CAP 3
O relógio marcava duas horas na recepção do hospital.
"Tão tarde!", pensou Roger Mackinley, ainda guardando as lágrimas que não derramou ao ter saído do necrotério, onde reconheceu por alguns objetos pessoais, o filho Donald e a nora Eve. Ambos deveriam ter chegado há duas semanas em Inverness e de lá em três ou quatro horas, estariam chegando à propriedade da família, nas famosas Highlands da Escócia.
Mas isso nunca aconteceu. O avião em que o casal estava com o filho de quatro anos desapareceu em pleno voo, sendo encontrado alguns dias depois completamente incinerado em meio ao poderoso Outland australiano.
Roger nunca havia gostado da ideia de ver seu filho mais velho longe das montanhas em que havia crescido, mas Donald queria ter a própria vida, em um lugar longe daquelas terras velhas com suas velhas histórias e lendas. Um continente novo, um mundo novo eram o que ele queria, mas Roger nunca pensou que a selvageria ainda presente naquele lugar pudesse devorar seu filho.
Tantos acontecimentos, tudo conduzindo sua longa vida para aquele ponto, na recepção de um hospital na remota Alice Springs, aguardando o neto Sean, único sobrevivente daquela tragédia que os jornais de todo mundo exibiam. Mas para ele havia uma verdade oculta ali, algo que nem mesmo a caixa preta do avião podia revelar, algo escondido nas pequenas mãos de Sean, cujas marcas do fogo ainda eram visíveis. Pena que Outros já sabiam disso também.
Maria olhou satisfeita para o resultado do seu trabalho, enquanto Andrey, pouco a vontade com o traje formal demais para um garoto de apenas cinco anos, tentava parecer natural.
- Está lindo, angel moya, como um pequeno lord!
- Eu tenho mesmo que usar isso, Maria?
- Por que? Não gostou de seu traje novo? - um pequena nota de decepção na voz de Maria fez com que Andrey se arrependesse da pergunta.
- Não, é que eu não estou acostumado, só isso. – disse o menino sem graça.
- Você vai se acostumar logo, terá muitas roupas bonitas como essa, seu avô provavelmente já deve ter mandado chamar o melhor alfaiate de toda Kiev para fazer roupas para você! – ouvir aquilo foi como ouvir uma sentença, a de que ele nunca mais veria uma camiseta na vida – mas chega de conversa, vamos indo, já está quase na hora e o sr. Kanmenev não tolera atrasos!
Desceu as escadas longas quase tropeçando nos próprios pés ao lado da apressada Maria, quando se deparou novamente com o retrato da bailarina loira.
- Ela era realmente linda! – disse Maria parando por um instante – ela iria adorar ter um garotinho tão lindo como neto. Agora vamos ou seu avô vai se zangar.
A sala de jantar era escura, como tudo o que ele já havia visto da casa, mas Andrey aos poucos começava a se acostumar com aquele clima. Maria parou com ele próximo à mesa, onde o jantar seria servido. Yuri Kanmenev que já estava sentado na ponta da mesa deu uma boa olhada no menino.
- Precisa cortar o cabelo dele, Maria – disse o velho sem alterar a expressão de seu rosto, fazendo um sinal para que o menino se sentasse no outro extremo da mesa comprida, talvez a mais comprida que o menino há havia visto em toda sua vida. – Sirva, Maria.
O jantar foi longo e silencioso, e as poucas vezes que Andrey ouviu a voz de seu avô foi para comunicar sobre os novos rumos que a vida do menino tomaria. Tudo já havia sido providenciado, professores particulares, educação clássica, piano, equitação, etiqueta, como o próprio Yuri disse, seu neto se tornaria um jovem culto e para isso ele não mediria esforços.
Mas a coisa toda não parava aí. O severo Yuri já tinha planos para a pequena Gária, a menina que havia acabado de aprender a andar, teria uma babá responsável por ela até que tivesse idade suficiente para começar a receber a mesma educação clássica que faria parte do dia a dia de seu irmão.
