Capítulo I
— Até quando você pretende me arrastar por essas terras de ninguém onde só encontro frio e pedras?
Edward balançou a cabeça e sorriu consigo mesmo, sem afastar os olhos da monótona paisagem. Charlie tinha uma certa razão em se queixar. Dava a impressão que a travessia sobre o gelo não teria fim.
O ideal teria sido deixar o velho homem e também suas infindáveis reclamações em Londres, na hospedaria que eles se acostumaram a chamar de morada. Não fora sua escolha trazê-lo. Da mesma forma que não o convidara para ser seu acompanhante, não sugeriria que desistisse de segui-lo e fizesse meia volta. Mesmo porque não adiantaria.
Desde que conhecera Charlie, anos atrás, o velho homem nunca voltava atrás em nada do que se propunha a conquistar ou fazer. Estava ainda por encontrar alguém mais obstinado. Embora ele se autodenominasse um escudeiro, acatar ordens não figurava entre seus deveres a cumprir. O que podia ser explicado, mais uma vez, pelo fato de que essa posição também fora conferida por ele próprio.
Aconteceu durante a primeira batalha de que Edward participou como cavaleiro. Um grito ecoou as suas costas. O cavalo empinou e ele foi derrubado. Devia sua vida a Charlie. O velho homem saltara de uma árvore para protegê-lo. Do alto, ele vira o inimigo se aproximar sem que Edward percebesse, preparando-se para atacá-lo por trás. Uma batalha sangrenta se seguiu. Charlie lutou com ele contra todos os atacantes até vencê-los, um por um. Desde aquele dia, os dois se tornaram inseparáveis.
Edward agradeceu pela intervenção de todas as maneiras que pôde imaginar, pensando que era uma recompensa por seus feitos que o homem esperava. Logo descobri que não.
— Deus olha pelos tolos, mas você, em particular, Ele confiou a mim.
Com o passar do tempo, Edward se afeiçoou ao escudeiro. Sua dedicação era uma bênção em seu caminho, quando não um problema. Porque o velho homem muitas vezes confundia seu papel e o tratava como um filho. Não apenas no sentido de zelar por ele, mas de lhe ditar as ordens. Assim, Edward tivera de aprender a conviver com a situação, ouvindo seus conselhos quando soavam adequados, ou se recusando a acatá-los de outra forma.
O pior defeito de Charlie era se recusar a fazer aquilo que ele não queria. Não adiantava tentar fazê-lo mudar de idéia. Fechar-se aos resmungos e protestos dele, portanto, fora um aprendizado necessário.
Edward se inclinou sobre o cavalo cinzento, a que dera o nome de Dagger, e afagou seu pescoço. Temera que o garanhão não fosse suportar a hostilidade do tempo. Ventos gélidos cortavam as montanhas e os viajantes. Dagger enfrentava os terrenos acidentados e as intempéries com força e garbo.
Acostumado que estava a enfrentar desafios dos homens e da natureza, Edward não se importaria se ainda fosse demorar a alcançar seu destino. Ansiava pela chegada em nome dos homens que o acompanhavam, que considerava amigos além de servidores. Para que pudessem repousar. Ele próprio não tinha motivos para celebrar o momento por mais que seu lado ambicioso lhe dissesse que aquela seria a realização de todos os seus sonhos, sua recompensa por anos e anos de trabalho duro.
Um suspiro brotou do fundo do peito de Edward a esse pensamento.
Esses sonhos se baseavam na posse de terras que pudessem garantir seu futuro. Porque terra era sempre terra. Não perdia jamais seu valor, fossem tempos de guerra ou de paz. Ele viera ao mundo, sem ter eira nem beira, mas jurara não deixá-lo da mesma forma. Não esperava, porém, que o preço de sua conquista viesse atrelado a uma aliança de casamento. Porque para ter o registro da propriedade em seu nome, ele teria de aceitar "a dama disforme" como sua esposa.
A cada vez que essa chantagem lhe vinha à mente,
Edward cerrava os punhos, tal a raiva que o assolava. Porque sabia que fora um joguete nas mãos do rei e de seu homem de confiança e que não deveria ter aceitado a ultrajante proposta. Mas o ditado dizia para não chorar sobre o leite derramado. Não podia voltar atrás. Em pouco mais de vinte e quatro horas, ao pôr-do-sol, ele ganha ria um título de senhor de terras.
Do alto da montanha, a neve cobria os campos com um manto branco. As árvores desprovidas de folhas se assemelhavam a linhas escuras riscando a paisagem. Em contraste com a irritação que o cenário provocava em Charlie, o peito de Edward se dilatava em júbilo. A cada passo de seu cavalo, ele estava mais perto da realização de seus sonhos de menino, e mais fascinado pela nova vida que o esperava.
Por sua vontade, Edward estaria contando a Charlie sobre seus planos para o futuro. Mas o velho homem não estava aberto a confidências. Mal dava para ver suas feições enterradas entre as peles que ele adquirira em uma das cidades por onde passaram. De seu corpo, dava para ver apenas as mãos grandes e roxas de frio, e os olhos reprovadores.
— Você ainda não me disse, rapaz, por que motivo me arrastou para este fim de mundo?
Edward fechou os olhos por um instante em busca de paciência.
— Eu não o arrastei a parte alguma. Quem pode obrigá-lo a fazer algo contra sua vontade? Duvido que alguém tenha essa capacidade!
