O CISNE ACORRENTADO

CAPÍTULO III

Por Louise von Dini


Disclaimer

Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumadsa e outros, não a mim. A presente obra não visa fins lucrativos, mas tão somente o entretenimento gratuito de fãs que gostam de ver homens se amando.

Qualquer semelhança com personagens, lugares ou situações reais, não é mera coincidência, meu caro.


[SHUN DE ANDRÔMEDA]

Eu nunca levei minha razão tão à sério quanto o meu coração. Às vezes eu acho que esse foi meu maior problema.

Desde pequeno eu sempre fui o passivo, aquele que deveria ser protegido, aquele que não conseguia fazer nada sozinho. E continuei assim, mesmo tendo passado por várias provações, por treinamentos tão árduos que me faziam chorar a noite inteira até que meus olhos se fechassem e os sonhos viessem.

Eu chorava e não tinha vergonha disso. Talvez até mesmo me orgulhasse, porque eram as minhas lágrimas que diziam que eu ainda era humano, que não importava pelo inferno ou céu por onde eu passasse, eu ainda seria humano e meu coração continuaria batendo.

Eu, certamente, como vê, querido Loren, era um rapaz inocente.

Lembro-me — tão claro como este dia e tão distante quanto as estrelas — como o mundo me parecia sempre alegre, apesar das lutas, das mortes e de tudo que eu não entendia e apenas procurava um modo de fazer acabar o mais rápido possível.

Costumava sentar-me em um jardim, perto de alguma grande árvore e ficar ali horas observando e apenas isso.

Sim, é claro, eu ainda faço isso hoje. Eu ainda consigo passar um dia inteiro apenas olhando uma árvore. Mas não como antes.

Cinco anos atrás — talvez mais — as folhas que farfalhavam me davam sempre uma expectativa de que os ventos as levariam a lugares distantes onde o mundo fosse outro e elas não apenas simples folhas. E as flores me pareciam sempre eternas.

Na realidade, elas ainda me parecem eternas, e esta é uma das poucas características daquele rapaz que fui que ainda permanece em mim. As flores têm vida própria e acho que não importa por quantos males eu passe, elas continuarão sempre assim.

Mas as folhas...

Sabe, Loren, quando eu olho para uma árvore, mesmo em plena primavera, e um vento sopra, como agora, eu sinto que as folhas cairão. Não importa realmente o quão forte for esse vento, para mim elas irão se desprender e flutuar até alcançar o chão.

Isso me parece um tipo de fantasia, um sonho do qual não acordo.

E naqueles longínquos tempos eu gostava de sonhar.

Eu sonhava com a paz, com meu irmão, com meus amigos. E eu sonhava com ele.

Alexiei Hyoga Yukida.

Há muito esse nome se tornou parte de mim, incrustando-se em meu coração como uma pedra preciosa, mas negra. Tão negra quanto uma noite sem luar. Mas preciosa, creio eu, de seu próprio jeito.

Alexiei sempre foi bonito, desde pequeno. Eu me lembro tão bem... Ele não poderia ser comparado aos outros, porque ele era especial de algum modo. Eu era ainda uma criança para entender. E nunca disse a ele o quanto o achava lindo quando éramos pequenos, embora eu tenha dito isso mais de uma vez a Shiryu e Seiya e Ikki também — coisas de crianças, compreenda.

Mas eu nunca disse a ele, porque Alexiei era frio.

Não importava o quanto eu sorrisse para ele, o quanto eu quisesse me aproximar. Alexiei apenas se afastava com seu olhar de gelo. Aquilo doía em mim. Doeu quando éramos pequenos, e doeu ainda mais quando nos reencontramos e eu descobri — não sem incontáveis noites de choro — que eu o amava.

Eu o amava mais que a mim mesmo e não podia negar nada a ele.

Talvez se houvesse sido menos submisso e tentado pensar um pouco mais no futuro, nada disso teria acontecido, e, quem sabe, hoje eu fosse alguém tão feliz quanto fui antes de Alexiei tocar em mim, antes dele tocar meu coração com suas mãos frias e comprimi-lo até quase esmagá-lo.

Eu não deveria ter cedido. Mas eu cedi.

Lembro-me tão bem! Foi a noite mais maravilhosa e mais odiosa de minha vida.

Estávamos apenas nós dois naquela mansão. Onde estavam os outros não importava, não fazia a menor diferença, porque eu percebia, daquele grande sofá, que os olhos de Alexiei estavam em mim. Eu nem mesmo tive tempo de vê-lo melhor. Ele me puxou por um braço e me beijou, disse que me queria.

