Capítulo 3
Rita/Lois cochilava nos braços de Zach/Clark deitada à cama do desajeitado e bagunçado apartamento por ele alugado e que ficava no andar de cima do Talon Cove, vestindo apenas um sexy teddy em seda e com detalhes em renda, quando, subiamente, sentiu-o mover-se gentilmente para não acordá-la.
"Hum..." resmungou ela, ao que ele então se inclinou para beijá-la nos lábios e Rita/Lois envolveu seus braços em torno do pescoço dele para retribuir o beijo.
Zach/Clark então sorriu e se levantou, enquanto vestia os suspensórios mesmo sobre a camisa sem mangas para caminhar pelo quarto e ela apenas o observava.
Depois de algumas semanas, os pensamentos de Rita/Lois ainda eram turbulentos, e silenciosamente, ela sofria a dor de trair um marido bom e gentil como Jerry, ainda que sempre quando encontrasse com Zach/Clark em seu apartamento, a intenção era que aquele fosse o último encontro dos dois. Todas essas vezes, no entanto, impulsionada por algo muito mais forte, ela se via compelida de fazê-lo. E quando conseguia reunir forças suficientes para ao menos dizer ao amante, ao término de seus encontros, que não poderia mais vê-lo, um simples beijo e um abraço gentil e ao mesmo tempo repleto de desejo do homem que a mostrou pela primeira vez o que era amor, ela acabava cedendo, certa de que ainda lhe era permitido viver aquele sentimento que a tornava feliz e realizada.
E foi assim que Rita/Lois assumiu seu caso extraconjugal, mascarando cada momento com Zach/Clark como se fosse o último...
Mas ao contrário dos outros dias em que os dois discretamente se encontravam para suas tardes de amor, geralmente após os ensaios e quando Jerry saía para suas reuniões de negócios, Rita/Lois notou um certo distanciamento da parte do amante. Era como se ele estivesse triste, ainda que ela jamais o tivesse visto triste. E era como se ele soubesse que estava próximo o dia em que não poderia mais tê-la por causa de Jerry.
"Zach?" chamou ela, ajeitando-se na cama para vê-lo do outro lado do quarto, enquanto ele se encostava à janela para admirá-la.
"Poderia ser perfeito" disse ele.
Rita/Lois sabia do que ele estava falando, e aquele era um assunto cada vez mais comum entre os dois logo após suas tardes de amor. Mas ela não podia deixar ele continuar com aquela conversa. Levantou-se, e começou a se vestir, enquanto ele continuava a observá-la.
"É melhor eu ir..." disse. "Jerry está me esperando"
Zach/Clark se aproximou, ignorando o que ela disse.
"Você não quer ir" provocou ele.
O coração de Rita/Lois começou a bater mais forte, pois já não conseguia negar o fato de que aquilo era verdade.
"Mas eu devo" devolveu ela, tentando ignorá-lo, enquanto continuava a se vestir.
Próximo o bastante de Rita/Lois para deslizar seus dedos por sua face macia e rosada, Zach/Clark sorriu, e ela apenas levantou os olhos para encará-lo. E como era difícil para ela encará-lo nos olhos naqueles momentos, pois quando o fazia, era como se houvesse novamente aquela certeza do que queria na vida, e que era justamente esquecer o mundo ao redor deles, deixar tudo para trás e viver feliz ao lado do homem que amava. Mas não podia ter aquela certeza. Era errado. Havia Jerry. E seu coração angustiava a dor de um amor cada vez mais impossível...
"Não podemos continuar com isso... essa é a verdade" disse ela, como todas as outras vezes em que se despediam, fechando os olhos, reunindo forças para não se mostrar abalada, por mais que já o estivesse, e por mais que soubesse que ele a impediria e que ela cederia. E cada vez mais Rita/Lois não compreendia como Zach/Clark era capaz de fazer aquilo com ela. Durante toda sua vida nada a impediu de fazer o que queria. Mas quando estava com ele, era como se lhe faltasse o controle de seus atos, deixando-se levar por sentimentos intensos e que a deixavam tão vulnerável.
Zach/Clark sorriu, e a envolveu num abraço que a fez retomar a certeza de que seu lugar era ali, nos seus braços, os únicos fortes o bastante para mantê-la. E Rita/Lois suspirou enquanto sentia as mãos robustas do jovem amante roçarem por seu corpo e despirem-na novamente, de forma lenta e gentil, na medida em que ele lhe sussurrava próximo à orelha, fazendo-a entorpecer, não apenas pelo contato de sua pele com o corpo forte e musculoso de Zach/Clark, como pelo calor e a vibração de sua voz:
"Seu lugar é aqui, Rita... ao meu lado. Não negue isso a si mesma..."
