Enquanto você dormia

por Padfoot


Eu já estava me acostumando ao deslocamento rápido. Bem, ou era isso ou eu não conseguiria sobreviver à noite que teríamos. Engoli o enjôo, suspirando aliviado por, mais uma vez, chegarmos numa rua menos movimentada que a anterior. Porém, com pouco entusiasmo, constatei que estávamos noutro lugar carregado de cheiros e gostos familiares muggles. Pelas barbas, cuecas e todos os pêlos de Merlin! Eu merecia mesmo ser cercado por tudo aquilo que nunca tive? As lembranças não cederiam nunca? Senti alguém puxando minha mão e olhei para essa pessoa, após passar um minuto notando minha falta de sorte. Até James eu perderia — o coração pesou e o enjôo retornou para o meio da garganta. Encarar seu castanho-esverdeado era penoso e, talvez, eu não pudesse disfarçar a grande dificuldade de aceitá-lo casado ou noivo, porque ele disse:

— Quanto mais você demorar, Padfoot, menos tempo terá com suas concubinas. — seu sorriso cegou-me de tão radiante e só pude dar-lhe um curto tossido em resposta — Além disso, se quer tanto provar-me o contrário, precisa se empenhar direito. — revirei os olhos a este desafio malfeito. Não queria que ele desistisse de ser feliz, jamais permitiria tal coisa. Só eu sei o quanto tivemos de aturá-lo durante cinco ou seis anos em Hogwarts, e não suportaria passar por toda aquela provação de novo. Ademais, seria tolice ver sua vida, tão exemplo para mim de normalidade e inspiração, destruída por algo que eu apenas não entendia.

— Sim, Black, deixe de ser um egoísta e venha logo. A casa de Docs é a terceira. — interrompeu-nos Marlene, colocando-se entre nós — apesar de eu não ter percebido o quanto James ficara próximo de um momento para o outro — e tomando-nos pelos braços. Remus e Peter fitavam-nos com sorrisos nos lábios, aguardando as pazes que não precisaríamos fazer nunca a respeito disso. Havia uma luz de entendimento em Lupin, o qual agradeci internamente por não tê-la expresso em palavras, continuando o caminho ditado por McKinnon. Guardei minhas mãos no fundo dos bolsos e deixei que ela também me guiasse.

A terceira casa era pequena, sem muitos detalhes nas paredes amareladas e telhado bem vermelho. O portão era baixo, pouco maior que as gramíneas do jardim de tulipas, bem como sua mureta de pedras claras bem posicionadas. Não tinha árvores, tampouco cortinas nas janelas, o que me preocupou por alguns segundos. Pelo visto, Meadowes encontrava-se segura o suficiente para tamanho descuido — não podíamos mais dar-nos o luxo de viver sem grades ou grandes muros. Uma cabeleira loura atravessou a janela aberta e pude ver sua face sorridente, os olhos azuis bem claros e suas mãos movendo-se em cinco direções diferentes graças a sua mania de falar com gestos espalhafatosos. Peguei-me rindo, lembrando das confusões que seus gestos, combinados aos de Lily, já renderam aos alunos desavisados de Gryffindor — eu mesmo já ganhei um olho roxo. Não ouvíamos o que dizia, e só pude concluir que seus feitiços de proteção eram bons de verdade. Um suspiro desviou minha atenção das constatações, voltando-me para Remus. Finalmente tinha perdoado meu indecoroso ato de tirá-lo do palco, porque via agora sua pequena. Depois de três anos o sentimento continuava? Coloquei a mão sobre seu ombro, fazendo-o menear a cabeça com um sorriso tímido. Então, continuava. Será que eu não sentiria isso por ninguém? Suspirei, olhando Marlene se aproximar do portão, virando-se para os dois lados para se certificar de que ninguém estava nos vendo. Uma centelha arroxeada saiu de sua varinha, posicionando-se até vinte e cinco centímetros longe da ponta.

— McKinnon... — principiou Moony, mas qualquer dúvida sua foi sanada ou afastada de sua mente. Emmeline nos viu e, com complicados acenos de varinha, desfez todos os feitiços ao redor da casa. Colocou metade de seu corpo para fora da janela, acenando com um dos braços enquanto o outro a ajudava a equilibrar-se no parapeito.

— Entrem, pessoas! É tão bom vê-los! — vi seus olhos estreitarem-se enquanto passávamos pelo portão, sendo eu o último — Até você, Sirius! Que lindo! Não o vejo desde o Natal passado, na festa dos Bones! Menino, pensei que estivesse na Albânia ou qualquer outro lugar distante! — gargalhou, e eu me adiantei para beijar-lhe o rosto, sendo retribuído. Seu cheiro de melancia permanecia imutável, como de praxe. Seria isto o que seduzira e prendera Lupin a seus encantos? Cansei de perguntar-lhe isto, na escola, e não tinha mais a vontade de fazê-lo reviver desamores passados. Ele não merecia isso, afinal, apesar de ser um lobisomem, era muito marica.

