Discleimer: Inuyasha e Cia. Não me pertencem, mas a história sim.

A bruxa traidora.

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Sangue de Bruxa.

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Infelizmente o vinho também o fez esquecer-se momentaneamente daquela ave infernal, que guinchou e voou feito uma flecha na direção do rosto de Inuyasha assim que percebeu quais eram as intenções dele, para com a pequena bruxinha de olhos desiguais.

Ele colocou o braço na frente e gritou de dor quando a maldita ave rasgou pele e musculo de seu braço, Kagome gritou surpresa e cobriu a boca com as mãos, Inuyasha com a outra mão puxou uma das mantas da "cama" e atirou-a em cima do pássaro, que caiu no chão gritando e se debatendo.

Ele levantou-se e pegou a trouxa ainda com o pássaro se debatendo ali dentro, e caminhou com passos pesados e o braço pingando sangue em direção a bolsa dela pendurada em um gancho, pegou-a dali com o braço ferido e a jogou dentro de um dos baldes de madeira que Kagome havia trazido, depois pegou o balde com a bolsa dentro e se dirigiu ao canto oposto da cabana.

Kagome observou-o com curiosidade enquanto ele sentava-se próximo da mesa onde ficavam as tigelas, copos, garrafas e plantas medicinais, jogou a trouxa com Darwin, agora bem amarrada, de forma descuidada no chão, e tirou calmamente a bolsa do balde, de onde puxou seu punhal de cerimonias.

Os olhos de Kagome arregalaram-se.

_Não! – ela gritou.

Ele olhou-a cansado e desembainhou o punhal.

O som de aço rapando em couro fez seu coração paralisar, ela levantou-se, mas o vinho das bruxas fazia sua cabeça girar e ela voltou a cair impotente na cama de palha, o punhal desceu e Kagome voltou a gritar.

Porém o som que se seguiu foi estranho, não parecia o som de uma gralha sendo morta, era mais algo como... Madeira se partindo.

Quando voltou a abrir os olhos, que nem sequer percebera ter fechado, viu Inuyasha com o punhal profundamente fincado no balde, ele torceu a lâmina e a madeira estalou.

Kagome piscou confusa.

_O que está fazendo?

Ele não respondeu, apenas virou o balde e fez mais um buraco do outro lado, feito isso voltou a embainhar o punhal e guarda-lo na bolsa da pequena bruxa, e então puxou de lá o saco de sementes que ela guardava para Darwin, abriu-o e deixou que algumas caíssem no chão antes de fechá-lo e guarda-lo novamente.

Ele observou seu trabalho com olhos meio nublados pelo vinho, depois acenou afirmativamente com a cabeça e pegou a trouxa com Darwin, desamarrou-a cuidadosamente, e a sacudiu.

Darwin caiu atrapalhado no chão, espalhando algumas sementes, e antes que tivesse tempo de investir contra Inuyasha novamente, ele colocou o balde de madeira virado de ponta cabeça em cima do pássaro.

A ave praguejou e lutou ali dentro, enquanto Inuyasha segurava o balde e olhava a volta, por fim esticou o braço sadio em direção à mesa e pegou dali de cima o pode onde eram guardadas as velas que Kagome roubava, pareceu pesá-lo por um momento antes de pô-lo em cima do balde e levantar-se.

_Esta feito. – disse, passou a mão pela nuca e encarou-a – Devia arranjar uma gaiola para esse seu corvo.

_Gralha. – ela corrigiu com os olhos fixos no balde, observando Darwin meter o bico furiosamente através de um dos buracos que Inuyasha havia feito para ele respirar – Ele não vai ficar nada feliz quando sair dai.

Inuyasha encolheu os ombros e encaminhou-se na direção dela.

_Vamos deixa-lo esfriar a cabeça um pouco então.

Sentou-se ao lado dela.

O sangue ainda pingava de seu braço, a manga da camisa que ela havia roubado de um varal de um dos vizinhos estava arruinada agora.

_Tire a camisa. – disse-lhe.

Ele olhou-a surpreso.

_O que?

_Ela já não serve mais de nada. E seu braço está ferido. Tire-a, deixe-me ver como ficou.

_Eu é que estou preso debaixo de um balde por tentar proteger você, e é com ele que você se preocupa?! – Darwin protestou indignado.

Kagome o ignorou, ele teria de perdoá-la um dia, e observou Inuyasha tirar a camisa, Darwin havia mesmo sido mal daquela vez com Inuyasha.

Seis arranhões perpendiculares seguiam tortamente por todo o antebraço de Inuyasha, desde o cotovelo até o pulso, da onde o sangue escorria e pingava, desta vez havia sido pior até que aquela em que Inuyasha ameaçara matá-la.

_Está realmente mal. – confirmou levantando-se meio cambaleante – Não se preocupe, eu vou limpar seu braço, passar uma pomada que tenho aqui, e depois enrolarei umas ataduras.

Inuyasha observou-a em silencio enquanto ela recolhia algumas coisas na mesa, e sorriu satisfeito ao ver que ela não libertara a ave, mas logo escondeu este sorriso quando ela voltou para junto de si e ajoelhou-se ao seu lado pedindo para ver seu braço.

Diferente das outras vezes, desta vez ela não se limitou somente a lavar o ferimento com água, mas com vinho também.

_Que droga mulher! – ele praguejou – Você está bêbada? Está passando vinho em meu braço! Essa coisa arde como o inferno!

Kagome desatou a rir, confirmando que sim, ela estava bêbada.

_O vinho é para que não infeccione seu tolo! E como pode saber que isso arde feito o inferno. Já esteve lá algum dia? – ela riu mais um pouco e tomou um pequeno gole de vinho do odre e riu mais ainda, parecia que só agora o vinho estava realmente lhe subindo a cabeça – Você me chamou de mulher. Eu não era criança? Tome isto aqui. Vai te ajudar a aguentar a dor.

