CAPÍTULO II
Lily levantou-se da cama e caminhou até a janela. O sol se erguia no horizonte, prenunciando uma manhã espetacular, e a terra que se espraiava diante da casa estava ainda úmida de orvalho. Um grupo de veados pastava, fugidio, em uma elevação a pouca distância, e os pássaros iniciavam suas cantigas matinais em grande alegria.
Lily voltou o olhar um pouco mais para a direita para admirar os campos recém-arados, a terra negra e fecunda onde logo surgiriam brotos de vida nova. Junto aos canteiros, árvores esbeltas tinham suas folhas sopradas pela brisa matinal e estendiam seus ramos em arcos graciosos, projetando sombras.
Lily sentia como se houvesse descoberto o caminho para o paraíso. Após todos os tormentos que deixara para trás no dia anterior, a paisagem pastoril e calma que tinha diante de si faziam-na ter vontade de chorar.
Era como se suas preces houvessem sido atendidas. Precisava, agora, arranjar um modo de permanecer naquele local maravilhoso. Seu pai sempre lhe dissera que qualquer tolo seria capaz de agarrar uma oportunidade assim que ela aparecesse, mas era necessário ser inteligente e criativo para produzir a oportunidade no momento certo. Portanto, sabia que precisaria criar suas próprias chances de agora em diante.
Afastou-se da janela e, ao voltar-se para o interior do quarto, notou que suas roupas haviam sido lavadas e passadas e estavam agora dobradas com cuidado sobre uma cadeira próxima. Também seus sapatos tinham sido limpos e engraxados.
Caminhou até a cômoda e lavou-se na bacia de porcelana ao lado da qual havia sabonete e uma toalha limpa e perfumada. Sentiu um prazer incrível ao fazê-lo, já que havia muito não dispunha daqueles pequenos detalhes de conforto que a vida em um lar oferece.
Abençoou a família que a abrigava pela gentileza da acolhida. Podiam ser pessoas ásperas, rudes até, em certos aspectos, mas eram, com certeza, muito generosos também. Se pudesse convencê-los a serem também caridosos para com seu grupo de desabrigados...
— Ela está mentindo — James afirmou, com raiva. Juntou-se a sua tia e irmãos, ao redor da longa mesa de mogno, colocando seu desjejum no prato: pão de milho, ovos mexidos e fatias de carne assada.
— E quanto às crianças? O que me diz? — tia Bessie indagou, em voz bem baixa. — Como explica as respostas que deram?
— Estão todos mentindo.
— Bem, muitas pessoas já foram pegas por tempestades antes — Sirius opinou, tentando ver o lado lógico da discussão.
É verdade — James concordou, sentando-se. — Mas isso só acontece quando a tempestade vem de repente, o que não aconteceu ontem. O céu, em Charleston, esteve escuro durante horas antes de a tormenta desabar.
— Então, por que acha que entraram no barco? — Sirius enfiava um pedaço enorme de pão na boca.
— Devem estar fugindo de algo. Recusam-se a falar sobre Charleston, não notou? Também não querem falar sobre a guerra. Pelo que conheço de refugiados de guerra, estão sempre prontos a falar sobre o que deixaram para trás, suas famílias, seus lares perdidos... Não sei, mas há algo de muito suspeito nisso tudo...
— Talvez... algo ilegal? — Sirius mencionou, a boca ainda cheia.
— Ora, a Srta. Evans me pareceu uma moça muito educada! — tia Bessie interferiu.
— Uma moça educada também pode fazer coisas erradas, tia. Abra os olhos. A guerra transformou muitas pessoas, na verdade, destruiu muitas coisas boas em cada um de nós.
— Você está falando por si mesmo! — agora Sirius protestava. — Eu gosto muito do que sou agora.
— É claro que sim! — James falava com ironia. — Quanto perdeu em sua última ida a Charleston?
— O suficiente para ser convidado para mais um jogo. — Sirius não perdia a pose.