Quando o jantar terminou, tão silencioso como havia começado, Andrey foi levado para seu quarto por Maria, que o ajudou a se trocar e o colocou na cama.
- Não se preocupe, angel moya, não será tão ruim como parece. Você se tornará um pequeno lorde! – disse a mulher diante do olhar triste do garoto – Essa é a maneira que seu avô conhece de demonstrar que lhe quer bem, eu acho! Durma com os anjos, querido! – com carinho quase maternal, Maria lhe deu um beijo na testa e saiu fechando a porta atrás de si, ainda a tempo de ouvir o pequeno murmurar.
-Mamãe!
Depois de dias indo e vindo para a mansão em ruínas, onde Shiryu guardava seu segredo, ele novamente decidiu se mostrar para o mundo. Sabia que os amigos ficariam preocupados com as consequências do que estava fazendo, e que poderia ajudá-la muito mais tendo a Fundação Graad ao seu lado, por outro lado ele tinha consciência de que desde a morte de Saori, a Fundação já não tinha o mesmo poder e influência e que talvez não pudesse protegê-la daqueles que cedo ou tarde viram buscá-la. Havia além desses um outro motivo, algo que ele guardava por vezes de si mesmo. Não conseguia tirar o rosto dela de seus pensamentos, guardava em sua memória cada pequeno gesto de Gedah, da maneira como ela prendia o cabelo atrás da orelha quando se concentrava em algo, até as sutis mudanças de expressão, quando por minutos intermináveis ela ficava olhando para o céu.
Foram dois dias longos para ele. Longe de Gedah, parecia que as horas se prolongavam mais do que deviam, no entanto, mesmo que admitisse o que sentia, ele tinha suas obrigações, tinha o legado de Athena para proteger e o fez com a responsabilidade que sempre teve como cavaleiro, mas ao final daqueles dias, quando finalmente viu a velha mansão contra o céu avermelhado do final da tarde, sentiu o alívio preencher seu peito. Entrou tomando o cuidado de se fazer ser notado. Claro que não esperava que ela viesse ao seu encontro, mas algo lhe parecia muito errado ali.
Seus passos se tornaram mais rápidos e preocupados enquanto subia a escada em direção ao aposento, onde ele tinha certeza que a encontraria.
A banheira estava cheia, como ela a mantinha quase o tempo todo, mas não havia sinal dela.
- Gedah! – disse Shiryu, mas como um apelo do que um chamado.
Havia sangue no chão e objetos espalhados, isso não era um bom sinal.
O coração do dragão estava apertado o suficiente para pensar que Eles finalmente haviam ido buscá-la, no entanto aquilo não fazia sentido, ela nunca se entregaria tão facilmente, mesmo frágil como estava, Gedah era muito forte e alguns frascos caídos era muito pouco para o poder que ela tinha.
Então aconteceu. Um pouco mais que um lampejo de cosmo, algo muito familiar estava próximo e a palavra por pouco não saiu de sua boca.
- Não, não pode ser... – seguiu na direção de onde sentiu aquele lampejo e quando se deu conta já estava de novo na rua, agora quase escurecida de vez pela noite que chegava.
- Shiryu! – a voz era pouco mais que um sussurro, mas o alcançou.
Ela se aproximava a passos vacilantes, estava enrolada no que parecia ser um lençol, o rosto pálido indicava que ela estava prestes a desmaiar, então mais do que depressa Shiryu correu para ampará-la.
- O que houve com você? – perguntou ele enquanto carregava o corpo inconsciente de volta para o único lugar que ela parecia se sentir segura, pelo menos até que ele mesmo encontrasse um lugar melhor.
O piano ainda cheirava à madeira de que era feito e o veludo que cobria suas teclas ainda conservava a maciez.
"É tão grande!", pensou Andrey diante do instrumento, que ao mesmo tempo em que o atraía por sua majestade, o assustava. Havia muitos instrumentos musicais dentro da sala, uma espécie de ateliê, talvez o único cômodo naquela casa que emanava alguma luminosidade.