Ela lhe entregou o odre de vinho, e depois pressionou um pedaço de pano contra os ferimentos para limpar o sangue, fazendo-o gemer e virar o odre num generoso gole e sacudiu o odre, só tinha o suficiente para mais um gole, Kagome agora estava passando uma pasta branca que ardia em seu braço, enquanto murmurava aquela mesma canção de antes.

Ele sacudia o odre impaciente, só havia mais um gole, e aquela coisa branca realmente ardia... Pensamentos de gralha no espeto preencheram sua mente, enquanto Kagome enrolava firmemente uma atadura de linho em seu braço, bebeu o ultimo gole para afastar aqueles pensamentos, tinha certeza que Kagome não lhe perdoaria se ele matasse aquela gralha irritante dela, e jogou o odre vazio para longe.

E quando terminou, ela fez algo inesperado: curvou-se e beijou o braço ferido.

Surpreso, ele ergueu as sobrancelhas.

_Que foi isso agora?

Ela olhou-o timidamente, com as bochechas rosadas, se por causa do vinho ou da vergonha, Inuyasha não sabia dizer, talvez fosse pelas duas coisas.

_Minha mãe costumava beijar-me quando eu me machucava. – segredou-lhe.

Ele passou os nós dos dedos pela lateral de seu rosto, afastando alguns cabelos para trás da orelha, ela parecia tão jovem e inocente, era apenas uma criança, mas se era assim porque é que ele sentia aquele desejo quase incontrolável de beijá-la?

É obra do vinho. Disse a si mesmo.

_Sente falta deles não é? De sua família quero dizer.

_Sim. – respondeu baixinho, como se tivesse medo que alguém a escutasse.

Inuyasha levou a outra mão ao seu rosto, e secou com os polegares as lágrimas ainda não derramadas.

_Tão bela... – sussurrou com o vinho a inebriar seus pensamentos e inclinou-se para beijá-la.

Desta vez, Darwin não pôde se intrometer.

Os lábios de Kagome tinham um sabor doce mesclado ao vinho que ambos haviam bebido, o beijo começara como algo cálido e inocente, mas aos poucos se aprofundava, Inuyasha tentava dizer a si mesmo para parar, que Kagome não passava de uma criança, mas então ela passou os braços por seu pescoço e ele esqueceu-se completamente disso, ela inclinou um pouco mais o corpo a procura de mais, e ele afastou-se, precisando respirar.

_Eu não sou bela. – ela murmurou tristemente – Meus olhos...

_São lindos. – ele interrompeu – Nunca havia visto alguém com olhos assim. Eu adoro seus olhos Kagome. – confessou sob o efeito do vinho.

_Jura? – perguntou incerta.

_Juro.

Ela inclinou-se sobre ele e o beijou, o vinho deixara-a atrevida, o que só contribuía para a falta de memória dele, de que deveria vê-la como uma criança, aos poucos ele permitiu que seu corpo fosse empurrado para trás e levou-a consigo as mãos apoiadas em sua cintura estreita, logo estavam deitados.

Ele girou invertendo as posições, e separou seus lábios dos dela, as mãos de Kagome deslizaram de seu pescoço e espalmaram-se em seu peito nu, ele suspirou ao perceber o olhar decepcionado em seu olho azul, e a suplica no castanho.

_Não me olhe dessa forma. – murmurou acariciando seu rosto, traçando com a ponta do indicador a pequena cicatriz que ela tinha no queixo – Eu já estou meio bêbado, e posso acabar fazendo algo de que nos arrependeríamos mais tarde.

Ela murmurou algo baixo na antiga língua das bruxas, não parecia ser um feitiço como das outras vezes, estava mais para uma lamentação, e remexeu-se, como se quisesse se libertar, porém ainda mantendo aquele mesmo olhar de decepção e suplica nos olhos.

Inuyasha suspirou se rendendo.

_Depois não diga que eu não avisei.

E abaixou-se para beijá-la, beijou-a primeiro no olho castanho, e depois no olho azul, beijou também a cicatriz em seu queixo, a ponta de seu nariz, as bochechas e a testa, desceu um pouco mais e afastou um pouco o tecido negro de seu vestido para beijar-lhe o ombro esquerdo, estava beijando-lhe a pele sensível logo abaixo da orelha quando se deu conta de que Kagome já não demonstrava mais nenhuma reação, e afastou-se para ver o que se passava.

Descobriu então que a garota dormia tranquilamente, vencida pelo vinho.

Ele praguejou involuntariamente, quando diabos ela havia dormido?!

Suspirou e encostou sua testa a dela.

_Isso só pode ser praga desse corvo maldito. – resmungou.

De debaixo de seu balde, Darwin soltou um som alto e esganiçado, e de alguma maneira Inuyasha soube que o maldito pássaro estava rindo de sua desgraça, olhou mal-humorado para o balde e resmungou:

_Cala a boca!

Girou e deitou-se na palha, puxando Kagome, completamente inconsciente agora, para junto de si, e abraçou-a enquanto cobria a ambos com o cobertor, que mais podia fazer afinal?

Levá-la para casa estava fora de questão.

Aos poucos ele também se deixou ser vencido pelo vinho e pelo cansaço e adormeceu.

A manha chegou rápida demais.

Quando acordou, Kagome sacudia-o pelo ombro enquanto chamava seu nome incessantemente, feito uma criancinha teimosa e muito irritante.

_Inuyasha. Inuyasha. Inuyasha. Inuyasha. Inuyasha. Inuyasha. Inuyasha. Inuyasha.

_Que é Kagome? – respondeu sem abrir os olhos – Ah céus que dor de cabeça!

_Por causa do vinho. Você bebeu demais.

Ele abriu lentamente os olhos, por mais que a luz do dia fizesse sua cabeça parecer estar prestes a explodir e piscou para se acostumar com a claridade, apoiando o peso do corpo sobre o braço não enfaixado.

