Novembro de 2012

Pelas ruas de Princeton, um homem miserável com sua bengala, caminhava entre a multidão. Durante pouco mais de dois anos, ele sobreviveu onde não havia sol, onde ninguém mandava notícias de lugar algum, sem dinheiro e sem documentos. Por força do destino, descobrira-se capaz de fazer amizades, só para no final vê-los cair mortos como brinquedos aos seus pés. O pior de tudo era o sentimento de desorientação que o rondava. Ele sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Ao olhar para todas aquelas pessoas contentes e apressadas pelas ruas, Gregory House só conseguia sentir uma coisa: Nojo.
Ele se perguntava como aqueles infelizes conseguiam agir como se a vida de fato fosse bela, enquanto milhares de jovens lutavam em território inimigo. Jovens que tinham todo um futuro pela frente, mas agora só lhes restava corpo e alma mutilados em nome de uma pátria ingentil.

A cada passo, a cada movimento, ele percebia que tinha se transformado num peso morto, não havia mais nada aproveitável sobre a pele. Só se lembrava de olhar naquelas caras apressadas que não o notavam e se perguntar constantemente: Será que quem fica, carrega consigo o mesmo sentimento de quem parte?

Desde que retornara, House experimentava certa indisposição para procurar as únicas pessoas que o restara: James Wilson e Lisa Cuddy. A alternativa que lhe pareceu mais atraente fora observá-los à distância.

De certo modo, era reconfortante saber que Wilson continuava sendo o bom rapaz que usava o seu papo delicado para entrar nas calças de mulheres fragilizadas. Ele ainda morava na mesma casa, mas sem dúvidas era um homem envelhecido.

Religiosamente ele acompanhava a rotina de Lisa e Rachel Cuddy. Era tentador ver Lisa, a sua Lisa, todas as manhãs levar a pequena Rachel à escola. Incrível como aquela garotinha havia crescido.

No 7° dia desde que retornara algo lhe cegou a visão: Lisa Cuddy chegara à escola de Rachel acompanhada por outro homem.
Não era um homem qualquer, mas um belo e viril negro que a segurava possessivamente pela cintura, enquanto despedia-se de Rachel.

Será que a sua pequena pirata sangrenta o chamava de pai?Estaria Lisa Cuddy casada, ou este homem era apenas um namorado? Droga, como ela pôde ser tão vadia a ponto de estar pendurada no pescoço de outro?

Estas e outras perguntas povoavam a mente de Gregory House, quando uma dor excruciante cravou-lhe a perna, levando-o a se curvar. Desde que havia se desintoxicado que ele não sentia uma dor tão intensa.
Naquele momento House experimentara o gosto amargo da traição.
Mesmo que não assumisse, ele havia suportado toda a amargura e miséria da guerra por aquela mulher, na esperança de um dia tê-la em seus braços novamente, e agora que ele havia enfrentado o bem e o mal, ela estava deitando-se na cama de outro homem. De certo ela não sentira a sua falta.

Olhando-a pela última vez, House enfiou sua jaqueta militar e pôde compreender que assim como ele, aquela mulher era um soldado, um soldado de corpo e alma, um triste e infiel soldado, já cansado de longas campanhas, e como bom soldado que ele teve de aprender a ser, deu meia-volta decidido a partir vencido, mas sem mácula.

Quando a Wilson... Bem, Wilson, como todas as semanas desde que House fora dado como desaparecido, comparecera ao Princeton Memorial Park e depositara flores em uma sepultura abandonada. Era um gesto um tanto gay, na visão de Gregory House, mas pelo menos era um gesto sincero de que estava sentindo falta, e ao contrário de Lisa Cuddy, ele não o havia traído.

Cabisbaixo, House seguiu para o Motel de 5ª categoria no qual estava hospedado. Bebera durante todo o dia, invadindo a madrugada, até desmaiar entre garrafas vazias e vômito.

Despertando de madrugada após curar a bebedeira com uma ducha, House reuniu as poucas coisas que o restou, pusera numa mochila e partiu. Era preciso dizer adeus mais uma vez a James Wilson, fazê-lo menos miserável ao saber que o seu amigo ainda estava vivo.
Era preciso tocar a campainha da casa de Lisa Cuddy e jogar na sua cara a grande vadia ingrata que ela se tornou.

Gregory House estava disposto a retornar e morrer em combate. Não queria mais ser o médico de renome do regimento, e sim um combatente. Ele estava decidido a ser mais um soldadinho de chumbo nas mãos do governo americano.