"Não importa o quão rápido voe, um avião de papel não pode atravessar uma parede de concreto."
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Capítulo 02 – Do Interrogatório
"Eu sabia, era bom demais pra ser verdade."
Tirou as luvas plásticas com certo grau de nojo no rosto, lançando-as em uma lixeira próxima. Olhou para a maca de metal vagamente, franzindo as sobrancelhas logo após. Meneou a cabeça, saindo pela porta e sendo seguida pela outra mulher.
Brutal era a palavra a definir. Como se uma besta selvagem tivesse estraçalhado o corpo da garota ao ponto de dificilmente poder ser reconhecido.
"Quanto maior é a calmaria, maior é a tempestade que vem depois." Tsunade concluiu, andando rapidamente pelos corredores do necrotério após sair da longa e desgastante necropsia. Agora o corpo de Hinata estava sendo ensacado e preparado para retornar à sua família, para as honrarias tradicionais.
E era pior do que simplesmente tentar reunir os pedaços de um de seus ninjas de volta à ordem natural.
Era como um quebra-cabeças grotesco. Ela já havia visto aquilo aos montes durante a guerra, enquanto tentava em vão salvar os seus por meio de jutsus de cura, bandagens e fileiras de palavrões. O que não impedira grande maioria de seus compatriotas de voltar à vila carregados dentro de sacos plásticos.
Como Nawaki.
Tsunade estremeceu imperceptivelmente com a ideia, seus dentes bateram um ao outro. Não, não havia sido como Nawaki. Não havia sido como Dan também.
Aquilo não era uma guerra.
Aquilo era um ato isolado de pura bestialidade dentro da vila que ela havia sido encarregada a comandar. E a nova ideia a deu um ódio maior do que sua antiga fobia de sangue.
"Sinto muito, Hokage-sama."
Foi a voz de Shizune que chegara aos seus ouvidos. Parou no caminho ao ouvir aquilo, mordendo o lábio por um momento. Fechou os olhos, respirou fundo e contou mentalmente até três.
"Não sou eu que estou sofrendo, Shizune." Disse resolutamente. "Só posso tentar imaginar o que deve estar se passando no Clã Hyuuga agora. Em que pé estamos?"
Shizune foi pega de surpresa, reunindo os papéis que estava segurando. Ela parecia estar sempre segurando papéis.
"Neste momento Hyuuga Neji está na sala de interrogatórios esperando ser questionado pela ANBU."
Tsunade deixou um som de descontentamento passar. O garoto da Bunke?
Não que ele não tivesse a frieza para tal se fosse ordem de missão e se fosse necessário. Ele fazia parte dos ninjas com que a Hokage contava que passariam uma kunai na garganta de um colega de time se fossem ordenados a fazê-lo, e nem ao menos cogitariam a hipótese de questionar o comando. Era assim que os membros do Clã Hyuuga eram, e isso fazia deles os melhores ANBU de Konoha.
Mas com Hinata?
Com Hinata não fazia mais o menor sentido. Neji poderia até mesmo odiar sua família, como dissera aos quatro ventos no Chuunin Shiken, mas era mais do que claro que os protegeria até sua morte.
"Então os resultados são conclusivos?"
"Sim, o DNA sanguíneo é compatível com o de Hyuuga Neji."
Ela deu um suspiro condescendente. Neji tinha motivos precedentes, oportunidade, zero álibi e a acusação maciça de sua própria família. As coisas não estavam muito boas para ele. Meneou a cabeça mais uma vez, incrédula.
"Você testou os outros? O conselho Hyuuga? Os membros da Souke e da Bunke? Hyuuga Hiashi?"
Shizune arqueou uma sobrancelha, descrente.
"Hiashi-san também, Tsunade-sama?"
"Isso é uma investigação de assassinato, Shizune! Você tem que testar a todos! Todos os membros da família!"
Um momento de silêncio.
"Sim, mas é que..."
"Assumiram que a culpa deveria ser do bunke, simplesmente porque é da família secundária?"
Shizune a olhou de volta, sem saber o que responder. Os próprios Hyuuga haviam entregado Neji de bandeja. Ele mesmo não havia feito nem ao menos a menção de negar ou resistir quando o abordaram dentro de plena propriedade Hyuuga.
"Bem... Testamos todo o sangue da área, e além do da própria Hinata-san havia outro de DNA muito parecido com o dela. Deduzimos que era alguém de sua família, com proximidade genética de primeiro a terceiro grau."
