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CAPÍTULO II – O VISITANTE


Hoje eu acordei com medo de morrer. Não só medo de perder a – minha – vida, mas de perder o meu marido. Confesso que não é apenas o receio de que ele morra que me atormenta. Esse medinho veio acompanhado do medo de que ele opte pela separação.

É incrível a magia das coisas quando se iniciam...

Imagine aquele clichê hollywoodiano em que os mocinhos se beijam única e exclusivamente no final...

Imaginou?

Certo. Daí aparece "Fim" enquanto a tela escurece. Esse escurecimento gradativo que leva aos créditos nos convida a pensar "O que será que acontece? Como eles viveram depois disso?"

Aceite: todos os romances – na vida real – começam como qualquer clichê mastigado de Hollywood e terminam em crises conjugais, consultórios de análise – em alguns casos, em divórcio, ou ainda assassinato. Conosco foi assim. Não, não nos assassinamos ainda. No nosso primeiro beijo eu me imaginei num filme. Estava nas nuvens. Faltavam os fogos de artifício e a música de fundo. Sucederam-se inúmeros momentos desse tipo, até que aqueles cabelos espetados acompanhados daquele rosto tão bonito, aos poucos, perdiam a graça.

Não acredite nos filmes; em Hollywood. É tudo mentira, tudo puta e não existe felicidade eterna: elas soltam pum e eles borram cuecas.

Felicidade... Felicidade é uma droga! Não estou sendo hiperbólica ou bancando a depressiva. A felicidade é uma droga no sentido próprio da palavra. O efeito dela causa dependência. Quando não se sente mais aquela sensação de euforia, nem vontade de abraçar o mundo – para contaminá-lo com essa sensação – surge a necessidade de conseguir mais dessa sensação. Até aí, okay. O enrosco acontece quando não se sabe o que fazer para obter outra vez, serotonina a rodo, saltitando pelo corpo e acelerando as palpitações.

Não acredite também, quando disserem que o mundo precisa de Paz. Imagina que monotonia asquerosa, todos convivendo felizes e sem conflito? A vida na terra se tornaria uma rotina insuportável até para deus – claro, ele não teria mais povos para proteger, nem preces para atender. E como deus é moço trabalhador, esbanja energia, não vai exterminar sua única função.

Mas veja só! Eu deveria falar da minha vida e já enfiei deus e o mundo – literalmente – nesse samba do crioulo doido. Estou prolixa hoje!

Minha recém-nascida prolixidade é um sinal de que a realidade está me amedrontando; os fatos me maltratam e eu não tenho certeza do que fazer com este desespero.

Ligo a TV.

Assim me sinto menos sozinha – quiçá, menos vazia. Sasuke está trancado no banheiro há pouco mais de uma hora e eu não ouso bater à porta – seja por medo de que ele abra e o incenso me toque o olfato e/ou receio de encará-lo. Desde a noite em que dormimos separados, as coisas pioraram – ingênua, pensei que não existisse a menor possibilidade de as coisas desandarem mais ainda! Murphy, pare de me pregar peças. Perco meus sapatos, meus cartões de crédito, meu marido... acabo mentecapta e careca.

Desligo a TV.

Não há nada relevante nos inúmeros canais pelos quais passei. Não quero ouvir música, quero distância de computador. O dia está sorrindo e não quero, não tenho vontade de sair. Observo minhas mãos; unhas no tamanho certo – ótimo pra dar aquela coçadinha sem o risco de quebrá-las –, sem cutículas para tirar-lhes o charme, esmalte – bordô – lascado na ponta da unha do mindinho da mão direita. Mas que saco!

Ligo a TV outra vez. Esportes. Música. Chat, sexo por telefone. Aparelhos que garantem corpos perfeitos sem que o usuário faça qualquer esforço – a não ser, esvaziar os bolsos. Culinária. Deus. Notícias. Artesanato. Nada que resolva meu problema. TV, você está me reprimindo e eu não quero mais papo.

É, desliguei.

O telefone toca.

Ligação a cobrar? Mas que bonito!

— Alô?

— Quem fala?

— Como assim, meu bem? Liga a cobrar e não se identifica?

— Posso falar com o Sasuke?

— Quem tá falando?

— Ele sabe.

Mas que petulância! Que desaforo! Sangue subindo.

É voz de homem. Deve ser algum amiguinho dele chamando-o pra sair, pegar vadias e encher a cara, como se estivesse na flor da adolescência que desabrocha nas baladas e boates. NÃO ACREDITO QUE EU SOU CHIFRUDA! Claro, faltava um enfeite na minha testa enorme; decoração em minimalismo, nunca.