_Mas e então você? – perguntou – Também bebeu!

_Aquele era vinho das bruxas, não faz tanto efeito assim em mim. – gabou-se cheia de si.

_Está certo. – Darwin resmungou descrente da janela – E o fato de você ter bebido muito menos que ele, e ainda ter acordado mais cedo para tomar aquele chá medicinal não conta em nada, não é?

Kagome tossiu.

_Eu fiz um chá para você. – informou – Ele é muito bom para dor de cabeça e enjoo, eu garanto. Costumo fazê-lo o tempo todo para Soraia.

Inuyasha sentou-se encostado a parede, sentindo um sino badalando em sua cabeça, e aceitou o copo de chá.

_Então a sua tutora é alguma bêbada?

_Não exatamente. – Kagome respondeu – Ela só bebe às vezes, mas sempre consegue ficar bêbada feita uma gamba. Apesar de seu familiar ser uma cobra. E então na manhã seguinte me pede para lhe preparar esse chá.

Da janela Darwin cacarejou aquele mesmo som agudo e medonho que era a sua risada.

_Sabe o que é mais engraçado que uma cobra bêbada que não bebeu uma gota de álcool? – ele perguntou para ela – É um homem frustrado de ressaca!

Ele cacarejou novamente, e continuou rindo e rindo até que caiu do lado de fora, mas não parou de rir.

_O que é que deu no seu pássaro maluco? – Inuyasha questionou – Ele esta tendo convulsões?

_Não. – Kagome mordeu o lábio inferior, era melhor que Inuyasha não soubesse que Darwin estava se acabando de rir do fracasso da noite passada – Não ligue para o Darwin, Inuyasha.

Kagome não lembrava muito bem da noite passada, lembrava-se de Darwin ter machucado Inuyasha e ela ter enrolado o braço dele em bandagens por causa disso, e também de Inuyasha colocar Darwin debaixo de um balde... E de um beijo com gosto de vinho.

Não se lembrava de muita coisa depois disso, mas supunha que não houvesse acontecido nada demais pelas gargalhadas de Darwin.

Ainda assim ela precisava perguntar.

_Inuyasha. – chamou sem sequer olhá-lo, enquanto calçava suas botas e pensava na surra que levaria de Soraia, quando voltasse para casa, por ter passado a noite fora – O que fizemos ontem a noite?

Inuyasha fez uma careta quando terminou o chá, aquela coisa tinha um gosto muito desagradável, mas ele não podia negar que era eficaz, pois já estava começando a se sentir melhor, e deixou o copo vazio de lado, só então percebendo que ao lado da cama havia um prato com uma tigela de mingau de aveia e um pãozinho, Kagome havia feito seu café da manhã.

_Do que esta falando? – perguntou pegando seu café da manhã.

_Eu me lembro de que você me beijou. – ela levantou-se pegando a bolsa – Mas não lembro o que houve depois.

_Você dormiu. – ele tomou a primeira colherada do mingau.

Kagome corou e jogou sua capa por cima dos ombros, prendendo-a cuidadosamente com seu broche de gralha azul.

_Desculpe.

Inuyasha balançou a cabeça e tomou mais um pouco do mingau.

_Estávamos bêbados. Se não tivesse sido você teria sido eu... Além do mais, foi melhor assim. Você é apenas uma...

_Me chame de criança novamente e eu juro que te transformo num peixinho dourado. – Kagome pegou seu cajado, mas não saiu antes de dar um ultimo aviso a Inuyasha: – E tome cuidado ser for sair da cabana, alguns de meus irmãos e irmãs estarão andando pela floresta nos próximos sete dias aproximadamente.

A colher parou a meio caminho da boca de Inuyasha.

_Por quê?

_Porque precisam capturar seus familiares. Ontem à noite as chamas mostraram os animais com quem eles devem formar elos, e hoje eles partirão em busca destes animais... Há três anos quando as chamas me mostraram uma gralha azul eu fiquei quatro dias na floresta com Soraia, montando armadilhas para pássaros, pegando tudo que é tipo de ave menos uma gralha azul.

_Isso é porque nós somos mais espertos que o resto dos pássaros, nós até podemos falar. – gabou-se Darwin aparecendo no buraco para fumaça. E para provar suas palavras olhou para Inuyasha e disse na língua dos homens, com uma voz esganiçada e forçada: – Ilha das Bruxas! Ilha das Bruxas! – e exibiu duas novas palavras também que Kagome não sabia que ele podia falar – Velhaco pervertido!

Kagome balançou a cabeça, mais espertos? Talvez. Humildes? Nem um pouco. Ela bateu o cajado duas vezes no chão e Darwin veio voando, dando uma ou duas voltas no ar até pousar no alto de seu cajado, ela acariciou-o meigamente.

_De qualquer forma. – disse a Inuyasha – A maior parte de meus irmãos e irmãs que estarão aqui pela floresta nos próximos dias serão apenas crianças ainda sem familiares, portanto meu feitiço de ilusão e meu feitiço de confusão devem bastar para mantê-lo seguro, mas não saia da cabana.

Na verdade aqueles eram feitiços bem simples que qualquer criança na ilha, ainda não iniciada era capaz de fazer e até usavam-nos em seus jogos infantis, Kagome havia lançado os feitiços após o oitavo dia quando Inuyasha quase fora descoberto por um dos irmãos da patrulha alada, lançando assim uma ilusão sobre a cabana que a fazia parecer vazia e abandonada para qualquer um que olhasse de fora de qualquer ângulo que fosse, e também um feitiço de confusão para que nenhum familiar que estivesse por perto ouvisse ou sentisse o cheiro de Inuyasha, mas por serem feitiços tão simples – e basicamente infantis – seria difícil enganar com eles uma centena de mestres e mestras da magia e mais um tanto de aprendizes prestes a se tornar verdadeiros bruxos – por isso Kagome havia pedido a Inuyasha que se movesse o mínimo possível e evitasse fazer qualquer som durante o dia anterior – mas os feitiços deviam bastar para enganar um punhado de crianças inexperientes e alguns mestres que estariam ocupados demais tentando vigiar as crianças e mantê-las unidas.