— Admita que cometeu um erro, rapaz. Em meio a essas pedras congeladas, só encontrará animais inúteis e camponeses hostis.
A observação obrigou Edward a refletir. Uma súbita apreensão o fez passar uma das mãos pelos cabelos escuros e espessos.
— Eles estão mais arredios à medida que avançamos para o norte, não estão?
— Arredios? Eu usaria outro termo. Como ferozes, por exemplo. — Charlie se afundou ainda mais nas peles e prosseguiu com ironia: — Em minha modesta opinião, o casamento com a dama disforme foi sua punição por ter enfurecido o rei com sua excelência, mas depois de ver o povo que habita essa região, eu não tenho tanta certeza.
A indignação tomou conta de Edward. Sem tentar entender o porquê dessa reação, ele se sentiu no dever de proteger a mulher que lhe fora dada como esposa.
— Não quero que a chame assim — Edward protestou. — Isabella será minha esposa e todos deverão se dirigir a ela como lady Beaumont.
Charlie franziu o cenho diante da súbita mudança operada em seu tutelado.
— Por que essa atitude de defesa, rapaz? Ainda nem sequer conheceu a moça. Ela ainda não se tornou sua esposa para que a chamemos de lady Beaumont!
— O porquê não importa. Ela será minha esposa e sua honra deve ser respeitada. — Edward sentiu, sem precisar ver, o olhar indagador de Charlie voltado para ele. Evitou sustentá-lo. A verdade era que não saberia explicar seu impulso de defender a noiva. Jamais seria capaz de morrer pela honra como tantos incautos que recorriam aos duelos. Preferia seu modo cínico de encarar a vida. Aqueles que se atreviam a cruzar seu caminho, ele os afastava. Fosse por bem ou por mal.
De repente, as vésperas de unir sua vida a de uma mulher desconhecida, ele se surpreendia em defesa de uma honra até então inexistente, pela estranha necessidade de zelar pela dignidade de uma mulher que nem sequer conhecia. Seu comportamento só poderia ser interpretado como irracional. Tão fora de propósito que Charlie se calou pela primeira vez desde que partiram. Irritado até mesmo com o barulho provocado pelos cascos dos cavalos, Edward se obrigou a aceitar que aquele tipo de reação não era normal. Quanto mais raciocinava a respeito, mais estranha lhe parecia. Charlie e ele nunca tiveram reservas um com o outro. Falavam sobre tudo. De repente, ele descobria que não queria discutir sobre sua noiva nem sequer com seu melhor amigo.
A dama disforme. Não permitiria que continuassem se referindo a ela daquele modo pejorativo. Algo acontecia dentro dele cada vez que falavam com desprezo sobre Isabella. Não estava mais se reconhecendo. Quanto mais tentava compreender a situação, mais se confundia. Afinal, o que um bastardo e mercenário como ele entendia de honra? Alguém que empregara os últimos anos de sua vida matando por um rei que desprezava? Alguém que vivera sua vida de acordo com seu próprio código de leis e nunca se importara que essas leis não correspondiam ao código observado pelo resto do mundo? E que nunca sentira necessidade de justificar suas ações a não ser a si mesmo?
Quando sua transformação tivera início? O que mais o surpreendia era o impulso de zelar pela segurança de lady Isabella. Nunca antes se permitira governar pelas emoções. Nunca se importara realmente com ninguém. Nunca conhecera o amor. E a verdade era que jamais sentira falta desse sentimento. Mas que ninguém mais, a partir de agora, ousasse se levantar para ferir a sensibilidade da pobre criatura afastada covardemente das distrações da corte para ser esquecida naquele deserto de gelo. Ou teria de responder a ele.
— Detesto interromper seus devaneios — a voz de Charlie penetrou pelos pensamentos sombrios de Edward —, mas não lhe parece que aquele amontoado de pedras pode lhe pertencer?
Os olhos de Edward adquiriram brilho e entusiasmo. Suas terras. Finalmente ele teria um lugar para morar que poderia chamar de seu!
A torre se erguia alta e lúgubre contra o céu cinzento.
— Eu não fazia ideia de que os domínios do rei se estendiam até o extremo norte, mas é de meu conhecimento que os saxões não empregavam pedras como material de construção — Edward retrucou.
— Sou obrigado a concordar com você — Charlie admitiu. — A torre parece ter sido erguida recentemente. As pedras são novas. O lugar, no entanto, não deve ser habitado.
— Está chamando minha nova moradia de inadequada? — Edward caçoou.
— Não, rapaz. Estou chamando aquela pilha de pedras de inadequada. Tenho certeza de que a casa que o espera é digna de um grande guerreiro.
Edward riu, bem-humorado.
— Não me adule, velho homem. Esse procedimento não combina com você.
— Quem está adulando quem? — Charlie retrucou. — Esse procedimento faz parte das regras da sobrevivência. Se meus elogios atingirem seu ego, talvez minha permanência neste frio glacial seja abreviada.
— Nesse caso, não há tempo a perder. — Antes que acabasse de falar, Edward esporeou o cavalo e se afastou em pleno galope. Charlie suspirou. Faltava-lhe juventude e disposição para imitar seu protegido.
Quanto mais se aproximavam da torre de pedra, mais estranha ela parecia. Elevava-se em desgraciosa linha reta para o alto, sem que desse para ver a base, escondida no meio da floresta. Embora a construção fosse recente, algumas pedras haviam se soltado da estrutura. De longe, fazia pensar em uma ruína.
