumi tentou ler o romance que trouxera, mas se pegou relendo a mesma frase várias vezes seguidas e acabou forçada a por o livro de lado. Kaoru trançou os cabelos e desfez as tranças várias vezes consecutivas.
Saitou cansou-se de ficar sentado em sua cama, acendendo um cigarro depois do outro e foi até a proa tomar controle do leme. Talvez um pouco de ar fresco lhe fizesse bem. O marinheiro que lá estava ficou surpreso, mas infinitamente feliz de poder se recolher para dormir. Pelo menos pensou Saitou um de nós vai poder dormir em paz esta noite.
Enishi, como instruído, abriu a porta que conectava sua cabine com a de Kenshin. Ele passou toda a madrugada encarando fixamente o interior da cabine de seu cunhado, que praticamente não moveu nenhum músculo durante todo o tempo. Kenshin Himura passou a noite sentado em sua cama, os pés puxados para junto de si e a franja cobrindo seus olhos, parecendo tão desamparado quanto jamais esteve.
Soujirou, entretanto, dividiu sua noite entre rápidos olhares dirigidos a Enishi e o origami em suas mãos. Ele fez um tsuru depois dos outro. Havia aquela lenda japonesa que dizia que, se você fizesse mil daqueles pássaros, eles lhe realizariam um desejo... Próximo de três da manhã, ele começou a cantar, baixinho:
"Três ratos cegos, três ratos cegos...
Veja como correm, veja como correm...
Fugindo do fazendeiro com seus rabinhos cortados, você já viu algo assim?
São três ratos cegos..."
"Cale-se." Ordenou Enishi, e o silêncio imperou pelo resto da noite.
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O suspiro geral de alívio foi quase audível quando, afinal, a manhã chegou.
Sanosuke levantou-se e, após bater a poeira imaginária das roupas, bateu na porta do quarto de Enishi. "Tudo bem? Ninguém morreu aí dentro?"
Ouviu-se o barulho de um tranca abrindo, e apareceu a sorridente cara de Soujirou detrás da porta escancarada. "Acho que estamos todos vivos. Quer dizer, Himura-san não se mexeu a noite inteira, mas está numa posição improvável para um morto, o que me leva a concluir que deve estar deprimido. Muito compreensível, se perguntar minha opinião."
"Acho que não é hora para humor negro," Sibilou Sanosuke. "você tem um revólver... sabe as posições improváveis para um morto... quem é você, moleque?"
Os olhos de Soujirou se tornaram afiados como uma faca, mas seu sorriso não fraquejou. "Isso me pareceu um tanto ofensivo, Sagara-san."
"Entenda como quiser. Ô do cabelinho branco, tá tudo bem aí dentro?"
Passaram-se alguns segundos de silêncio, depois a voz rascante e cansada de Enishi respondeu, maquinalmente: "Estamos todos bien. Battousai está vivo, embora eu ache que deseje ardentemente non estar."
"Tá. Ok. Agora, só pra conferir se você não são cúmplices nisso... Ruivinho, você ta vivo?" Ele chamou um pouco mais alto, insensível ao comentário de Enishi. A pause dessa vez foi ainda mais longe, antes de Kenshin respondeu, baixo.
"Sim."
"Confere." Concluiu Sanosuke, em uma desleixada posição de 'sentido'. "Nossa missão foi um sucesso, homens. Agora, eu estou indo para a cozinha. Estou morrendo de fome e acho que todos nós vamos querer acompanhar de perto as peripécias de nosso chef. Seria uma pena se, depois de matinarmos aqui, morrêssemos todos envenenados. Algum dos três quer me acompanhar?"
"Eu vou." Prontificou-se Soujirou. "Yukishiro-san, pode ficar de olho no—"
"Eu gostaria de ser deixado sozinho, por favor." Disse Kenshin, firme, surpreendendo todos no cômodo. Ela a primeira frase não-monossilábica dele em muitas horas. Mesmo o coração cheio de ódio de Enishi amoleceu-se diante do pedido.
