Nota da Autora: Olá! Como sempre, não possuo The 100. Peço desculpas pela demora desse capítulo! Acabei escrevendo um e não gostei do resultado final então reescrevi o capítulo. Espero que gostem. Esse especialmente deve ser classificado como Angst. MAS não serão todos. Eu simplesmente gosto de me aprofundar nos sentimentos e emoções do personagens, além de lidar com o realismo das situações. Estava há muito tempo se escrever e por isso estava meio enferrujada. Vou adicionar outro no meio dessa semana para balancear com o domingo passado quando não tivemos novo capítulo. Como sempre, vale a pena ressaltar: aqui Clexa é Endgame, mas isso não quer dizer que será fácil ou simples. Outra coisa: Lexa aparecerá no próximo capítulo. O restante é segredo! Por fim: os títulos dos capítulos estão em Trigedasleng. Alguém já conseguiu descobrir o que significam? Comentários e críticas são sempre bem-vindos! Abraços! E boa leitura!

Publicado: 22 de Maio de 2016


THE BACKUP PLAN

STELT TRIKOVA

Capítulo 2

"I have died every day waiting for you

Darling, don't be afraid, I have loved you

For a thousand years

I'll love you for a thousand more"

(CHRISTINA PERRI, Thousand Years)


Anteriormente:

Mas o amor... ah, o amor. Era uma coisa diferente. Seus sentimentos por Lexa era diferente de todos que ela já sentiu. Não havia definição. Era uma mistura de sentimentos. Era um querer primal de conhecer tudo que fazia Lexa ser Lexa. Era saber os seus sonhos, seus medos, seus planos...era afagar seus cabelos e acalmá-la durante as noites ruins...era pensar que seu amor seria suficientemente grande e forte para protege-la dos pesadelos. Era saber sobre o que ela gostava de fazer e sobre o que não gostava. Era olhar para Lexa nunca se cansar. Era esquecer de si e viver por ela. Ah, o amor. O amor era algo que Clarke sempre leu nos livros, mas nunca tinha sentido na pele. Agora, já marcada pelo Cupido, Clarke sabia que o verdadeira amor não quer nada em troca, nem a presença. O verdadeiro amor não é egoísta e nunca desiste do amado. Sempre luta por ele, ou melhor, ela. E era com esse sentimento forte no coração, tão forte que fazia seu peito dor e a garganta dar um nó, que Clarke soube que ela faria de tudo para manter Lexa a salvo.

Se uma pequena parte do que ela queria mudar no futuro acontecesse, era muito provável que Lexa e ela não teriam tanto tempo assim para se conhecer e nutrir algum sentimento. Era provável que Lexa não desenvolvesse algo por ela. Mas, estranhamente, Clarke escolheria essa opção de olhos fechados se isso significasse que a morena ficasse a salvo. Com os olhos marejados, mas reunindo a coragem que Lexa sempre parecia ter, Clarke escolheu proteger seu povo. Escolheu guiar seu povo se forma a proteger o povo de Lexa. Buscando a paz. Mas forte o suficiente para saber quando não ser. Paz e justiça seriam o seu legado. Se Wanheda desse esse exemplo, talvez ajudasse Lexa. Por ela.

Sempre por ela.

Abrindo a porta, ela então entrou no andar 37 e começou a se preparar.


Estava frio. Chovia do lado de fora do apartamento de Clarke na Cidade da Luz. Ela já estava ali por quatro meses ou quatro horas no mundo físico. E apesar de ser um mundo virtual, a Cidade da Luz era capaz de copiar o passar dos dias, temperatura e estações. Ali, Clarke era capaz de ver o amanhecer e pôr-do-sol. Ali, Clarke era capaz de sentir a chuva em seu rosto e de sentir os raios de sol em seus olhos. Quente como sempre. O familiar brilho amarelado e capaz de cegar uma pessoa por alguns segundos. Ali, ela foi capaz de sentir as primeiras gélidas rajadas de vento que anunciaram a chegada do inverno. Clarke estava tomando um chocolate quente enquanto as gotas d´agua batiam no vidro de sua sala de estar. Aquele som monótono.

Tic. Toc.

Plinc. Plonc.

Gotículas de água se prendiam no vidro e do lado de dentro já era capaz de ver uma fina película de água no vidro fruto do contato da humidade de dentro de sua casa com o vidro gelado. Suspirando, Clarke via como sua respiração agora era visível...uma densa cortina de fumaça. Fazia frio. Como naqueles dias que ela ficou sozinha, vagando com seus fantasmas, após a tragédia que foi Mount Weather.

Ajeitando o seu denso casaco, Clarke então segurou sua caneca e bebeu mais um pouco de chocolate quente. As vezes era difícil pensar como a vida tinha mudado desde que ela saiu de Camp Jaha para se tornar Wanheda. Ou como sua vida tinha mudado desde que ela tinha sido presa e posta na solitária pela primeira vez. Durante a maior parte de sua vida, Clarke teve o que se poderia dizer como a ilusão de se ter o controle sobre sua vida. Na arca, a vida era programada e já se sabia como seriam os dias, os meses e os anos. Até a temperatura era basicamente a mesma na Arca. Nem frio. Nem quente. Às vezes havia algum problema, por exemplo, no sistema de reuso da água e eles ficavam com uma forte racionamento. Mas isso sempre foi passageiro. Logo, a rotina voltava na Arca. Então, Clarke teve essa ilusão de que ela tinha as rédeas de sua vida. De que ela podia determinar como sua vida seria, bastava planejar bastante.