E ela se permitiu que ele a deitasse gentilmente na cama, inclinando-se sobre ela para cobri-la de beijos apaixonados. Rita/Lois não desejou estar em outro lugar no mundo que não fosse ali, no calor dos beijos e dos braços do amor da sua vida. E enquanto se entregavam novamente à paixão avassaladora que os consumia e os tornava um, Zach/Clark sussurrou-lhe:
"Depois da apresentação... leve-o para a rua dos fundos"
Rita/Lois gemia enquanto o amante beijava-lhe o pescoço e suas mãos inquietas revelavam cada vez mais seu corpo por debaixo das vestes.
"Vamos resolver isso... de uma vez por todas" continuou ele.
"Não quero... magoar Jerry" murmurou Rita/Lois quase sem forças.
"Vamos ficar juntos..." disse ele, beijando-a intercaladamente nos lábios. "Nada vai nos separar"
"Ele não vai... entender" murmurou ela, em resposta.
"Sim... ele vai" devolveu Zach/Clark sorrindo, para após beijá-la apaixonadamente nos lábios, e de tal forma que Rita/Lois não hesitou nem um pouco a novamente entregar-se àquele sentimento tão puro e espontâneo, e que não apenas a tornava a mulher mais feliz e completa do mundo, como também a fazia se sentir isenta de qualquer culpa.
Naquela noite, pouco antes da apresentação, Rita/Lois estava sentada em frente ao toucador em seu camarim, parada, silente, apenas olhando seu reflexo no espelho, com pensamentos e sentimentos cada vez mais conflitivos, quando surgiu à porta Ethel/Chloe, uma das dançarinas do espetáculo anterior ao seu, e uma das poucas amigas que tinha naquela cidade.
"Rita... estão todos esperando por você" disse, ao notar então que alguma coisa se abatia sobre ela. "Algum problema?" perguntou, preocupada, aproximando-se.
Rita/Lois suspirou e sorriu um sorriso amargo. Por mais que quisesse compartilhar com Ethel/Chloe a peça que o destino que pregara ao colocar em sua vida aquele que a fazia perder completamente a noção do certo e do errado, sabia que não podia fazê-lo. Era constrangedor e embaraçoso para ela, uma mulher sempre ponderada e razoável, não saber como lidar com aquela situação, por mais que estivesse ciente de que aquilo que sentia por Zach/Clark estava além de sua compreensão, e que ela precisava desesperadamente fazer alguma coisa.
"Estou bem, Ethel" disse, refletindo o quanto aquilo de fato era verdade, já que nunca estivera tão feliz em toda sua vida.
Por mais que soubesse que alguma coisa afligia Rita/Lois, a dançarina sorriu:
"Nesse caso... não demore muito" disse.
"Certo... eu já vou" devolveu ela, olhando novamente seu reflexo no espelho.
Ethel/Chloe deixou o camarim, e logo em seguida, Rita/Lois notou Zach/Clark parado à porta. Seu coração bateu mais forte e ela não teve dúvidas de que aquele era o momento para fazer o que era o certo, por mais que seu coração relutasse.
"Não podemos continuar" disse ela, levantando-se e virando-se para vê-lo.
"Como?" devolveu ele, aproximando-se.
"Oh Zach... essas foram as melhores semanas da minha vida" e quando ele sorriu e se aproximou gentilmente para tocar seu rosto, ela completou: "Também foram as piores"
"O quê quer dizer com isso?" indagou ele, com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
"O que estamos fazendo é tão errado..." continuou ela, tentando não olhá-lo nos olhos.
"Achei que já tinhamos conversado sobre isso"
"Não posso mais. Não quero magoar Jerry..."
"Não precisamos" disse Zach/Clark subitamente.
"O quê quer dizer?" devolveu ela, perplexa.
Zach/Clark nada disse, e ela apenas balançou a cabeça negativamente, como se não acreditasse no que seus pensamentos sugeriam...
"Não pode estar falando sério..." protestou, confusa e atordoada.
"Tem um jeito melhor?"
Perplexa, Rita/Lois não sabia o que dizer.
Foi então que Jerry surgiu à porta, logo atrás de Zach/Clark.
"Rita, meu bem... você está pronta?" perguntou, e olhando para Zach/Clark com um sorriso. "Olá, Zach"
"Jerry" devolveu o trompetista com um sorriso, ao que Rita/Lois sorriu um sorriso nervoso.