"Está bien. Eu acompanho vocês até a cozinha. Também quelo ter certeza do que vou comer." Ele disse, pondo-se de pé. Sanosuke assentiu.
"Beleza. Tranque bem as duas portas, ok, Kenshin? Tanto a que liga os dois quartos quanto a que dá pro corredor. E mantenha-se distante da janela, pelo amor de Deus! Vamos trazer seu café mais tarde. Não abra a porta para ninguém a não ser nós três juntos. Já voltamos."
Kenshin murmurou um agradecimento qualquer antes de fechar a porta. Eles esperaram até ouvir o barulho de ambas as trancas sendo passadas antes de se moverem.
"Se importam se eu os acompanhar?" Falou, de repente, a voz grave de Aoshi. Misao estava ao lado dele. "Quero conferir pessoalmente esse café-da-manhã."
"Também vou com vocês," disse Megumi, aparecendo no fim do corredor. "A Kaoru finalmente conseguiu dormir. Eu trago uma bandeja para ela depois, mas... acho que seria mais seguro deixar alguém dentro do quarto." Sanosuke assentiu.
"Ei, moleque!—Qual era o nome dele mesmo... Yahiko!" Ele chamou. Um sonolento Yahiko apareceu prontamente na porta, com cara de quem acabou de acordar.
"O que foi? Aconteceu alguma coisa? O Kenshin está bem?" Ele disparou as perguntas, preocupado.
"Tá todo mundo bem. Agora, vai fazer companhia pra sua mãe? A gente tá indo pra cozinha. Alguém precisa ficar com ela."
"O quê? Eu vou com vocês!" Ele disse, muito ofendido por estar sendo tratado como criança.
"Você vai ser mais útil lá, com ela. Na nossa situação, ninguém pode ficar sozinho." Disse Megumi quase maternalmente, fazendo Yahiko corar. "A cópia da chave dela está em cima da mesa de cabeceira. Não a acorde, sim?"
Yahiko concordou a contragosto e todos observaram até que o barulho da cabine de Kaoru sendo trancada veio. Em seguida, atravessaram a sala de jantar em direção a cozinha. Hiko ficou muito contrariado com toda a baderna em sua preciosa cozinha, mas depois decidiu considera-los como uma platéia. Na frente de todos, abriu um novo pacote de farinha, sal, manteiga e uma nova garrafa de leite. Também foi na frente de todos que quebrou os ovos.
Hiko assou pãezinhos, fritou panquecas e, a pedido de Megumi, fritou dois ovos. "Para Yahiko," ela explicou. Acrescentou à bandeja uma garrafinha fechada de maple syrup, para as panquecas, e manteiga para o pão.
"Satisfeitos?" Ele desdenhou, cruzando os braços.
"Quase," Enishi disse, massageando as têmporas. "eu non dipensaria café, também."
"Bem, acho melhor levar a bandeja para a sala enquanto o Hiko-san faz o café," Sugeriu a voz alegre de Soujirou. "ou a cozinha vai ficar superlotada. Makimashi-san, Takani-san, querem me acompanhar?"
"Eu vou estar logo atrás de onde quer que Misao esteja." Aoshi lançou-se um olhar ameaçador que, se Soujirou percebeu, fez um belo trabalho em fingir que não.
"Nos acompanha, então, Shinomori-san." Ele pegou a bandeja sem esperar resposta. "Vamos?" E voltou-se rapidamente. Megumi e Misao o acompanharam, e Aoshi teria feito o mesmo se Sanosuke não o tivesse segurado pelo braço.
"O que você—"
"Fique de olho naquele moleque," Advertiu o clandestino em voz baixa. "eu não confio nele."
Sanosuke soltou o guarda costas, que lançou-lhe um rápido olhar antes de deixar a cozinha. Então, as intrigas entre nós já começaram, ele pensou enquanto entrava na sala de jantar. O ambiente lá estava quase tão descontraído quanto da manhã anterior.
"Tem um pãozinho para cada um de nós." Contou Misao, remexendo na cesta. "Mas que velhinho pão-duro!"