Mas agora, com sua precoce maturidade, Clarke bebia seu chocolate quente e percebia que tudo era uma ilusão. Ninguém tem as rédeas da vida. Todas nascem sem pedir e se vão sem querer. E quando se pensa que se tem a certeza de algo, se percebe que não sabe nada. Há sempre algo novo para se descobrir. E a cada segundo os planos mudam ao sabor do vento. Ou ao sabor da chuva que cai do lado de fora. As prioridades mudam. E quando se vê, a pessoa não mais se conhece a si mesma. Está diferente. Se metamorfoseou em algo não esperado, não calculado, não planejado. A cada passo, algo novo como uma pedra que cai no rio para sempre o modificar. E era por isso que Clarke sabia que se ela quisesse a sua Lexa, no futuro, ela teria que agir da mesma forma que ela agiu antes.

Todavia, Clarke sabia que isso não era possível.

Como ela poderia viver sabendo sobre as mortes que aconteceriam? Wells...Charlotte...e tantas outras? Clarke não conseguiria viver consigo mesmo. Há muito tempo, Clarke escutou de Lexa que ela não deveria fugir de quem ela era. Agora ela entendia. Não havia como fugir desse destino. Pelo menos isso ela tinha certeza de que não conseguiria dormir a noite, sabendo que poderia ter feito algo para evitar a morte de alguém. E, ela também sabia, que a partir do momento que ela começasse a mudar suas ações no passado, o futuro se tornaria novamente um túnel escuro: de onde não se sabia para onde se estava indo e quando se chegaria.

Suspirando, Clarke pousou a caneca com seu chocolate quente na mesinha de centro de sua sala de estar e foi colocar mais tocos de madeira na lareira da sala.

Uma, duas, três toras de madeira.

Fagulhas surgiram do contado com as chamas e brasa do antigo fogo com as madeiras. Logo, as chamas começaram a consumir a madeira e Clarke sentiu a temperatura da sala se elevar. Olhando para as chamas, Clarke pensou novamente em Lexa.

Ela pensava muito em Lexa.

Sua Lexa. Com aqueles olhos verdes brilhantes e aquele sorriso tímido que era só para ela. Aquele leve rubor que acometia as maçãs do rosto de Lexa quando Clarke a fitava.

Sorrindo, Clarke bebeu uma pouco de chocolate quente. Ainda restou um pouco na caneca e segurou a caneca. Lexa sempre foi uma pessoa muito complexa. Com muitas camadas que intrigava Clarke. Ela não sabia aos certo quando a figura da morena comandante dos Grounders começou a intrigar tanto que Clarke começou a querer entender e a descobrir Lexa. Como um vício, Clarke não percebeu quando entrou, só foi capaz de perceber quando ela já estava nesse caminho sem volta. E o curso de sua vida novamente mudou e ela só percebeu a curva quando ela já tinha realizado a mesma e olhou para trás e viu a tamanha mudança. Quando em sua vida ela seria capaz de pensar de que ela iria para a Terra? Ou que na Terra havia sobreviventes das bombas? E que alguns desses sobreviventes tinham se organizado e eram governados por uma mulher morena guerreira de olhos verdes hipnotizantes e perfume amadeirado? Ou que ela iria se apaixonar por essa guerreira?

Clarke sempre gostou de ler. Os livros eram uma grande ocupação de seu tempo antes dela ser presa primeira vez. Leu muitas histórias sobre aventuras, sobre guerras e feitos heroicos. Leu sobre romances e sobre biografias. Até então não tinha entendido como um simples sentimento como o amor era capaz de mover montanhas e exércitos como na Odisséia. Mas Clarke sabia agora que sim, o amor era capaz de mudar o mais frio e mais gélido dos corações. Pois o amor era um enigma e sentimento de contrastes que aquecia o coração, deixava um frio na barriga, enchia de saudade e ansiosidade quando a sua outra metade não estava por perto, e iluminava o rosto das pessoas. Mais do que isso: nesse caminho nebuloso e solitário da vida, o amor era capaz de unir dois trajetos outrora tão distantes e fazer com que a pessoa tivesse a companhia de outra pessoa, minimizando a solidão e dando sentindo a vida. Não mais se vivia por si, mas por si e pela outra pessoa.

Clarke sabia que ela tinha encontrado sua Helena de Tróia. Não sabia ao certo se sua Helena de Tróia seria sua perdição ou se Arkadia teria o mesmo fim de Tróia. Clarke só sabia que Lexa dava sentido a sua vida e a fazia aguentar o frio congelante e a dor do fogo sobre a pele. Clarke respirava e esperava pelo momento em que ela seria capaz de fitar novamente sua musa, abraçá-la em seus braços, olhar em seus olhos verdes misteriosos e respirar profundamente na base de seu pescoço, onde o cheio de Lexa era tão Lexa. Uma mistura de orvalho e frescor da manhã com notas graves amadeiradas e nuances de suor de algum exercício físico que ela sempre fazia.

Era aquele velho ditado: só se dar valor as coisas quando se perde. E Clarke agora sentia na pele a verdade nua e crua desse ditado. Ela sentia saudades de Lexa. E seu amor só crescia a cada dia: quando ela vencia a uma vontade primal e carnal de sair do prédio da Biblioteca e procurar pelos quatro cantos da Cidade da Luz por sua amada como Ulisses procurava por Ítaca. Mas os cantos das sereias, apesar de perigosos, até agora, Clarke conseguia se prender no mastro que era o seu zelo pela vida de Lexa e continuava dentro dos limites da Biblioteca. Ela não podia sair da biblioteca pelo medo de que Alie pudesse a encontrar e destruir o último plano de salvar Lexa.

Suspirando, Clarke então foi até a porta de entrada de seu apartamento. Pegou um denso cachecol, luvas e um candeeiro com uma única vela. Acendeu a vela e abriu a porta de sua casa. Desceu pelas escadas e foi até o andar de Medicina.