E eu me entreguei, porque eu o amava e nada me parecia mais com o paraíso do que estar entre seus braços.

Alexiei me possuiu, me fez seu naquela noite e eu dormi tranqüilo em seu peito. Mas quando eu acordei ele não estavam mais lá e quando nos vimos novamente ele agiu como se nada houvesse acontecido. Nada realmente importante.

E assim aconteceu durante todas as noites. Com a sutil diferença que, a cada dia, ele se tornava mais rude, me machucando e não se importando com isso. Eu chorava silenciosamente no escuro do meu quarto quando não tinha ninguém perto para escutar e mantinha meu sorriso na frente dos outros.

Ninguém percebia, e mesmo eu só compreendi que todos os sorrisos que exibia eram falsos, muito tempo depois.

Não havia ninguém para me ajudar, nem mesmo meu irmão. Eles sabiam de mim e Alexiei, todos eles, mas não sabiam da minha infelicidade.

Ainda assim eu continuei fazendo trepando com ele. Sim, essa é verdadeira palavra, embora chula. Nós não fizemos amor, e nem mesmo fazer sexo seria o suficiente para descrever a dor que eu sentia e a ferocidade com que ele entrava e saia de mim. Eu sabia que ele não me amava, sabia que ele não ligava se eu estava morto ou vivo, mas eu nunca pensei em dizer não. Nunca... Eu sempre dava a ele tudo que ele queria, por mais que doesse.

Nós vivemos assim — como estranhos na cama e também fora dela — até que Saori nos chamou para uma reunião e disse que seriamos Mestres dos futuros cavaleiros de ouro.

Ela nos deu apenas um mês para nos acostumarmos com a idéia.

Mas dois dias depois do que era para mim uma fatídica reunião, percebi a ausência de Alexiei. Perguntei a Saori onde ele estava e ela apenas olhou-me espantada, porque julgava que eu sabia. Ela me disse que Alexiei havia pedido para ir antes do previsto.

Ele simplesmente pegou um avião para a Sibéria e se foi. Sem despedidas, sem palavras, sem pistas.

No começo eu realmente fiquei ainda mais triste do que se ele estivesse por perto. Mas com o tempo percebi que assim havia sido melhor. Isso levou exatamente um mês.

Foi quando cheguei aqui no Santuário, sem nenhum de meus amigos por perto nem Ikki, que eu percebi que meus falsos sorrisos não eram mais necessários. Eu estava livre.

Livre para deixar que a minha tristeza se refletisse em meu rosto; livre para chorar alto em minha cama; livre das dores que Alexiei me causava.

Com o passar dos anos eu mudei e minha vida também mudou. Eu amadureci e a minha dor e minha tristeza acabaram se tornando parte de mim de uma forma que doía menos, mas estava sempre lá. No entanto eu nunca esqueci Alexiei, por mais que quisesse.

Três anos atrás conheci um homem em Atenas, um vendedor de quadros de artistas desconhecidos. Porque procurava um quadro para por na parede de meu quarto, algo abstrato era o que eu queria. Mas, enquanto o homem me mostrava tudo que tinha a venda eu vi, numa parede de sua casa, o quadro que hoje está cuidadosamente na parede oposta à minha cama.

Você sabe de que quadro eu falo, já o viu incontáveis vezes.

Aquele quadro resumia toda a minha dor e eu paguei muito por ele, porque não estava à venda e o homem relutou em me vender, até que sua ganância foi maior que o amor por suas pinturas.

O que eu vejo naquele quadro é o que eu sinto.

Eu vejo Alexiei querendo partir para seu mundo de solidão e eu tentado puxá-lo para as águas profundas e escuras do Amor. Foi aquele quadro que me deu a plena certeza de que tudo aconteceu como deveria ter acontecido. Alexiei se libertou de mim, embora eu não tenha verdadeiramente permitido.

E com a libertação do cisne, as correntes voltaram solitárias para seu mundo escuro e tão profundo que ninguém podia vê-las, senti-las ou tocá-las.

Eu acordo e durmo olhando aquele quadro para me lembrar que o Destino foi cruel, mas foi justo.

Embora a minha infelicidade fosse infinita e eu pudesse culpar a todos. Mas eu nunca culpei.

Eu realmente nunca culpei ninguém...

FIM DO TERCEIRO CAPÍTULO