"Estávamos conversando Rita e eu... sobre ensaiarmos um pouco mais antes das apresentações"
"Parece uma excelente idéia" apontou Jerry, como se estivesse surpreso com a iniciativa do músico. "Quem dera todos fossem esforçados como você, rapaz"
Zach/Clark sorriu um sorriso malicioso e olhou novamente para Rita/Lois:
"Mas a Sra Adams é a grande estrela do show... o mínimo que devemos fazer é corresponder à altura"
Jerry sorriu, como se concordasse, e ponderou, olhando para a mulher:
"Bom, quanto a isso não tenho dúvidas, mas devo admitir que a performance de Rita está melhor que de costume nessas últimas semanas... não é mesmo, meu bem?"
"É... também notei" concordou Zach/Clark, fitando-a com um olhar sedutor.
"Deve ser por causa dos ensaios" justificou Rita/Lois mais do que depressa, desviando o olhar do dele e tentando desesperadamente esconder o fato de que ela e Zach/Clark sabiam bem que a inspiração vinha de outro lugar que não dos ensaios.
"Nesse caso, sou totalmente favorável a mais ensaios" concordou Jerry, sorrindo.
"Não acho que sejam apenas os ensaios" discordou Zach/Clark, momento em que Rita/Lois o fitou, surpresa, e não muito certa do que ele pretendia.
"Não acha?" devolveu Jerry, encarando-o, também surpreso.
E antes que Rita/Lois interviesse, o trompetista completou, olhando para ela:
"Quando uma coisa tem que ser, ela é... e nada pode mudar o que já está definido"
Jerry sorriu, e também olhou para a esposa, certo de que Zach/Clark referia-se ao fato dela ser uma cantora nata.
Rita/Lois, no entanto, não conseguia esconder o quanto estava incomodada com aquela situação.
"Bom, rapazes, o que acham de esperarem lá fora agora? Eu ainda tenho que terminar de me aprontar" disse ela. "Afinal de contas, estamos quase na hora, não é mesmo?" completou, arqueando as sobrancelhas e sorrindo.
"Acredita no destino, Jerry?" perguntou Zach/Clark, ignorando completamente a investida de Rita/Lois.
Jerry enfiou as mãos nos bolsos e sorriu, dando de ombros.
"Sim, claro" respondeu, com firmeza.
O jovem trompetista sorriu e olhou novamente para Rita/Lois:
"Eu também"
Jerry sorriu, balançando a cabeça, como se achasse que ainda falavam do fato da esposa ser uma grande cantora.
"Bom... é melhor eu também me aprontar" disse.
Quando Zach/Clark saiu, Jerry fitou sua mulher, e sorriu:
"Não sei como não gostava dele. É um bom sujeito"
Rita/Lois desviu o olhar. Não conseguia mais olhar o marido nos olhos. Sentia medo, vergonha e tristeza.
Depois da apresentação daquela noite, quando todos os frequentadores e funcionários já tinham ido embora e estavam somente Jerry e Rita/Lois no Talon Cove, o marido pegava seu casaco no escritório e apagava todas as luzes enquanto Rita/Lois, nervosa e apreensiva, esperava-o próximo do bar.
"Muito bem. Acho que é isso por hoje. Vamos, meu bem" disse Jerry, com um sorriso, aproximando-se dela e estendendo-lhe a mão, enquanto caminhava em direção à porta da frente.
"Oh... Jerry, querido, o chofer pediu que o encontrássemos na rua dos fundos" disse ela.
"Na rua dos fundos?" indagou ele, confuso.
"É... foi o que ele disse" respondeu ela.
"Tudo bem, então. Se ele disse"
Os dois caminharam até os fundos do clube, e antes que o marido abrisse a porta, Rita/Lois o segurou pelo braço.
Surpreso, Jerry se virou para vê-la, e sorriu, confuso.
"Algum problema, meu bem?"
"Oh Jerry..." e ela o abraçou afetuosamente.
Ele a desvencilhou gentilmente e novamente sorriu, como se não entendesse aquele gesto inesperado.
Foi então que Jerry abriu a porta, e mais do que depressa Rita/Lois desviou o olhar ao ver que Zach/Clark os espreitava do lado de fora como combinado. Ela não podia. Ela não queria ver o que estava prestes a acontecer. Virou-se completamente para dentro do clube e ficou de costas, cobrindo o rosto com ambas as mãos enquanto o marido se virou para vê-la, confuso. E Rita/Lois escutou tudo. Escutou Jerry perguntar o que estava acontecendo provavelmente ao ver o vulto emergido da escuridão do beco e o som do que parecia ser algo atingindo-o várias e várias vezes até faze-lo cair no chão molhado da rua sem saída, quando então não havia mais nada. Nenhum som. Apenas o silêncio.