Sem ter controle absoluto sobre seu futuro, Clarke só tinha um plano: se preparar da melhor forma possível. Assim, enquanto a fraca luz de sua vela iluminava seu caminho pelas escadas, ela pensou sobre sua familiar rotina que ela tinha conseguido implementar em quatro meses de vida na Cidade da Luz. Apesar de não sentir fome ou sono, Clarke quis mantes algo de familiar na rotinha de acordar, comer, estudar e dormir. Todo dia ela descia e ficava lendo. Ficava praticando na respectiva área onde ela aprendia mais sobre Medicina do que ela tinha aprendido com sua mãe. Havia muitos vídeos com aulas e debates sobre assuntos relacionados medicina. E aquelas vozes eram as únicas companhias para Clarke.

Bekka Pramheda ainda não havia voltado.

Chegando no andar de Medicina, Clarke se viu rodeada por longas e compridos corredores de estantes que iam até o teto. Suspirando, ela foi até uma sessão perto da entrada onde havia uma mesa com vários livros e uma base de metal no meio da mesa. Pousando a vela na mesa, Clarke acendeu algumas luzes e ligou a base de metal. Ali era um reprodutor de vídeos e Clarke passou a assistir mais uma aula de Medicina que tinha sido gravada décadas a trás. Pegando os livros e um grosso caderno, ela passou a fazer anotações e a estudar.

Ela não podia fazer senão se preparar.

E Clarke queria dormir naquela noite pensando que tinha feito o melhor que podia. As horas, dias e semanas se passaram assim. Cada dia era uma luta, uma luta consigo mesma pois havia dias em que Clarke queria sair correndo dali. Havia dias que ela ficava triste, embrulhada no cobertor no sofá da sala de estar. Havia dias em que ela nem levantava da cama e ficava fitando o teto. Pensando em Lexa.

Solidão.

Esse era a penitência de Clarke? No início, Clarke não sabia, mas agora achava que sim. Viver em duas prisões, em suas solitárias, não era como Clarke pensou que seria dessa vez. Mas estava sendo. E mais uma vez, Clarke só percebeu sua situação quando ela já estava nela e sem saída. Suspirando, Clarke juntou suas forças e foco para terminar o primeiro anos de Enfermagem e de Medicina antes de voltar para o mundo real.

Reabrindo os olhos, Clarke se viu novamente naquela cela fria e metálica que era sua outra prisão. Outra solitária. Mas, havia algo de diferente. Ali, sua dor era mais forte. E sua agonia a fez logo soltar uma muxoxo de dor e os olhos se encherem de lágrimas. Lexa. Ali, sua dor era tão forte que parecia que seu coração estava sendo perfurado e havia um nós inquebrável em sua garganta. Os olhos arderam e ela chorou silenciosamente por alguns instantes. Cobriu os olhos com as mãos e chorou ainda mais. Lexa.

Fungando e limpando as lágrimas que desciam pelo seu rosto, Clarke fitou a parede do outro lado. O que Lexa pensaria dela se a visse assim? Não, ela não iria gostar de vê-la assim, só ia causar mais dor para sua amada. Não. Clarke tinha que ser forte. Forte. Mas era tão difícil...Tão difícil. Clarke estava numa situação impensável. E não havia livros que a ajudassem a escolher a melhor decisão ou o melhor caminho. Ela estava num beco sem saída. E sem volta. Sozinha. Triste. E de luto.

Respirando fundo, Clarke ficou sentada em sua cama e pôs os pés no chão. Apesar de estar usando botas, o frio congelando de sua cela logo alcançou seus frios e dormentes pés. Ela tinha ficado dormindo por muito tempo, pensou Clarke. Seu corpo inteiro estava em um estado de dormência e dureza. Se sentindo levemente desconfortável, Clarke se levantou e andou até a porta de sua cela. Encostou o ouvido na porta e tentou escutar o que se passava do lado de fora.

Nada. Como sempre.

Nenhum som.

Como na primeira vez.

Suspirando, Clarke se virou e encostou as costas na fria placa de metal que fazia parte da porta. Olhando para o lado oposto, ela viu a grande janela de sua cela. Viu o espaço com suas estrelas. Viu a belíssima Terra com seus vastos oceanos azuis e pedaços de terras em amarelo e verde. Eles estavam passando pela Ásia no momento. Logo, eles chegariam a orbitar encima da América do Norte e em algum lugar daquelas terras estaria Lexa. Era uma visão incrível. Eles estavam passando exatamente na linha que dividia o fim do dia e o início da noite na Terra. Em qualquer outro momento ou em qualquer outro ponto da vida de Clarke, ela sentiria uma urgência em desenhar tal beleza. Mas sua musa agora era outra. Sua musa não era mais a natureza e as paisagens que ela tinha lido nos livros. Não. Sua musa agora tinha um nome. Era Lexa. E sua musa sangrava seu coração a cada momento que ela pensava nela.

Lexa estaria em algum lugar da Terra nesse momento.

Fazendo alguma coisa.

Estaria ela treinando com os Nightbloods? Estaria ela em alguma reunião com os embaixadores? Ou estaria ela recebendo mais uma lição de Titus? Clarke não sabia. Só sabia que a visão da Terra agora era mais um de seus fantasmas. Suspirando, Clarke fechou os punhos e resolveu, por hora, não desistir.

Deu um passo a frente. Outro passo. E mais um. E outro. E outro e por fim, outro. E outro. Sua cela tinha o comprimento de sete passos. Clarke tinha chegado no exato limite em que a ponta de seu nariz tocava o vidro da janela. Olhando para a Terra, com olhos cheios de dor, ela se virou e novamente caminhou os sete passos. Mas dessa vez contando.

-Um...dois...três...quatro...cinco...seis...sete. – disse.

E ela se virou e fez tudo de novo.

E de novo.

E de novo.

E de novo.

Mais um vez.

Outra vez.

-...cinco...seis..sete. – falava Clarke.