— Ficará de fora, Black? — a voz, que a princípio julguei ser de McKinnon, mostrou sua dona baixa e de rosto redondo. O olho castanho e os cabelos dourados jogados para o lado, debochando de mim. Esqueci-me que era sua a casa, e que todos nos reuniríamos ali. Afastei-me de Vance, a qual já se retirava da janela para cumprimentar os demais — Moony, na verdade. Abracei e rodopiei minha pequena, sentindo seu cheiro de amêndoa e o corpo excitante.

— Docs, você devia saber que me abraçar tem lá suas conseqüências. — brinquei, apertando seus traços contra os meus e aproximando minha boca de seu rosto. Os lábios esfregaram-se um ao outro, mas ela se afastou no último minuto, forçando-me soltá-la de meus braços. Dava cinco passos para trás, o sorriso ladino exposto.

— Black, nosso tempo de beijos já passou, não sabia? Agora estou noiva — mostrou a mão direita quase coberta por completo pelo seu anel de diamante — de Edgar. — ela riu da minha expressão pouco preocupada, cheguei até a revirar os olhos — Não venha me dizer que ele não tem pegada ou não é bom o bastante. Afinal, de uma forma ou de outra, você é incomparável e todas aquelas baboseiras que você costuma dizer sobre si. — não agüentei segurar a gargalhada, a qual alertou Bones de minha presença. Ele correu para a varanda, abraçando a noiva pelos ombros para simbolizar sua posse. Tão desnecessário e típico de um Ravenclaw! Todos sabiam das minhas brincadeiras, não precisava de uma cena.

— Boa noite, Black. — saudou-me, arrancando um sorriso educado de meus lábios. Sua mão apertou a minha, e pude resgatar dos outros anos o mesmíssimo comportamento formal de todo detentor de conhecimento de sua casa. Convidou-me e indicou o caminho para dentro, o que fiz sem mais delongas. Qualquer coisa poderia e seria usada contra mim naquele tribunal, pelo jeito. Acomodei-me junto aos outros num grande e branco sofá, entre Remus e Emmeline. Ficamos em silêncio, Meadowes desligou a televisão — muggles e seus botões, sempre me surpreendendo — e sento-se perto de Bones. Certo, tudo parecia bem e tranqüilo, tirando, claro, a perna de Prongs que estava com um tique nervoso e não conseguia para de tremer. Vi McKinnon colocar uma mão sobre a ela, pedindo que parasse, mas uma voz, vinda da cozinha, disse:

— Deixe-o demonstrar o que sente, Lene! O novo homem fora do mercado precisa extravasar de vez em quando. — sua risada era inconfundível, quanto mais os cabelos castanhos e ondulados como os da prima, a franja caindo-lhe perfeitamente sobre a boca grande e rosada pelo batom. A tez branca e de algumas charmosas sardas e os olhos inegáveis de alguém da família McKinnon apareceram no portal, declarando o corpo feminil que eu jamais experimentei — e tentei por várias vezes. Vi-me de pé, já recebendo a mulher de forma gentil.

— Mary, finalmente alguém solteira! — ri em seu ouvido, beijando-lhe o pescoço. Senti sua mão prender minha orelha, afastando-me com uma expressão de indignação e graça.

— Sou solteira ainda porque seu amigo ali — apontou Prongs com a cabeça, o que a prima fechou o semblante e cruzou os braços por cima do peito. Preciso dizer que senti vontade de fazer uma observação pouco educada sobre o decote de Marlene? — não teve coragem. Sabia que eu poderia ter dito sim mais vezes que a Lily, James? — ele ficou corado e, como sempre, arrepiou os cabelos e acertou os óculos sem necessidade. Ninguém se pronunciou, mostrando-se inquietos e pouco à vontade com a declaração de amor de Mcdonald. Quanta determinação, eu tinha de admitir.

— Deixe de colocá-lo nesta situação delicada, amiga. — uma gargalha pôde ser ouvida da cozinha, seguida por passos calmos — Você sabe bem que nossa querida ruiva é a única dona de seu coração. É assim desde que podemos nos lembrar, desista. — e sua figura conseguiu fazer tudo desmoronar. Tudo. E meu coração só sabia fazer uma coisa: bater. Muito forte.

TUM-DUM. TUM-DUM. TUM-DUM.

