Hermione
Minha visão nublada não podia reconhecer o lugar, estava escuro, mas eu podia ver um pouco de claridade vinda de não sei onde. Respirei fundo, sentia minha garganta seca e meus olhos pesados, não conseguia raciocinar direito, mas sabia que eu tinha que sair de onde quer que eu estivesse. E o mais cedo possível.
Subitamente uma intensa claridade invadiu o lugar. Fechei meus olhos com força e virei o rosto, fiquei quieta ao ouvir passos aproximando-se de mim.
- Mione?
Meus olhos encheram-se de lágrimas ao ouvir aquela voz, tinha certeza que ele poderia ouvir meu coração batendo.
- Harry... – murmurei.
Virei meu rosto e senti as mãos dele em mim, queria tanto levantar e abraçá-lo. Podia ver onde estava com mais precisão agora, reconheci a barraca do nosso acampamento e foquei o garoto a minha frente, ele parecia perfeitamente bem.
Senti um braço de Harry em minhas costas e com um movimento gentil ele me sustentou sentada, a outra mão segurava um copo que se aproximava de minha boca. Bebi tudo em um só gole, a bebida tinha um gosto adocicado, tinha absoluta certeza que era uma poção.
- Vai sentir sono daqui a pouco. – disse ele, deitando-me novamente. – Quando acordar estará bem melhor.
- Harry o que aconteceu? – perguntei ainda sentindo minha garganta seca. – Como escapamos? – meus olhos se fecharam, mas eu os forcei a abrir novamente.
- Vamos conversar quando você melhorar, Mione.
Eu olhei para ele e balancei a cabeça em negativa. – Por que está de pé? Tem que se recuperar. Acabamos de... – respirei fundo e recuperei o fôlego. – Acabamos de sair de uma emboscada, você está ferido e...
- Mione, acalme-se. – disse ele. – Eu estou perfeitamente bem. Você é a única que importa agora, por favor, descanse.
- Mas...
Harry suspirou e eu senti as mãos dele em meu rosto.
- Você ficou desacordada por dois dias, pequena. – ele fechou os olhos e depois me encarou novamente. – Eu fiquei com tanto medo de te perder.
- Dois dias... – sussurrei incrédula. Meus olhos já estavam pesados, eu podia sentir o forte efeito da poção tomar conta de mim.
- Descanse agora, meu bem. Conversaremos quando acordar.
Eu concordei e a única coisa que senti antes de cair no sono novamente, foram os lábios de Harry em meu rosto.
Quando o bruxo entrou na barraca novamente, eu já estava acordada e me sentia infinitamente melhor, meu corpo continuava dolorido, mas a poção realmente ajudou.
Sorri ao sentir as mãos de Harry segurando as minhas, com um aceno de varinha uma parte do teto da barraca se abriu, iluminando o local.
- Que horas são? – perguntei.
- Dez da manhã, você dormiu a tarde e a noite inteira ontem.
- Minha situação não era muito boa, não é mesmo?
Harry fechou os olhos e apertou minhas mãos com mais força.
- Eu, Lupin e Luna não saímos daqui os dois dias que você permaneceu desacordada. Fizemos todo o possível, mas você não reagia. Por momentos achei que nunca mais veria seu sorriso novamente.
- Harry eu...
- Mas você se recuperou e está aqui comigo agora. – eu sorri e ele retribuiu o gesto. – Não vamos falar mais naqueles dias, é terrível para mim. – eu assenti.
- Como estão os outros?
Harry ficou sério por um momento e desviou os olhos. Isso me preocupou.
- A perna de Lupin já está totalmente recuperada e a única coisa que ele lamenta é a varinha quebrada. Córmaco ainda tem que tomar algumas poções, tinha que ter repousado, mas fazia todo o possível para vir vê-la. Tivemos que ameaçá-lo prender na cama para que ficasse quieto. George não sofreu nada grave, apenas alguns arranhões. Rony está de cama como você, mas já está bem melhor. Os ossos quebrados já foram devidamente consertados. – vi um tremor percorrer o corpo de Harry. – E bem, Neville você já sabe...
Puxei as mãos de Harry e passei um braço por suas costas, ele abaixou-se e me abraçou.