Maria havia feito com que ele se levantasse muito cedo, segundo ela, seu avô achava apropriado que ele estivesse pronto quando seus professores chegassem.
No dia anterior, havia conhecido o homem sério e com um carregado sotaque britânico que seria responsável por sua educação regular, no anterior a esse, havia passado horas em pé, enquanto o alfaiate de seu avô tirava suas medidas para o que em breve seria seu novo guarda roupa.
Estava começando a se cansar de ver apenas gente velha e por vezes se perguntava se naquele lugar tão frio não havia outras crianças além dele e da irmã que agora ele raramente via.
- Você deve ser Andrey. – ele virou a cabeça curioso, porque aquela definitivamente não parecia a voz de uma pessoa velha.
- Sim. – respondeu ele se colocando em pé para receber sua jovem professora. Jovem até demais.
- É maior do que eu esperava, meu nome é Alexandra Kirenko, sou sua professora de artes. – Ela estendeu a mão de dedos longos e unhas muito bem cuidadas, com um ar solene no rosto, exatamente como os outros professores, contudo quando ele apertou-lhe a mão, ela sorriu amistosa, um sorriso como há algum tempo ele não via. – Bem, vamos começar. – ela deixou a bolsa sobre uma cadeira próxima e depois de prender os cachos escuros do cabelo longo, se aproximou do piano – parece que gosta do piano, podemos começar por aqui. Sabe tocar? – ele fez que não com a cabeça - não tem problema, vamos começar do básico, dó, ré, mi...
- Está se sentindo melhor? –disse Shiryu oferecendo à Gedah uma xícara de chá.
- Eu desmaiei de novo. – disse ela, ignorando a pergunta.
- Isso já aconteceu outras vezes? – ela fez que sim com a cabeça, levando a xícara aos lábios.
- Algumas vezes, essa casa ainda estava inteira quando começou. – Gedah contemplou por um momento as paredes rachadas, como se fosse tomada por um turbilhão de lembranças – Ainda havia vida aqui. Tem sido mais frequente nos últimos meses e agora vem acompanhado de lapsos de memória.
- Então não se lembra do que estava fazendo na rua, ou de ter ido a algum lugar?
Com cuidado, ela depositou a xícara de porcelana, no criado mudo e deixou um riso escapar de seus lábios.
- Me sinto patética, sabia? Eu sempre fui a mais forte deles. Tinha treze anos quando os conheci, mas não me lembro muito bem dessa época. O Tenente dizia que eu parecia um animalzinho selvagem, era ele quem treinava os novatos como eu. Sim, era ele quem fazia o recrutamento também, conhecia a organização melhor do que qualquer um de nós, porque até nos rebelarmos ele também era um Deles. – disse ela respondendo à expressão inquisidora de Shiryu – Eu já era muito poderosa naquela época, e ele me ensinou a ser forte aqui dentro – prosseguiu apontando para a própria cabeça e em seguida para o peito.
- Você parece gostar muito desse Tenente.
- Sim, ele e todos os outros foram tudo o que eu aprendi sobre se ter uma família, porque diferente de todos eles, eu não tinha mais ninguém.
Shiryu quis abraçá-la, confortá-la, mas se conteve.
- Depois que começamos a ser caçados, ainda conseguimos nos manter unidos por algum tempo. – Gedah prosseguiu como se refizesse os passos que a levaram até aquele momento. – Eles foram pacientes, esperaram o momento certo, e foram nos encontrando, nos separando, nos destruindo... – essa altura o rosto sério estava banhado em lágrimas, contra as quais ela não fazia questão de lutar.
- Já chega. – disse Shiryu segurando a mão tensa de Gedah entre as suas – não deve forçar sua mente a lembrar de algo que lhe traz tanto sofrimento.
Ela baixou os olhos e contemplou as mãos quentes dele e deixou que aquele contato afagasse sua dor.
- Estou tão cansada. – ela deixou seu corpo escorregar se deitando novamente.