Edward franziu o rosto.
— Esta não deve ser Shadowsend Keep.
— Concordo com você — disse Charlie, agora perto o suficiente de Edward para ouvir o que ele dizia. — Talvez suas terras fiquem além daquele bosque. Estou vendo fumaça.
Edward olhou na direção que o amigo apontava e vislumbrou as finas espirais de fumaça subindo lentamente e se confundindo com o céu cinzento de inverno.
— Então avancemos — disse Edward em altos brados para se fazer ouvir sobre o vento.
Uma espessa camada de neve cobria as pequenas edificações que compunham o local. O telhado só era visível na parte onde deveria estar a lareira. A casa se apresentava em mau estado de conservação, mas ao menos parecia ter condições para servir de abrigo.
— Confesso que estou aliviado em saber que em breves instantes poderei aquecer meus ossos — declarou Charlie, apeando como Edward já o fizera.
— Não há postos de vigilância. Nesse estado, seria impossível defender a propriedade.
Três ou quatro galinhas ciscavam no terreiro na esperança de encontrarem algo para comer. Edward sentia o peito crescer com uma alegria indescritível. Não era muito. A necessidade de reparos era urgente. Mas o cheiro de madeira queimada fornecia uma atmosfera de bendito aconchego.
Seu lar.
Com os nós dos dedos, Edward se fez anunciar aos moradores. Ouviu passos apressados do lado de dentro. Em seguida, silêncio. Segurou a aldrava e bateu com mais força.
— Não temos nada para oferecer. Vá embora! Os dois homens se entreolharam.
— De defesa, parece que os moradores entendem — Charlie zombou.
O timbre de Edward adquiriu as características de seus gritos de guerra.
— É Edward Beaumont quem anuncia sua chegada e que está sendo deixado a congelar na soleira da própria porta. Abra imediatamente porque esta casa agora é minha por direito!
Dessa vez, ao trocarem um novo olhar, Edward e Charlie exibiam largos sorrisos. A agressividade fora substituída por pequenos gritos de espanto que beiravam o cômico.
Dentro de segundos, a pesada porta foi aberta por uma jovem, intensamente corada, com um lenço amarrado à cabeça. Ambos se entreolharam, surpresos pelo contraste de sua baixa estatura diante do enorme barulho que fez.
— Queira perdoar, milorde, mas com esses normandos brutos perambulando pelas vizinhanças, todo cuidado é pouco.
Antes que Edward pudesse responder, a porta foi fechada em sua cara. Charlie gargalhou.
— O que faremos agora, senhor cavaleiro do rei? Derrubamos ou queimamos a porta? A noite está se aproximando e a temperatura baixando ainda mais.
De braços cruzados e cenho franzido, Edward se obrigou a reunir paciência para enfrentar a situação inusitada. Estava começando a se irritar e a se decidir a tomar uma atitude drástica quando a porta foi aberta, de par em par.
Nem ele nem Charlie hesitaram, com receio de que a oferta de hospitalidade de repente fosse retirada. Charlie seguiu em frente, com as mãos estendidas, deslumbrado com a generosidade das chamas que ardiam na imensa lareira. Edward permaneceu onde estava, na entrada do hall, tentando adaptar a vista ao escuro, quebrado apenas pelo fogo na lareira e pela chama de uma única vela, que quase se apagou com a rajada de vento que a atingiu com o movimento brusco da porta ao ser novamente fechada.
Não havia janelas por onde pudessem entrar os últimos resquícios de claridade. Edward vasculhou cada recanto até adivinhar, mais do que ver, a sombra da mulher que permitira sua entrada. Seus cabelos eram grisalhos. Pela simplicidade do traje, Edward teve certeza de que ela era uma serviçal, assim como a jovem que lhes abrira a porta. Sua postura, no entanto, era o de uma mulher acostumada a tratar os outros com autoridade.
Acostumado a confiar em seus instintos, após toda uma vida de aprendizado em campos de batalha, Edward relaxou sua defesa. Apesar do aspecto severo, ele soube que aquelas mulheres não constituíam ameaça. Sorriu como uma forma de agradecer pelo acolhimento. A velha mulher, porém, não retribuiu seu gesto.
— Seja bem-vindo a Shadowsend Keep, milorde. Peço que nos desculpe. Somos dez mulheres a viver nesta propriedade. O número não é suficiente para manter o local em ordem, mas acreditamos que daremos conta de servi-lo.
— Qual é o seu nome e qual a sua função aqui?
— Meu nome é Renée. Sou a dama de companhia de lady Isabella, mas também exerço a função de governanta, na ausência de alguém com maiores atributos para o cargo.
Edward assentiu. Nada conhecia sobre a administração de um castelo, casa ou choupana. Esperava que aquela mulher e também as outras continuassem a cuidar de seus deveres, sem esperar por sua ajuda ou direção.
— Pode voltar para seus afazeres — Edward a dispensou, de costas, para tentar parecer mais seguro de si do que se sentia. Fossem lhe dados vinte soldados para comandar, e ele não teria hesitado. Um súbito pensamento, contudo, o fez girar novamente nos calcanhares. — Espere um instante.
— Senhor?
— Por que a própria lady Isabella não veio me receber? — Apesar de seus parcos conhecimentos sobre etiqueta, Edward sabia que as regras da hospitalidade mandavam que os donos da casa zelassem pessoalmente pelo conforto dos visitantes.
Renée baixou os olhos, desconcertada por um instante.
