A moralidade do amor
Padfoot
Dedicado a todos que admiram a coragem de viver um novo amor.
"Acalme-se. Você está dando um espetáculo. Tenha em mente que os seus carrascos não tiveram que trilhar o seu caminho. Todas as pessoas estão observando de uma galeria se orgulhando de seus clichês moralistas sem originalidades. Você ama de verdade, não? Então, pode lutar contra isso. Você é quem sai machucado. Você é quem sofre. Não é algo que os outros possam entender. Eu sei da sua desajeitada, porém direita e verdadeira forma de amar. E qual o problema do seu amor ser errado?" (Angel Sanctuary)
Boca viçosa, de perfume a lírio,
da límpida frescura da nevada,
boca de pompa grega, purpureada,
da majestade de um damasco assírio.
Adormeci ao alvorecer de um novo dia, cansado de lutar contra o coração. Justo eu, o garoto mais assediado da escola, aquele apreciado por sua inteligência e rodeado de admiradoras, o batedor do time que nunca ousou amar alguém, que, por ser narcisista, acreditava amar a si próprio. Claro, eu poderia ter achado tudo normal naquela brincadeira tola; não tinha razão em transformar-se naquele sentimento, anteriormente contido. Sirius Black nunca fugiu de nada, enfrentando tudo de peito aberto, disposto a sofrer todas as conseqüências. O que deu errado desta vez? Seria os olhos cor de âmbar ou o sorriso doce? Os cabelos claros ou o perfume? A voz ou as palavras proferidas? As carícias disfarçadas pelas risadas constrangidas? Não sei. E eu sempre me julguei o dono da verdade, o invencível. Mas, desta vez, o lobo venceu o cão. Embora eu soubesse desde nosso quase beijo, que aquilo deveria acabar, não pus fim; o meu corpo emanava seu perfume adocicado, enlouquecendo-me em pensamentos profanos. Sim, este amor deveria ser pecado e, talvez, representasse um castigo pelas lágrimas feminis que fiz derramar. Não, Remus jamais seria um martírio; era puro, singelo, belo, especial. Tornou-se indispensável, um pecado necessário que nem o treino de quadribol me fez esquecer. Merda.
O vidrilho da janela permitia o sol nascente incidir, dominando o quarto outrora escuro. Aqueceu meu corpo revestido pela coberta, começando a embalar-me em um sonho esclarecedor. Nele, eu escutava três mínimas palavras. Três preciosas palavras enquanto ele me ninava ao passar os dedos pelos meus cabelos. E U T E A M O. Uma lembrança ou um sonho nítido, tanto fazia; o importante era o seu toque e a provável verdade ali escondida. Eu queria poder me levantar e dizer "eu também", mas meu corpo pesou, a boca não abria, nem respirava, como se...
"PETER, SAIA DE CIMA!", berrei ao acordar com ele sobre mim, o assustando.
"Bom dia, Padfoot.", James brincou, sorrindo abertamente enquanto Pettigrew se retirava da minha cama. O encarei mal-humorado, mesmo que não fosse culpa dele eu ter acabado de dormir. Virei-me na cama, cobrindo minha cabeça.
"Temos aula, Pad.", sua voz se fez ouvir. Inconscientemente, me descobri e sentei-me. Podia vê-lo de costas, arrumando suas cobertas e travesseiro, já limpo e vestido para a aula de Feitiços.
"Não o vi levantar, Moony.", comentei, coçando o queixo distraidamente. James olhando de um para outro, Peter cruzando os braços e fechando o semblante ao encarar Remus. Este se virava com um sorriso bondoso, pincelado de melancolia, como todo sorriso que ele dava. Pelo menos quando direcionado a mim.
"Certamente que não. Estava concentrado em seus pensamentos.", sua voz entoou uma nota de ciúme reprimido, percebi. Sorri ladino a isso.
