Capítulo 3
Mus
Rato

Havia algo de errado com Padfoot. Eu tinha certeza absoluta disso, por mais que ele insistisse em me dizer que estava tudo perfeitamente bem.
E havia algo errado com Prongs, também. Ele me disse que era a ansiedade pelo jogo contra Slytherin, mas eu tinha a sensação de que essa não era toda a verdade. Prongs tinha um ego grande demais para ficar ansioso antes de um jogo.
Moony concordava comigo. Ele me disse isso um dia, quando nós ficamos sozinhos no dormitório porque Prongs estava treinando e Padfoot estava "estudando".
- Acho que tem alguma coisa a ver com o namorado dele – cogitei. Moony me olhou daquele jeito estranho, como sempre olhava pras pessoas que falavam nos namorados de Padfoot.
Era como se ele nunca fosse conseguir se acostumar à idéia de que Padfoot namorava pessoas do sexo masculino.
- Mas o que o Prongs tem a ver com isso?
- Talvez ele saiba quem é.
- Se o Prongs soubesse quem é, ele teria contado pra gente. Nunca vi ele guardar segredo.
Não respondi. Eu sentia que, dessa vez, ele conseguiu. Por alguma razão, ele tinha conseguido esconder uma coisa de nós dois, e eu queria mais saber qual razão era essa do que o que ele estava escondendo.
Moony me olhou daquele jeito. Ele sabia que eu não ia sossegar até descobrir. E ia querer saber assim que eu próprio soubesse.

Padfoot desceu dos dormitórios ainda usando a calça do pijama – nada na parte superior do corpo, mas isso já era previsível, vindo dele. Se jogou numa poltrona perto da minha e me olhou.
- Não vai descer pra ver o jogo? – perguntou, com um ar displicente.
Aquele era Padfoot: o tipo de pessoa para quem "classe" era um sinônimo de "sala de aula". Não exatamente o que você espera do seu amigo mais gay que Abba.
Mas Padfoot não conseguiria ser afetado nem se tentasse. Ele era desleixado demais para isso.
- Posso perguntar a mesma coisa pra você.
- Não consegui dormir a noite inteira.
- Por quê?
Eu sabia que era seguro perguntar isso. Ele tinha passado a noite no dormitório. E, mesmo que não tivesse, ele não entraria em detalhes. Ele nunca entrava.
- Eu estava pensando, Wormtail. Você já deve ter ouvido falar do meu namorado que ninguém sabe quem é, certo?
Fiz que sim. Essa fofoca tinha sido espalhada no começo do ano letivo, e agora, quatro meses depois, tinha perdido um pouco da graça. Isso não impedia as pessoas, claro, de continuarem apostando quem seria o namorado de Sirius Black.
Não podia acreditar que eu, Peter Pettigrew, estava a segundos de descobrir.
- O Prongs pegou nós dois numa situação... comprometedora, uns dois meses atrás. Por isso que ele tem andado "estranho", como você insiste em dizer.
- Mas ele não tem nada a ver com isso.
- Não, ele realmente não tem nada a ver com isso. Mas ele me mostrou um outro lado da coisa... algo em que eu não tinha pensado antes. – Ele parou e respirou fundo. - Eu terminei com ele ontem – completou.
Padfoot parecia prestes a chorar, e eu imaginei se ele tinha passado a noite em claro lutando contra esse impulso tão indigno. Ele era de Gryffindor – sangue-frio e lágrimas não são exatamente amigos de infância.
E, mais ainda, ele era um Black, por mais que ele tentasse negar isso.
- Quem era ele, Padfoot?
Ele me olhou e, por um segundo, eu achei ter visto os cantos da sua boca se curvarem para cima, como se ele tivesse cogitado sorrir.
- Regulus.
- Regulus? Regulus Black, seu irmão?
- Regulus Arcturus Black, filho preferido dos meus pais, orgulho da família. Meu irmão mais novo, meu ex-namorado - enunciou. Eu podia sentir uma certa tristeza, mas ele se recusaria a admitir isso.
Não respondi, mas percebi que estava me forçando a não deixar meu queixo cair. Ninguém, nem mesmo as mentes mais pervertidas de Hogwarts, tinha apostado em Regulus. E eu sabia disso, porque eu estava controlando as apostas.
- Como isso aconteceu? – perguntei, antes de conseguir registrar que estava falando as palavras que me vinham à mente. – Não, não, isso não importa. O que importa é... Padfoot... eu... eu não sei o que dizer.
- Eu sei, isso é inesperado, mesmo nos meus padrões. Mas o que eu posso fazer, Wormtail? Um dia a gente descobriu que era bom. E não dava mais pra parar.
- Vocês são insanos, sério – murmurei. Padfoot riu. – Como você termina com o seu próprio irmão?
- Não sei. Mas é uma coisa com a qual você tem que lidar quando você namora ele.
- Deve ser confuso.
- Muito mais do que você imagina – estendeu a mão para a pilha de muffins que eu tinha abandonado em cima da mesa de centro. – Sabe o que é ridículo? A gente tava começando a cogitar contar pras pessoas... pra vocês três, por exemplo. Mas eu nem sei se eu amo ele assim, sabe? Só era bom, muito bom.
Eu não disse nada. Até porque, honestamente, o que ele podia esperar que eu dissesse? Padfoot terminou de comer uns três muffins antes de desistir de esperar que eu dissesse alguma coisa por livre e espontânea vontade.
- Eu não quero nem pensar em contar isso pro Moony.
Olhei para ele. Moony ficaria completamente louco se soubesse daquilo. Ele jamais aceitaria que Padfoot estivesse dormindo com o próprio irmão. Seu senso de moral era rígido demais para isso.
Ou, pelo menos, era isso o que todos pensávamos.