— Milady está repousando e eu recebi ordens para não incomodá-la.
Ainda junto ao fogo, de costas para Edward, Charlie tornou a zombar.
— Arrumaram uma esposa perfeita para você. Uma mulher que consegue dormir enquanto o marido luta contra as intempéries para sobreviver.
A mulher teve a decência de baixar a cabeça e se mostrar humilde a essa observação.
— Temos muito a conversar, ela e eu — disse Edward. — A começar de agora. Acorde-a e avise que sir Edward a aguarda no hall.
Os olhos de Renée falaram por ela. Sua perplexidade atingiu Edward, deixando-o confuso.
— Perdão, milorde, mas lady Isabella nunca deixa seus aposentos.
A possibilidade de Isabella não ser capaz de se mover jamais passara pela mente de Edward. A legendária deformidade de sua jovem noiva atingiria suas pernas?
Uma súbita náusea se apoderou dele. Não era da espécie de homem que se impressionava com sangue, com morte. Presenciara cenas de provocar horror nos mais fortes guerreiros, sem estremecer. Aprendera a conviver com seres mutilados com naturalidade. O bem e o mal faziam parte de seus dias. E de seus pesadelos.
Mas nunca antes ele soubera de uma mulher tão afetada por suas injúrias que não se permitisse deixar os limites de seus aposentos.
Os guerreiros exibiam suas cicatrizes como insígnias de coragem e de bravura. Como um símbolo de vitória. Ele estava acostumado a enfrentar a dor. Mas não esse tipo de sofrimento. Muito menos da parte de uma mulher. Por sua vontade, a deixaria em seu túmulo para que continuasse morta em vida, mas seu recém-conquistado senso de honra o impedia de tomar essa atitude.
— Se lady Isabella está impedida de vir me receber, então eu irei cumprimentá-la. Leve-me até ela.
Renée inclinou a cabeça em concordância. Apanhou o castiçal que estava em cima da mesa e indicou um corredor às escuras.
— A luminosidade no andar superior não é suficiente — Renée explicou, como se tivesse ouvido a indagação muda de Edward. — E a escada se encontra em mau estado. Depois de sofrer algumas quedas, nós aprendemos a recorrer à ajuda de velas.
Os degraus rangiam a cada passo. Quanto mais Edward tentava se locomover com cuidado, maiores eram os guinchos contra o silêncio. Antes de pensar em tornar suas terras produtivas, seria preciso consertar os estragos causados por longos anos de abandono.
Por fim, Renée se deteve diante de uma das portas. O modo como o encarou foi tão intenso que ele quase não conseguiu sustentar seu olhar. De repente, ela murmurou palavras enigmáticas. O que teria desejado dizer com sua insinuação de que a vinda dele talvez pudesse reverter em algo positivo? E com o modo abrupto com que o impediu de abrir a porta, segurando-o firmemente pelo braço?
— Imploro que seja paciente e gentil. As últimas semanas foram um martírio para ela.
Medo. Edward se vangloriava de provocar medo em seus adversários. Mas não viera para o norte para guerrear. Não queria assustar ninguém. Em especial sua noiva, a mulher deformada que lhe fora destinada como esposa, e que o amedrontava, também, de um modo diferente de tudo que já experimentara, porque, a partir do próximo minuto, passaria a integrar sua vida.
As palavras de alerta de Renée ainda o faziam hesitar. Ele tentou se colocar no lugar de Isabella. A pobre criatura não sabia o que esperar do homem a quem teria de entregar sua virgindade. Como ele deveria se comportar? Era perito no uso de armas e na conquista do inimigo. Nada conhecia, porém, sobre a arte de conquistar uma mulher.
Subitamente irritado consigo mesmo e com as circunstâncias, Edward decidiu colocar um fim à hesitação. Não esperava pelo silêncio sepulcral que se seguiu a seu anúncio. Aguardou alguns instantes e cogitou desistir, mas a determinação em levar seu propósito a frente fez com que vencesse a barreira.
Em contraste com o escuro dos ambientes, a intensa luminosidade do quarto o ofuscou. Passaram vários segundos até sua vista se adaptar à mudança, o suficiente para ele divisar a figura parada no outro extremo.
O coração de Edward acelerou ao ver a jovem avançar em sua direção e se revelar em cada surpreendente detalhe. A impressão que teve foi a de que um anjo havia descido dos céus.
Os cabelos longos e pretos caíam sobre seu corpo como uma aura, delineando a cintura estreita e as curvas generosas dos quadris, realçando a sensualidade dos seios. A pele era alva e acetinada como uma pérola. Os lábios pareciam vermelhos como rubis.
Ereta, com a cabeça erguida, em postura soberana, ela não alcançava nem sequer a altura do queixo dele. Sua beleza parecia etérea. Ele, tão forte e tão grande, temeu não merecer a dádiva de uma noiva tão linda. Pela primeira vez em sua vida, Edward ficou sem palavras. Sem ar.
— Deus, você é perfeita!
O riso de Isabella soou irônico. Instintivamente, ela fechou os olhos e desejou que o som desagradável parasse de ecoar em seus ouvidos. Fora mais forte do que ela. O histerismo havia exercido controle sobre sua vontade diante do absurdo que acabara de ser pronunciado.
Ninguém havia contado a verdade a sir Edward Beaumont, evidentemente. Ele a chamara de perfeita, quando lhe fora tirado o dom da visão.