Nos dias que se seguiam ao dia das bruxas as crianças se reuniam em grupos e partiam numa exploração floresta adentro a procura de seus futuros familiares, acompanhadas de um adulto, e os adultos se revezavam para acompanhar os grupos de crianças, assim a tarefa de caçar familiares tornava-se menos cansativa. Kagome no então, desprezada por ser uma "criança dos homens" e repudiada pela cor de seus olhos desiguais – mesmo na terra dos homens, seus olhos desiguais sempre mantinham as pessoas afastadas – não fora aceita em nenhum grupo de "caça ao familiar" e acabara por partir sozinha com sua tutora levando-a ao limite da paciência, por pegar todo tipo de pássaro menos o correto.

Foi naquela época que ela havia descoberto esta cabana – Darwin costumava fazer ninho em seu telhado.

_Preciso ir agora. – avisou.

_Até mais tarde Kagome.

_Quando foi que aprendeste essas palavras? – ela perguntou ao pássaro já saindo da cabana.

O pássaro estufou-se de orgulho ao responder:

_Passei a noite inteira treinando-as! – e batendo as asas repetiu cheio de si – Velhaco pervertido! Velhaco pervertido! Estou pensando em aprender a palavra criança também.

_Ah essa não. – Kagome reclamou – Por que não aprende o meu nome? Ou o seu?

Inuyasha ficou paralisado onde estava.

Velhaco pervertido? Era óbvio que aquela ave estupida só podia estar falando com ele!

E o pior: é que ele não estava longe da verdade, Inuyasha realmente não passava de um velhaco pervertido.

Afinal ele era um homem feito e barbado já de mais de vinte anos, e comprometido, que andava tendo sonhos e pensamentos impróprios com uma criança de quatorze anos, dez anos mais nova que ele, o que ele era então se não um grande velhaco pervertido?!

_Um velhaco pervertido! – repetiu levando as mãos a cabeça – Eu não passo de um velhaco pervertido!

Mas se Inuyasha soubesse o que estava prestes a se afligir sobre Kagome naquele momento, a sua aflição iria muito mais além do que o simples pensamento dele ter se tornado um velhaco pervertido.

Kagome saiu da floresta tentando não ser notado, com Darwin empoleirado no alto de seu cajado, e olhou cuidadosamente de um lado para o outro, mas ainda era cedo, poucos de seus irmãos haviam acordado àquela hora.

Foi descendo então a colina em direção à vila.

Passou a mão pelos cabelos e franziu o cenho ao tirar dali um pedaço de palha.

_Você sabe, não sabe? – Darwin tinha os olhos fixos num ponto a frente – Ela vai bater-lhe até sangrar.

Kagome estremeceu.

_Eu sei.

_Você não deveria ter passado a noite fora.

_Eu não pretendia.

_Você não pretendia. – o pássaro repetiu – Ótimo, tente explicar isso a Soraia, talvez ela te chicoteie com menos força.

E voou para longe.

Kagome suspirou, mas não podia ficar ali na rua matando tempo, quanto mais demorasse pior seria, Soraia era uma bruxa que não gostava de crianças, e simplesmente odiava o fato de ter sido escolhida para ser tutora, porém Kagome sabia que ainda assim ela não era tão cruel quanto poderia ser e era grata por isso, afinal ela estava sempre aprontando, fosse colocando bonecos para fazer suas tarefas, ou escapando das aulas, ou até mesmo saindo todos os dias da vila sem permissão, e mesmo assim Soraia só lhe aplicava pequenos castigos – tirando é claro aquele espartilho desumano – exceto na vez em que ela tentara roubar sua vassoura e fugir voando da Ilha com ela, um mês após ter chegado, mas acabara sendo derrubada da vassoura por um simples feitiço da varinha de Soraia – e assim Kagome ganhara sua cicatriz. – naquela ocasião Soraia deu-lhe cinco chibatadas nas costas, fora a primeira e única vez que Soraia lhe chicoteara... Mas Kagome já previa uma segunda vez em breve.

Respirando fundo ela abriu a porta da casa de Soraia.

Sua tutora estava sentada no chão, estava debruçada sobre a mesa com o olhar fixo numa ampulheta cheia de areia colorida, tinha numa das mãos uma garrafa vazia de vinho das bruxas.

Ela ergueu os olhos vagarosamente quando ouviu Kagome chegar.

_Eu sabia que você estava chegando quando ouvi seu pássaro entrar pela janela de seu quarto. – disse. – Você passou a noite fora

_Eu não pretendia.

_Não pretendia. – Soraia levantou-se cambaleante – Você desapareceu ontem no meio do festival.

_Sim, mas eu...

_E roubou um pouco do meu vinho também.

_Eu só...

_Onde está seu espartilho, Kagome?

_Ah. – Kagome levou a mão à barriga de repente lembrando-se do espartilho magico que deveria estar ali – Eu... Estava muito apertado. Então eu... Eu... Cortei as fitas.

_Você roubou meu vinho. Livrou-se de seu espartilho. Fugiu do festival no meio da noite. E só retornou pela manhã. E ainda me diz que não pretendia passar a noite fora? – balançou a cabeça, apoiando-se na parede parecendo meio zonza – Eu odeio crianças. Já comentei isso antes? Ah, mas odeio, e como odeio! O que é que vou fazer com você? Você foi longe demais desta vez Kagome, longe demais, suba e tire a parte de cima da sua roupa, vamos acabar logo com isto de uma vez.

E naquela manhã, a vila despertou com os gritos de dor de uma bruxinha desobediente.