"Poderia ser praticamente qualquer parente, Shizune."
"Sim, mas... Senhora, e quanto ao motivo?"
Mas Tsunade já não estava mais ouvindo.
"Qualquer... parente? Qualquer..." A Godaime parou no caminho outra vez ao pronunciar aquelas palavras. Algo nelas havia desencadeado uma memória que ela não conseguia identificar ao certo.
Algo importante.
"Hokage-sama?"
"Vamos dar uma volta, Shizune."
"Meu... Sangue...?" Ele murmurou mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa. Os olhos ligeiramente arregalados acalmaram-se novamente em uma expressão neutra. Aquilo era branco. Com aquilo ele sabia lidar. "Eu não..."
E parou outra vez.
Porque recusar uma culpa que você não sabe se realmente não é sua era algo idiota, e Neji não fazia coisas idiotas.
"Sim, seu sangue. Tem algo a dizer sobre isso?"
O ANBU pegou uma das fotos outra vez e a colocou a centímetros dos olhos de Neji, que a olhou novamente sem nenhuma emoção.
"O que você sente quanto a esta garota?" Não deu tempo para resposta, completando-a com outras duas perguntas. "Você a odeia? A inveja?"
O que sentia por Hinata-sama? Na verdade ele não sentia muita coisa em relação a ela.
Hinata-sama era fraca e um pouco covarde, e aos olhos de Neji isso a classificava como alguém desnecessário. Era certo de que ele a prometera que a ajudaria a treinar, mas isso não tinha nenhum efeito de que realmente acreditasse que ela teria alguma melhora... não. Era apenas sua maneira de reparar erros do passado. Porque não admitir que você cometeu um erro era algo idiota, e Neji não fazia coisas idiotas.
Hinata era desnecessária e não tinha nenhum efeito nele ou em sua vida, então ele não se importava realmente com ela. Talvez tivesse a odiado no passado por ser da Família Principal e a causa de sua desgraça, mas agora ele sabia muito bem que ela não havia escolhido nascer na Souke, - e se pudesse ter optado, provavelmente teria escolhido o contrário.
Talvez, se ele fosse diferente, Neji poderia ter amado Hinata-sama por ser sua prima e por tratá-lo bem - não importava o quão cruel ele podia ser às vezes. Mas Neji não era uma pessoa amável, e Hinata não era o tipo de pessoa com a qual ele se dava bem - não que ele realmente se desse bem com alguém.
Mas sentir algo tão forte como ódio por alguém que não te afeta diretamente era algo idiota, e Neji não fazia coisas idiotas.
"Você poderia ter sido mais sutil, não? Sempre ouvi dizer que devido à sua frieza e genialidade você seria um de nós com toda a certeza. Onde está a sutileza em mutilação? A menos que tenha sido em um ataque de raiva; passional e pouco racional."
O ANBU catou as folhas espalhadas no chão e puxou uma mesa de aço inoxidável que estava no canto da sala. Sentou-se nela e examinou as fotos com interesse.
Se estivesse realmente prestando atenção naquilo, Neji provavelmente o enviaria um olhar mortal. Porque ele poderia odiar os Hyuuga, mas protegeria a honra deles até a morte. Porque o branco Hyuuga não era nada que ele gostasse, mas era algo dele. E não proteger uma coisa que é sua era algo idiota, e Neji não fazia coisas idiotas.
"A necropsia ainda está em andamento, mas se pode ver claramente por este arquivo que existem sinais de luta. Há traços de espancamento e estupro. Se fosse esboçada uma linha do tempo, eu diria que ela foi estuprada antes de morrer, e por sorte, foi mutilada depois."
Hinata-sama havia sido estuprada e mutilada.
Sangue.
Sangue vermelho em pele branca.
Neji virou o rosto para o lado contrário. Fechou os olhos. Ele não poderia ter feito aquilo, poderia? Ele não tinha um álibi. Durante a hora estimada do crime estava no intervalo de meia hora de seu treino com Hiashi-sama.
Sozinho.
Como sempre, sozinho.
Branco e vermelho.
"Quando você fecha seus olhos, o que você vê?"
"Eu vejo... Uma nuvem de poeira."
"Se confessar, sua pena pode ser reduzida por ser réu primário e menor de idade."
Vermelho.