A voz máscula e grave falava de um homem grande e poderoso. Ela, entretanto, não podia vê-lo. Não podia saber se era loiro ou moreno. Se ele viera cortejá-la em trajes de guerreiro ou de sedutor. Não podia nem sequer encontrar um caminho de escape, caso ele tentasse tomá-la à força.
Um arrepio percorreu as costas de Isabella. Sua deficiência a colocava em assustadora desvantagem. Queria que ele a deixasse sozinha. Sentia-se vulnerável na presença do desconhecido a quem teria de se submeter a partir daquele momento. Ele estava ali, afinal, para reclamar a recompensa que lhe fora conferida pelo rei. Era um homem a ser temido. Principalmente se estivesse mancomunado com James.
O medo fechava a garganta de Isabella. Ela sentia ímpetos de gritar e de clamar por sua liberdade. Queria poder enxergar para lutar com aquele homem e expulsá-lo de seu quarto, e de sua vida.
Mas a realidade era outra. Livrar-se daquele homem não seria uma tarefa simples. Ele fazia parte do jogo sórdido de seu irmão e ela só podia se entregar à esperança de que sua inteligência a levasse à vitória quando os dados rolassem pela última vez.
Ela era capaz de se mover com segurança pelo quarto. Seu pequeno mundo. Com dois passos firmes, alcançou uma cadeira e sentou-se, cruzando as mãos no colo. Adivinhou, pela respiração de sir Edward que ele cogitava imitá-la. Um instante depois, teve certeza de que o fizera, pelo guinchar do móvel ao ter de se adaptar a seu peso e pelo arrastar da banqueta que ela costumava usar para repousar os pés.
Ele era alto e forte, Isabella pensou. Seus joelhos precisavam de mais espaço do que o deixado habitualmente entre as duas peças. Por mais que sua imaginação tentasse visualizá-lo, desde o momento que recebera a notícia sobre sua vinda, ela nunca havia pensado nele com referência a suas proporções físicas. Deveria ter suposto que os atributos de um cavaleiro incluíam tamanho e força. Homens de compleição franzina como James nunca seriam escolhidos para defender o rei. Suas armas eram a astúcia e a lisonja, não a espada.
Isabella não saberia afirmar qual lhe parecia a mais temível no momento. Talvez fosse para atormentá-la ainda mais que seu irmão o escolhera. Para que a tortura avançasse para o físico, além do mental.
— Peço que desculpe minha franqueza, lady Isabella, mas não é como eu esperava que fosse — Edward disse, por fim, o que lhe ocorrera desde o instante que seus olhos pousaram sobre a angelical figura feminina. Talvez devesse se desculpar também por estar encarando-a. E a esse pensamento, Edward sentiu que corava.
— É o que acontece, muitas vezes, quando se compra uma mercadoria sem ver antes — Isabella declarou com um sorriso carregado de amargura.
Edward ficou rígido. Não esperava encontrar tanta beleza em sua noiva, mas tampouco um linguajar tão ofensivo. Ela estava sendo absolutamente rude com ele sem que tivesse feito por merecer.
O primeiro impulso de Edward foi pagá-la com a mesma moeda. Algo, porém, o fez calar sua indignação e tentar entender o que havia por trás daquele comportamento. Ocorreu-lhe que aquela era a reação típica de um animal ferido ou encurralado. Enquanto ela não se sentisse segura de que ele não pretendia ofendê-la, continuaria atacando para se defender.
— Eu não a considero uma presa, nem uma mercadoria — Edward declarou, decidido a se armar de paciência até que pudessem se conhecer melhor. — Gostaria que não tornasse a se referir a nós nesses termos.
Isabella ergueu ainda mais o queixo.
— Sinto por ter me expressado mal. Não foi a mim que o senhor comprou. Sei que seu interesse está voltado para estas terras. Eu sou apenas o inconveniente que teve de aceitar em troca de obtê-las. Deve estar lamentando seu destino. Porque para se tornar dono de Shadowsend Keep precisou colocar sobre seus ombros o peso de viver ao lado de uma mulher enjeitada.
— Peço que não torne a usar termos depreciativos sobre sua pessoa em minha presença.
— Aconselho-o que se acostume a ouvi-los. Sem outras distrações neste fim de mundo, as mulheres que aqui vivem se divertem falando dos defeitos dos outros.
— Se os prazeres a que elas se entregam interferirem com minha honra, eu ordenarei que se calem ou que busquem outro trabalho. — Edward avançou alguns passos na direção de Isabella, incomodado com a rigidez de sua postura e com o ar de superioridade com que continuava encarando-o. — Especialmente porque não existe nenhum motivo que justifique essa maledicência.
Isabella cerrou os punhos com tanta força que sentiu as unhas cravarem nas palmas das mãos. Sir Edward não sabia! Ninguém contara a ele! Ele ainda não havia notado sua deficiência.
Não era possível. James e Edward Beaumont estavam se divertindo a sua custa. O que aquele canalha estava esperando? Que ela se humilhasse ainda mais, tendo de traduzir sua cegueira em palavras? Aquele era o maior prazer de James. Quanto mais a feria, mais forte e poderoso se sentia. Se o intruso estava esperando que ela se colocasse de joelhos a seus pés, deveria se preparar para uma surpresa.
— Não estou com disposição para sua ironia. Minha deformidade é visível e eu não tolerarei que tripudie sobre mim. Nosso casamento poderá lhe conferir direitos sobre estas terras e sobre meu corpo, mas nunca espere me vencer em meu orgulho e em minha dignidade. Edward pestanejou.