"Mas ainda temos as panquecas." Lembrou um otimista Soujirou. "Mais ou menos duas para cada um. Juntando tudo temos um belo café-da-manhã. Será que já podemos comer? Parece desleal sem eles, mas esses pães quentinhos são quase irresistíveis..."
"Acho melhor aguardarmos. De mais a mais, qual é a graça de tomar café-da-manhã sem café?" Palpitou Megumi. "Ah, talvez seja melhor trancar a cozinha até a hora do almoço, ou teremos que abrir pacotes novos de farinha até o fim a da viag—"
"O seu sotaque," Cortou, de repente, Aoshi, sobressaltando todos na sala. "você cresceu em Aizu, não é?"
Os olhos de Megumi desfocaram ligeiramente conforme ela expelia todo o ar de seus pulmões. Por um segundo, Aoshi achou que ela não responderia, mas a médica rapidamente recuperou seu auto-controle.
"Há quanto tempo não me lembrava de Aizu," Ela disse com um sorriso saudoso e triste. "O sotaque que se adquire na infância nunca se perde por completo, não é mesmo?"
"Aizu... Aizu..." Misao bateu a ponta do indicador no queixo, forçando a memória. "Onde eu ouvi esse nome? Ah. Não foi aquele lugar que foi destruído na guer—" Ela tapou a boca de repente, como que para barrar as palavras que dali sairiam. "Ah, sinto muito! Deve ter sido muito difícil para você!"
"Está tudo bem, Misao, eu acho que já superei qualquer trauma infantil." Megumi descartou a idéia com um aceno de mão. "Mas será que esse café não vai sair logo? Não comemos nada desde ontem de manhã! Daqui a pouco, vou—ah, ali estão eles!"
Como que convocados pelas palavras de Megumi, Sanosuke e Enishi apareceram carregando uma garrafa fumegante que cheirava muito bem. Talvez Hiko fosse o maior dos narcisistas, mas certamente tinha motivos para ser. Os recém-chegados sentaram-se à mesa, fazendo o possível para não avançar nos pães.
"Bem, separem comida para três pessoas e deixem longe daqui ou vamos comer tudo!" Soujirou, rindo das expressões esfaimadas, separou três pães, seis panquecas e os ovos de Yahiko, antes de anunciar. "Podem avançar!"
Repartiram a comida tão civilizadamente quanto possível. Aoshi, antes de começar a comer, pediu que Hiko trancasse a cozinha e voltou com as chaves, acompanhado por um cozinheiro muito exasperado. Misao aproveitou o meio tempo para roubar uma panqueca do prato dele, mas o guarda costas mal percebeu. Nunca gostara de panquecas.
"Volto num minuto." Anunciou, de repente, Megumi, levantando-se para sair.
"Opa, opa, peraí, Raposa." Sanosuke pôs-se de pé em seguida. "na situação em que estamos, ninguém sai desacompanhado."
Ela ergueu as sobrancelhas delicadamente. "Bem, senhor Sagara, sinto em dizer que o senhor não poderá acompanhar-me onde eu vou. São... os domínios em que nenhum homem jamais entrou, sabe?"
"Já sei, já sei." Ele balançou a mão, descartando a idéia, Puxa, por que ela não diz apenas que vai ao maldito banheiro? "Eu vou ficar te esperando do lado de fora, não se preocupe. Já é a segunda vez que me chama de tarado."
Soujirou e Misao riram conforme os dois deixaram o cômodo. Enishi revirou os olhos, entediado, e suspirou. Estava cercado por adolescentes com hormônios à flor da pele? Mas Aoshi decidiu aproveitar o clima descontraído e inclinou-se sobre a mesa, seus olhos incisivos sobre Soujirou.
"Ouça... Seta-san, certo? Por que você está sempre sorrindo?"
Soujirou parou de rir rapidamente. Ele sentia os olhos afiados daquele homem cravados sobre si. "Bem, Shinomori-san," Ele explicou lentamente. "durante a minha infância, descobri que conseguia suportar os problemas melhor se sorrisse, então comecei a sorrir. Acho que acabou se tornando um vício. É quase como um livro de auto-ajuda, tirando a parte do vício, claro." O rapaz riu, muito contente com sua própria piada.