Lentamente, Rita/Lois se virou com lágrimas nos olhos, e viu o marido estendido no chão numa poça de sangue. Levantou os olhos para encontrar os de Zach/Clark em meio a escuridão e ele apenas disse, segurando o trompete manchado de sangue:
"Agora é com você, boneca"
Zach/Clark saiu correndo e Rita/Lois gritou o mais alto que podia, e por muito tempo, quando então ouviu passos apressados vindos da frente do clube. Era o chofer do táxi que a levaria com o marido de volta a casa e alguém que passava na rua.
"Ah meu Deus!" exclamou um deles ao ver o corpo.
Rita/Lois cobria o rosto aos prantos e em absoluto desespero.
Na manhã seguinte, Rita/Lois estava sentada no sofá do seu apartamento com lágrimas nos olhos, enquanto Ethel/Chloe lhe servia algo para beber. Ela não havia dormido a noite toda. Seus pensamentos eram confusos. Ainda não podia acreditar no que havia acontecido. Abalada e abatida, ela sequer tinha forças para se levantar, quando então alguém bateu à porta e Ethel/Chloe abriu:
"Sra Adams" disse o detetive Dave Matthews tirando o chapéu para cumprimentá-la.
"Detetive" murmurou ela, enxugando as lágrimas num lenço.
"Desculpe vir numa hora inoportuna" continuou ele.
Rita/Lois nada disse, pois o medo e a apreensão se apossavam dela, e ele completou:
"Ainda estamos tentando encontrar o assaltante que matou seu marido. Por enquanto, não temos pistas concretas" e encarando-a nos olhos, perguntou: "Tem certeza de que não viu coisa alguma, Sra Adams? Sabe que qualquer detalhe pode ser imprescindivel, não é mesmo?"
Confusa, Rita/Lois olhou para Ethel/Chloe, que escutava tudo com atenção.
"Sim, eu sei. Mas foi tudo como eu disse, detetive. Íamos para os fundos onde meu marido disse que o motorista de táxi nos encontraria e voltei para dentro para buscar meu casaco enquanto Jerry saía pela porta. Não vi o que aconteceu. Escutei um barulho e corri para ver o que era, mas quando cheguei lá... era tarde demais"
O detetive ficou em silêncio enquanto a analisava.
"Só mais uma pergunta, Sra Adams..."
Rita/Lois o encarou, enquanto o escutava com atenção.
"Além da adminisração do clube, sabe dizer se seu marido tinha ações e, quem sabe, uma apólice de seguro de vida?"
Ela enrugou a testa, confusa.
"Bom... creio que sim. Afinal, ele era um homem de negócios. Por quê?"
"Pergunta de rotina" respondeu ele. "Desculpe incomodá-la novamente com isso, Sra Adams. Sei perfeitamente que o momento não é apropriado" disse, colocando o chapéu enquanto Ethel/Chloe abria-lhe a porta. "Ah sim... só mais uma coisa" continuou.
"Sim, detetive?" perguntou ela, temerosa.
"Não acha estranho que o assaltante não levou coisa alguma?"
"Jerry não se daria por vencido nem mesmo num assalto, detetive. Tenho certeza que ele deve ter reagido para ser agredido daquela forma..." e lágrimas de desespero vieram novamente aos olhos de Rita/Lois.
"Claro" disse o detetive com um ar de suspeita. "Tenha um bom dia, Sra Adams" disse ele, finalmente, retirando-se logo em seguida.
Rita/Lois nada mais disse, enquanto Ethel/Chloe a olhava com tristeza, solidária à dor da perda da amiga.
Uma semana depois, Rita/Lois estava em seu camarim no Talon Cove. Depois de várias noites sem apresentações depois da morte de Jerry, sua dor ainda era intensa e a única coisa na qual pensava era rever Zach/Clark depois daqueles dias turbulentos e encontrar conforto e proteção nos braços do homem de sua vida, como se apenas o fato de estar ao seu lado pudesse acalentar todo o sofrimento que se abatia sobre ela. Afinal, dias e noites Rita/Lois chorava incessantemente, e travava uma batalha interna que a fazia cada vez mais se sentir culpada pela morte de um homem bom e decente e que um dia acreditou amar. Afogando sua angústia numa garrafa de vinho enquanto se preparava para a primeira apresentação depois do evento que mudou para sempre sua vida, a cantora se sentou em frente ao toucador e olhou seu reflexo no espelho. Era como se não se reconhecesse mais. Foi então que alguém bateu à porta.