- Eu vou deixar que descanse. – disse o cavaleiro um pouco abalado por aquela história.
- Não! - disse ela num impulso, se agarrando à mão de Shiryu – eu não quero ficar sozinha, nunca quis.
Ele voltou a se sentar na cama ao lado dela e sorrindo a puxou para um abraço. Gedah sentiu seu rosto se incendiar, mas gostou da sensação. Shiryu era tão quente que parecia ser capaz de aquecer até mesmo o coração que por vezes ela esquecia ter.
O inverno era terrível naquela região, as ruas ficavam cobertas de neve e as pessoas pelos enormes casacos que muitas vezes pareciam não ter poder suficiente contra o frio russo.
Mas para Andrey, o frio não era um vilão tão cruel como todos achavam. Ao contrário da maioria das pessoas, ele chegava até mesmo a gostar daquela época do ano. Gostava particularmente de patinar no gelo grosso que se formava no lago a apenas alguns metros da casa de seu avô. Gária havia crescido muito naquele ano, e já corria pelos corredores da casa, com seus cachinhos vermelhos e seus vestidos de boneca, enlouquecendo sua babá. Como ainda era muito jovem, não era capaz de controlar a "habilidade" que já possuía e durante suas frequentes fugas, muitas vezes seus pés miúdos deixavam o chão e quando por azar esses momentos eram flagrados por algum serviçal, esses preferiam deixar a casa acreditando tratar-se de algum tipo de alucinação, causada talvez pela estressante e rígida rotina da casa.
Andrey, por outro lado, ganhava dia a dia mais controle sobre seus poderes, ainda que fosse mais fácil fazer seus brinquedos de gelo no inverno, sem perceber ele ficava mais forte também.
Sim, essa era uma das razões porque o garoto havia aprendido a gostar do inverno. Contudo esse não era o único motivo. Era no inverno que seu pai vinha visitá-lo. Vinha quase todos os dias quando o garoto saia para patinar. Passavam horas juntos, as vezes com Gária, as vezes com Deinrich, que além de ser também seu irmão, era menino e da mesma idade.
Alexei nunca tinha falado ao filho sobre sua paternidade, mas Andrey sempre foi muito inteligente e deduziu isso antes que o próprio Alexei pensasse em lhe contar.
Era o pai que lhe trazia as cartas, vídeos e presentes da distante Califórnia, onde seus avôs viviam. Eram cartas recheadas de saudade e de esperança de que um dia pudesse voltar, esperança essa que se tornava cada dia mais distante.
- Vocês dois ainda vão ficar mais fortes do que eu. – disse Alexei, no aniversário de seis anos dos meninos, enquanto juntos observavam o espetáculo das geleiras gigantes no extremo sul do mundo.
- Um dia vamos poder nos mover rápidos como o senhor? – perguntou Deinrich entusiasmado com a ideia de se mover na velocidade da luz.
- É bem possível.
- Pai, - disse Andrey finalmente, depois de se manter calado quase todo o tempo, desde que haviam chegado - porque não nos deixa morar com você?
Alexei temia que um dia Andrey lhe fizesse essa pergunta e o momento havia chegado.
- Eu queria tanto poder, mas vocês são apenas crianças, precisam da segurança de um lar e tudo o que eu posso oferecer a vocês é essa imensidão gelada. Além do mais, o que seria de sua mãe, Deinrich e de sua irmãzinha, Andrey? – os meninos pararam pensativos por um instante diante das palavras do pai. Eu amos vocês dois, são o que tenho de mais importante na vida e por isso sei que a vida que eu levo não é para vocês garotos.
Andrey não tocou mais no assunto, no entanto não estava convencido. Para Deinrich, talvez aquelas palavras significassem algo, afinal ele era filho da casa Polaris, era rico e tinha o amor de sua mãe e sua tia, ou seja, seu irmão era feliz em Vahala, mas não ele, apesar de ter sua pequena irmã, de adorar as aulas de música e o inverno no lago, não havia nada naquela mansão fria e escura que pudesse realmente fazê-lo feliz.