Pelo visto, o costume aos maus hábitos de Mcdonald não teria efeito sobre mim. Afinal, quantas vezes já não a escutei pronunciar promessas desinteressantes do que seria? Ela não foi a escolhida antes, tampouco seria agora. De forma inexplicável, os cabelos sedosos, o verde vibrante de sua íris e a voz límpida de minha menina eram os laços mais fortes com alguém que eu poderia ter — exceto os sangüíneos. E o rubro não poderia ser substituído pelo castanho, menos o liso pelas ondas bem delineadas. As curvas, porém, não posso negar a diferença sem, contudo, assumir partido da outra por este simples fato. Não depois de todos os anos sendo um admirador compulsivo. Não depois de meus esforços de reunirmo-nos esta noite. Não, principalmente, depois do plano traçado e a solução tomada. Solução esta que me uniria à única a quem desejo o calor e compromisso da alma. Porém, todas essas explicações foram dadas, sem efeito ou paciência que aturasse despejá-las de novo, o que me desajeitava ouvi-las tantas vezes. O que pude fazer, então, foi demonstrar o embaraço e coçar a nuca sem fitá-la de imediato. Não faria bem às minhas resoluções, tampouco à minha consciência. O corpo, como disse, era diferente e seduzia o mais desavisado pedestre. E essa combinação induzia o lado corruptor aparecer. Eu sei, contraditório e vulgar este pensamento, mas um homem tem seus limites e prioridades. Esta ocasião seria o limite, o qual testaria — sem necessidade — o primordial.

— Prima, eu não sei qual é a razão de estar aqui, mas devo informar-lhe...

— Que nada do que eu diga ou faça mudará os planos de hoje. — Mary terminou a colocação de Marlene como se aquilo já tivesse sido ponto de discussão entre elas. E foi, pelo o que seus olhares desconfiados puderam revelar-me. Não era minha intenção ser motivo de discórdia, mas agradecia McKinnon de todo o coração por tentar afastar a prima de suas idéias mirabolantes. Uma dessas, aliás, foi motivo de brigas intermináveis de Lily comigo, a qual acreditava que eu estivesse saindo com Mcdonald enquanto implorava por um beijo. Este fato, porém, não exclui a verdade — em partes —, mas não compete falar do passado. Não seria de bom tom, segundo o James bem comportado.

— Desde quando Mary mede suas ações, Lene? É tolice acreditar que ficará quieta e paciente enquanto o amor de sua vida é arrancado sem pudor de suas garras. — Elle Warhols, uma das morenas mais cobiçadas na época do colégio, alertou. Estava tão bela quanto podia me lembrar; suas roupas de couro rasgadas em alguns cantos do pano, o cabelo negro preso numa trança grossa e de aparência macia, os olhos escuros esquadrinhando as intenções duvidosas da amiga que me encarava — de maneira lasciva —, e o sorriso de escárnio estampado como seu melhor cartão de boas-vindas. A primeira coisa que invadiu minha mente ao vê-la, além da admiração e das marcas da saudade, foi: E agora, Sirius? E meus olhos foram magnetizados por suas reações enquanto um embate entre as três supracitadas se desenrolava.

O azul acinzentado estava estagnado ao tom acobreado de sua pele, memorizando cada pormenor de seus movimentos tão espalhafatosos quanto os de Lily e Emmeline. A boca pendia frouxa, dando-lhe o ar cômico de quem está perdido — o mais distante possível — do mundo, apesar de tê-lo todo à sua frente. E o teria — ou teve, há muito. Talvez o antigo domínio por aquelas terras tivesse voltado à sua mente, os vagos — quiçá vívidos — sabores de seus mais sórdidos encantos para fisgá-lo. Fantasmas, coitado, incapazes de desprenderem-se do consumado destino: separação. Mais rotineiros eram seus encontros com Elle, se comparados aos de Marlene, Dorcas e outras moçoilas. Mais intensos, segundo o próprio. Mais e melhores. Os castanhos barbaramente escuros dela também devoraram, por curtos segundos, o pedaço de meu amigo. Pois não era completo perto dela, nem se quisesse. Eram cópias de uma mesma moeda, simbolizando o nada que valiam no âmbito amoroso. Toscas matérias de ego e necessidade de se provar. Dissimuladas esperanças de, um dia, eternizar. Então, pela última vez, perguntei-me: E agora, Sirius?

— James? — alguém tentava me acordar das elucidações preocupadas e pouco claras dos vínculos duradouros entre Padfoot e Elle. Nem pensar estava sob minha jurisdição, pelo jeito — JAMES CORNELIUS POTTER! — assustei-me com o berro ao meu ouvido, encarando Marlene com pouca vontade. Ela não entendia a minha vontade de ajudá-los? O incansável desejo de vê-los unidos enfim? Talvez, e seu anil assegurou-me de outras irritações menos profundas e complexas que o caso, tivesse ainda resquícios de desaprovação quanto a perder Padfoot. Afinal, eram difíceis de disfarçar. Os desejos, digo. Mas, para evitar outros escândalos e poupar meus tímpanos, parei de elucidar. Era o meu tempo.

— Sim? — pedi que prosseguisse, notando o fim da discussão a parte. Suas feições continuavam carrancudas, bem como as de Mcdonald eram desafiadoras. Aquilo não significava boa coisa, eu sabia, e não me preocupei em esconder que, a partir daquele momento, evitaria quaisquer contatos com sua figura insinuante. Voltei-me inteiramente para Marlene, sentido o hálito quente de seu bufo estressado, o que me fez rir.

