"Mamãe!"
"Minha criança..."
Myako não conseguia se conter de felicidade. Seu filho de cinco anos, Herick, a abraçava. Nada nesse mundo poderia ser tão forte quanto aquilo. Tudo o que mais importava na sua vida era a sua família. Faria tudo por eles... Um desânimo tomou conta de Myako, após se dar conta desse fato: ela faria qualquer coisa. Decidiu não pensar muito, apenas abraçar seu pequenino. Ele deveria estar sozinho, coitado. Passou duas semanas com a tia, mas provavelmente sentia falta do pai. E logo após a morte dele, ela partiu para uma missão. De repente, percebeu que sua irmã, Ayako, falava com ela:
"Você não escutou uma palavra do que eu disse, não é?"
"Irmã, entenda... Estou atordoada com tudo o que aconteceu..."
"Você teve tempo suficiente para superar qualquer trauma. Deveria estar preparada para enfrentar conseqüências! Bom, o que você pretende fazer?"
"Eu... Eu... Pensei em tanta coisa... É que... Eu..."
"Você não sabe... Eu te entendo..."
"Eu entendo que não posso mais ficar aqui. Eu preciso sair. Eu preciso ir embora. Irmã, eu acho que nunca mais vou voltar para aqui."
"Irmã querida, entenda isso. Desde que você virou ninja, com onze anos, eu com quinze, eu sabia que você iria antes de mim. Eu sempre fiquei preparada, sabendo que você poderia ir embora, do nada. Eu não escolhi essa sua vida, mas, por nossa proximidade, e intimidade, presenciei diversos... Fatos! Não pensei em palavra melhor... Eu entendi como era a sua vida, as dificuldades que passou. Fui compreensiva. Irmã, você é a minha caçula. Eu vi nosso pai morrer quando eu tinha sete, e você três. Eu tinha seis quando nossa mãe morreu. Você não se lembra deles, óbvio, mas eu me lembro, eu sei o que é a perda. Você trilhou o mesmo caminho que eles... Eu te entendo. E, ironicamente, ao mesmo tempo não entendo", disse, com lágrimas saindo do seu rosto. "Irmã, por favor, eu..."
"Entenda isso, você: eu preciso sair urgente daqui. Eu te amo, eu sei que você me ama. Agora, preste atenção. Por favor, faça com que meu filho nunca siga o mesmo caminho que eu... Teria puro ódio se ele tivesse o mesmo destino do pai... O mesmo que eu vou ter... Abandonado, sozinho, sobrevivendo, longe daquilo que nos faz felizes..."
As duas se abraçaram. Myako acariciou Ayako, que chorava demais, diferente de Myako, que, após um curto aceno, não estava mais na casa. O menino chorava, pedindo para ir junto com sua mãe.
"Por favor, venha aqui, não chore... Pronto..."
Quando Ayako tinha acalmado seu sobrinho, dois ninjas entraram na sua casa.
"Essa é a irmã da Myako", disse um deles.
"Hisuki, o que você quer que eu faça? Eu não a vejo em canto algum!" respondeu o outro.
"Primeiro de tudo, não diga meu nome. Segundo, estamos aqui com uma missão especial, achar a minha companheira, Myako, aquela ninja linda. A irmã dela, também, não fica nem um pouco atrás..."
"Quer que eu procure a Myako?"
"Saia daqui! Eu vou ser obrigada a agir! Não me toque!" Ayako gritava, desesperada.
"Garoto", Hisuki falava para seu parceiro, "entenda algo bem simples. A gente tortura essa menina linda junto com esse garoto catarrento. Se a Myako estiver aqui, ela vai aparecer. Eu a seguro. Se ela não estiver aqui, a garota vai nos contar para onde ela foi. É o amor... O amor entre elas... Obedeça minhas ordens: amarre os dois, em cadeiras diferentes. Depois, deixe-os comigo."
Myako, após vários metros, estava no meio da floresta, tentando fugir, esquecer sua vida, quando uma shuriken a fez parar.
"Myako... Você teima em fugir..."
"Kage-sensei... Não... Hoturo-sensei... Desculpe-me, mas, agora, não irei chamar você de Kage..."
"Eu nem queria... E nem me chame de sensei. Nenhum aluno meu trai seu vilarejo, e continua traindo, sem parar... Você é um erro! Eu errei quando tentei fazer você se desculpar... Eu errei quando tentei criar uma chance para amenizar sua pena... Infelizmente, agora, a história evoluiu até esse ponto."
"Se é assim... Que assim seja!"
Myako atirou shurikens em seu sensei, que usou Fuuton: Daittopa, empurrando os projéteis, que caíram no chão.
"Myako, você é forte... Mas não o bastante!"
"Eu errei! Eu esqueci qual era o meu lugar! Eu sou uma ferramenta! Pelo menos eu era uma! Ele era um traidor! Eu deveria tê-lo matado, naquele dia! Nada disso teria acontecido! Eu esqueci das minhas promessas! Eu deixei de ser um ser humano, eu não tenho mais sentimentos... Eu deveria ter me lembrado disso... Eu sou uma falha... Deixei-me levar pelos sentimentos... Eu esqueci tudo..."
"E qual é a sua conclusão? Que você merece morrer?"
"Hoturo... Eu morri faz tempo. Faz muito tempo. Quando eu tinha 11 anos... Eu cometi suicídio. Deixei de ser uma pessoa. Passei a ser uma arma... Eu não precisa... Podia pensar! Eu não podia amar! Eu não podia fazer nada! O meu erro foi me apaixonar perdidamente... Com 14 anos, cometi meu maior erro: aceitar minha gravidez. Eu estava morta! Como eu, um morto, poderia gerar vida? Eu rejeitei meu filho! Eu não poderia ter prisões sentimentais! Mas eu não me dei conta de que o amor que eu tinha pelo meu filho era um reflexo do amor que eu tinha pelo pai dele... Infelizmente, o amor que eu tinha por ele era mais forte... Ou eu que era fraca... Mas isso não é mais necessário... Hoturo: eu te desafio para um duelo!"
Myako se preparou para lutar. Hoturo aceitou o desafio, e se preparou para uma luta. Ambos queriam algo limpo, decente. Afobados com a idéia de uma luta entre si, não perceberam que alguém observava a luta, de longe.