"É estranho que alguém tão jovem quanto você tenha um revólver."
Os olhos dele brilharam. "Você é muito perspicaz, Shinomori-san." Mas, se a conversa iria se estender, foi impedida por um gritinho de Misao, anunciando a volta de Megumi e Sanosuke.
"Então?" Disse ela, rindo maliciosamente conforme o casal se sentava. "Como foi?"
"Digamos que os tais domínios continuam não sendo penetrados por nenhum homem." Disse Sanosuke, indiferente. "Mas, safada você, hein mocinha? Quase me enganou com a pose de boa-moça."
Misao jogou a cabeça para trás e gargalhou, fazendo Aoshi sorrir ligeiramente. Fazia tempo que ele não ouvia aquela gargalhada. Mas o sorriso desapareceu rapidamente.
"Bien, vamos voltar?" Sugeriu Enishi, após terminar seu café. "Tem tlês pessoa famitas esperando sua comida."
Separaram a comida em duas bandejas e voltaram juntos para o corredor. Após trocarem despedidas e algumas recomendações, Aoshi conduziu Misao até o penúltimo quarto do lado esquerdo—pois no último estava o corpo inerte de Tomoe Himura—e viu-a entrar. Ficou ainda observando os acontecimentos no canto diametralmente oposto do corredor para evitar qualquer imprevisto.
"Bem, Enishi, bata na porta," Pediu Sanosuke, com a bandeja na mão. "Onde está o Soujirou?"
Os dois olharam ao redor, mas o garoto sorridente não estava à vista. "Ora, onde foi que ele se enfiou?"
"Aqui!" Veio de repente o garoto, descendo o corredor. "Eu estava... nos domínios onde nenhuma mulher jamais entrou." Ele repetiu, rindo. Enishi bateu à porta.
"Battou—"
"Kenshin." Veio a voz firme de Sanosuke, que lançou a Enishi um olhar mortal. "Estamos aqui. Os três. E estamos com seu café da manhã, então abra a porta."
"Só pra confirmar, estou aqui também." Falou Soujirou, e eles ouviram o trinco da porta abrindo.
Megumi, atrasada pelo peso das bandejas, passou rapidamente pelo corredor deserto. Deu um rápido aceno a Aoshi e Misao, que estava logo no quarto em frente e destrancou a porta, entrando e trancando-a em seguida. Só então Aoshi fechou o próprio quarto, e o corredor ficou completamente vazio.
Ela sorriu ao ver Yahiko dormindo profundamente em sua cama. Com certeza, ele estava cansadíssimo da noite em claro. Apoiou precariamente a bandeja na mesa de cabeceira e sacudiu Kaoru de leve, chamando-a pelo nome. Como não houve reação, virou-a de barriga para cima. Havia alguma coisa escrita na camisola...
O segundo rato cego.
Um grito agudo ecoou pelo navio.
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Ao fim de quase meia hora, Saitou conseguiu reunir todos os seus tripulantes novamente na sala de jantar. Quatro deles estavam chorando, enquanto os outro cinco...
Quatro corrigiu-se Saitou, agora são quatro.
"Alguém pode me dizer o que aconteceu?" Ele disse em voz alta em processo de acender outro cigarro. Megumi limpou rapidamente as lágrimas e respondeu, trêmula:
"Kaoru está morta. Esfaqueada."
"Presumimos que tenha sido esfaqueada. A camisola estava manchada de sangue, mas Takani-san não nos permitiu despir o corpo." Explicou Aoshi, o mais friamente que conseguia, um dos braços protetoramente ao redor de uma inconsolável Misao.
"Ela foi ferida nos seios!" Gritou a médica, levantando-se à beira da histeria. "Ela era uma donzela! Não vão desrespeitar o corpo dela!"
"Controle-se." Kenshin forçou-a a sentar novamente. Sua voz era apaziguadora. "Nenhum de nós vai tocar em Kaoru-dono. Vamos esperar que você se recupere para fazer uma análise completa."