— Vai tomar no cu! — desliguei o telefone, tirando-o da tomada em seguida.

— Sakura, quem era no telefone?

Gelei. É a primeira vez que ele fala comigo em doze horas.

— Era engano.

Ele colocou a cabeça para fora do banheiro.

— O que ta fazendo? Coloca isso na tomada! O Itachi vai ligar. Ele vai me esperar no centro, quando ele ligar, irei buscá-lo.

Acho que minha cara de espanto me denunciou.

— Ele vem passar o fim de semana conosco, Sakura.

Acho que vou botar um ovo. Não sei se boto o maldito ovo porque ele chamou o irmãozinho para passar o fim de semana aqui e simplesmente não me avisa; ou ainda porque acho que mandei o pobre diabo tomar no cu sem motivo algum. Ok, tinha motivo sim, ele ligou a cobrar.

— Você não avisou antes por quê? — senti o rubor tingir minhas bochechas, testa, e afins. — Não temos praticamente nada em casa, é fim de mês!

— Só coloca o telefone na tomada.

Vai tomar no cu você também.

Contrariada, obedeci. Odeio quando ele fala assim comigo. Odiar eu posso; só não posso reclamar, não tenho direito para isso: há dois dias eu joguei uma cueca molhada na cara dele e ele não me levantou a mão. Claro, mas me agrediu verbalmente. Diante disso, eu poderia muito bem descer o cacete nele. Mas não o farei. Não sou desse tipo, não sou do nível dele. Não que eu seja superior, mas eu não desceria tanto.

AI COMO ELE É COVARDE!

Eu queria resolver as coisas. Só eu e ele. Tá mais do que evidente que ele não quer resolver as coisas, não quer ficar comigo: nós brigamos e ele me aparece com essa surpresinha! O que eu faço? Converso outra vez com o meu psicólogo de terceira idade? Ele vai me dizer o que fazer. Se ele me disser como da última vez, para eu rezar, pedir para Deus, paz interior, sabedoria e paciência, ele vai ter que rezar pra eu não quebrar a espinha dele com a própria bengala. Quero uma solução prática, instantânea, se possível. Nada a longo prazo, ou sem garantia de que funcione.

Daria tudo para que as coisas se resolvessem, voltassem a ser como antes. Não aguento mais esse clima de cada um no seu quadrado. Isso me afeta, apesar de que por outro lado eu esteja indiferente. Sinto-me a pior pessoa do mundo dizendo que não estou me importando com a situação do meu casamento, mas eu realmente não ligo – pelo menos não tanto quanto deveria. A única coisa que ainda me desperta sentimento – leia-se: raiva – é o fato de ser contrariada. No entanto, é minha obrigação admitir que há tempos não me importo com muita coisa.

De qualquer forma, estou decidida a manter meu relacionamento. Seja lá por que estou acomodada, seja por que ainda sinta por ele, qualquer coisa que se assemelhe a amor. Embora não sinta mais ciúmes ao imaginá-lo com outra, acho que não me seria agradável saber que existe alguém ocupando um lugar que já foi meu, passando a mão naquela bundinha durinha que também foi minha.

Estou num beco quase que sem saída.

Hoje não visitarei vovô Sarutobi: ME RECUSO A SAIR DE CASA.

Aliás, sair de casa no fim de semana. Na realidade, não preciso me recusar, só digo isso porque me sinto mais dona do rumo das coisas. Sei que não sairei de forma alguma. É mais do que provável que Sasuke resolva passear com o irmãozinho e me deixe em casa largada às traças, às baratas, aos pensamentos suicidas.

Ótimo, aproveitarei para sair, fazer compras, ir a um salão e... Ok, não aproveitarei nada disso sem carro. Maldito.

Barulho de porta abrindo. Sasuke saindo do banheiro, aquele cheiro de shampoo inundando o corredor. Já disse que adoro quando ele sai só de toalha? Ele tem costas lindas – sobretudo quando as gotículas de água estão enfeitando-as – e... o que estraga a paisagem é aquela mancha marrom na toalha.

— Sasuke...

Não me respondeu, apenas voltou a cabeça em minha direção.

— Essa mancha marrom na sua toalha... é...

Moveu a toalha e visualizou a mancha. Coçou a cabeça, segurou um sorriso sem graça. Jogou a toalha dentro do banheiro.

Outra vez minhas expressões me denunciavam.

— Que foi? Nada que você já não tenha visto. — ferradura nova, é, Pocotôncio?

Sentei-me no sofá outra vez.