— Sei. E Parvati Patil deve estar muito animada com seu patrocínio à casa de prostituição que ela mantém, pelo que me consta.
— Eu só apareço lá para jogar de vez em quando!
— Eu ouvi dizer que os homens jogam sempre que ficam com as garotas da Parvati — Darwin opinou pela primeira vez. E, com suas palavras, os olhos de tia Bessie faiscaram.
— Eu não permito este tipo de conversa em minha casa! — protestou ela, ruborizada.
— Desculpe-nos, titia.
— E quanto a você, Six — ela se dirigia ao sobrinho do meio, o qual, sabia, era dono de um encanto pessoal muito grande, que fascinava as mulheres. — Como consegue ir até Charleston e ver o que o general Riddle fez àquela pobre cidade?!
— Bem, parece-me que estávamos falando de um certo grupo de mulheres e crianças — James atalhou, chamando a atenção dos demais para o assunto que discutiam antes.
— Ah, é verdade! — tia Bessie continuava, como se não houvesse se agastado com Sirius. — Não acho que devamos mandá-los embora.
— Não estou sugerindo isso. — James cortou mais uma fatia do pão, sem poder furtar-se ao pensamento de quanto sentira falta daqueles pequenos prazeres caseiros, quando estivera longe, na guerra. Continuou, desviando a atenção mais uma vez para o assunto que o preocupava: — Pelo menos, não acho que devamos fazer isso por enquanto. Mas assim que os feridos estiverem recuperados, acho que deverão voltar a Charleston.
Ele queria aquilo o mais cedo possível, mas não ousava revelar seus motivos. A sensação de incômodo permanecia em seu cérebro, principalmente quando pensava nos instantes em que carregara Lily até o quarto. De repente, perdeu o apetite e afastou o prato, mais irritado do que antes.
— Vai cuidar deles, não vai, James? — sua tia perguntava, em uma certeza antecipada da resposta.
Notava a expressão contrariada do sobrinho e sabia que ele estava assim desde que voltara do campo de batalha. Suas reações eram frias, esquivas, como se quisesse mostrar a todos que não aceitava compaixão pelo que perdera. Não queria ser confortado em sua dor.
— Farei o possível — respondeu secamente.
— E eu poderei levá-los de volta a Charleston quando estiverem prontos — Sirius acrescentou, solícito.
— Uma boa desculpa para ir jogar, não mano? — Remus arriscou, com um meio sorriso.
— Quanto tempo acha que eles levarão para se recuperar? — tia Bessie conversava com James, ignorando as picuinhas entre os outros dois.
— Uma semana, talvez. A menina não parece estar tão mal quanto a mulher. — James levantou-se, disposto a ir cuidar dos doentes para, em seguida, poder se refugiar em seus campos.
Todos sabiam o que sentia. Na verdade, desde que os três haviam voltado da guerra, cada um acabara refugiando-se em alguma atividade em particular. Remus, por ser o mais quieto e recluso dos três, passava a maior parte do tempo ocupado com seus livros. Sirius adorava beber e jogar. E James, sempre angustiado e irritado, dedicava-se de corpo e alma aos serviços da fazenda.
— Quer que Robert prepare algum remédio ou chá? — tia Bessie indagou, referindo-se à cura dos enfermos.
— Não. Não há remédio que cure uma batida na cabeça, tia.
— Bem, seja como for, sei que fará o melhor que puder por eles.
James apenas assentiu e retirou-se da sala. Subiu as escadas com passos pesados, mas rápidos e, assim que entrou no quarto onde tinham colocado a mulher irlandesa, encontrou-se com Lily.
Mais uma vez, uma incômoda sensação tomou a ambos. Ele foi o primeiro a dar um passo atrás, para evitar o contato físico. No entanto, não pôde deixar de notar as roupas agora limpas que ela usava. Aquele vestido, tempos atrás, deveria ter sido considerado como de última moda, além de ser de excelente qualidade. Agora, no entanto, uma das mangas estava descosturada em alguns pontos e o tecido mostrava-se gasto.