Caminhar sempre foi algo relaxante para Clarke e ajudava a pensar sobre os problemas e a digerir suas dores. Clarke não soube ao certo quantas voltas ela deu. Só soube que ela parou como suas pernas estavam cheias de câimbras e quando um dos guardas bateu três vezes na sua porta. Era o código que avisava que a comida estava posta do outro lado da porta. Suspirando, Clarke, foi até a porta e girou uma pequena manivela que fazia a bandeja do lado de fora entrar dentro da cela através de uma aba mecânica da porta. Clarke só conseguia girar se do lado de fora os guardas abrissem a manivela. Caso contrário ela sempre ficava emperrada.

Na bandeja havia uma tigela com uma sopa fria, um pão velho e uma água velha. Suspirando, Clarke comeu silenciosamente a sua comida. Bebeu sua água e deixou a bandeja com o prato e o copo em seus devidos lugares. Girou a manivela para colocar a bandeja do lado de fora. Sozinha e sentindo triste, Clarke agarrou o seu próprio tronco e foi se deitar na cama. Fitando o outro lado da cela, Clarke se perguntou quando esse pesadelo iria terminar.

Fechando os olhos, Clarke pensou em Lexa.

Clarke abriu os olhos. Alguns dias tinham se passado. E alguns anos tinham se passado na Cidade da Luz. Ela já havia terminado de estudar Enfermagem e Medicina e agora estava na sua sexta especialização além estar começando a estudar outras coisas como Herbalismo, Música, Botânica, Belas Artes e Farmácia. Seus sentimentos por Lexa não diminuíram nenhum pouco. Pelo contrário. Tornaram-se mais sólidos, como se estivessem se fundindo ao pouco com sua essência. Na Cidade da Luz, em momento sozinha, de noite, depois de um dia exaustivo de estudo e prática, Clarke se sentava na sala de estar e desenhava o rosto de Lexa com carvão. Pintava seus olhos verdes em telas. E escrevia poesias. Sempre tendo como musa, Lexa.

Mas os momentos na Arca ainda eram os piores.

Ao abrir os olhos, Clarke se via mais uma vez com seus fantasmas. Era como se nenhum minuto tivesse se passado desde que ela tinha ido para a Cidade da Luz. Ruídos. Mais ruídos. Gritos.

Clarke...

Clarke...Clarke...

Fazendo uma careta, Clarke fechou os olhos em desgosto. De uns tempos para cá, ela vinha perdendo momentos de solidão graças as vozes que ela escutava de vez em quanto. Muitas vezes, ela escutava sons. Vozes. Gritos. E algumas vezes ela escutava vozes chamando seu nome como agora. Ela detestava sua solidão. Mas ela não sabia o que era pior. Ter solidão ou escutar as vozes.

Clarke ainda escutou as vozes e sons por alguns minutos antes de voltar a escutar somente sua respiração. Cansada, ela reabriu os olhos e viu então o rosto de uma criança desfigurada de Mount Weather a meros cinco centímetros de seu rosto. Dando um grito, ela colou suas costas na parede fria, querendo dar distância da figura. Fechou os olhos com o susto. E abriu eles novamente. A figura tinha ido embora. Com o coração acelerado, Clarke respirou ofegantemente e viu como sua mão tremia.

O que estava acontecendo com ela?

Clarke estava tirando as luvas de plástico das mãos. Ela vinha treinando cirurgias nos últimos anos para as suas especializações em Cirurgia Torácica, Cardíaca, Vascular, Ortopédica e Geral. Desde o fatídico dia em que ela viu a criança desfigurada, esses casos só vinham aumentando no mundo físico. As vozes ficando mais claras. Clarke se lembrava muito bem da sua posição quando ela adormeceu no mundo físico. Agachada. No canto da sala. Chorando. Sua mente médica sabia do que ela estava sofrendo e que a Cidade da Luz abafava: Estresse pós-traumático e depressão. A solitária era feita para que o preso pensasse sobre o que tinha feito. E Clarke estava fazendo justamente isso. E perdendo a sanidade pelo caminho.

Franzindo o cenho, Clarke pensou sobre o que ela poderia fazer. Nada. Nada até ela finalmente se ver livre daquela cela. Ela só não tinha certeza de como ela sairia dali. Na sua outra vida, ela só tinha a dor da perda de seu pai e a raiva posta em Wells, que naquela época era visto por Clarke como o culpado da morte de seu pai. Agora, Clarke tinha o peso de vários massacres, vidas inocentes, vidas de crianças, vidas de seus amigos, guerra, tiros e flechas. Além da perda de Lexa. Era muita coisa. E sozinha, Clarke sabia que ela não estava aguentando.

Pelo menos na Cidade da Luz ela tinha uma folga e podia pensar claramente, coisa que ela não podia fazer no mundo físico. Bekka Pramheda ainda não havia entrado em contato com ela. E Clarke se perguntava se isso tinha alguma relação com sua situação mental no mundo físico. Por noites a fio ela se perguntou o que Lexa diria se a visse naquela situação lastimável. Certamente ela não a culparia. Seguraria seu rosto e ficaria com raiva de quem tinham colocado Clarke naquele situação.

Sorrindo, Clarke colocou as luvas de plástico no lixo e tirou a máscara do rosto e a touca dos cabelos. Sim, Lexa não a culparia. A humilde e sempre amável Lexa iria segurá-la nos braços, balançaria ela até o sono chegar. Cuidaria dela como se ela fosse o objeto mais frágil com aquelas mãos suave e olhos afáveis.

Clarke respirou fundo.

E foi novamente para a Biblioteca estudar. Ela já tinha mais de trinta especializações sem medicina, além de ser mestre em Botânica e Herbalismo. Mas havia tanta coisa para aprender. E Clarke queria dormir naquela noite sabendo que ela tinha feito o seu máximo. Por vezes, Clarke ponderou, ela pensava nas diferenças que era ela na Cidade da Luz e a ela na cela da Arca.