Continuaria a leitura de um livro que iniciei semana passada. O livro é ruim, no entanto, pior seria se eu resolvesse ligar a televisão para assistir algum programa imbecil de artesanato ou famosidades. Vejamos... parei no quinto capítulo.

Droga.

Não quero ler, também. Também não quero ficar em casa. Sasuke vai dar carona para desconhecidas. Vou me esconder no banco de trás ou no porta-malas.

Certo. Hora de me recompor. Sou uma mulher madura e vou ignorá-lo.

Um homem que consegue frear sua própria toalha de banho não merece minha atenção.

Não? E o que raios estou fazendo casada com um homem desses?

Algo que talvez nem a filosofia explique. A única coisa a qual tenho certeza, é que agora, vou me manter calma, controlada e usar todo o meu potencial artístico para encenar. Ok, estou tranquila, nada aconteceu , eu gosto o meu cunhadinho inconveniente e essa droga de psicologia inversa não funciona comigo. Por favor, que nenhum objeto potencialmente perigoso caia em minhas mãos – como por exemplo, as chaves do carro – porque eu não estou tranquila, os últimos acontecimentos me irritaram profundamente, eu odeio o Itachi e agora sim, estou começando a me sentir levemente aliviada. Por que ninguém nunca me disse que admitir é o primeiro passo?

Certo, o segundo é matar o meu marido da forma mais lenta, dolorosa, sádica e torturante possível, devorar cada pedacinho, usar seus ossos para palitar os dentes e seus cabelos como fio dental.

Ele saiu do quarto.

Estava mais bonito do que nunca ou era a minha neura distorcendo as coisas! Os cabelos ainda úmidos caíam-lhe sobre as têmporas – um bagunçado espontaneamente forjado. A camisa branca sob a jaqueta preta, o jeans escuro, ajustado. A poucos metros de distância eu podia sentir o cheiro do perfume que ele usava. Ele caminhava na minha direção. Estranhei.

Os olhos, que até então estavam baixos, atentos aos detalhes da roupa, levantaram-se para mim. Acho que tremi. Ele já estava muito próximo e eu, sem saber o que fazer. Quando eu menos esperava, parou, inclinou-se e pegou as chaves do carro que estavam próximas a mim, no sofá, encaminhou-se para a porta e saiu.

Não disse nem tchau.

Tomara que você morra antes de bater o carro, Sasuke.

O tempo andou devagar.

Foram-se duas horas. O sol ainda iluminava a cidade. Era um bonito fim de tarde em meio ao mau humor do outono. O céu, milagrosamente, estava azul, livre de nuvens em contraste com o verde mortiço das árvores da rua. O vento brincava com as folhas mortas; empurrava-as pelo asfalto, ou apenas as fazia rodopiar pelo ar, caindo graciosamente para serem empurradas outra vez.

Pensei no vovô Sarutobi.

Com certeza, diria para eu me acalmar porque a tranquilidade é o bem maior que pode existir e só ela vai me dar a luz que é necessária pra resolver o meu problema, e etc, etc. Aquele papo de gente experiente que na maioria das vezes é a mais pura verdade e que eu nunca dei ouvidos...

Só pra ver o que acontece, eu faço diferente dessa vez.

A muito custo, consegui me acalmar. Liguei a televisão. Continuei mudando de canal até achar um filme qualquer. Não me agradou. Desliguei, pela milésima vez. A sala, aos poucos, era tomada pela penumbra e Sasuke sem dar as caras. Resolvi me empenhar em algo mais produtivo: ouvir música. Entre os cd's, algo me chamou atenção: Confessions On a Dance Floor.

Por que não?

Primeira faixa. Pulei para a minha preferida: How High.

Não sabia se dançava, ou se me jogava outra vez sobre o sofá. Optei pela segunda. Tão logo eu já estava entregue ao som tão convidativo, cantando o refrão da música e dançando no meio da sala, How high are the stakes? How High, does it make a difference? Nothing lasts forever. Does this get any better? Should I carry on? LALALALALALALALALALA.

Isso significa algo? Alguma peça que o destino me prega? Madonna me dizendo coisas que eu preciso ouvir.

A música ou a dança, talvez a combinação deles, tirou um peso – ainda que mínimo – de mim. Aos poucos eu me sentia menos irritada e uma ideia surgia.

Eram oito em ponto quando ele chegou. O som ainda estava ligado – o volume, alto. A música cessou de repente. Ele me chamava.

— Sakura! Você não vem cumprimentar o Itachi? — ele com certeza apostava pelo menos metade das fichas, que com isso, conseguiria me irritar.

Mas não dessa vez, baby.

Saí do quarto, apressada, bancando a simpática.