Entretanto, não foi exatamente o vestido que chamou a atenção de James agora que via Lily livre dos efeitos da tempestade. Seu rosto, lavado e com expressão descansada pelas horas de repouso, revelava uma pele suave e clara como a de um pêssego; os cabelos, escovados com cuidado, chegavam-lhe, em ondas suaves, quase até a cintura, e os olhos verdes admiravam-no com surpresa.
— O que está fazendo aqui? — indagou ela, sem atinar muito bem com o sentido do que dizia.
— Prometi a minha tia que cuidaria dos feridos até que pudessem ir embora — ele enfatizou as últimas palavras.
Lily permanecia à porta, as mãos à cintura, como se pudesse barrar-lhe a passagem.
— Por quê?
— Porque sei alguma coisa sobre doenças e curas. — Sem dar maior atenção a ela, James entrou no quarto e, sentando-se ao lado de Marlene, tomou-lhe a temperatura e depois ergueu cada uma de suas pálpebras, estudando-lhe as pupilas.
Lily permaneceu afastada, apenas observando. Com tantas pessoas naquela casa, por que justamente aquele homem tão grosseiro tinha sido o escolhido para cuidar dos doentes? No entanto, não se sentia no direito de interferir. Afinal, aquela era a casa dele... Resolveu indagar, porém:
— É médico, Sr. Potter?
Ele lançou-lhe um olhar indiferente.
— Sou fazendeiro — disse simplesmente. Lily engoliu em seco, vendo-o voltar as atenções mais uma vez para Marlene. Se ele era apenas um fazendeiro, era um fazendeiro bastante irritado com a vida e com o mundo. Era quase visível a hostilidade e a raiva que pareciam emanar de seu ser.
— Srta. Mckinnon! — ele chamou, com voz imperiosa, a mulher que estava sem sentidos. — Pode me ouvir?
Sem saber exatamente o que fazer, mas querendo ajudar, Lily foi até o outro lado da cama e pegou a mão da amiga, chamando-a com carinho:
— Pode me ouvir, Marlene? Por favor, responda.
— Deve usar seu tom normal para falar com ela — James explicou. — Ela está em sono profundo. Precisa encontrar um modo de penetrar em seu subconsciente. Cada vez que vier ao lado da cama, chame-a como se estivessem conversando normalmente. Fale sobre coisas das quais as duas têm conhecimento. Assuntos que partilhavam antes. Chame-a. Faça com que queira conversar com você.
Lily olhou-o ainda por alguns segundos, aceitando suas palavras; depois, voltou os olhos para a amiga e assentiu de leve, concordando.
Quanto às marcas que ela tem nas costas... — James começou, notando que todos os músculos do corpo de Lily se retesavam. Prosseguiu, mesmo sabendo que provocava uma reação desagradável nela:
— É óbvio que não foram causadas pela queda no barco. Como ela as conseguiu?
— Eu... não tenho o direito de invadir a privacidade de minha amiga, Sr. Potter. Acho melhor que pergunte a Marlene quando ela acordar.
— Estou perguntando a você.
Lily baixou a cabeça e manteve-se em silêncio.
— Muito bem — ele aceitou contrariado e, levantando-se, deixou o quarto.
Sabendo que iria ao quarto onde Clara estava, Lily seguiu-o de perto.
— Por favor, ela está dormindo. Não a perturbe — pediu.
James, porém, ignorou-a por completo. Entrou no aposento e tomou o braço da criança, examinando-o com cuidado. James o observava da porta, calada, mas cheia de preocupação. Viu-o trocar o curativo e tomar-lhe a temperatura, para depois deitar a menina, com delicadeza, de bruços, para examinar-lhe atentamente a espinha. Quando, afinal deu-se por satisfeito, voltou a cobrir os ombros de Clara e, voltando-se para sair, viu Lily, enfrentando-o mais uma vez.