"Obrigada," Ela agradeceu fracamente, cobrindo os olhos com as mãos. Saitou soltou outra baforada de fumaça.
"Como isso aconteceu?"
"Nós viemos tomar café-da-manhã." Começou Aoshi. "Queríamos acompanhar enquanto ele era feito, se me entende. Viemos todos. Deixamos só Kenshin, trancado em seu quarto, e Kaoru, acompanhada de Yahiko. Também trancados. Mas quando Megumi voltou ao seu quarto..."
"A culpa foi minha!" Yahiko gritou de repente. "Eu—eu sabia que tinha que ficar alerta. Mas a vi dormindo e—eu estava tão cansado. Acabei dormindo enquanto... enquanto..."
Ele se calou, cerrando os punhos. Megumi levantou-se de repente, os olhos baixos. "Eu vou fazer uma análise do corpo. Quando mais cedo for feita, melhor." E retirou-se rapidamente. Ficaram em silêncio, ouvindo seus passos se tornarem mais distantes pelo corredor até que alcançaram a cabine. Uma porta se fechou.
Enishi levantou a cabeça pela primeira vez após vários minutos. Ninguém conseguiu precisar o porquê das lágrimas secas no rosto dele. "Tem alguma coisa errada aqui, niguém notou? A seguda morte—ela já tinya sido anunciada! E não era Kaoru Kamiya!"
"Eu pensei nisso," Ponderou Kenshin, calmamente. "são duas possibilidades: ou Kaoru era o terceiro rato cego e o assassino inverteu nossa ordem, ou," Ele baixou a voz. "O assassino incluiu Kaoru na lista de ratos cegos às pressas, porque ela descobriu alguma coisa que não devia ou por que o enervou."
"Senhor Shinomori," Saitou interviu altivamente. "se não me engano, o senhor tinha ficado muito irritado com a garota com cara de texugo, após ela nos revelar tudo sobre suas espadas, ou estou enganado?"
Todos os olhares se voltaram para Aoshi, que estreitou os olhos. "O que está insinuando?"
"Eu só fiz uma sugestão. Mas não se preocupe, você é só o terceiro colocado na lista de suspeito: em primeiro lugar, temos empatado o pirralho e a mulher-raposa. Depois, temos o senhor Himura, que ficou sozinho o tempo todo." Prosseguiu o capitão. "Eles tiveram oportunidade de sobra."
"Assim como o senhor." Disse, corajosamente, Aoshi. "Não me lembro de tê-lo visto durante o café da manhã em lugar nenhum."
Saitou estreitou os olhos. "Eu estava no leme, controlando esse maldito navio. Mas está bem, coloque-me na lista de suspeitos, se assim quiser."
"Bem, acho que tenho mais uma coisa a acrescentar." Alguns olhos voltaram-se para Sanosuke. Sua expressão era sombria. "Eu, Enishi e Soujirou instruímos Kenshin a não abrir a porta a menos que viéssemos os três juntos. Mas quando voltamos trazendo o café-da-manhã, por alguns segundos não conseguimos encontrar Soujirou..."
"... Que veio desendo o corredor!" Completou Enishi, arregalando os olhos.
"É. Na direção contrária a dessa sala aqui."
O dito rapaz lentamente recostou-se no espaldar de sua cadeira. "Eh? Desconfia de mim, é, Sagara-san?"
"Eu só estava dizendo que era uma possibilidade." Devolveu Sanosuke, entre dentes. Detestava a mania daquele garoto de sorrir o tempo todo.
"Então, permita-me iluminar a possibilidade de que o senhor, também, teve uma bela oportunidade!" Um silêncio chocado seguiu as palavras de Soujirou. Ele fez uma pausa antes de prosseguir. "Se me lembro corretamente, acompanhou Takani-san e ficou esperando do lado de fora enquanto ela ia ao banheiro, não foi mesmo?"