Clarke estava mais uma vez andando pela sua cela. Andar era uma das coisas que ela podia fazer e que a fazia focar em algo que não fosse pensar em Lexa. Ela poderia desenhar, mas desenhar a faria pensar em Lexa. E isso era doloroso. E andar também a ajudava a não ver as sombras que apareciam nos cantos escuros de sua cela. Eram sombras e rostos translúcidos de crianças ou pessoas que ela tinha matado. Eles não falavam nada, só a ficavam fitando. Era mais difícil quando a Arca ficava sem a luz do sol e sua cela ficava no breu total. E como a Arca dava dezesseis voltas ao redor da Terra, isso dava oito vezes de breu total para Clarke.

Nesses momentos, Clarke se encolhia em sua cama e seus fantasmas chegavam tão perto dela que eles podiam tocá-la. Ela os mandava embora com uma voz embargada e fraca enquanto seus olhos soltavam lágrimas e ficavam fechados.

Mas agora não era um desses momentos. Estava claro e Clarke já tinha comido. Todo dia ela era escoltada para o banheiro onde ela escovava os dentes e fazia suas necessidades. Mas só uma vez por semana ela tomava banho. O guarda nunca falava nada. E sempre o seu caminho estava deserto. Não via mais nenhuma pessoa.

Solidão.

Clarke fechou os punhos e pensou em sua situação miserável. Cada dia era um ano que se passava no mundo da Cidade da Luz. E um dia de dor na sua cela na Arca. Lá, sua dor e angústia eram abafadas e ela podia estudar e viver um pouco sem que ela sentisse a todo momento uma corda em seu pescoço e as pontas de facas que espetavam seu coração. Aqui, no espaço, ela ficava com raiva, fome, frio e triste. Ela andava para lá e para cá. Tinha perdido a noção do tempo. Os anos virtuais tinham se aglutinado em sua memória e os dias na Arca também. Sua única noção de que o tempo estava passando era as suas duas refeições do dia, as suas roupas cada vez mais largas, o crescimento de seu cansaço e como de tempos em tempos ela tinha que adicionar mais um passo para completar seu trajeto de um lado para o outro.

Clarke parou de andar mais uma vez. Mais uma vez ela estava no meio do caminho e olhava para a porta. Seu olhar fixo fitava o metal frio e gélido. Mas sua mente via a figura nítida e desfigurada por queimaduras de Maya Vie.

-Me deixa em paz! – bradou Clarke para a figura imóvel de Maya.

Clarke franziu o cenho e gritou antes de sentir sua raiva atingir um alto ponto e de se preparar para socar a figura de Maya. Usando toda sua força, ela preparou o soco e partir par ao ataque, gritando... Para bater na porta de metal com um bate metálico e uma dor excruciante que irradiava de sua mão. Gritando em dor, Clarke se agachou, segurando a sua mão machucada e chorou descontroladamente. Ali, reduzida a uma pequena bola de carne e osso, Clarke chorava de olhos abertos e tinha respiração cortada por soluções e os ouvidos que captavam o constante sussurro.

Clarke... Clarke...Clarke...

Gritando, Clarke segurou a cabeça e pediu para que isso tudo acabasse.

Duas batidas fortes na porta.

Ainda ouvindo as vozes, Clarke sabia o que significava. Era hora de ser levada ao banheiro. Saindo de perto da porta, Clarke olhava atônica para todos os cantos da sala. Procurava uma saída. Mas por quê? Ela não sabia. Ela só tinha procurar. Mas o quê?

A porta se abriu e dela apareceu o seu familiar guarda. Era David Miller. O guarda que sua mãe tinha conseguido com que ficasse a cargo dela. Assim como outrora. Suspirando, ela o fitou com medo. Mas as vozes não a deixavam em paz, em tão ela segurou a cabeça e murmurava frases que misturavam inglês e trigedasleng. Ela então sentiu seus braços serem puxados para trás como de costume. Pensou em lutar contra a força que fazia com que seus braços fossem mais uma vez presos atrás. Ainda ouvindo os sussurros e vendo a imagem de Maya no canto da sala, ela então começou a rir descontroladamente de sua situação patética. Ela começou então ser guiada para fora de sua cela. Sua mãe ainda doía. E ela ria. Saindo da cela, ela foi guiada até a familiar área dos banheiros da prisão. Rindo, Clarke então pensou em Lexa e começou a chorar. Pelo caminho, havia no entanto prisioneiros que estavam entrando nas celas. Pela ironia do destino, Clarke pensou enquanto ela via Maya a seguindo, Clarke via Octavia, Monroe, Harper, Monty, Jasper e Miller entrando em suas celas justamente no momento em que ela estava perdendo a sanidade. E quem iria acreditar na palavra de uma louca?

Com raiva de sua situação, Clarke olhou para o local onde Maya estava aparecendo e gritou. Mandou ela embora. E David Miller teve que segurá-la com força. O problema era que onde Maya estava não havia ninguém.

-Me ajude a segurar ela! – pediu David para um guarda que estava de guarda a uns metros a distância.

Clarke então viu como o outro guarda a segurava com força e a começou a puxar em direção ao banheiro. Ainda gritando para onde Maya estava, Clarke começou a também ficar irritada com as vozes que a perseguiam a tanto tempo. Chorando então, ela pediu para que eles fossem embora. Abaixou a cabeça e não deu resultado.

Clarke...

Assassina...

Assass...

Clarke então gritou pela última vez antes de sentir o choque excruciante de uma descarga elétrica nas costas. E ela desmaiou.

Clarke abriu os olhos. Olhando em volta, rapidamente viu que ela estava de volta, mais uma vez, para sua cela na Arca. Seus olhos outrora vibrantes e cheios de determinação, agora eram dois orbes azuis opacos. Sem vida. Clarke sabia o que estava acontecendo. Ela estava de luto e com uma forte depressão. Isso só era apaziguado quando ela estava na Cidade da Luz onde uma sensação vazia tomava conta de seu coração ao invés da dor e do luto de quando ela voltava para o mundo físico. Fazia alguns dias que ela tinha recebido o choque elétrico nas costas. Desde então não mais saiu de sua cela.