Ele arregalou os olhos outra vez de repente, quando uma sensação o envolveu de cima a baixo e por dentro e por fora. Agarrou o tecido da calça, e simplesmente disse. Porque não dizer algo que você de repente tem certeza era algo idiota, e Neji não fazia coisas idiotas.
"Não fiz nada."
O homem o olhou fixamente pela primeira vez, um tanto surpreso. Até então não havia vindo nenhuma negativa concreta dele.
"Réus confessos costumam conseguir um pouco mais de simpatia pública do que os outros, garoto. Não entendeu que ninguém aqui vai te ajudar? É triste, mas a hierarquia hipócrita da sua família já fez todo o trabalho por nós. Não precisamos nem ao menos investigar, todos eles te escolheram de bode expiatório. O cordeiro indo ao matadouro."
Ao terminar a última frase, o ANBU teve que sorrir debaixo de sua máscara.
"Mesmo que não seja você quem a tenha matado, é você quem vai apodrecer no exílio." Ele se levantou da mesa e começou a andar pela sala, ignorando que a cada segundo o garoto apertava mais o tecido de sua própria roupa, fazendo os nós dos dedos ficarem ainda mais brancos. "Acredite em mim, já vi isso acontecer muitas vezes no Clã Hyuuga. O culpado pode ser um souke, mas a culpa recai sobre um bunke qualquer. Apesar de eu não ver motivo algum para qualquer outra pessoa desejar ver a garota morta."
"Dizem que os membros do nosso clã podem ver a imensidão do mundo nas palmas de suas mãos. Quando você fecha seus olhos, o que você vê?"
"Isso aconteceu também no caso de seu pai, não sei se você se lembra. O souke matou o representante do País do Relâmpago. O bunke idiota levou a culpa. Simples assim. A família Hyuuga mantêm um bom reservatório de bodes expiatórios para casos como esses."
"Este será o nosso Himitsu... O nosso segredo..."
"Então, me diga: você é só o bode expiatório ou tem culpa no cartório, menino-gênio? Vamos, fale a verdade..." O ANBU ajoelhou em frente à Neji com uma das fotos nas mãos, fazendo-o encarar o corpo massacrado de Hinata outra vez. "Não seja mais um bunke idiota, garoto. Coloque a boca no trombone."
Olhando para aquela foto novamente, as mãos pressionando-se contra sua roupa branca, branca, branca, e o ódio vermelho queimando em seu rosto, Neji disse a si mesmo tudo aquilo.
Ele disse a si mesmo que negar uma coisa provada era algo ilógico, incoerente, e, acima de tudo, - idiota. Ele disse a si mesmo que ele, Hyuuga Neji, gênio e menino-prodígio, não fazia coisas idiotas.
Mas isso não impediu que o sangue subisse à sua cabeça e martelasse contra seus ouvidos de maneira que seu rosto queimasse, ou que as palavras amargas se agarrassem à sua garganta, e que a humilhação se manifestasse em ódio grande, amargo e vermelho.
"Quando você fecha seus olhos, o que você vê?"
"Eu vejo... Uma nuvem de poeira."
Ele estava sendo idiota se achava que podia fugir daquilo. Porque de uma forma ou de outra, Hyuuga Neji não fazia coisas idiotas.
"Não tente se enganar, é inútil." O ANBU disse, sem notar quando toda a cor fugiu do rosto de Neji. Porque agora quem estava em frente aos olhos brancos era uma mulher de cabelos longos e negros e de olhos vermelhos, vermelhos, vermelhos. "Olhe bem pra essa foto, o que você vê?"
"Eu... vejo uma nuvem de poeira."
Click. A cadeira caiu. Click. Um giro. A mesa voou. Click. As fotos do arquivo giraram em redemoinho se batendo contra as paredes. Click. Tudo ao redor se colou nas paredes pela força centrífuga.
"HAKKESHOU KAITEN!"
O território do clã estava recoberto pela segurança.
Todos os membros da família pareciam estar em polvorosa e desconfiados com quem quer que adentrasse seus limites. Antes de entrarem as duas mulheres tiveram que provar por várias vezes serem quem eram.
"Sinto muito, Hokage-sama, mas os membros do clã ainda estão muito aterrorizados pelo assassinato de Hinata-sama." Um criado da bunke disse, se aproximando e abrindo o portão divisório à chave. "Ninguém parece seguro no atual momento."