"Ora, seu—"
"Esperem um minuto," Falou Aoshi rapidamente, antes que o impulsivo Sanosuke fizesse alguma coisa muito drástica. "vocês estão esquecendo que todos nós ouvimos quando Yahiko trancou a porta da cabine! Além do que, recolhemos todas as armas à bordo ontem mesmo."
Houve um rápido silêncio, e Misao falou pela primeira vez.
"Aoshi-sama... Quanto à porta eu não sei, mas todos nós estivemos na cozinha. Seria muito fácil pegarmos uma das facas de Hiko, as únicas que não recolheram na ronda de ontem." Ela sugeriu timidamente. Houve um rápido silêncio, depois Megumi adentrou a sala, ainda tirando da cabeça um lenço tão branco quanto seu próprio rosto estava naquele momento.
"A Kaoru—!" Ela interrompeu-se abruptamente quando Kenshin tomou-lhe a mão.
"Acalme-se. E sente, por favor." A médica obedeceu, ainda ofegante. "E por favor comece com a causa da morte. Depois veremos o resto."
"Ela foi esfaqueada, como eu tinha pensado. No total foram três golpes. Uma, que eu presumo ter sido a primeira, foi direto no coração, o que explica porque ela não gritou. Pelo comprimento das feridas, pode ter sido uma faca de cozinha comum. Ou mesmo uma dessas que usamos para cortar carne." Ela disse tudo muito rapidamente, só então parando para respirar e dando uma brecha para Aoshi intervir.
"Uma facada capaz de furar a caixa torácica de uma pessoa tem que ser dada por alguém com alguma força."
"Exatamente," Prosseguiu Megumi, rápida. "Um homem com força razoável ou uma mulher forte. Podemos excluir Misao e Yahiko, creio eu."
"Não," Veio a voz incisiva de Sanosuke. Todos os olhares voltaram-se para ele, curiosos. "Yahiko treina kendo desde pequeno, não é? Se sua mãe-adotiva era a mestra-assistente de um dojo..."
O garoto cerrou os punhos. "É."
"É muito modesto de sua parte não excluir a si própria da lista de suspeitos." Falou Saitou de repente, com falsa doçura. "Mas sejamos realistas. A única mulher a bordo que seria forte o bastante para desferir uma facada dessas é a própria Kaoru Kamiya—o que parece improvável, dadas as circunstâncias."
Um pouco de cor voltou ás faces de Megumi, mas ela logo recomeçou a gritar. "Mas o mais importante! O nosso quarto... a porta que liga meu quarto com o de Soujirou e Enishi não estava trancada!"
Todos os olhos se arregalaram. Houve um longo silêncio, antes que a voz trêmula de Enishi ecoasse pela sala silenciosa.
"O nosso qualto—nós vimos Battousai trancar as duas portas do qualto dele. Mas do nosso—as duas portas do nosso qualto não foram trancadas."
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Silenciosamente, o corpo de Kaoru Kamiya foi transportado para o quarto conte Tomoe Himura jazia, inerte, e colocado na cama vazia.
"Não haverá uma cama para o terceiro corpo." Sussurou Misao tristemente.
"Não haverá um terceiro corpo." Respondeu Aoshi, passando um braço ao redor do corpo trêmulo da menina. Havia na sua voz uma confiança que ele não sentia de fato.
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AN: Eu disse a mim mesma que terminaria a fic inteira antes de começar a posta-la. No primeiro dia, tudo foi planejado num caderno e dividido em capítulos.
Pelos cinco dias seguintes (hoje incluído), eu fiquei quase ininterruptamente na frente de uma tela de computador. Escrevendo, conferindo, revisando, colocando mais pistas e tirando os detalhes que esclareciam demais o final. Registro de (confere no relógio) 15 de julho de 2007: Estou exausta, e jamais me senti tanto uma funcionária mal paga, como não paro de resmungar.
Mas na verdade, escrava descreveria melhor minha situação, já que eu não sou apenas mal paga: não sou paga de forma nenhuma! Às vezes eu me pergunto por que faço isso...
Assinado, o que sobrou de Hell's Angel & Heaven's Demon.