Suspirando, Clarke nem se levantou e fitou a parede a parede lá do outro lado da cela. Fazia semanas que ela tinha descoberto sua situação como Wanheda e tinha começado a ir para a Cidade da Luz. Todo dia no mundo físico, e por doze horas, Clarke Griffin dormia enquanto sua mente vivia um ano mundo da Cidade da Luz. Mas tanto sua cela como a Cidade da Luz eram prisões para Clarke. Suas celas solitárias. Uma, onde ela estava, era menor e mais rápida. A outra, maior e mais lenta. Mas ambas eram tão solitárias quanto a outra. Nunca mais ela viu Bekka. E os momentos que ela passava no mundo físico eram tão doloridos. Era como se o coração de Clarke apertasse e a garganta desse um nó e nada mais importava. Por dias ela não se levantava da cama e só comia quando a fome era tamanha que ela pensava que iria desmaiar. Clarke sabia que estava perdendo peso. Outrora, ela tinha conseguido suportar a solitária. Mas agora cada dia era um ano sozinha. E isso estava pesando para a forma como Clarke se comportava agora.

Sua agonia era ainda maior quando ela estava na Cidade da Luz e ela podia procurar por Lexa. Mas procurar por Lexa era ao mesmo tempo ruim e péssimo. Ruim porque sua Lexa não existia mais e a Lexa atual não a conhecia. Segundo, só iria colocar um alvo em suas costas porque iria dar mais chances para a mulher de vermelho a encontrar. Todavia, lá na Cidade da Luz, Clarke conseguia se concentrar o bastante para ler e se preparar melhor. Principalmente ao estudar Herbalismo, Botânica e Medicina. Cada andar da Biblioteca tinha além dos livros vários laboratórios para o conhecimento prático. Em medicina, havia um pequeno Hospital com equipamentos, bonecos-cadáveres e bonecos pacientes para o treinamento. Em botânica havia vasos com diversas plantas, E em Herbalismo tinha um espaço para a produção de produtos de medicina natural como cremes, emplastos e infusões. Clarke podia ler até trinta livros ao mesmo. Guardar na sua memória eidética para o conhecimento seus escritos.

Para a alegria de Clarke, no andar de Arte, o primeiro andar, havia um grande ateliê com espaço para escultura, pintura e música. Ali, Clarke colocava seu coração e pintou diversos quadros cujo tema era Lexa. Vários deles foram colocados em seu quarto privativo na cobertura. Mas a alegria era curta pois logo Clarke se lembrava de que sua Lexa não estava ali e do fardo de que agora carregava.

Na Cidade da Luz, também, Clarke lia muita literatura e filosofia e foi por onde ela entrou em contato com os livros de antes das bombas e descobriu o livro: Efeito Borboleta. Oh sim, Clarke concordou. O passado é algo frágil e uma mudança mesmo que pequena, altera todo ele. Era incrível como outras histórias que lidaram com o tema viagem no tempo pintavam personagens que se alegravam com a oportunidade de terem uma segunda chance. Clarke ria sarcasticamente quando colocava as mãos em alguma história desse tipo. Não. O viajante do tempo, antes de mais anda, é um ser solitário e amargurado. Com o peso de tantas vidas nas costas, Clarke sabia que era uma missão em que muitos falhavam. Era solitário porque as pessoas com as quais você fez laços, não seriam mais as mesmas. Um viajante no tempo era como um sobrevivente de guerra onde todas as pessoas que ele conheceu antes tinham morrido. E só tinha sobrado ele. Ou melhor, no caso ela. As memórias, as risadas e aquilo que fazia Clarke Griffin ser Clarke Griffin tinham se perdido no tempo. E ninguém mais saberia. A única comparação que Clarke conseguia fazer em seus momentos de reflexão, deitada em sua cama na cobertura, era com uma pessoa muito idosa onde os amigos de infância tinham morrido….como uma das pessoas mais idosas do mundo. A camaradagem de quem viveu o passado se perde pois não há com quem mais conversar e trocar lembranças.

A vida do viajante no tempo era solitária.

Mais solitária do que suas celas na Arca e na Cidade da Luz. É uma solidão mental, uma solidão do coração. Se ela falasse alguma coisa, iria ser taxada de louca rapidamente. E ela então não tinha ninguém para desabafar seus medos, frustrações e angústias. Sozinha, e por anos dessa vez, Clarke começou a sentir o peso da solitária como nunca. Lembrou-se várias vezes de filmes de antes das bombas com Papillon. Pois seu sofrimento ali sozinha podia se comparado ao personagem de Steve McQueen. Mas pior. Se Henri Charrière passou onze anos na prisão, Clarke Griffin passava agora a casa dos cem anos. Sozinha. Beirando a sanidade mental, Clarke fitava a parede oposta lá do outro lado. Com a expressão em branco, tentava imaginar o rosto de Lexa. Era tão fácil nos momentos em que ela estava na Cidade da Luz. Mas tão difícil do lado de fora. Pior do que isso era que ela mal se lembrava do cheiro e tom melodioso da voz de sua amada. E isso cortava o seu coração. Fazia ele sangrar. E Clarke chorava silenciosamente.

Apesar de tantos anos, o coração de Clarke clamava por Lexa e sua mente tentava juntar os cacos e a coragem para se manter forte. Por Lexa. Há várias semanas, ou anos no caso da Cidade da Luz, Clarke resistia. Muita vezes pensava em desistir. E nessas ocasiões, ela passava dias a fio em sua cela na Arca, chorando. Ela sabia que ela tinha um caso profundo de depressão. Quis gritar e se debater, tentando colocar para fora sua frustração. E o fez diversas vezes. Seus gritos penetravam no silêncio de sua cela era bem-vindos aos seus ouvidos sem uso. Ao de debater na cela e causando som e dor, Clarke abraçava mais um som em sua sinfonia de gritos e a dor que lembrava que ela ainda estava viva.