— Pare com isso, Potter! — resmungou entre os dentes, silenciando-me o máximo para satisfazê-la — Precisamos logo ir ao quarto de Docs, porque ela deixou as roupas lá. — fitei a outra, recebendo um aceno de cabeça afirmativo. Melhor, imaginei antes de me colocar de pé. Notei que os braços de Mcdonald penderam ao lado do corpo, o qual foi aprumado no intento de mover-se em nosso encalço. Olhei desesperado para McKinnon, procurando apoio que não veio. Ela revirou os olhos, como se aquilo pouco fosse importante ou pouco pudesse fazer para impedi-la, e eu só tive tempo de segui-la o mais próximo possível. A distância, porém, sempre foi uma barreira ultrapassada pelos propósitos de Mcdonald, especialmente quando ninguém se manifestava diretamente para freá-la. Será que Dorcas não poderia arrancar-lhe da escada ao segundo andar pelos cabelos? Quem sabe se, a chamando pelo apelido carinhoso de "Docs", ela não atenderia a este pedido mudo? Desviei-me destes pensamentos, porém, com a despedida fugaz de Emmeline e Remus:

— Vamos à minha casa pegar o anel, Jay. — e só pude ouvir o estampido reconhecível de aparatação. Num impulso tolo, contudo, virei para trás para vê-los partir, encontrando os olhos perturbadores de Mary, cheios de intenções malignas ao bom James. O meu Prongs fervilhou de expectativa. "Uma aventura" foi o que prometeu e o sangue começou a pulsar muito rápido.

— Você tem o costume de não cumprimentar as velhas amigas, Sirius? — sua boca fazia graciosos e hipnotizantes gestos enquanto proferia aquelas palavras. A vontade que me dominou foi tamanha e incontrolável: caminhei para mais perto de sua figura baixa e de aparência rebelde. Nós dois sabíamos o quanto aquela imagem de inalcançável e determinada faziam mal à minha saúde mental.

— Desculpe, Elle. — tentei sorrir, mas a garganta encontrava-se seca e qualquer movimento poderia desintegrar-me em milhões de estilhaços — Olá. — e esta foi a resposta mais inteligente que pude oferecer naquele momento crítico. O que Warhols conseguia fazer comigo? Paralisava-me com seus olhos castanhos, calava-me com suas curvas voluptuosas e aprisionava-me com seu descaso. Descaso para comigo. Descaso para com os planos que poderíamos ter feito, se ela tivesse escolhido abandonar suas idéias anti-relacionamentos. E por que tudo sempre voltava desta forma quando a fitava?

— Oh, céus! — ela suspirou e não pude deixar de notar o movimento sedutor de seu busto. Sim, eu tentei lutar contra a vontade que continuava a me dominar, mas estava tão complicado... Tanto que me aproximei um pouco mais, disfarçando com uma risada rouca — Começamos muito bem este reencontro. — suas feições sempre denotavam o sentimento que tentava transmitir. Achava isto tão sexy e engraçado. Consegui ver as covinhas que ela tinha ao lado dos lábios, atentando-me para o fato de nunca ter visto outras iguais àquelas. Sim, já encontrei outras covinhas, mas nas bochechas... Nunca aquelas. Nunca mais.

— Você sabia que está me assustando? — sua sobrancelha direita ergueu-se e um sorriso brotou em seus lábios. Por que isto sempre era demais para mim? E por que o gosto de sua pele e a sensação de ter sido usado estava pulsando tão fortes dentro de mim? Não tinha explicação para os fenômenos que me acometiam. ONDE ESTAVA JAMES? — Sirius... — ONDE ESTAVA? ONDE ESTAVA? NINGUÉM VIRIA ME SALVAR? — Sirius... — REMUS? PETER? — Sirius... — CACETE, EU IA ENLOUQUECER!

— Não... — fechei os olhos e respirei profundamente. Era difícil até articular o pedido de "não fale meu nome". Era tão complicado resistir à loucura que me tomava! POR QUÊ? O QUE ELA ERA PARA MIM? Só uma mulher que já experimentei. Uma. Mais uma. A uma. Nem uma?

— Não o quê? — quis saber, aproximando-se com seu infindável sorriso de deboche. Por que ela sempre ria de mim? Por que eu me expunha tanto ao ridículo, sabendo que ela jamais faria o mesmo? Warhols sabia da minha fraqueza — quantas não foram as vezes que eu disse em voz alta os poderes terríveis que tinha sobre mim? Warhols sabia e continuava a me instigar. Acho que ela gostava da sensação de ter alguém sob seu total controle, ou fazia por pura maldade de mulher. Sim, as mulheres têm esta malícia nata, esta capacidade doentia de se fazerem desejadas. Falar meu nome daquela forma despreocupada era um charme irresistível, e ela sabia! Sabia me fazer desejá-la, e intencionalmente! Maldosa! Cruel! Víbora!

— Sirius...