"E você acha que eu estava pensando em quê? Ou melhor, em quem?", o provoquei. Tornara-se divertido confrontá-lo, pois há muito notei sua angústia ao meu lado. Era como se escondesse um pesado segredo. Como se estivesse na mesma situação que eu, embora eu acreditasse que fosse impossível. Remus terminara seu namoro com Emmeline há cinco meses e, o conhecendo, continuava a amá-la. Não ousaria apaixonar-se por mim. Não por um mimado Black, infantil, egoísta e safado. Impossível.
"Em Marlene. Não está com ela?", meu sorriso dissolveu. Uma menina, era tudo que eu gostaria de amar. Pelo menos assim eu poderia não sofrer represálias futuras. Amar um homem tem seus contras. Muitos contras.
"Terminamos ontem. Distantes demais.", dei de ombros ao me levantar. James riu cinicamente, ainda nos analisando.
"É sempre a mesma desculpa, não, Padfoot? Distância...", seu semblante pareceu-me enigmático enquanto ele dava um nó na gravata dourada e vermelha, "Ela pode existir, mas nunca será uma barreira para quem ama. Nunca, Moony. Questões mundanas como distância, não existe quando o sentimental está em jogo, Padfoot.", ele pegou sua mochila e saiu do quarto, acompanhado por um Peter embasbacado com tais palavras. Seriam indiretas de alguém que assiste minha certeza? A minha certeza de amar alguém inalcançável?
Silêncio. Habitualmente ficávamos calados quando sozinhos, incertos sobre como agir e pensar.
"Acha que Prongs está certo?", procurei saber dele, manter aquela conversa. Quem sabe ao fim não lhe faria uma declaração? Ansiava por isso, mas não tinha oportunidades; James e Lily ocupavam minhas tardes, cada qual me arrastando para seus encontros a fim de me unir à Marlene, afastando-me de Remus. Obviamente, não resisti ao beijá-la para me provar que poderia sobreviver sem ele.
"Muitas vezes é preferível manter-se distante para não se machucar.", Lupin deu de ombros, jogando sua mochila nas costas e me encarando. Sustentei seu olhar. Sempre reservado, omitindo-se, anulando-se. Eu quem deveria investir, estava claro. Afinal, Remus já dera indícios de ter um leve interesse por mim. Pena que não era amor para ele. Ou, quem sabe, ele não pensasse que para mim era uma brincadeira. Iludido.
Boca para deleites e delírio
da volúpia carnal e alucinada,
doca de Arcanjo, tentadora e arqueada,
tentando Arcanjos na amplidão do Empírio,
Por que o tempo procura nos castigar? Duas semanas poderiam soar pouco tempo, mas sempre que não lhe dirigia a palavra era uma eternidade. Desde a descoberta de meus sentimentos, o tempo parecia humilhar-me ao nos distanciar. E o pior era Remus assim preferir. Eu o queria tanto. Por que ele não se entregava logo? Já tinha se denunciado há três dias, quando, após o período de lua cheia, corremos para nossa clareira ao meio da Floresta Proibida. Nos deitamos no gramado, vigiando as estrelas intocáveis, como ele. A brisa noturna me acalmando, desativando meus sentidos mecânicos que insistiam em me impulsionar a tê-lo em meus braços. Manso, respirava continuamente seu perfume doce. Deitara-se ao meu lado, apenas para me por a prova, eu sabia. Sempre um testando os limites do outro, até onde podíamos chegar com aquele segredo.
"Padfoot, se você fosse mulher, me namoraria?", que raios de pergunta era aquela? Não seria necessário ser mulher para amá-lo. Infelizmente, para tornar a conversa mais penosa, não foi o que respondi. Suspirei, fingindo que considerava a questão, virando-me para encará-lo. Cinza e âmbar pareciam se completar.
"Que pergunta tola, Moony. Claro que namoraria. Você é o típico príncipe que as donzelas esperam.", ele sorriu melancólico enquanto eu me segurava para não dizer que ele também seria o mocinho da minha humilde história. Justo eu, que sempre lutei pelos meus objetivos, sempre conquistei o que quis; me tornava covarde ao encontro dos nossos olhos.