Kagome gritou a cada chibata que recebeu, sentada firmemente na cama, com as costas a mostra apertando o lençol entre os dedos, e deixou às lágrimas caírem livremente, o chicote de Soraia tinha um cabo de osso e couro e três longas tiras de couro saiam desse cabo, que mordeu e rasgou a carne de Kagome impiedosamente.

Dez. Desta vez foram dez chibatadas. O chicote lambeu suas costas com língua de fogo e as deixou sangrentas e pegajosas, ardendo em chamas, quando tudo terminou Kagome ficou deitada ofegante, de bruços em sua cama sem consegui mover-se.

Cinco chibatadas a mais que da ultima vez.

O dobro que da ultima vez.

Kagome perguntava-se se Soraia ia aumentando de cinco em cinco os números de chibatadas, ou se o ia dobrando, a cada surra que lhe dava, ou se simplesmente batia nela até achar que já estava bom, e que ela já havia prendido a lição.

Cinco chibatadas para aprender que não se pode fugir da Ilha das Bruxas.

Dez chibatadas para aprender que enquanto ela estivesse sob aquele teto, não poderia roubar vinho e passar a noite fora.

E quantas chibatadas seriam para aprender que não se deve dar guarita a um humano?

_Está horrível. – Darwin resmungou de seu ninho no alto da estante – Realmente ruim.

Kagome sabia que ele também sentia dor, por causa do elo que dividiam.

Seu pobre companheiro emplumado que não tinha culpa de nada, também sofria.

Kagome gemeu de dor quando tentou levantar-se, e um segundo depois, desistiu do ato, tudo girava, e girava, e girava, ela fechou os olhos e deixou-se ser consumida pela escuridão, perdendo totalmente os sentidos.

...

Inuyasha espiou através da janela o trio de crianças que vinha andando pela mata, sabia que elas não poderiam vê-lo ali por causa do feitiço de ilusão de Kagome, mas isso não o deixava menos apreensivo, e se uma delas ficasse curiosa e decidisse entrar para ver o que tinha dentro da misteriosa cabana abandonada?

_Kotaro! Kotaro! – chamou uma das garotas que compunham o trio de crianças, ela usava roupas semelhantes às de Kagome: um vestido indecentemente curto feito de tecido leve e negro adornado com fitas de mesma cor – Kotaro onde você está indo?

_Eu acho que vi um coelho vindo nessa direção. – respondeu o garoto baixando o capuz negro e virando-se para encarar as duas meninas que o acompanhavam.

_Um coelho? – disse a outra menina, assim como a primeira esta também usava um vestido curto com fitas – Eu não vi coelho algum.

_Acho que era uma raposa. – disse a primeira.

_Uma raposa branca? – Kotaro indagou descrente.

_Vai ver que era albina. – comentou a segunda menina – Minha mãe disse que animais albinos não dão bons familiares.

_De qualquer forma nenhum de nós precisa de uma raposa, muito menos albina, você precisa de um coelho Kotaro, a Sasami precisa de um furão e eu de uma lontra, não temos porque ficar aqui caçando raposas. – falou a primeira menina.

_Não era uma raposa, era um coelho! – insistiu Kotaro.

_Raposa ou coelho. De qualquer forma já foi. – Sasami encolheu os ombros e começou a retornar pelo caminho de onde tinham vindo.

Isso. Pensou Inuyasha vendo Kotaro dar um suspiro infeliz e começar a seguir Sasami, com a outra menina logo atrás. Vão embora! Vão embora de uma vez.

Foi quando a outra menina sugeriu:

_Deveríamos ir ao regato. Os animais sentem sede com certeza encontraremos tudo que é tipo de animal por lá.

Mas Kotaro não se deixou enganar, ele parou de caminha e virou-se para a garota:

_Você não me engana Akane! Só quer ir até o regato porque sabe que lá é o único lugar onde você pode encontrar lontras!

A folhagem atrás das crianças começou a mexer-se, e Inuyasha estreitou os olhos tentando ver o que tinha ali, talvez fosse Kagome, ou então aquele pássaro irritante dela, mas não era nenhuma nem outro, era sim um lobo cinzento.

Inuyasha levantou-se de um salto, e estava a ponto de cometer a estupidez de sair da cabana para ajudar as crianças – nem parou para pensar que depois dele as salvar elas poderiam muito bem sair correndo para a vila gritando "Um humano! Um humano!" – quando o lobo falou na voz de uma mulher:

_Crianças, não deveriam se afastar tanto do grupo!

Inuyasha arregalou os olhos.

Era realmente um povo muito estranho aquele da ilha, Kagome já havia lhe dito que alguns de seus irmãos mais experientes podiam ver através dos olhos de seus familiares, mas nunca falara nada sobre falarem através deles.

_Desculpe mãe. – falou aquela que atendia pelo nome de Sasami – Kotaro pensou ter visto um coelho.

A bruxa loba ergueu a cabeça e farejou o ar, por um momento esquecido do feitiço de confusão de Kagome Inuyasha temeu que ela sentisse seu cheiro.

_Não há coelho nenhum por aqui. Então retornem para o grupo crianças!

_Sim mãe. – Sasami respondeu obedientemente.

Kotaro e Akane fizeram muxoxos tristes e seguiram Sasami e sua mãe loba de volta pela mata, nenhum deles deu qualquer atenção à cabana "abandonada" a poucos metros dali, Inuyasha suspirou aliviado quando eles sumiram por entre as folhagens, e aquele havia sido só o primeiro de muitos grupos, que apareceriam nos próximos dias.

Não sabia se conseguiria manter sua sanidade intacta até sair daquela Ilha.

Por alguma razão a ideia de sair daquela ilha lhe trouxe certo desconforto, é claro que ele queria sair dali, e quanto antes melhor, sabia que Kagome não poderia escondê-lo para sempre, mas o problema era Kagome, ele não queria deixa-la ali naquela ilha cheia de pessoas que a desprezava e a odiavam por sua origem, mas se ele a levasse junto – supondo-se que conseguisse escapar daquela ilha – o que faria com ela?

