Obsessão Assassina
Você me atormenta
Morte. Simplesmente morte.
Essa palavra a seguia em todos os cantos, por todo o momento, em qualquer circunstância. Não sabia a razão de estar sendo perseguida, não se lembrava de ter ofendido tanto a alguém para que causasse tal desconforto e, talvez, reviravolta em sua vida.
Os seus sentimentos misturavam-se em um nó, um bolo, que causa muitas lágrimas, soluços e arranhões em seu travesseiro nas noites longas e frias, quando o quarto escuro era seu único consolo para sua insônia.
No dia seguinte teria uma realidade para enfrentar: Um mês de morte dos seus pais, do seu irmão, de sua amiga. Naquela época, fazia-se 'comemorações' para a morte das pessoas. "Atitude infeliz...", pensou ela quando soube.
Suspirou, cansada de tentar lutar contra seu futon. Levantou-se e cobriu os ombros nus com o traje de dormir. Depois, dirigiu-se para a porta e abriu-a com cuidado, para que não fizesse ruído.
A madrugada era alta e não demoraria a que o sol nascesse. Não era seguro caminhar pela casa, sabendo que o seu tio fora assassinado na noite em que chegara, mas estava inquieta. Seus sentidos, agora mais alertas, captaram uma presença furtiva, cautelosa e observadora nos arredores e precisava verificar por si mesma.
Somente ela tinha seu segredo. Seu rosto inexpressivo, jovem, masculino e frio. Os olhos dourados, expressivos demais, deveras desconcertantes. Algumas vezes, em momentos onde, sozinha, estava refletindo, questionava-se várias vezes, nunca encontrando a resposta: Por que ele poupara a sua vida ao invés de tirá-la como fez com os seus familiares?
De súbito, ouviu um movimento que parecia ser roupas, sutil aos ouvidos destreinados. Abaixou atrás do pequeno muro antes da entrada principal e, esgueirando-se para o lado, conseguiu captar um vulto rápido movendo-se para a floresta próxima.
Quando sumiu, Kagome correu do modo mais rápido e mais silencioso que podia até a floresta e parou, escondendo-se atrás de uma cerejeira. De l�, uma silhueta feminina pôde ser vista. Ela despia-se do disfarce negro e os contornos voluptuosos destacavam-se com a luz da lua prateada.
Fechou os olhos por um momento e, quando tornou a abri-los, sentiu o conhecido frio de uma lâmina contra seu pescoço.
"Quem é você?" A mulher não se importava com a sua nudez. O seu rosto coberto pela máscara era o suficiente para preservar sua identidade. No entanto, Kagome não deixou de reparar uma grande cicatriz que começava no seio direito e fazia uma linha diagonal, até abaixo do seio esquerdo.
"Alguém que te seguiu." Mordeu o lábio inferior enquanto a kunai apertava a sua carne, fazendo uma pequena linha escarlate descer, manchando suas vestes.
"Não diga." Sua voz era carregada de sarcasmo." E esse 'alguém' tem nome ou morrerá sendo uma incógnita?".
"Para que me identificar se o fim será o mesmo?" Deu ombros e sentiu a força que a pressionava contra a árvore sumir. Por suas pernas estarem moles, caiu sentada no chão. "O que foi?"
"Não vale a pena sujar minhas mãos com seu sangue." Afastou-se e vestiu trajes de camponesa. "Agora saia! Desapareça."
"Não vá mais vigiar minha casa, ou serei obrigada a segui-la novamente." Kagome avisou antes de conseguir levantar-se, apoiada na árvore.
"Se eu fosse você, não faria isso." A máscara caiu, porém ela estava de costas. Deixou os cabelos longos e negros caírem até os quadris e começou a andar para a direção do breu da floresta.
oooooooo
"O que conseguiu descobrir?"
"Muito pouco..." Ela suspirou e abraçou os joelhos. "A garota me viu quando eu estava investigando o segundo cômodo."