— Disse que é um fazendeiro, Sr. Potter, mas não acredito.
— Então, Srta. Evans, estamos quites — disse ele apenas, passando por Lily e deixando-a sem palavras.
Ao entrar no quarto em que Emmeline se encontrava e onde as outras crianças tinham se reunido, Lily teve uma alegre surpresa: todos tinham tomado banho e estavam arrumados e penteados. No entanto, aquela aparência asseada não condizia com os rostinhos preocupados.
— O que houve? — Lily perguntou, notando logo suas expressões.
— Estamos com medo — Emmeline explicou. — Os Potter são rudes... Sabemos que não gostam de nos ter aqui. Oh, Lily, e se nos mandarem de volta?
Ela engoliu em seco. Fizera-se aquela mesma pergunta muitas vezes.
— Não creio que nos mandem embora até que Marlene e Clara estejam bem. Assim, pelo menos por alguns dias, vão ter de tolerar nossa presença em sua ilha. E talvez encontremos um modo de ficar por mais tempo.
— Como? — Emmeline continuava aflita. Lily observou com atenção os rostinhos que a rodeavam.
— Deus opera seus milagres de diferentes maneiras — disse, suavemente. —Venham comigo. Vamos dizer bom-dia a nossos anfitriões.
Enquanto desciam as escadas, mais uma preocupação ocupou a mente de Lily. Havia agora mais sete bocas para alimentar, e os Potter já estavam fazendo muito em hospedá-los, precisava arranjar um modo de aliviar aquela carga para eles. E, se estava determinada a permanecer ali o maior tempo possível, não importava o preço que teriam de pagar, mas tinha de fazer algo. Não podiam, e não iriam, voltar a Charleston.
— Bem, fico feliz por ver que estão recuperados, após uma noite de sono — tia Bessie disse, assim que o grupo entrou na sala.
— Viemos para agradecer sua hospitalidade — Lily explicou, com um sorriso, acrescentando depois: — Obrigada pelas camas em que dormimos e por nossas roupas limpas e passadas também.
— Pelas roupas, acho que devem agradecer a Robert. É ele quem cuida dessa parte dos afazeres domésticos. Sabe, acho que ele não gostou muito de ter aquele monte de panos cheios de lama no chão, portanto achou melhor sacrificar algumas horas de sono para limpá-los. Ele se preocupa muito com limpeza, sabe?
Deixando de lado a cesta de costura com que lidava, a bondosa senhora olhou para as crianças reunidas a sua frente. Apesar de estarem vestidos com roupas limpas e passadas naquele momento, estas não passavam de pouco mais do que andrajos. E isso tocou-a profundamente.
— Há comida quente na sala de jantar — informou, ao sentir um nó na garganta. — Vamos até lá.
Todos os olhinhos se arregalaram diante da idéia. E, assim que viram a mesa posta, eles brilharam ainda mais.
— Temos pão de milho, carne assada e ovos mexidos — tia Bessie anunciou. — E pedi a Remus para ir até o estábulo ordenhar a vaca.
— É muita gentileza sua — Lily murmurou, entregando um prato a cada criança. No entanto, ao invés de enchê-los, os pequenos começaram a comer com as mãos.
Tia Bessie não pôde agüentar tamanha falta de modos.
— Crianças! — chamou, batendo palmas para que a olhassem. — Onde vocês foram criadas? Nas ruas?
Lily sentiu vontade de responder, mas conteve-se. Aquela mulher, apesar de generosa, não conseguia perceber que os pequenos estavam famintos?! No entanto, achou melhor chamar-lhes a atenção para continuar sob as graças daquela família:
— Coloquem a comida nos pratos com as colheres. E peguem apenas o que pretendem comer. Assim, devagar. Não deixem seus olhos tornarem-se maiores do que seus estômagos.