Afinal ele estava comprometido, mesmo que sequer conhecesse a sua noiva e a esta altura ela provavelmente acreditasse que ele estava morto, ele ainda estava comprometido... Mas se ele houvesse mesmo sido dado como morto, talvez pudesse recomeçar uma nova vida com Kagome, sim e aquele pássaro irritante dela poderia vir junto também... Mas que pensamentos eram esses agora?!

Suspirou sentando-se debaixo da janela, com os braços apoiados em seus joelhos dobrados.

_Eu sou mesmo um velhaco pervertido!

...

_Ah Kagome, por que você faz isso Kagome? Por quê? – Kagome ouviu a voz de Darwin murmurar tristemente – Por que Kagome? Por quê? Olhe só o que lhe aconteceu e olha que ainda nem desconfiam daquele humano que você esta escondendo. Por que insiste nisso Kagome? Por que insisti em protegê-lo?

Ela apertou os olhos e em seguida forçou-os a se abrirem.

Darwin estava a sua frente, com a cabeça deitada de lado, olhando-a tristemente.

_Porque eu... – ela esforçou-se para falar, mas sua garganta estava seca e a língua grosa e desajeitada em sua boca – Acho que... O amo. – ela respirou fundo, todo o seu corpo estava doído demais para que ela conseguisse se mover – Ele foi o primeiro.

_O primeiro. – repetiu Darwin – O primeiro o que?

_Que me aceitou. – murmurou voltando a fechar os olhos e adormecendo novamente.

Em seus sonhos Kagome voltava a sua terra natal, a terra dos homens como gostavam de chamar na Ilha das Bruxas, daquela vez Kagome estava de volta ao dia em que percebera pela primeira que era diferente das outras pessoas, não por ser uma bruxa – isso ela só descobria anos mais tarde – mas sim por causa de seus olhos.

_Você não me alcança Haru! – gritou em seus sonhos.

Naquele dia Kagome ainda era uma menininha de seis anos de idade, mas em seus sonhos ela possuía a mesma aparência que possuía atualmente, inclusive vestia suas vestes de aprendiza, apesar de não ser uma bruxa em seus sonhos.

_Kagome! – gritava Haru lá de longe – Espera Kagome! Espera!

E Kagome ria e aumentava a velocidade, deixando sua amiguinha Haru cada vez mais para trás, ofegante e cansada.

_Vamos Haru! – ela incentivava – É tudo o que pode fazer?

_Veja só como ela corre, olhe só aquelas perninhas! – Darwin, que não deveria estar ali, pois aquela era uma lembrança de muito antes de conhecê-lo, ria voando acima de sua cabeça. Darwin estava na maioria de seus sonhos. – Olhe para frente Kagome!

Naquele dia Darwin não havia estado ali para avisar-lhe de que deveria olhar para frente, de forma que Kagome bateu de frente com Runa, a irmã mais velha de Haru, fazendo-a derrubar o cesto de roupas que havia acabado de lavar, mas mesmo em seus sonhos Darwin sempre avisava tarde demais, de forma que Kagome continuava a chocar-se de novo e de novo com Runa, derrubando todas as suas roupas recém-lavadas.

_Olhe o que você fez! – ela gritara zangada demais para um simples incidente como aquele.

_Me... Desculpe. – dissera assustada, já com os olhos enchendo-se de lágrimas – Eu não a vi, estava apenas brincando... Eu...

_Sua estupida! – cuspira no momento em que sua irmã, a pequena e roliça Haru as alcançava, Runa olhou-a surpresa – Haru o que esta fazendo?

A roliça menina apoiou-se sobre os joelhos tentando recuperar o fôlego que havia perdido em sua perseguição a Kagome, antes de endireitar-se e olhar para cima em direção ao rosto da irmã mais velha, com um grande sorriso banguela.

_Estou brincando com Kagome irmã.

Haru deveria ter dito que estava correndo para ir se encontrar com outros amiguinhos seus, ou que estava brincando sozinha, ou então fugindo de algum demônio, qualquer coisa menos que estava brincando com Kagome.

Runa mostrou-se chocada, e irada momentos depois, quando ela agarrou o braço da irmã menor.

_Não Haru, não! – gritara como se a criança tivesse acabado de dizer que havia incendiado a casa delas já totalmente esquecida das roupas caídas – Você não pode brincar com essa menina!

Haru olhou assustada para a irmã mais velha.

_Por que não?

A resposta de Runa nunca mais saiu da cabeça de Kagome:

_Olhe para os olhos dela Haru, essa menina é maligna!

Um olho azul e outro castanho, uma mácula com a qual Kagome havia nascido que a tornava um ser maligno – de mau agouro – aos olhos de todos – tanto humanos como bruxos – Runa apenas havia sido a primeira de muitos a verbalizar aquele pensamento.

A sua volta, as pessoas começaram a murmurar umas com as outras, suas vozes como dardos venenosos voando sobre a cabeça de Kagome:

_Ela corre mais rápido que qualquer outra criança da vila.

_Corre rápido demais para uma simples menina.

_Eu já a vi escalar árvores e subir mais alto que qualquer homem, mulher ou criança seria capaz de escalar.

_Nada feito um peixe.

_E aqueles olhos.

_Oh aqueles olhos terríveis!

_Um é castanho...

_O outro é azul.

_Sinal de mau agouro.

_Sinal de coisa maligna.

_A menina está manchada.

Darwin voava em círculos acima de sua cabeça, batendo as asas furiosamente e gritando:

_Calem a boca! Calem a boca!

Mas ninguém parecia ouvi-lo ou vê-lo além de Kagome, como um fantasma alado azul.