— Eu não tive intenções de ofendê-la. Sou um homem rude e desconheço as sutilezas que as palavras possam conter. Não é de minha natureza usar de duplo sentido Minha surpresa é genuína.
— Quer dizer que realmente não notou nada de diferente em mim? Que meu irmão nem o rei o prepararam para assumir o papel que lhe reservaram ao mandá-lo para cá?
Edward hesitou. Não era versado em letras nem etiqueta. Técnicas de diplomacia seriam necessárias no trato com a jovem Isabella. Ele tentou apelar para o bom senso para poder esclarecer a situação.
— Seu irmão e eu não freqüentamos os mesmos círculos. — Edward declarou, omitindo sua impressão de que considerava o preferido do rei, um ser inferior a um verme. Não lhe pareceu prudente se referir ao irmão de sua noiva com a honestidade que lhe era característica.
Nada estava fazendo sentido. Com os pensamentos em tumulto, Isabella se pôs a andar de um lado para outro. Estava tão agitada que não se lembrou de que Edward havia tirado a banqueta do lugar. Perdeu o equilíbrio ao tropeçar. Teria caído se um par de braços musculosos não a tivessem sustentado.
O medo desapareceu como por encanto ao inesperado contato. Nunca antes, Isabella havia estado tão perto de um homem que desse para sentir seu calor e os contornos de seus músculos sob a fina lã da túnica. Ele recendia a sândalo. Agradou-lhe sobremaneira que sir Edward não tivesse vindo conhecê-la com aquelas vestes metálicas dos combates. O cheiro acre que provocavam era insuportável a seus sentidos.
As partes de seu corpo que ele firmemente segurava pareciam em fogo. Não um fogo que ardia, mas que a excitava de uma maneira estranha. Parecia se espalhar por seus nervos, provocando sensações desconhecidas, que ela gostaria que se prolongassem.
Um momento que pareceu durar uma eternidade, mas que acabou rápido demais.
Edward precisou lutar consigo mesmo para soltar Isabella. Todas as fibras de seu ser clamavam pelo prolongamento daquele quase abraço. Ela parecia ter sido moldada para caber entre o círculo de seus braços e repousar em seu peito. Permitir que se afastasse parecia ir contra os desígnios da natureza. Suas mãos ansiavam por tocar a pele macia daquele rosto e daquele pescoço. Seus lábios ansiavam por pressionar os dela.
Para fugir à tentação de beijá-la, Edward fechou os olhos, mas tornou a abri-los, incapaz de resistir ao desejo de fitar aquela perfeição. E teve de se arrepender. Porque Isabella lhe pareceu ainda mais bonita com a respiração ofegante e as faces tingidas de rosa.
Ela parecia estar sentindo o mesmo que ele. Esperou por um sinal para inclinar a cabeça e se apoderar daqueles lábios trêmulos, mas os olhos dela se recusaram a fitá-lo.
Abruptamente, Edward a soltou.
Sem noção de onde ele a deixara, Isabella procurou se concentrar. Seu corpo ainda flutuava impedindo-a de se locomover. Não queria demonstrar sua fraqueza, mas uma súbita tontura a obrigou a pedir ajuda.
— Poderia me levar de volta para minha cadeira, por favor?
Edward não podia entender como a voz de Isabella soava tão tranqüila depois do que acontecera. Ele se sentia febril. Ainda não conseguira voltar à realidade.
— O que disse?
Isabella sentiu o sangue desaparecer de seu rosto. Já não bastava de humilhações?
— Não se preocupe — Isabella disse, ríspida. — Eu mesma encontrarei meu caminho.
Edward empalideceu ao, finalmente, entender o problema que atingira sua noiva e que motivara seu apelido.
— Você não enxerga? — ele perguntou, em choque. Ela largou a cadeira em que se apoiara, e endireitou as costas. Em poucas e simples palavras, Edward resumira toda a extensão do sofrimento que se abatera sobre ela havia cinco longos anos.
Incapaz de acreditar na dura realidade com que Isabella se confrontara, Edward não conseguiu fazer outra coisa que não mover a cabeça de um lado para outro, em completo aturdimento. Não era justo. Isabella era pouco mais do que uma criança quando a visão lhe fora tirada. Ela, a mulher mais linda que ele já conhecera, não tinha noção de sua própria aparência.
— Diga alguma coisa! — Isabella quase gritou.
— Eu sinto muito, milady. Não sei o que dizer.
Exasperada, Isabella cruzou os braços.
— Não diga que não sabia! Por que achou que eu era conhecida como a "dama disforme"?
— Eu já lhe pedi para não se referir a si própria nesses termos.
— Por que não? O resto da ilha me chama assim.
— O resto da ilha não me importa. Mas os que habitam neste recanto da ilha terão de obedecer minhas ordens.
A reação do forasteiro deixou Isabella momentaneamente perplexa.
— Está falando sério?
— Sim, eu estou.
— Pois eu me recuso a ser comandada.
— Sou seu marido. Nessas circunstâncias, minha palavra é sua lei.
— Você ainda não é meu marido!
— Eu o serei antes que o sol torne a nascer. Mandarei que avisem o pastor imediatamente sobre minha chegada.