Baixando os olhos, as crianças obedeceram, humildes, apesar de esfomeadas, e sentaram-se com modos à mesa. Quando todos já estavam acomodados, Lily serviu-se também, sentando-se junto a Nathanael. Colocou as mãos em prece, então, sendo imitada por todos para poder dizer as orações de agradecimento:
— "Senhor, nosso Deus, nos agradecemos por este abrigo e por esta comida maravilhosa".
— Amém! — exclamaram as crianças em uníssono, antes de começarem a comer.
Lily, no entanto, deteve-se um instante, acariciando com suavidade a toalha bordada da mesa.
— É linda! — comentou, para tia Bessie.
A mulher levou alguns segundos para responder. Estava ainda comovida porque, depois de sua reação aos poucos modos dos pequenos, comovera-se por vê-los rezando. Havia muito tempo que não se ouvia uma prece naquela casa. Seus sobrinhos pareciam mostrar-se especialmente relutantes a qualquer manifestação de fé ou religiosidade desde que tinham voltado da guerra.
— Foi feita na Bélgica — respondeu, por fim, sentando-se também. Robert veio instantes depois, trazendo-lhe uma xícara fumegante de chá. Como sempre, sua camisa branca e calça preta estavam impecavelmente limpas e passadas e seus sapatos reluziam.
Minutos depois, foi a vez de Remus aparecer, trazendo o leite. Conforme enchia as canecas das crianças, ele procurava evitar-lhes o olhar, mas fitou Emmeline, que comia devagar. No entanto, assim que ela ergueu os olhos, desviou os seus.
Quando ele se aproximou de Lily, para servi-la também, ela recusou pois prestara atenção ao fato de que tia Bessie dissera "a vaca" e, se havia apenas uma na fazenda, era melhor economizar o leite para as crianças.
Assim que terminou sua tarefa, Remus saiu apressadamente da sala, como se quisesse afastar-se logo dos estranhos. Lily chegou a pensar que talvez não gostasse de crianças. Aliás, ninguém naquela família parecia muito satisfeito com a presença delas ali.
— Aceita chá, moça? — Robert indagou, notando a xícara vazia diante dela.
— Sim, obrigada. E obrigada por ter cuidado de nossas roupas também, Robert.
A resposta do empregado foi apenas um breve arqueamento do corpo para a frente. Seu rosto, apesar de ter traços bonitos, permanecia inexpressivo.
Assim que experimentou a comida, a primeira quente e saborosa que comia em meses, Lily não pôde evitar um suspiro. Bebericou o chá quente e forte, sentindo-lhe o paladar agradável com prazer.
— Está tudo maravilhoso, tia Bessie.
— Sei que é bem simples, mas é a única coisa que nos restou depois que os ianques assaltaram nossa casa, ateando fogo em parte dela.
Lily apenas assentiu, mas ergueu os olhos para Emmeline, notando que as palavras da mulher haviam-na atingido, remetendo-a de volta a algum ponto em seu passado. Sabia que deveria mudar de assunto, ou a moça se retesaria ainda mais, dando oportunidade a tia Bessie para fazer perguntas inconvenientes.
— Bem, esta comida pode parecer simples para a senhora, mas para nós é um tesouro precioso — observou, olhando para os pequenos, que, apesar de vestidos em farrapos, pareciam-lhe anjos.
Naquela manhã, ao inspecionar os quartos à procura das crianças, Lily verificara que o seu não era o único aposento ocupado por uma só pessoa; Nathanael e Emmeline também estavam sozinhos em seus quartos e Belle e Emily estavam juntas em outro. Mesmo tendo cada uma a sua cama, Lily as encontrara abraçadas naquela manhã; talvez tivessem dormido assim por estarem ainda muito apavoradas por tudo que haviam passado.
— Sei que devem estar ansiosos por voltarem a Charleston — tia Bessie insinuou, lembrando-se das desconfianças do sobrinho. Notou os olhares que as crianças trocaram e percebeu muito bem o temor que se instalou neles. — No entanto — continuou —, meu sobrinho me disse que a outra moça e a menina ainda não se encontram em condições de empreender a jornada de volta. Assim, parece-me que terão de permanecer conosco ainda por alguns dias.