— NÃO! — afastei-me ainda de olhos fechados e a respiração pesada. Todas as vezes eram assim: um olhar simples, um fogo ardente, uma voz que me chama despretensiosa, um toque e o consumo. Consumo de mim. E eu não queria ficar incoerente desta forma; não podia. A minha antiga decisão de não me deixar envolver... Digo, a sua também decisão de não se deixar seduzir... A minha resolução de ter um mero caso com ela... Sua aceitação... Tudo ficava em hiatus, suspenso por todo o tempo que eu a clamava. Mas eu não me deixaria vencer pelas lembranças de uma noite, de uma viagem, de outras noites e dos beijos saborosos. NÃO!

— Ah, Sirius... — fitei seu novo suspiro, deparando-me com sua feição de pouco caso. Por que ela sempre conseguia me humilhar? Tratar meus desejos incontidos com tanta apatia era pior que ouvir um sonoro "não te quero mais". E, acredite-me, eu já ouvi isso desta boca volátil — Não comece com seus momentos de drama, por favor. Pensei que já tivesse superado as nossas férias do Ministério. Pare de viver de passado, é muito constrangedor. — deu-me as costas, voltando para a cozinha. CRUEL! MALÉFICA CRIATURA! Despedaçando todas as boas recordações dos afagos fogosos! MALDITA! Detentora de minha atenção e carcereira de minha alma! CONCUBINA INFERNAL!

— Para você é tudo muito fácil de ser apagado, não é? Só porque fazia tudo parte de seu plano hediondo! — fui atrás dela, na cozinha. Bebia um copo d'água com demasiada calma e evitava me encarar. — Não respondeu minhas cartas, cortou relações comigo... Só porque eu finalmente dei o que você tanto queria. — vi seu olhar gelado, a sobrancelha direita erguida e nenhuma sombra de sorriso, voltar-se para mim como um tapa.

— Pensei que o acordo era: não se envolver. E eu não me envolvi. Além disso, não se faça de usado, porque eu também dei o que você queria. Estamos quites, certo? Agora esqueça.

— Sim, você não se envolveu. Fez pior do que isso! — eu precisava me controlar. PRECISAVA. Mas seu semblante gélido era demais para mim.

— O que eu fiz, Sirius? — FALSA! DESENTENDIDA FORÇADA! MALDITA!

— FEZ COM QUE EU ME ENVOLVESSE! — já tinha gritado quando dei por mim, quebrando-me em milhões na sua frente. Minha primeira confissão desse tipo, arrancada à força e destruída com prazer. Pelo menos ela tinha parado de me olhar feito um merda.

— Eu fiz isso? — DISSIMULADA! Estava chegando ao meu limite.

— NÃO BANQUE A INOCENTE! AMBOS SABEMOS DISSO! — pela primeira vez na minha vida, eu queria MUITO poder bater em uma mulher.

— NÃO GRITE COMIGO! — e eu sou tão doente que, apesar de toda a raiva, reparei o quanto ela ficava bonita rubra — EU NÃO TIVE A INTENÇÃO DE TE SEDUZIR A ESTE PONTO! EU JAMAIS ESPEREI ISSO E VOCÊ SABE! NÃO VENHA ME CULPAR! — abri a boca para retrucar, mas, por um segundo, as palavras me faltaram. E neste segundo o Peter apareceu tarde demais.

— Por favor, vamos nos conter. Depois vocês resolvem qualquer pendência, sim? — o suor corria livre pelo seu rosto redondo e ansioso, e a voz não passava de guinchos altos e estridentes — James está chamando. — retirou-se, levando consigo a pergunta que eu teria feito — "ONDE VOCÊ ESTAVA?". E vi-me sozinho com Elle, também suado, arfando e rubro. E não pude deixar de desejar estar em outra ocasião desta forma... Com a mesma pessoa. Maldita.

— Fique aqui. — foi o único pedido que fiz e as nossas últimas palavras trocadas na cozinha. Seu rosto revoltado merecia ser pintado, principalmente para que, no futuro, eu percebesse o que o brilho de seus olhos queria me dizer. Ou que eu pudesse ficar imaginando incansavelmente todas as interpretações (im)possíveis.

Eu jamais tive a oportunidade de estar ali. Seu mundo, apesar da amizade de três ou quatro anos, era fechado para mim. Restrita, duvido que tenha se aberto daquela forma a outra pessoa do gênero masculino. E lá estava eu, em seu cantinho mais adorado. O amaldiçoado mais sortudo dos mundos, e de longe o mais feliz. Ora, minha excitação estava tão à flor da pele que um mero acender de luzes me fez arrepiar por inteiro. Dava para ver perfeitamente o quarto que aparatamos, sentir seu perfume de essência de melancia e ver o quão organizada era. O paraíso que jamais ousei pedir para entrar, o pedaço do céu que nunca pensei pisar e sentir que podia ficar à vontade. E até isto ela fez questão de falar, deixando-me desnorteado. O que um sentimento reprimido por três anos era capaz de fazer? Sorri e agradeci sua gentileza.