"Donzelas... elas são as antagonistas em minha mente, como se estivessem ali para me atrapalhar no meu final feliz.", seu sorriso anuviou-se, dando-lhe um ar sonhador, perdido no nublado de meus olhos. Senti meu estômago revirar e congelar-se instantaneamente. Estávamos tão próximos e distantes. Sempre no meio termo.
"Em minha cabeça, são coadjuvantes que me saciam quando o que realmente quero não o faz por medo.", dei de ombros, sentando-me. Pude sentir seus olhos indagadores às minhas costas, porém nada mais falei. Não era tempo de me entregar ainda. O tempo corria e nada acontecia, mas eu sabia que estava do nosso lado.
Agora, encolhido em meu casaco negro, o frio matinal no Salão Comunal deserto pelo horário, percebo o que poderia ter sido se não tivéssemos brincado de casal. Estaríamos James e Lily, Marlene e eu, Remus e Emmeline e Dorcas e Peter, sentados ao observar a aurora, aquecidos em meio a abraços ternos. Eu não estaria solitário, certo de um sentimento recíproco que não deveria ser sentindo. Maldito amor que agora me alimentava em receios. Logo eu, que sai da casa de meus pais, disposto a quebrar tradições sem medo do que viria pela frente. Eu não conseguia raciocinar direito, perguntando-me como vencer o mundo que certamente se revoltaria contra nós, caso algo acontecesse. E eu ansiava por isso. Como criar coragem contra a moral? Ele se baseava na moral, provavelmente não apoiaria quebrá-la. Maldito lobo e sua convicção na moral. Será que ele não vê nosso sofrimento?
"Você não dorme mais, Padfoot?", ouvi alguém me trazer a realidade novamente. O olhei, reconhecendo os cabelos negros e espetados, a miopia e o corpo definido e meio magricela. James ocupou uma poltrona ao lado da minha, encarando-me com preocupação de irmão. Suspirei, juntando energias para um sorriso amarelado.
"Acordei agora.", menti enquanto ele balançava negativamente a cabeça. Seus olhos cor de mel, castanhos esverdeados, me analisando. James sabia que eu mentia e não se contentaria com isso, para minha infelicidade.
"Sabe, Pad, mesmo eu namorando a Evans e, eu sei, estando distante de vocês três, tenho consciência do que se passa. Wormtail me contou sobre o flagrante no quarto. Eu já desconfiava, afinal, quando Sirius Black seria quieto e reservado como Remus? Você e Moony são transparentes demais. Emmeline, Dorcas e Marlene já tinham percebido. Vocês são distantes por quererem um ao outro. E não tente contra argumentar comigo, pois eu sei.", pegou-me desprevenido. A verdade era aquela, não mudaria. Eu amava Remus e ele a mim. Em resposta, baixei o olhar. O carpete vermelho que cobria o piso de pedra em nosso Salão pareceu-me interessante, me abrigava dos olhares insinuantes de James. Mas o silêncio nunca foi um grande aliado. O silêncio consentia tudo, escondia tudo. Suspirei e voltei a encará-lo.
"Peter passa informações demais.", o culpei. James sorriu sarcasticamente, pondo-se de pé e ajeitando o pijama listrado de azul.
"E você costuma arrumar sua cama ao levantar.", ironizou, rumo ao dormitório masculino, "Vá dormir. Quem sabe não descole uma desculpa melhor para a covardia de vocês.", parou às escadas, ainda de costas para mim, "Eu ficaria do lado de vocês, só que, pelo jeito, não é o bastante. Nem você e nem Moony precisam do consentimento de ninguém; os outros não sabem o quão sofrido é esconder-se. Eu não queria que você se machucasse mais, Padfoot. Só isso. Você é meu melhor amigo.", subiu, deixando-me com os olhos marejados. Era um sinal da minha redenção.
boca de Ofélia morta sobre o lago,
dentre a auréola de luz do sonho vago
e os faunos leves do luar inquietos...