Naquele dia Kagome havia levantado e saído correndo para a floresta com as mãos nos ouvido, para não ouvir mais nada do que diziam sobre seus olhos, e quando voltara ao por do sol, encontrara sua mãe louca de preocupação, já tentando imaginar o que diria ao seu pai quando ele voltasse do mar.

Mas daquela vez não foi assim, alguém se interpôs entre Kagome e as irmãs e tocou-a no ombro.

_Não ligue para o que eles dizem Kagome seus olhos são lindos. – e então seus olhos desiguais encontraram os olhos, de um raro tom de dourado – Nunca havia visto alguém com olhos assim. Eu adoro seus olhos Kagome.

_Jura? – perguntou incerta.

_Juro. – respondeu e inclinou-se para beijá-la.

Kagome fechou os olhos, esperando pelo beijo que nunca veio.

Era esta a razão que a fazia amar Inuyasha: ele fora o primeiro que a aceitará.

Enquanto todo o resto repudiava-a e repelia-a por considerarem seus olhos desiguais como a marca de algo maligno que houvesse nascido com ela, Inuyasha – apesar de ter tentado matá-la em um primeiro momento – fora o único que realmente havia a aceitado como ela era, inclusive chegando-a a chamar de bela, palavra que ela nunca havia ouvido ser dirigida a ela, embora talvez isso se devesse somente ao fato de que ela era a única coisa a mantê-lo vivo ali naquela ilha, Kagome preferia ignorar esse pequeno detalhe.

Talvez fosse essa a razão pela qual acreditava amá-lo,

Kagome nunca havia se apaixonado antes, portanto não sabia se o que estava sentindo por Inuyasha era real ou não, mas era um sentimento forte, muito forte.

Kagome abriu os olhos, piscando para acostumar-se com a penumbra, e conseguiu distinguir a forma azulada de Darwin dormindo em sua cama a poucos centímetros de seu rosto, já era noite, havia dormido por muito tempo.

Ela estava fraca, com sede e com fome, todo seu corpo lhe doía, e até mesmo respirar lhe era uma agonia, as costas estavam cobertas por crostas de sangue seco.

_Água... – implorou sem reconhecer sua própria voz – Água, por favor... Darwin... Eu quero água... Água...

Darwin remexeu-se e abriu os olhos, batendo levemente as asas para espantar o sono, e olhou-a.

_Kagome. – disse – Você acordou.

_Água. – repetiu fraca – Traga-me... Agua...

Seus olhos pesavam e embora ela tenha lutado contra, acabaram-se por fecharem-se novamente. Acordou o que pareceram ter sido horas depois, quando sentiu gotas de água pingando em seu rosto.

Chuva?

Abriu os olhos. Darwin voava acima de sua cabeça, amassando um pano encharcado entre as garras fazendo com que a água escorresse e derramasse-se no rosto de Kagome, a pequena bruxa torceu o pescoço e abriu a boca, esforçando-se para beber o máximo possível daquela água, quando a água parou de pingar Darwin pousou com o pano molhado em suas costas, no lugar onde haviam sido açoitadas, fazendo-a gemer.

_Por quanto tempo... Eu dormir?

_Dois dias. – respondeu a ave voando e amassando o pano molhado contra outro ponto de suas costas – E já esta amanhecendo o terceiro dia, hoje faz quatro anos que chegaste a Ilha das Bruxas. Cuidado, não volte a dormir.

_Parabéns para mim – balbuciou. – Tenho frio...

_É porque está com febre. – a ave levantou voo e saiu pela janela levando o pano consigo.

Kagome gemeu e esforçou-se para se levantar quando Darwin se foi, os músculos doloridos pareciam a ponto de romper-se, mas ainda assim ela conseguiu colocar-se sentada, sentindo alguns dos ferimentos em suas costas abrirem novamente e voltarem a sangrar, ela suspirou cobrindo os seios com os braços quando Darwin voltou a entrar voando pela janela carregando o pano molhado e pingando entre as garras, juntamente com a luz da manha.

_Não devia ter se levantado! – ele ralhou pressionando o pano contra o sangue em suas costas, enquanto ela usava uma das mãos para puxar os cabelos por cima do ombro.

_Se eu continuasse deitada... Acabaria dormindo novamente. – respondeu dolorida, sentindo seu familiar pressionar o pano úmido contra diferentes pontos de suas costas flageladas. – Disse que eu dormir, por dois dias... E Inuyasha? Como ele está?

...

Inuyasha estava aflito.

Desde aquela manhã, dois dias haviam se passado e o terceiro já vinha nascendo e Kagome não havia retornado à cabana, nem mesmo aquele pássaro estupido dela dera as caras por ali, para vigiá-lo ou então simplesmente chama-lo de velhaco pervertido.

Havia algo errado.

Inuyasha suspirou finalmente chegando ao riacho de onde Kagome sempre lhe trazia água, agachou-se e tirou dos ombros o pedaço de madeira, que havia catado pela floresta, com dois baldes pendurados em cada extremidade.

Talvez ela estivesse com medo de aparecer ali na floresta para vê-lo por ter tantos bruxos e bruxas na floresta. Afundou um balde na água para enchê-lo. Não. Não podia ser isso, porque se fosse pelo menos seu pássaro apareceria ali de tempos em tempos – duas ou três vezes por dia – para ver como ele estava e levar informações para Kagome.

Talvez ela estivesse doente. Muito doente. Ele começou a encher o segundo balde. Ou então estivesse ferida de alguma forma. Esses pensamentos o incomodavam, deixavam-no aflito e angustiado, queria saber o que havia acontecido a Kagome.

As pessoas ali naquela Ilha tinham uns costumes estranhos... Talvez só as crianças a procura de familiares e seus mestres tivessem permissão para sair da vila nos próximos dias, e nem sequer os familiares das outras bruxas pudessem abandonar a vila. Pôs-se a encher o terceiro balde. Mas não podia ser isso, porque então Kagome teria lhe avisado, e ela também não era lá a bruxa mais obediente e sensata do mundo.