Ainda aparvalhado com minha sorte, caminhei junto de sua figura esbelta para perto do closet. Emmeline deixou que eu sentasse na cama, pois assim a esperaria achar a caixinha com um conforto maior — pelo visto, demoraria muito. Aproveitei para repassar toda a emoção de estar onde estava e guardar cada por menor do momento mais sublime da minha vida. Bom, tirando os outros momentos com os marotos e com a própria Vance, mas este detalhe não precisa ser mencionado. Senti o peito inflar de expectativa: esperava que ela notasse como eu também podia compor com perfeição aquele quadro. Ela poderia até, finalmente, perceber o quanto poderíamos passar horas e horas sentados ali, conversando e rindo como sempre fazíamos, e como seria bom ter-me sempre. Ela precisava muito notar isso, algum dia.

Vê-la dedicando-se à busca era engraçado; fazia caretas discretas, exclamações furiosas e perguntas sem respostas. Não espalhava as coisas enquanto procurava, colocando-as no devido lugar depois de analisá-las. Perdi a conta dos sapatos, cintos, bolsas, cachecóis, luvas e vestidos. As saias e calças, presumi, ficariam nas gavetas bem longe dos olhares lupinos que eu lançava. Seus cabelos louros batiam-lhe na cintura fina, embaraçando-se no desespero. Era tão bonito de se ver que eu quase perdi sua voz chamando por ajuda. O resto do quarto simplesmente pareceu um borrão — movia-me rápido a seu encontro, perdido em imagens toscas de sorrisos agradecidos e beijos inesperados. Ser sonhador e não saber seu devido lugar... Não tem preço, de fato. Mas ficava impossível não me iludir com sua voz apontando a direção onde eu podia encontrar a caixinha e sua descrição — veludo verde, fecho de ouro com adornos de coração em prata e do tamanho da minha mão fechada. Emmeline era mesmo atenta aos detalhes... Então por que ela não via os meus sinais?

Mais de uma vez tive de espantar esta pergunta da cabeça enquanto enfrentava a selva do closet. Eram gavetas a se perder — pelo menos para um homem, porque nós homens sabemos viver apenas com o essencial — e caixas distribuídas por data, tamanho, cor e marca. Achei alguns vários fios de cabelo, senti toda a maciez dos tecidos e perdi-me em meio aos objetos de maquiagem: delirei. Eu não costumo delirar desta forma, sem motivos sólidos. Porém, pela primeira vez, perdi o controle de mim naquele universo deslumbrante. Ainda mais com Emme a me encostar a maior parte do tempo. Ela também sacudia os cabelos, me encarava profundamente por meio segundo, se abanava e se assoprava. Seria tudo imaginação? Bem, preferi não arriscar e apenas continuar procurando a bendita caixinha. Nossas mãos esbarravam-se de vez em quando, dando-me a impressão de uma dança mal terminada. E, sem sombra nenhuma de dúvida, meu amor por aquela loura era assim: uma valsa inacabada. Quiçá jamais valsada. Bem, era tudo minha culpa — de que adiantaria convidá-la para dançar se, no final, não poderíamos usufruir das palmas destinadas a nós? Umedeci os lábios e continuei a busca.

Ouvi uma quebra em sua respiração e voltei-me para Vance. A exclamação há muito aguardada surgiu em seus lábios, apresentando-me a caixinha perdida. Seu sorriso exuberante acertou-me o estômago e vi faíscas atarem-me ao desejo de tê-la. O brilho intenso dos olhos jubilosos também soube destruir toda a lógica que havia construído durante anos de amizade. Não me culpe por ser tolo e deixar-me levar por demonstrações sutis — ou inexistentes — de afeto. Era um sentimento reprimido, já casado de sua jaula cruel. E eu estava em seu quarto, desfrutando de todos os prazeres intermináveis que sonhei. Sem contar que eu estava a três dias da lua cheia — não estava? Beijei-a.

— Como assim ainda não escolheu o vestido? — perguntei exasperado ao meu amigo indeciso. Será possível que eu teria de agüentar mais vinte e cinco minutos naquela casa? A sombra de meu passado continuava na cozinha, mas por quanto tempo eu a deixaria esperando lá — ou quanto tempo ela me daria para desaparecer — eu não sabia. Algo me puxava para o andar de baixo, e não era o coçar de nuca e o acertar de óculos de James que me livrariam desse magnetismo.

— Padfoot, eu não sei o que poderia agradar mais à Lily! — tentava se explicar, mas o rubor de suas maçãs do rosto não eram o suficiente para calar minha raiva. Como assim ele não sabia o gosto da noiva por roupas? Fechei os olhos e coloquei o dedo indicador e o polegar em cada uma das pálpebras, forçando-as a continuarem fechadas e para me manter longe de dar um soco no meu melhor amigo.

— Tenha a santa paciência! — tive de resmungar para que toda a impaciência escapasse e me deixasse menos estressado — Escolhe alguma porcaria que vá te dar vontade de comê-la, então! — abri os olhos e apontei para a pilha de cores e tecidos que estavam em cima da cama enquanto McKinnon e Meadowes experimentavam algumas peças para mostrá-las.