O esperei, sentando no parapeito da janela do nosso quarto, já vestido do meu calção negro de dormir. Lua minguante significaria sorte na minha decisão? A brisa respondia um leve sim em meu rosto, maltratado pela insônia; meus olhos se perdiam às olheiras escuras. Ouvi passos apressados para o quarto; era Remus, pois pedi aos outros que nos deixassem a sós para conversarmos. Não demorou muito e vi seus cabelos castanhos claros adentrarem o quarto e fecharem a porta trás de si. Aproximou-se de mim, ofegante, tomando-me a temperatura. O olhei com a sobrancelha erguida.
"O que houve?", quis saber enquanto ele dava três passos para trás, encarando-me com preocupação desmedida.
"Prongs me disse que você estava doente, então adiei minha aula particular com Dorcas e vim correndo.", ri, negando com a cabeça.
"Ele lhe disse isso? Que mentiroso. Pelo menos você está aqui.", saí do parapeito, caminhando em sua direção. Acredito que neste momento ele percebeu que eu estava quase despido, apenas de calção. Enrubesceu, fazendo-me sorrir abertamente à sua reação. Céus, como eu adorava vê-lo acuado, em minhas mãos, pronto para abocanhá-lo, "Mas, diga-me, por que veio correndo? Preocupou-se tanto que desistiu da aula prometida a Meadowes?", o provoquei, ainda me aproximando ao perceber que ele se afastava.
"Bem... Você é meu amigo, não? Devo me preocupar contigo.", tolice. Remus se denunciava ao tremer, vendo-me sólido à sua frente, palpável. Toquei seu ombro o fazendo parar de recuar. O fitava firmemente, devorando seu âmbar cristalino; ele estava procurando conter seus hormônios, percebi.
"Éramos amigos quando começamos aquela brincadeira, mas será que continuamos no decorrer no tempo? Será que não se tornou necessário os toques, as palavras e tudo o mais?" , como ele permanecia no mesmo lugar, dei dois passos à frente, ficando centímetros de distância. Poderia beijá-lo naquele instante, entretanto preferi aguardar sua resposta. Remus vacilava, quase derretido pela nossa aproximação e pelo segredo desmascarado.
"E-eu acho que-e es-estamos nos pre-precipitando.", gaguejava enquanto eu o envolvia pela cintura firme devido às corridas matinais dele. James estava certo, pois a distância àquela altura desaparecera; eu já o cheirava de olhos fechados, acariciando-o com meu nariz, próximo à boca. Remus estremeceu; senti um arrepio perpassar suas costas. Pegou em meus braços, como se travasse um conflito interno sobre me empurrar ou trazer-me para perto de si.
"Nos precipitamos começando a brincadeira. Estamos colocando um fim nisso tudo, Moony. Eu amo você, e quero que fique claro.", disse ou ouvir sua respiração acelerada como as batidas de meu coração. Enfim, me declarei. Em resposta, ele me beijou ternamente.
Nossas línguas, amaciadas pela umidade, encontraram-se; ponta a ponta. Bailaram, descrevendo círculos precisos e saborosos; um descobrindo a boca do outro. Meus dentes devoraram em pequenas mordidas sua boca avermelhada pela pressão, sendo correspondido por sutis chupões em meu lábio inferior. Nossas mãos aventurando-se no corpo que não o nosso, colando-nos um no outro. O beijo, entre selos carinhosos, tornava-se sôfrego à nossa incontestável ansiedade de matar a vontade do amor caloroso. Finalmente eu o tinha, o amava. E não sentia falta de nenhuma garota, assim como ele; quebramos a moral que nos cercava, sabendo que tínhamos amigos e, principalmente, um ao outro.
Estranha boca virginal, cheirosa,
boca de mirra e incensos, milagrosa
nos filtros e nos tóxicos secretos...