Afinal ele estava ali, não estava?

Não pôde evitar o pequeno sorriso ao imaginar a reação que Kagome teria se o visse perambulando sozinho pela floresta estando ela tão cheia de seus irmãos. Afundou o ultimo balde na agua para enchê-lo. Porém aquilo era necessário, ou ele morreria de s... Levantou-se rapidamente, ainda com o balde meio vazio ao ouvir um barulho na mata, ele recuou alguns passos, mas antes que pudesse virar-se para correr e se esconder atrás de alguma árvore um cavalo branco de crina laranja selvagem surgiu por entre as vegetações.

Pelo menos ele esperava que fosse selvagem. E não o familiar de algum bruxo que estivesse pelas redondezas vendo-o ali parado a beira do riacho através dos olhos do animal, o cavalo, no entanto, não demonstrou qualquer interesse além de matar sua própria sede, Inuyasha prendeu seus baldes novamente nas pontas do pedaço de madeira, e colocou-o sobre os ombros, o dia já estava raiando, virou-se e partiu pelo mesmo caminho de onde viera, sem preocupar-se em terminar de encher o balde que havia ficado pela metade.

E quanto a Kagome?

O que teria se passado com ela?

...

Soraia ouviu sua pupila antes de vê-la, a menina irritante a quem o conselho de velhos havia a obrigado a acolher, vinha descendo as escadas com passos lentos e sôfregos como se cada passo doesse-lhe imensamente, provavelmente doía mesmo, mas tudo bem, porque Soraia tinha impressão de que só assim é que Kagome entendia alguma coisa.

Havia a açoitado uma única vez antes quando ela era ainda menor, por tentar roubar sua vassoura e fugir da Ilha, e Kagome nunca mais tentara fazer tal tolice, e agora já até parecia capaz de compreender que a Ilha das Bruxas era o seu lugar, certo, não havia lugar para ela entre as bruxas, mas havia menos ainda entre os humanos, e a menina sabia disso.

Kagome parou a sua frente, fraca e tremula, ainda usava as mesmas roupas do dia das bruxas, mas as tinha abaixadas até os quadris e cobria os seios com os braços.

_Finalmente acordou. – observou – Tem ficado preguiçosa Kagome.

_Me... Desculpe. – a menina caiu de joelhos aos seus pés e tomou uma das mãos entre as suas, esquecendo-se de seus seios despidos, beijou-a com lábios ressecados – Perdoe-me Soraia.

Quando ela curvou-se para beijar sua mão Soraia pôde ver as marcas que o chicote deixará em sua costa, do corrimão da escada Darwin, o familiar da criança, a observava carrancudo.

Soraia suspirou.

_Levante-se Kagome. – a pupila obedeceu – Você esta com febre, e suas costas estão horríveis, vá se tratar, e também arranje algo para comer, seu namorado deve gostar de garotas magras, mas não acredito que chegue a esse extremo.

Kagome enrijeceu assim que ouviu Soraia dizer "namorado".

_Namorado? – repetiu parecendo nervosa, os braços novamente cobrindo os minúsculos seios.

Soraia olhou-a.

_Você passou a noite fora com um odre de meu vinho. Não tente me convencer de que tudo o que fez foi olhar as estrelas enquanto se embebedava com seu corvo. – o pássaro reclamou, mas foi ignorado – Não Kagome, você ainda não entendeu porque eu a puni? Você não devia ter feito uma coisa dessas, ainda é muito criança, como se já não fosse mal falada o bastante, o sangue de suas costas não foi o único derramado de seu corpo, eu sei disso e você também, foi por isso que foi castigada. Entende agora?

Na Ilha das Bruxas os costumes eram diferentes do que eram na Terra dos Homens, ali uma mulher não seria censurada por se deitar com um homem antes do casamento, mas Kagome não passava de uma criança, ela principalmente tendo nascido na Terra dos Homens deveria entender que ainda não era hora para aquelas coisas.

E se a menina realmente queria namorar o garoto em questão devia pelo menos ter a decência de vir até sua porta pedir permissão a ela, já que ela era sua tutora, ainda que Soraia não conseguisse entender quem iria querer namorar Kagome, tendo ela vindo de onde veio, e com aqueles olhos horríveis.

Kagome abaixou a cabeça de forma submissa, parecia tão fraca que a qualquer momento desmaiaria ali na sua frente, os braços trêmulos cobrindo os seios desnudos.

_Sim. – murmurou por fim

Soraia assentiu.

_Então vá se tratar. Suas costas estão me dando náuseas.

A bruxa mais velha observou em silêncio a pupila baixar a cabeça e arrastar os pés em direção ao porão.

Talvez tivesse sido rígida demais. As costas da menina realmente estavam horríveis. Talvez Soraia houvesse acabado com qualquer chance que ela tinha de um dia ter filhos, mas era melhor assim, isso significava menos crianças impuras pela ilha.

Lançou um olhar de canto para o pássaro azul que ainda a olhava carrancudo do corrimão da escada:

_Não vai com ela familiar?

A ave grasnou, abriu as asas e voou na direção que Kagome havia seguido.

A menina não seria capaz de se tratar sozinha, e o pássaro de pouca utilidade lhe seria. Suspirou, não era tão desalmada assim, levantou-se e foi atrás dela.

*.*.*.*

E é isso aí, mais um dia, mais um capítulo.

Reconheço que senti um pouquinho de pena da Kagome nesse, mas sabem o que dizem, não é? Quanto mais um autor gosta de um personagem, mais ele o faz sofrer. U.U

Review's ou travessuras?

Resposta à review:

Kristy: Que imaginação a sua, mas não, eu gosto demais de Darwin para tirá-lo de Kagome.

Ah! Eu já ouvi falar desse anime, e até pensei em assisti-lo, mas aí descobri que o autor morreu antes de completa-lo, e desisti.