— SIRIUS BLACK! — como James conseguia ser tão hipócrita? Até parece que podia me repreender com usar essas palavras! Não era o que ele fazia com ela? — Não é bem assim que as coisas são! Eu não posso escolher algo sensual para Lily! Você sabe que ela tem vergonha de ficar mostrando o corpo. — ajeitou os óculos enquanto eu ria da informação.

— Pelo amor de Deus, Prongs! Ela não é mais a menininha de dezessete anos que você chamou para ir à Hogsmeade! Já é uma mulher de dezenove anos. Aliás, foi você quem a tornou mulher, então pare de tentar santificá-la! — fiz cara de entediado e suspirei.

— Olha, você pode descer e me esperar na sala, se está tão incomodado aqui em cima. Garanto que Elle terá o prazer de fazer companhia a uma pessoa de tão bom humor. — fez cara de indignado e mostrou-me a saída com a cabeça, voltando para perto de Dorcas e Marlene e suas incansáveis exclamações excitadas para os vestidos. Encarei Pettigrew, perdido em olhares para Meadowes e seus beijos passados. Coitado... Deveria ser um golpe muito grande vê-la noiva de Bones. Ainda bem que, segundo os boatos das cartas de Lily, o meu pequeno roedor estava engatando um romance com Jorkins. Suspirei, retirando-me do aposento já que não era mais bem-vindo. Eu não sei nem por que fui chamado para começo de conversa, mas tudo bem. Não foi um tempo totalmente perdido.

— Precisamos conversar. — parei de descer os degraus, contando-os enquanto perdiam-se sob mim. Levantei a cabeça para seu rosto próximo e pude ver que estivera me esperando ali todo o tempo. Umedeci os lábios a procura de uma saída, mas suas mãos se fecharam em meus punhos e guiaram-me para a porta mais próxima — o escritório que incontáveis vezes agarrei Meadowes em suas festinhas de aniversário. Não tive tempo nem de respirar, porque ela ta estava nos trancando.

— É verdade aquilo que você disse? — ela quis saber, mas não teria uma resposta. Eu não falaria nada, porque eu não queria estar preso com Warhols em lugar algum, muito menos para conversar sobre coisas estúpidas que tinham saído de minha boca meia hora atrás. Não, ela não arrancaria nada de mim. Absolutamente nada. E, se insistisse muito, eu poderia pedir socorro — marica! — aos estilistas próximos. Pronto, já estava com tudo organizado, agora era só tirá-la de perto da porta, rodar a chave e aparatar para o bordel que Potter jamais deveria ter me tirado. Jamais.

— Sirius... — OPA, PERIGO! Ela estava se aproximando de mim! Muito perto! MUITO PERTO! MUITO, MUITO, MUITO PERTO!

— Elle... — eu a empurrei para o lado e alcancei a porta. UFA!

Mas em poucos segundos para não dizer milésimos de segundos ela me virou para fitá-la, prensando-me contra a madeira fria e grossa da porta. E eu não tive mais o que fazer senão correspondê-la com o mesmo ardor.

— Acho que ficarei com este preto mesmo, Lene. — procurei qualquer defeito no tecido, chequei a costura e os detalhes do bordado manual. Parecia-me tudo perfeito e pronto para ser usado por uma mulher magnífica. O sorriso de satisfação foi inevitável enquanto virava-me para encarar os amigos — O que acham? — deparei-me apenas com Peter, o qual se encontrava recostado na parede com os braços cruzados e a cabeça meio pendida enquanto tentava tirar um cochilo desconfortavelmente.

— Hã? — foi o que ele respondeu, fazendo revirar os olhos e suspirar.

— Padfoot não pôde mesmo esperar, não é? — perguntei, entregando o vestido para Marlene e Dorcas encaixotá-lo da melhor maneira possível, tirando o preço e enlaçando-o com uma fita lilás. Elas aproveitaram para guardar o resto das roupas espalhadas — e para ficar com algumas que gostaram — que deveriam devolver para a loja. Aprumei meu corpo depois de uma espreguiçada para ajudá-las nesta árdua tarefa — afinal, quem mandou pegar tanto vestido assim? Mulheres não sabem mesmo simplificar! — junto de Peter, o qual foi obrigado pelas duas. Porém, duas mãos agarraram meu braço direito e um perfume peculiar invadiu minhas narinas quando sua dona cochichou ao pé do meu ouvido:

— Acho que o vestido ficaria mais elegante em mim. — arrepiei e tive de balançar negativamente a cabeça para não me deixar envolver por suas teias. Aranha charmosa do inferno! Fitei as costas de Marlene, mas ela estava ocupada demais conversando com Dorcas para me salvar. Peter era outro ocupado em driblar os afazeres ditados pelas garotas, então, estava por minha conta. E risco.