"Eu compreendo."
O homem acompanhou Tsunade e Shizune portões adentro e as conduziu para a ante-sala da Casa Grande. Os tacos de madeira ressoavam tradição enquanto eles andavam.
"Se a senhora veio tratar de assuntos sobre Hyuuga Neji, nós já o entregamos à ANBU, e...-"
Tsunade o interrompeu, sentando-se.
"Não. Não vim até aqui para falar sobre Neji." A expressão do outro murchou, fazendo-a balançar a cabeça em negação. Todos eles estavam apostando todas as fichas em derrubar o garoto, como uma caça às bruxas. "Tenho Neji sob meus cuidados."
"O que posso fazer por Hokage-sama?"
"Preciso ter uma audiência com Hiashi."
O criado e Shizune arregalaram os olhos. A assistente da Hokage a encarou com espanto, sussurrando:
"Com Hiashi-san, Tsunade-sama?"
"Sinto muito, Hokage-sama, mas Hiashi-sama não deseja ter com ninguém. Por favor, entenda, ele se encontra extremamente abalado, e..."
"Ainda assim preciso falar com ele." Tsunade disse, resoluta. "É de extrema urgência."
"Mas..."
"Diga a ele que desejo falar sobre o outro."
O homem pareceu contrariado, mas se levantou para levar a mensagem, seus passos ressoando no assoalho.
"Mas o que houve aqui?"
A sala de interrogatório estava parcialmente destruída pela ação giratória do vento. Kakashi entrou pelos escombros e tentou visualizar algo que não fossem entulhos de concreto em ruínas.
"Era o esquadrão da ANBU interrogando Hyuuga Neji, Kakashi-senpai."
"O que quer dizer com 'era'? Não fazem nem dez minutos que eu saí, e...-"
"Um dos membros está gravemente ferido e foi levado para a emergência."
O ninja copiador guardou o livro que estava segurando, praguejando internamente. Iria ter uma série conversa com Ibiki quando ele retornasse.
"O que diabos está havendo com esta vila?" Murmurou, desanimado. "E Neji?"
"Não temos rastros dele, senpai. Dado ao estado da sala, é provável que tenha usado o kaiten para fugir sem ser atingido."
"Ele deu a entender que sabia que haviam shinobis camuflados?"
"Pouco provável. Diria que parecia até mesmo um tanto aéreo, mas ao que parece subestimamos seu byakugan. Temos meia vila atrás do garoto, mas até agora não encontramos nada. Sem rastros."
Kakashi removeu uma pilha de escombros e avistou pedaços do arquivo de fotos esmigalhados pelo chão.
"Isso é pior do que estamos pensando, pessoal. O que está tentando fazer, Neji?"
"O que deseja, Godaime-sama?"
O patriarca adentrou a sala, aproximando-se vagarosamente.
"Sinto muito pelo que você está passando, Hiashi, mas temos assuntos sérios a resolver."
"Sim, por favor, vá direto ao assunto."
Hiashi parecia ter envelhecido anos em questão de horas. Seu rosto tinha covas, os ossos de seus pulsos pareciam ter encolhido. Tsunade o olhou com um olhar de misericórdia; não imaginara que a perda de Hinata o abateria dado o descaso que ele apresentava em relação a ela.
"Hiashi, pode não ter sido um boato, no fim das contas. Aquele homem pode realmente estar solto por aí."
"Tsunade-sama, esta hipótese é inviável, improvável e impossível."
"Até onde sabemos, ele morreu fora dos limites da vila. Nada nos garante que ele esteja realmente morto."
As palavras da Godaime penetraram o ar e chegaram ao Hyuuga, que enegreceu a expressão.
"Não... Ele não teria motivos para... Para fazer uma atrocidade como aquela à Hinata, e..."
"E você realmente acredita que Neji tenha motivos?"
Hiashi olhou para os lados tentando dissipar sua frustração. No fundo ele sabia. No fundo ele tinha certeza. Tsunade se aproximou dele.
"Você sabe que..."
Um estrondo. Vinha do quarto ao lado.
"O quê...?"
Eles se levantaram rapidamente e os outros membros da família, assim como a força policial de Konoha, adentraram. Todos correram depressa em direção ao quarto. Era outro lugar. Era o mesmo cheiro.
Era o quarto de Hyuuga Hanabi.
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Capítulo 02 – Do Interrogatório /終わり