As vezes ela não comia.

As vezes ela se levantava e ficava fitando a janela de sua cela. Com o olhar penetrante e fixo em seu reflexo. Os cabelos opacos e sem vida. Os círculos pretos em torno dos olhos, o rosto cada vez mais fino e geralmente alguma alucinação no canto de sua visão. Geralmente alguma vítima de seu tempo no futuro que não existe mais a não ser em sua cabeça.

Dias. Semanas. Meses. Clarke estava ali por quatro meses.

Os antigos sete passos que bastavam para ir da porta até a janela agora se tornaram trinta passos. Ela estava franca, casada e triste.

Horas a fio ela passava em falar uma única palavra. Ouvia vozes. Via pessoas. Fantasmas de seu passado. Seu tempo mais tenebroso era quando a Arca ficava sem os raios de sol e a sua cela se tornava um breu. Era quando as vozes aumentavam e ela fechava os olhos com medo. O coração acelarava. Ela chorava. Segurava a cabeça e tentava não ter um ataque de pânico. Em vão. Ela geralmente gritava ou batia na cabeça para abafar as vozes ou para fazer com que as alucinações e vozes fossem embora.

Suas memórias assim como seus demônios e medos vieram junto com ela. Seus acompanhantes irreais eram cruéis e não a deixavam pensar com calma o que ela deveria fazer. Ela então costumava gritar em frustração.

Pulava uma refeição ou outra. Nos dias mais sombrios, ela se agachava num canto de sua cela, abraçava seus joelhos e tentava lembrar o cheiro de Lexa enquanto balançava seu corpo para frente e para trás. Geralmente ela gritava nessas ocasiões e dava murros nas paredes. Nesses dias mais sombrios ela não comia o dia inteiro. Se ela muito forçasse, ela conseguiria ver em sua mente o par de olhos verdes que ela tanto amava e ela por fim dormia por causa da exaustão. Mas com um sorriso nos lábios.

Clarke olhava para a parede oposta lá do outro lado. Ela sabia que hoje não era um daqueles dias mais sombrios. Não. Fitando o chão, ela podia ver a bandeja de comida e o copo com água. Sem emoção e fazendo tudo no automático, Clarke se levantou e sentiu suas articulações estalarem. Fazendo uma careta, ela andou até a bandeja. Suas roupas que outrora caíam perfeitamente em seu corpo, agora estavam pelo menos um número menor. Ela estava perdendo peso. Mesmo estando a maior parte do tempo sem fazer exercícios físicos.

Comendo a comida fria e água com o habitual gosto de velha, Clarke fitou sem emoção o pedaço de carvão que tinha sido colocado em sua bandeja. Assim como outrora. Clarke tinha uma grande coleção desses agora. Sua cela não estava repleta desenhos. Não. Suas paredes estava limpas. Não havia vontade de desenhar. Não havia desejo de desenhar na parede a única coisa que ficava em sua mente. Lexa. Era doloroso pensar na morena. Imagina desenhar? Não. Clarke fazia o mínimo do mínimo para se manter vivo e esperava para voltar para a Cidade da Luz.

Como uma droga, Clarke queria voltar para lá e se possível, ficaria o tempo todo lá. Mas sempre doze horas depois, Clarke reabria os olhos e estaria de voltar para sua cela. E teria que esperar doze horas para voltar para lá. Clarke não sabia ao certo que fazia isso, mas tinha a impressão que era Bekka Pramheda. Mas não tinha confirmado nada ainda. Meras suposições.

Suspirando, Clarke então terminou de comer.

Depois, ela limpou o rosto de suas lágrimas e foi se deitar. Triste e cansada, Clarke largou o seu corpo na fria cama da cela 319. Olhando fixamente para um ponto na parede, Clarke sentiu uma dor de cabeça leve. Mas não deu importância a isso. Pelo contrário. Bateu diversas vezes na parede e gritou. Impaciente e num ímpeto de raiva, ela ficou sentada na cama e gritou. Estava com raiva. Raiva de sua situação. Ela não tinha pedido por isso. Ela queira descansar. Ela queria.

-AHHHHHHHHH! AHHHH! AHHHHHHHHHHHHHHHH! - gritava.

Segurando a cabeça com suas mãos e com força, Clarke queria segurar o pouco de sanidade que ainda lhe restava. Ela ouvia vozes. Muitas vozes. Vozes de seus amigos agora misturas e distorcidas pelo tempo. Ouvia vozes dos Delinquentes, dos Grounders e dos Mountain Men. Vozes que ela nem conhecia. Mas que traziam aflição. Ela queria ficar em paz. Ela queria poder segurar o rosto de Lexa mais uma vez. Ela queria…

Clarke segurou o choro e engoliu seco. Fechou os olhos e chorou copiosamente. As vozes não paravam. As vozes a culpavam. A seguiam. A perseguiam. Clarke queria ficar em silêncio. E então ela começou a bater na parede. E grunhir e gritar.

-Calados! Fora daqui! - falava Clarke para ninguém.

Mas as vozes a perseguiam e era por isso que ela detestava o tempo em que ela ficava no mundo físico. Seus demônios a alcançavam aqui. Lá, na Cidade da Luz, não. Segurando sua cabeça com uma mão e com a outra batendo da parede, Clarke olhava fixamente para a parede do lado oposto. Tentou se concentrar. Mas as vozes não a deixavam em paz. Eram sussurros. Gritos. Perguntas. Risadas. Eram muita coisa. Dores. Morte. O cheiro de carne humana queimada. Os corpos. Os esqueletos. O sangue derramado no chão que escorria por entras frestas dos piso.