— Mary, eu acho é que você devia para com isso. — fui ríspido, embora não me importasse e tivesse certeza de que minha voz se partira na última palavra. Senti uma gota de suor frio passar pelo meu rosto como as lembranças de Mcdonald nas ruas roupas inusitadas em nossos encontros. Céus! Por que eu fui tão tolo em ceder aos meus caprichos hormonais? Por quê? Se eu tivesse me dedicado somente à ruiva, talvez não estivesse passando tanta dificuldade em conter meu lado maroto. Talvez eu já até estivesse casado e feliz, sem me preocupar com Mary nenhuma.

— Só vou desistir quando tiver uma aliança no dedo, James. Sabes disso. — depositou um beijo avassalador em meu pescoço. AS TEIAS, AS TEIAS! Ela queria a mim como uma mosca e as tecia sem parar. James Potter, não faça nada! Prongs, mantenha-se fora disto! Merlin ajude-me!

— Mary, por favor — implorei ao concertar os óculos sem necessidade — não comece! Estou numa missão importante, comprometido e...

— Minha principal missão é capturar você! — sorriu animalesca, agarrando-me e puxando-me para fora do quarto.


Colocou os brincos para ela, demorando suas mãos à última orelha, alisando seu longo pescoço até o colar. Respirava profundamente enquanto sentia o sangue correr, a mão direita acima de uma veia — ou artéria, ele não saberia dizer —, e, com a esquerda, acompanhava o balançar sutil de seu quadril até o espelho: ficaram estupefatos com tal resultado. Suas cópias traziam as conseqüências do assombro; a boca semi-aberta era o que mais ressaltava a expressão da mulher, apimentada de desagrado. Mas seus olhos deliciavam-se no conjunto como um todo; rosto, cabelo e corpo de ambos — ambos, o casal. O vestido, por mais comportado que fosse, caiu-lhe perfeitamente à pele marmórea, marcando as curvas voluptuosas salpicadas de colônia. Os cabelos caindo em graciosos e largos cachos, até a altura da cintura, fizeram-lhe perder o fôlego, bem como os adornos eram capazes de eternizá-la naquela moldura — junto dele. O brilho bruxuleante do desejo por uma realidade alternativa em seu anil — inapagável ao fulgor das jóias —, jamais seria contido, contra todas as recomendações que tivera daqueles que encontrariam. Afinal, era a essência dele que estava atrelada por completo à obra-prima que visualizava: pertencia-o. Arrepiou-se ao pensar nisso, demonstrando a desmedida insanidade mascarada por sorrisos. E estes apareceriam quando chegassem ao restaurante — um vinco de cólera perpassou sua testa enquanto a mão esquerda dele continuava presa à sua cintura, agora a guiando para fora do saguão majestoso.

O carro era preto, lustroso e impecável em sua totalidade. Servia-se de um motorista de meia idade, bem vestido para não estragar a composição luxuosa. Este abriu a porta para que a senhora deslizasse e se acomodasse dentro do veículo, sendo seguida sem mais delongas pelo acompanhante invejável daquela noite — e de muitas outras. Não abriram as janelas, tampouco se distraíram um com a voz do outro: nada poderia ser mais indicado que o silêncio persistente entre eles. Suas expressões fortes, determinadas e idênticas — por pura ironia é que combinavam — não davam outro ar que não o aristocrático. Talvez de melancolia e rancor, mas para estes sentimentos nenhum dos dois foram treinados. Havia apenas, e isso sem questionamentos, o acordo mútuo, a conveniência e a ilusão. Não importava quantas árvores, ruas, carros ou casas fossem deixados pelo caminho, chegar ao destino proposto era a única razão de o ser. E eles eram — monumentos de astros vagos pelo espaço infindável e baço do ego. E a viagem até o restaurante de ares parisienses foi curta, tanto que eles não puderam usufruir mais solidão que a habitual. O chofer fez seu trabalho mais uma vez, permitindo que o casal passasse e pudesse ser visto pela clientela imóvel. Vários prenderam a respiração — fúteis muggles, tolos humanos. Deslumbraram-se com o charme e afeto inegável que o rapaz, de pouco mais de vinte e um anos, voltou-se para sua acompanhante:

— Diga-me, querida, vais beber esta noite? — um sorriso cordial e tímido surgiu nos lábios rubros pelo batom, sua mão direita foi tomada com graciosidade e apertou aquela que a tomava com despretensioso carinho enquanto os passos eram pedidos por seu guia.

— Apenas se o senhor desejar, querido. — foi a resposta educada que saiu de seu âmago ferino antes de visualizar o casal idoso que os aguardava na melhor mesa. O puro diamante em seu dedo faiscou e as palavras gravadas ao redor do anel queimaram-na: Para todo o sempre minha. R.L.


Nota da autora: Obrigada pelas reviews, de verdade. Espero que continuem lendo e mandando, porque responderei a todas quanto a história acabar (por ter mais tempo e tudo o mais). Obrigada mesmo!