Uma onda de pânico se apoderou de Isabella. Sir Edward tinha intenção de manter seu compromisso, apesar do que acabara de descobrir a seu respeito? Ela teria de pertencer a um completo estranho antes do raiar do novo dia? Por outro lado, não deveria ser motivo de regozijo que ele não tivesse sentido aversão pelo primeiro de seus múltiplos segredos?
Isabella pôde adivinhar que ele sorria pelo tom de sua voz ao lhe segurar as mãos.
— Eu empenhei minha honra neste compromisso. A partir de agora, você faz parte de mim.
Isabella franziu o rosto, incapaz de compreender o sentido daquela declaração.
— Eu não estou entendendo...
Delicadamente, Edward tocou as linhas que franziam a testa de Isabella até desfazê-las.
— Não há o que entender. É um fato.
Ela sentiu o hálito morno e úmido em suas mãos quando ele as levou aos lábios e beijou-as, despertando emoções que nunca imaginara existirem.
O quarto nunca pareceu tão frio e solitário depois que sir Edward se retirou. Isabella encostou as mãos no rosto e maravilhou-se à experiência de seu primeiro beijo. A expectativa do que viria a seguir a deixou alvoroçada. Submeteu-se aos cuidados de Renée que todas as noites a preparava para dormir, mas em vez de deixar que ela a colocasse na cama, pediu que a sentasse diante da lareira.
Os terrores noturnos eram seus companheiros assíduos. Desde criança, antes que perdesse a visão, tinha medo do escuro. Por mais que seus pais lhe ensinassem que o escuro significava apenas a ausência de luz, como o sol que se escondia no horizonte para tornar a aparecer no outro dia, Isabella se fechava em si mesma, toda encolhida, rezando pela chegada do sono de modo que o fantasma do medo desaparecesse.
Triste realidade a espreitava sem que pudesse evitar. Porque a partir de seu décimo sexto aniversário, em acréscimo às noites, todos os seus dias também mergulharam na escuridão.
Era feliz naquele tempo. Amava seus pais e era amada por eles. Havia risos em seu lar. Os ciúmes doentios de James mal eram detectados ainda por sua alma inocente.
Os pais os levaram de férias à Cornualha na ocasião. A paisagem esplêndida, a alegria e o aconchego dos pais, tudo era motivo de felicidade. Os ataques de mau humor, os olhares duros, o comportamento freqüentemente agressivo de seu irmão já não a surpreendiam. Ela procurava ignorar seus ataques e valorizar os bons momentos juntos, por raros que fossem.
Havia uma torre na propriedade que pertencia a sua família desde gerações. Ela não percebeu que James a estava esperando, oculto pelas sombras, sob os altos degraus da torre onde quisera subir para apreciar a vista e admirar o vôo das gaivotas.
Ele a pegou de surpresa. Tapou sua boca para evitar que alguém ouvisse, caso ela gritasse. Atônita demais para reagir de imediato, Isabella se sentiu desfalecer com a súbita falta de ar. Movida por puro instinto de defesa, ela fincou os dentes e as unhas no irmão que a soltou, uivando como uma fera.
— Saiba que este não foi o fim! — ele sibilou. — Isto nunca terá fim!
A ameaça contida naquela voz fez com que Isabella recuasse até suas costas baterem contra a parede. Distraída por um instante, ela não viu que o irmão se preparava para lhe dar um soco, mas sentiu o movimento do ar antes que o punho dele atingisse sua mandíbula.
Os degraus pareciam subir e descer em imagens confusas após o impacto. Depois, misericordiosamente, Isabella não sentiu nada. Quando acordou, estava escuro. Esperou que clareasse, mas a escuridão permaneceu ao seu redor. E também o medo provocado pelo eco daquelas palavras proféticas.
Jamais teria fim.
Nem agora, a centenas de quilômetros de distância. Á cada visita, James renovava suas juras. Não tornara a agredi-la após o acidente na torre, mas ela sabia que sua sede de vingança nunca seria aplicada. Apenas não conseguia entender o porquê de tanto ódio. Desejava, às vezes, que tudo acabasse. Que ela não precisasse tornar a acordar para mais um dia mergulhada em trevas. Era sua primeira noite, em longos anos, que esse pensamento não se atreveu a dominá-la. Uma intensa paz lhe fora concedida como uma bênção. Quando deu por si, estava sorrindo. De esperança.
— Isabella! — Renée exclamou, em tom de censura. — Não me diga que dormiu nessa cadeira a noite toda?
— Não. Eu não dormi nem sequer por um segundo — Isabella confessou ao se levantar e esticar o corpo dolorido.
— Dá para perceber pelas fundas olheiras. Eu lhe diria que está feia com essas manchas roxas sob os olhos, mas estaria mentindo. Além disso, não se pode insultar uma noiva.
— Por que diz isso?
— Insultos trazem má sorte.
— Nesse caso, seja gentil comigo e a boa sorte poderá recair sobre você também.
Renée olhou para Isabella com ceticismo. Sem retrucar, providenciou para que ela entrasse no banho.
— O pastor chegou?
— Oh, sim. Não ousaria contrariar um homem como sir Edward. Ele parece ser do tipo que não desiste quando se propõe a algo. Até mesmo a preguiçosa da Alice, a primeira a vê-lo quando chegou, teve de ficar esperta para dar conta da tarefa que ele a incumbiu de fazer.
— Qual foi?
— Limpar o salão e arrumar a mesa como se fosse um altar.
Isabella sentiu o corpo enrijecer.
— Ele pretende celebrar o casamento no salão?