"Sim?" perguntou ela. "Pode entrar" disse.
E o oficial Dave Matthews abriu a porta, acompanhado de mais dois policiais uniformizados, surpreendendo-a.
"Boa noite, Sra Adams" disse ele, entrando e tirando o chapéu.
"Boa noite" respondeu ela, virando-se para vê-lo, confusa e nervosa.
"Sabemos de tudo o que aconteceu na noite da morte do seu marido" continuou ele.
"Sabem?" indagou ela, tentando não demonstrar perplexidade.
"Não foi um assalto" explicou. "Foi homicídio premeditado"
Estarrecida, Rita/Lois não sabia o que dizer. Não havia como ele saber daquelas coisas, e sua maior preocupação era o que podia acontecer a Zach/Clark.
"A senhora planejou tudo... desde o começo quis se livrar do seu marido e usou um pobre coitado para fazer todo o serviço depois de seduzi-lo..." completou o detetive, ao que Rita/Lois ficou ainda mais confusa. "Seu cúmplice nos contou tudo" revelou.
Foi então que da escuridão do corredor do lado de fora do camarim Zach/Clark emergiu, deixando a jovem cantora ainda mais estarrecida.
"Desculpe, boneca... tive que contar como tudo aconteceu" disse ele.
O mundo de Rita/Lois então desabou. Ela não podia acreditar no que estava acontecendo. E enquanto era levada algemada para a viatura, debaixo de uma chuva torrencial, seus únicos pensamentos eram que ela havia sido enganada e traída pelo homem a quem entregou seu coração. Aquele amor avassalador havia de fato sido sua total perdição. Desde o início, quando o viu pela primeira vez. E ela sempre soube. Zach/Clark entrou de repente em sua vida, como um astro caído do céu. Conquistou-a e a conduziu por um caminho sem volta. Um caminho que ela sempre temeu trilhar. O da entrega total e incondicional. Do amor e da paixão. O homem bom, gentil e sedutor era, afinal, aquele que trouxe o caos à sua vida. E imaginou que se ao menos tivesse feito o que achava que era o certo... e que era ficar o mais longe possível dele. Mas não. Aquilo era muito mais forte do que ela. E mesmo sabendo que Zach/Clark seria sua total perdição, ela decidiu seguir aquele caminho, asumir os riscos para viver um grande amor, e depois ser enganada...
Lois acordou ofegante e transpirando em sua cama bagunçada e repleta de documentos e fotos do caso do assassinato no Talon Cove há mais de sessenta anos atrás. E suspirou ao ver que tudo afinal não havia passado de um sonho... na verdade, um pesadelo, corrigiu ela mentalmente. E algo dentro dela a inquietou. Foi então que Lois se virou para o lado da cama e viu o celular.
Clark dormia pesadamente, quando, subitamente, o telefone tocou ao lado da sua cama na Fazenda Kent. Mais do que depressa, imaginando que poderia se tratar de uma emergência no meio da noite, talvez da parte de Chloe, sua mãe que estava em Wikita, ou mesmo Lois, ele estendeu o braço, e atendeu, virando desajeitadamente o relógio para ver as horas e descobrir que eram quase três da manhã:
"Alô?" chamou ele.
"Eu disse que foi ele que a enganou!" exclamou Lois, revoltada, do outro lado da linha, desligando logo em seguida.
"Como?" mas quando ele perguntou, já era tarde. O telefone estava mudo.
Confuso, Clark se ajeitou na cama e ficou olhando para o aparelho de telefone. Foi então que decidiu ligar:
"Lois?" chamou, tão logo ela atendeu. Mas Lois nada disse e novamente desligou.
Perplexo, Clark riu, como se não acreditasse. Pensou em ligar novamente, mas conhecendo Lois como conhecia, achou que a reação seria a mesma. Colocou então o telefone de volta no gancho, e voltou a deitar, pensativo, imaginando se Lois ainda se referia ao caso do assassinato no Talon Cove. Como ela podia deduzir aquilo? Não havia provas. E o que havia demais se Zach tivesse sido seduzido e enganado por Rita ao invés dela ser a vítima na história toda? Clark sorriu enquanto ajeitava o travesseiro embaixo da cabeça. Nada no mundo, porém, faria Lois pensar o contrário. Afinal, ela era teimosa, cabeça-dura e capaz de qualquer coisa para ter o que queria. Estranhamente, ele gostava disso nela. A vida era engraçada ao fazer com que ele conhecesse alguém como Lois. A vida era mesmo muito engraçada...
E foram com pensamentos como aqueles que Clark mergulhou novamente num sono profundo...
Continua...