O alívio estampou-se mais uma vez no rosto de todos, ao ouvirem tal coisa. E, por alguns momentos, houve silêncio geral, até que Lily tornou a falar:
— Queremos retribuir sua bondade.
— E poderão fazê-lo — tia Bessie assegurou, sem preâmbulos. — Temos uma plantação enorme e, desde que a guerra começou, não temos contado com nenhuma ajuda para tocar a fazenda. Temos muito chão para limpar na casa e muitos tapetes para serem batidos e limpos. Temos também pratos para serem lavados e...
— E roupas para serem costuradas — Lily acrescentou, fazendo um breve movimento de cabeça para indicar a costura que tia Bessie estivera fazendo antes de descerem para o café.
Assim que ouviu tal oferecimento, tia Bessie se animou. Detestava costurar e aquilo tinha sido seu tormento nos últimos tempos.
— Alguma de vocês sabe costurar? — indagou, contente.
— Eu sei — Emmeline respondeu, terminando sua refeição.
— Que bom, minha criança! Então, venha comigo. Os outros poderão oferecer seus serviços a Robert. Mas, cuidado, porque ele é muito exigente. Quase tanto quanto eu mesma.
— Não temos medo de serviço duro — Lily asseverou. Conforme iam todos terminando de comer, ela os instigava a carregarem seus pratos para a cozinha, dizendo: — Lembrem-se do que papai sempre dizia: quando muitas mãos fazem o serviço, ele se toma mais fácil.
Na cozinha, encontraram Robert preparando uma comida que colocou em uma vasilha enrolada em um pedaço de toalha. Ele pareceu se surpreender quando Lily explicou-lhe que todos iriam ajudá-lo nos serviços domésticos, como pagamento pela estada na fazenda.
— Diga-nos o que quer que façamos — pediu ela, à espera das ordens.
Após pensar por algum tempo, durante o qual avaliou se poderia ou não confiar tarefas a mãos tão inexperientes, ele assentiu e disse:
— Vou mostrar às crianças o que quero que façam; enquanto isso, moça, esta comida precisa ser levada para os homens que se encontram nos campos. É preciso levar aquela jarra grande de água também. Consegue fazer isso?
— É claro que sim!
— Então, sugiro que use botas. Pode escolher as que lhe servirem, na prateleira logo à entrada. Choveu muito, e os campos estão um verdadeiro lamaçal.
Lily fez como ele dizia. Pegou depois a comida que o empregado separara e a jarra de água, saindo pelos campos.
Foi-lhe fácil divisar os homens a distância. Um cavalo puxava o arado, que era guiado por um homem logo atrás. Mais dois caminhavam pouco depois. Apesar do sol forte, a brisa que vinha do mar era refrescante. E Lily apreciou a chance de poder estar sozinha com seus pensamentos enquanto admirava a beleza daquele dia.
Sabia que seu pai teria adorado aquele lugar se o tivesse visto, pois ele adorava a natureza, assim como ela. Em muitos momentos, no passado, puderam estar juntos e felizes, apenas observando o trabalho de Deus na beleza das árvores e dos animais. Lily sorriu de leve, à lembrança daqueles dias.
Aproximou-se mais dos homens que trabalhavam e pôde divisá-los melhor: eram Sirius e Remus. Eles pareceram surpresos ao vê-la.
— O que está fazendo aqui? — Six adiantou-se.
— Trouxe sua refeição.
— Puxa, já não era sem tempo! — Ele sorriu, recebendo o embrulho e sentando-se à sombra de uma árvore. Remus fez o mesmo, mas em silêncio. Ambos beberam a água com sofreguidão e depois esperaram por James, que se aproximava com o cavalo.