— Foi o que me pareceu.
— Mas eu não posso! — Isabella exclamou, empalidecendo. — Eu nunca saio do meu quarto. Não tenho condições de descer para o salão. Você precisa dizer isso a ele! O casamento pode ser realizado aqui. Não fará nenhuma diferença.
— Talvez faça para milorde. Porque se atender seu pedido, ele estará acatando suas ordens.
— Você precisa me ajudar — Isabella segurou as mãos de Renée, em súplica.
Renée suspirou.
— Posso tentar. Mas só depois que você tomar seu banho e se vestir.
— De jeito nenhum! — Edward exclamou. — Eu me recuso a casar dentro de um quarto.
— O problema é que lady Isabella jamais deixa seus aposentos. Ela achou que milorde entenderia a situaçã , o casamento terá o mesmo valor onde quer que seja realizado.
Edward desviou o olhar para a lareira. O mesmo local onde pousara seus olhos durante toda aquela noite, importante demais para ser desperdiçada com o sono. Antes do romper da aurora, ele se levantara para se preparar para a cerimônia. Havia acabado de vestir o traje que adquirira especialmente para a ocasião de que nunca sonhara participar como um dos principais elementos, quando Renée bateu a sua porta.
— A cerimônia terá início em uma hora — ele determinou, impassível. — Avise lady Isabella que eu irei buscá-la pessoalmente.
Renée engoliu em seco. Seus olhos pareciam ter aumentado de tamanho. Em seguida, ela os baixou e fez um gesto de assentimento antes de se retirar. A criada sabia quando uma luta estava perdida. Seu tempo seria empregado com maiores vantagens em convencer a noiva a atender o desejo do noivo.
Ao ficar novamente sozinho, Edward apanhou o pequeno saco de couro que deixara sobre o console. O saco continha o anel de ouro que comprara para oferecer a sua noiva desconhecida. Naquele dia, sentira-se estranho, como se não fosse ele mesmo. Agora, no entanto, nada lhe parecia mais certo, mais apropriado.
Isabella. Sua esposa. A imagem dela ficara gravada em sua mente desde o primeiro instante. Agora podia recordá-la em todos os momentos. Até mesmo nas chamas que dançaram a sua frente em sua vigília. Isabella não era mais sua noiva desconhecida, sem rosto e sem vida. Sentira-a vibrar em seus braços. Conseguira despertar seu lado bom. Sua capacidade de amar. Porque a ânsia que o invadira de tocar sua pele era forte, mais suave ao mesmo tempo. Seria incapaz de magoar Isabella. De assustá-la.
— Então, meu rapaz? Está pronto? — Charlie o trouxe de volta ao presente, batendo rapidamente à porta e abrindo-a sem esperar para ser recebido.
Edward fechou os dedos ao redor do anel e se virou para o velho amigo e companheiro. Charlie parecia sem jeito em seu novo traje, com os cabelos ainda úmidos do banho. Edward, porém, nunca se sentira tão bem. Alisou a túnica preta entremeada de fios prateados, ergueu a cabeça e disse:
— Estou mais pronto do que nunca estive antes em toda minha vida.
A porta do quarto estava aberta quando Edward se aproximou. Em silêncio, antes de se fazer anunciar, ele a observou. Isabella estava sentada no chão, em um canto, abraçada aos joelhos. Seu rosto estava escondido pelas ondas de seus cabelos pretos. Gostou de ver que ela também estava vestida especialmente para a ocasião. Seu traje era cor-de-rosa, leve e diáfano. A cintura estava marcada por uma faixa de renda branca. Ainda incrédulo diante de tanta beleza, Edward avançou devagar até se colocar de joelhos na frente dela.
— Quem está aí? — Isabella ergueu bruscamente o rosto que ainda conservava os vestígios de lágrimas.
— Desculpe. Eu não queria assustá-la — ele murmurou.
— Eu me assusto facilmente. Não foi sua culpa — respondeu Isabella, e apelou, antes que ele tivesse tempo de responder, para sua generosidade. — Por favor, não me obrigue a descer.
Edward não esperava que fosse se sentir capaz de traduzir o que se passava em seu íntimo.
— Porque não quer que nosso casamento seja presenciado por sua gente?
A revelação a deixou francamente pasma.
— É isso que pensa? Que eu estou com vergonha de desposá-lo?
— Sim — afirmou, perplexo, por se abrir em confidências com alguém pela primeira vez em sua vida.
Sem refletir, Isabella estendeu a mão, procurando a dele, mas foi a solidez de uma coxa que encontrou.
— Meu problema não tem nada a ver com você. Ao contrário. Tem sido muito bom comigo desde que chegou.
— E fácil ser bom com você.
— Seria capaz de mais um ato de bondade? — Isabella insistiu. — Eu não desço essas escadas desde que fui trazida para cá. Tentei muitas vezes, mas nunca consegui descer mais do que dois ou três degraus. A garganta fechou e eu parei de respirar. Eu me senti completamente desamparada.
O vago sentimento de rejeição de Edward desapareceu como por milagre e foi substituído por um bem-estar que se espalhou pelo peito e por todo o corpo. No lugar em que Isabella pousara sua mão, em especial.
— Você nunca mais sé sentirá desamparada. Eu prometo. Não me afastarei de seu lado nem sequer por um segundo. — Edward se moveu, sem se levantar, de modo a tocar nas faces ainda úmidas de lágrimas. — Eu serei seus olhos.