"Inútil." Estreitou os olhos e feriu a face esquerda com um sonoro tapa. Pela força do golpe, ela desequilibrou-se e caiu no chão. "Sabe o significado da palavra cautela?"
"Ela está alerta a todo o momento! Não tenho culpa se você deixou-se revel..."
"Cale-se, Kikyou." Fechou os olhos e encostou-se à parede próxima. "Sua voz está me irritando."
"Mas eu não..."
"Vai ser punida." Sorriu maleficamente e aproximou-se lentamente, como um felino dançando para o ataque de sua presa.
"Não!"
O pânico tomou conta dos olhos castanhos. Com as pernas bambas, arrastou-se para longe, fazendo uma cômica imitação de um caranguejo até sentir as costas e a cabeça encostarem-se à parede próxima.
Sorriu, divertido. Sua campânula era tão interessante quando estava com medo! Ajoelhou-se à sua frente e puxou a cintura fina, fazendo o corpo curvilíneo colidir contra o seu. Arranhou de leve o local e o sorriso malicioso surgiu em seus lábios com o estremecimento.
Ela tem medo, mas se excita. Pensou, quase extasiado. Os lábios cobriram os dela em um beijo lascivo, cuidadoso para romper a carne macia e sentir o sangue quente e doce em sua língua, enquanto passava-a pelo ferimento.
Junto ao beijo, sentia a relutância em se entregar novamente, o medo de ferir seu coração outra vez, a revolta de estar sendo usada e ter conhecimento disso... E, como era habitual nesses beijos, o gosto salgado de lágrimas vinha aos seus lábios junto ao sangue metálico e então se apartou.
Olhou nos olhos castanhos, achocolatados. Fitou a face melancólica e branca, ligeiramente avermelhada pelas lágrimas que escorriam pelo rosto feminino. Os cabelos emolduravam, dando o aspecto de um anjo imaculado, triste e perdido.
"Você cometeu um grande erro, Kikyou..."
Podia quase sentir algo estranho dentro do peito doer. Ela sabia o que iria ouvir. Ele já cansara de dizer, e, por mais que tentasse colocar isso em seu coração, não conseguia. E odiá-lo? Impossível. Conhecia bem demais a hipnótica dança daqueles olhos dourados.
"Ter se apaixonado por mim."
oooooooo
Dias, semanas passavam.
Ao mesmo tempo em que a segurança de seu novo lar e a alegria de ter seus parentes por perto a animava, a constante ameaça pairava em sua cabeça. Hoje estou viva, mas amanhã posso não estar. Pensava todas as vezes que os raios de sol penetravam sua janela e o poente fazia o seu quarto mergulhar no breu.
Era repetitivo e enfadonho. Algumas vezes, imaginava se não seria mais fácil aquele homem acabar com tudo de uma vez. Outras vezes, se sentia tentada em descobrir se havia algum lado que ele quisesse proteger por trás daquela máscara fria e sedutora a qual se cobria.
Um gelado arrepio passou pela sua espinha e podia sentir os lábios formigarem com o beijo que ele lhe dera contra a coluna, os olhares cruzando-se hipnoticamente momentos antes... Fechou os olhos e viu a cena repetir-se em flashback na sua mente. E tentava prossegui-la em sua fantasia juvenil.
Ele tocaria sua cintura e acariciaria a sua nuca, com os beijos percorrendo sua face até o pescoço, naquele ponto onde sentia uma estranha sensação de cócegas. Então, ele colocaria a mão em seu rosto e limparia uma lágrima que teria escorrido e sussurraria algo doce, fazendo-a corar e...
"Kagome!"
A garota pulou de susto e furou o dedo. Estava tão imersa em seus pensamentos que tinha esquecido do bordado de seu vestido. Virou-se para o primo sorridente com uma expressão já extrovertida, fitando-o com tranqüilidade.
"Não é educado interromper quando as pessoas estão divagando."
"Não é educado você chamar alguém, e esse alguém não responder porque estava pensando em algo que, talvez, seja até impróprio para a sua idade!"