— Olá Itachi, como vai? Desculpa os trajes. Estava meio indisposta e pensei que vocês demorariam mais. Acabei colocando o pijama antes da hora. — eu o abracei.

Apesar de inexpressivo, Sasuke demonstrou certo incômodo com a minha simpatia e claro, com a minha camisola de renda, um pouco mais de um palmo acima do joelho. Trocamos mais algumas palavras e Sasuke encaminhou-se para nosso quarto; antes de entrar, lançou-nos um olhar fulminante e adentrou o cômodo. Continuei bancando a simpática, dando boas vindas a Itachi e pedi licença para trocar de roupa. Eu sabia que Sasuke estaria me esperando no quarto, pronto para me crucificar de ponta-cabeça. Vai ter treta, é? Cai dentro!

Saí rebolando tanto, que senti minha bunda bater na nuca.

Entrei saltitando; procurei qualquer coisa que pudesse esconder meu corpo dos pés à cabeça. Não estou acostumada a me expor desse jeito; sou tímida. Amanhã não consigo olhar na cara de nenhum dos dois; que vergonha, deus! Uma burca ia bem nos próximos dias.

Senti meu braço ser puxado.

— Enlouqueceu de vez? — Sasuke me apertava o braço e estava furioso. Ui, perigo. — Tá querendo me matar de vergonha?

Ok, me senti ofendida. Como assim, matar de vergonha? Ainda não tive filhos, tô com a bunda e os peitos no lugar, posso sim, sair me exibindo por aí de camisola curta! Não tenho o físico da senhora sua mãe. Tá pensando o que da vida, bonitão?

— Eu conto até três pra você me soltar; vou fazer um escândalo tão grande, que a cidade toda vai pensar que a gente tá fazendo sexo selvagem. — sorri

— Não começa. Ninguém quer ver os seus showzinhos. Eu não aguento mais essa palhaçada! — apertou meu braço ainda mais.

— Ninguém quer ver meus showzinhos? Se eu sair de lingerie na rua, vamos ver quem tem razão, Sasuke. — fuzilei-o — Aliás, não preciso sair: a cara de babão do Tachinho disse tudo. Tem algo de errado na sua afirmação, não acha?

Sasuke apertou meu braço.

— Você entende tudo errado mesmo, pra variar, não é? É por isso que a coisa toda já virou um circo.

— Escuta aqui, seu boneco de voodoo, quem não aguenta mais essa palhaçada sou eu. — desvencilhei-me dele. — E não abusa da sorte.

Eu nunca fui muito boa com ameaças.

— Ah, você vai fazer o que? Vai mandar me prender? Colocar laxante na minha comida? Me bater com um gato morto até ele miar?

— Por favor, Sasuke. Você anda assistindo filmes demais.

Eu sabia que nós viveríamos em guerra depois que Itachi fosse embora, então... Apesar dele, por um lado, ser uma visita inconveniente, por outro, aliviaria parte da tensão – ou pelo menos se espera que ele diminua esse clima efervescente pré-terceira guerra mundial.


O5 - O9 - 2O11


N/A: Primeiro de tudo, peço UM MILHÃO DE PERDÕES PELA DEMORA. Passei por fases difíceis e acabei me acomodando também. Concordo que é uma falta de respeito muito grande com quem lê, e mais uma vez, peço desculpas, perdões, etc. Esse capítulo saiu maior do que o imaginado, teremos o visitante parte II, o que quebra um pouco a minha proposta de apresentar o enrosco em: Crise, Guerra e Trégua. IUASHDSAIUDHA Enfim, espero que alguém leia, e se ler, espero que goste e não tiro a razão de me xingarem, rs.


Pisione, desculpe o atraso, mas está aí :D

'Dusk Cherry, obrigada, espero que não tenha desistido da fic, rs.

-0 Iummy-chan 0- , uaishdiusadhaisudhsaiuhd, obrigada. e quanto ao filho duma égua, ele simplesmente me desceu e eu escrevi, rs.

Lady Nana-chan, :D

HOLLYDAY , hsudhaiudhaiusdha é bom saber que eu faço as pessoas rirem, rs.

Sylvio, tá bom, cláudia ):

Uiu Asakura, iuahdiaudhaiudhaiushda, você ri à toa, mas já é alguma coisa vc achar engraçado; 'Sakura-enxaqueca'? HUASDHAUDHASD eu nem lembrava disso :3

caroll, obrigada :)

Kynn-chan, aaaaaaaaaaai me desculpa pela demora, mas tá aí. espero que goste :)

Final Fairy, obrigada. espero que goste da continuação :D

OBRIGADA PELAS REVIEEEEEEEEEEWS :D