Chorando copiosamente e silenciosamente, Clarke estava fechada em um mundo só dela enquanto a cada dia um pouco de sua sanidade ia embora. Ela murmurava desculpas baixinho e repetia palavras sem nexo, tentando abafar as vozes em sua cabeça.

Alheia ao mundo do lado de fora, Clarke viu nem ouviu a porta de sua cela abrir e dela entrarem um guarda e Abigail Griffin. O guarda pegou a bandeja de comida e foi embora, deixando a porta aberta. Do lado de fora havia mais dois guardas.

Clarke só ouvia as vozes e segurou a cabeça com força antes de gritar e fechar os olhos com força tentando não ver os corpos das crianças mortas em Mount Weather. Não escutar seus gritos. Suando, ela estava num ataque de pânico. Ela bateu uma vez em sua cabeça antes de algo segurar o seu pulso. De olhos fechados e murmurando palavras sem nexo, Clarke não viu que esse algo era um alguém: sua mãe.

Nem ouviu quando sua mãe deu ordem para os guardas amarrarem as mãos de Clarke para trás. Ai, sentindo suas mãos sendo forçadas para trás, Clarke lutou, se contorceu e abriu os olhos. Ela ainda não via as pessoas em sua cela. Não. Ela via seus pesadelos. Seus medos. Gritar agora era a única alternativa para abafar o com. Então ela gritou e chorou ao mesmo tempo. Ela queria que isso acabasse. Não queria mais. Queira se unir a Lexa em algum lugar no espaço. Queira que o choro das crianças que ela matou fosse embora. Ela murmurava desculpas. Fazia força com as mãos para se soltar das algemas enquanto as fitas de plástico cortavam a pele de seu pulso. Outrora brancas, as fitas-algema logo se tornaram vermelhas e mancharam a cama. Abigail tentou acalmar a filha cujos olhos estavam fixos num ponto. Alucinando com algo que a médica não sabia. Muitas fezes os olhos azuis de Clarke perdiam o foco e ela gritava. Segurando o coração na boca, Abigail segurou a cabeça de Clarke quando esta começou a bater com a cabeça na parede.

Só havia uma explicação na mente clínica de Abigail.

Clarke Griffin estava um ataque. Mas não era um ataque qualquer.

-Calem a boca, vão embora. - murmurava Clarke enquanto que na cela ninguém estava falando. Clarke então apontou para um canto vazio onde estava um grupo irreal de crianças de Mount Weather. - Me deixem em paz! - bradou antes de inclinar o corpo para frente e se abraçada por Abigail. Mas Clarke não viu Abigail. Clarke fechou os olhos e gritou e chorou.

Sem saber o que fazer, com um cérebro que momentaneamente esqueceu os procedimentos médicos, e um coração apertado, Abigail abraçou a filha tentando conter o ataque. Franzindo o cenho e com lágrimas nos olhos, Abigail percebeu que Clarke havia ficado doente naquela solitária. E ela tinha sair dali. Em seus braços, Clarke estava tão magra. Seu coração quebrou quando Abigail entrou e viu a figura pequena e magra de Clarke naquela cama fria. Ali dentro estava um gelo. E a testa de Clarke queimando de febre.

Olhando para o lado, ela sabia que ela tinha que agir rápido. Então, Abigail olhou para os guardas e deu as ordens.

-Levem-na para o Hospital.

Clarke então foi carregada pelos corredores da Skybox com um pano fechado a sua boca. Dois a carregavam pelos ombros enquanto ela estava em plena crise. Gritando com a sua voz abafada. Clarke chorava e tentava afastar seus medos. Seus pulsos ainda sangravam lentamente e pingavam no chão de metal, marcando o caminho que ela fazia agora. Na frente ia Abigail, abrindo caminho.

Com a visão turva e desfocada, Clarke reabriu seus olhos. Ela não conseguiu ver os rostos dos outrora delinquentes como Octavia, Jasper e Monty. Nem como os rostos de três a fitavam com espanto e como Finn fechava os punhos em raiva e comentava para Miller e Harper que ela deveria ser a louca da solitária.

Clarke Grffin desmaiou no meio de caminho e só recobrou os sentidos na Cidada da Luz. Sozinha mais uma vez. Mas sem a companhia de seus demônios. Triste, ela levantou de sua cama na cobertura e se preparou para se estudar, como sempre. O relógio digital ao lado de sua cama era claro. Seus números garrafais em vermelho e fundo preto diziam seis horas da manhã. Suspirando, Clarke foi até o banheiro onde ela tomou uma ducha, lavou os cabelos e ficou pensando em seu dia no mundo físico. Enquanto a água escorria por sua cabeça, cabelos, rosto e o seu corpo nu, Clarke bateu na parede em desgosto por sua fragilidade no mundo físico.

O que Lexa pensaria dela? Fraca do jeito que estava?

Dessa vez, Clarke passou quatro anos na Cidade da Luz e conseguiu avançar em seus estudos. Tomando um gole de chocolate quente e fitando a lareira de sua sala de estar, Clarke estava sentada em seu sofá. Quando esse inferno iria terminar? Fechando os olhos, Clarke então sentiu o familiar puchão que a levava de volta para o mundo físico e o seu último pensamento era que ela não sabia quando iria terminar.

Clarke recobrou um pouco dos sentindo com os familiares sussurros, a voz rouca, gritos e gemidos dela que clamavam para as vozes irem embora, a tez suada e os olhos desfocados e a visão turva. Ela se sentia quente.

-Descanse Clarke, você está bem. – disse uma voz distante mas diferente das vozes que normalmente a perseguiam. – Mamãe está aqui.

E então Clarke se deixou mais uma vez levar pelo cansaço e fechou os olhos.