"Ora, Miroku!" Ela corou furiosamente e abaixou os olhos até as mãos, cruzadas sob o colo e ignorou o riso do primo. "Não me constranja desse jeito."
"Desculpe." Ele sorriu. "Apenas estou aqui para lhe avisar de uma reunião política."
"Reunião política é?" Kagome arqueou as sobrancelhas, interessada.
"Sim. Agora, termine seu bordado e vá para seu quarto. Não é seguro ficar do lado de fora da casa quando estamos em época de crise."
"Não estou ciente da situação..." Ela levantou o queixo, questionadora. Estava acostumada que o pai conversasse com ela sobre política.
"Mulheres só precisam saber da crise quando afetam nos afazeres domésticos." O rapaz inclinou-se e beijou sua testa. "Não se demore."
"Tudo bem..."
Suspirou, irritada. Detestava ser submissa, ouvir ordens e ver-se completamente inútil diante de uma situação em que ela talvez fosse o elemento da crise.
ooooooo
Entrou no seu quarto com passos silenciosos e sentou-se de frente a penteadeira. O reflexo mostrava uma mulher de posses, arrumada para uma recepção. Os lábios e as maçãs do rosto estavam destacados com um pouco de rouge. A roupa era de seda, delicada, macia, com pinturas à mão. Os cabelos perfeitamente alinhados em um coque elaborado, com flores e grampos.
No entanto, para o observador nato, poderia ver que debaixo da camada fina do pó havia uma trilha de lágrimas secas. Os lábios vermelhos eram comprimidos por palavras que não ousava pronunciar. As madeixas tão perfeitas contrastavam com a inquietude dos orbes castanhos.
"Detalhes." Murmurou.
Ouviu batidas suaves na porta e não precisou adivinhar quem era. Sorriu da melhor maneira que pôde e fora treinada, fazendo as faces e os olhos iluminarem-se com a energia falsa que precisava ter.
"Pode entrar."
"Está perfeita... " Sorriu satisfeito e levantou um pouco mais o queixo. "Prefiro seus cabelos soltos... Mas esse penteado é digno de sua posição."
"Até que horas ser�?"
"Não demorará muito. Você sabe o que fazer, não sabe?"
"Cuidaram muito bem de mim para que eu não esquecesse." Não conseguiu reprimir o amargor de sua voz. As costas ainda ardiam dos golpes finos que recebera.
"Boa menina. Abra o vestido."
Kikyou suspirou novamente e desfez o complicado laço que mantinha a veste presa, abrindo-se exatamente ao meio. Na faixa que mantinha os seios presos, o homem encaixou uma delicada faca coberta por um pano fino, para que não a machucasse. Depois, um potinho com um pó misterioso também foi posto.
"Pode fechar. Lembre que é apenas salpicar o pó na bebida."
"Como quiser."
O homem ajeitou a própria roupa e sorriu novamente. Tudo estava de acordo com seus planos. Ofereceu o braço a Kikyou e os dois foram para a carruagem.
oooooooo
(Escondida entre as sombras usando pseudônimos e heterônimos) Olá gente!
Faz uns... Quantos meses mesmo? Dois? Três? Não importa, está aqui! Finalmente!
Eu ia por mais duas coisinhas, mas preferi deixar no suspense do que vai acontecer depois... O vestibular está quase aí, no fim do ano, e estou estudando consideravelmente bastante... Então se eu sumir a culpa é da USP, ta?
Espero que esse capítulo esteja bom e apesar de eu não ter revisado direito, é a minha falta de tempo, sempre...
Quero agradecer as reviews... Esse capítulo foi todo escrito da minha cabeça e boa parte da população não leu muitas partes do final, só o começo! Aviso que não vou mais responder aos reviews a não ser perguntas (Vistas no próximo capítulo) porque estou sem tempo... (Sorri sem graça)
A você, caro leitor, cabe o papel de julgar se ele é digno de um review ou não.
Beijos!
Lally