Lily permaneceu em pé, observando-o aproximar-se. Era um homem bonito, não havia como negar, embora até agora ela só recebera expressões irritadas de sua parte. Notou que ele tinha braços e ombros fortes e que o suor escorria por seus músculos bem formados, evidenciando-os.
— Robert foi substituído — Six informou, em tom de brincadeira, assim que ele atingiu a sombra da árvore. Passou-lhe a jarra e acrescentou em seguida: — E eu achei a troca muito boa. A Srta. Evans é muito mais agradável de se olhar.
Ela corou, ouvindo aquela espécie de galanteio. James, porém, não fez comentário algum. Bebeu em silêncio e limpou os lábios com as costas da mão enquanto Remus sugeria:
— Vamos ver o que Robert nos mandou hoje.
No entanto, foi Sirius quem primeiro abriu o embrulho, servindo-se de pão e carne assada. James sentou-se junto ao tronco e esticou as pernas longas, cruzando-as.
— A que devemos esta honra, Srta. Evans? — indagou, não sem certa ironia.
Percebendo o sarcasmo, ela disse apenas:
— Sua tia disse que, se quiséssemos ficar aqui por alguns dias, teríamos de trabalhar.
— E estão dispostos a fazer isso?
— É claro que sim. — Lily percebia o modo fixo com que ele a perscrutava e sentiu-se embaraçada com aquilo. — Não é nossa intenção abusar de sua hospitalidade. Não queremos ser um fardo.
— Se fosse um fardo, senhorita — Sirius interferiu, rindo. —, seria um fardo bem bonito, sabe?
Ela voltou-se, sorrindo, na verdade agradecida pela interrupção dele, que a livrava da conversa com James.
— O que estão plantando? — indagou.
— Bem, houve um tempo em que todos estes campos estavam cobertos com algodão, mas agora, como não há mais mercado para ele e não podemos conseguir nada do norte, temos de plantar tudo de que necessitamos na ilha. Neste campo, estamos plantando batata-doce.
— E que outras plantações têm por aqui?
— Milho, feijão, grãos em geral. Tudo o que James inventa e que nos mantém ocupados o dia inteiro sem descanso, não é, Rem?
Remus apenas assentiu, servindo-se de mais pão. James continua calado e mostrava-se alheio às palavras dos irmãos. Quando terminou de comer, levantou-se rapidamente e, ao passar por Lily, murmurou:
— Pode pagar por sua estada aqui, Srta. Evans, mas saiba que não vai conquistar nossa confiança, agindo desta maneira.
Ele voltou ao cavalo e ao arado e prosseguiu com seu trabalho que, devido a grande extensão do campo, pareceu a Lily interminável.
Ainda atônita com as últimas palavras dele, Lily recolheu os restos de comida em silêncio. Sentiu, de repente, a pressão suave da mão de Sirius em seu braço direito.
— Não se ofenda, senhorita. Jay não tem sido o mesmo desde que voltou da guerra.
— A guerra afetou a nós todos — ela comentou, como que aceitando as desculpas oferecidas pelo irmão. E, preparava-se para ir embora, sentiu mais uma vez a força do olhar de James, que, mesmo a distância, parecia queimar sua pele. Não querendo deixar-se abater pela força que parecia emanar dele, Lily ergueu mais o rosto e devolveu o olhar com toda a dignidade de que era capaz antes de dar-lhe as costas e voltar para a casa grande.
Não se importava com o que ele pudesse pensar ou dizer, desde que ela e suas crianças pudessem permanecer na ilha. Trabalharia e suportaria qualquer provação, mas jamais voltaria a Charleston.
~*~J/L~*~
N/A: pequena explicação.
Eu continuei com nome da cidade de Charleston, bom minha idéia era da cidade ser Hogsmeade e a ilha ser Hogswarts, mas como não pretendo trazer o Tio Dumbledore pra essa Fic, achei que ficaria estranho ter uma Hosgwarts sem ele. No mais espero que estejam gostando.
Abraços e Bjos
Nany