- Não consegui trazer o corpo dele. Não houve tempo, eu tentei. Juro que tentei, Mione.
- Está tudo bem, Harry. – o abracei com mais força. – Nós vamos voltar lá, eu e você, e traremos o corpo de Neville.
- Não... Eu e George já fomos lá e não tem nada. Absolutamente nada, os comensais levaram os corpos. Há sangue e destroços, mas nada de corpos... nada. – puxei Harry para meu lado e ele deitou comigo na cama.
- Tudo vai ficar bem, Harry. – disse de encontro ao seu peito. – Juro que vai.
- Eu não sei o que fazer. Voldemort e os comensais estão em maior número. E eu tenho certeza que eles sabem onde estamos, se eles resolverem nos atacar...
- Não vão, Harry. – o moreno me puxou para mais perto e eu soltei um fraco gemido de dor.
- Desculpe, Mione. – eu o impedi de se afastar.
- Está tudo bem. – sorri e selei com toda a saudade que sentia meus lábios com os dele.
Ninguém sabia sobre nós e eram raras as oportunidades em que ficávamos sozinhos. Por isso aproveitei o momento da melhor maneira possível.
Não esperava por uma resposta tão ávida, mas quando senti os lábios de Harry exigindo os meus, retribui com a mesma intensidade e paixão. Uma mão segurava meu cabelo e a outra permanecia em minha cintura, segurando-me possessivamente.
Sempre amava a sensação que sentia ao ser tocada e beijada por ele. Havia uma cumplicidade imensa e um carinho enorme em cada toque, em cada gesto.
Quando terminamos o beijo eu olhei os olhos verdes e sorri tímida.
- Obrigado. – murmurou ele.
- Pelo quê? – sussurrei.
- Por estar viva. Por estar aqui em meus braços. Por ser minha.
Eu apenas sorri com lágrimas nos olhos, antes de sentir minha boca ser dominada pela dele novamente.
Só me dei conta que havia dormido quando acordei com um barulho alto vindo de fora, abri meus olhos rapidamente e forcei-me a sentar na cama. Olhei em volta e não vi Harry, permaneci sentada na beirada da cama por um momento e quando meus pés tocaram o chão senti tudo rodar, fechei os olhos e segurei minha cabeça. Quando a tontura passou, levantei e fui direto para o banheiro, estava vestindo uma camisola amarela e corei ao pensar em quem havia trocado minhas roupas.
"Eu, Lupin e Luna não saímos daqui os dois dias que você permaneceu desacordada."
Balancei minha cabeça diante das palavras de Harry, certamente fora Luna quem havia trocado minhas roupas, somente ela colocaria uma camisola amarela berrante em mim.
Entrei no banho e relaxei embaixo da ducha morna, havia hematomas e ferimentos em meu corpo, alguns já estavam totalmente curados, mas o que mais me incomodava era o machucado em meu ombro. Ainda doía terrivelmente quando tentava movimentá-lo.
Harry
- Harry! – gritou George correndo em minha direção. – Harry!
Eu parei e vi o rosto assustado do ruivo.
- O que foi?
- Greyback! – disse ele, apontando para um lugar perto das árvores.
- Aqui? – perguntei nervoso, e apertei minha varinha com mais força.
George assentiu. – Greyback e dois comensais, dizem estarem desarmados e querem falar com você... – vi o rosto do ruivo empalidecer. – Querem falar sobre a prisioneira. Sobre Gina, Harry.
- Gina? – gritou alguém. Virei para trás e vi Rony saindo de sua barraca e caminhando até nós. – Gina está aqui?
- Não. – disse o outro ruivo. – Greyback está aqui com dois comensais e eles querem falar sobre a prisioneira... a nossa irmã, Rony.
Senti apenas a mão de Rony fechando-se com força sobre meu ombro, para logo em seguida eu ser virado de frente para ele. Jamais tinha visto Ron tão fora de si, e me surpreendi ao ver toda a raiva em seus olhos claros.
- Traga minha irmã de volta, Harry. – berrou o jovem Weasley, segurando meus ombros com força. – Não importa o que tenha que fazer para conseguir, mas você tem que trazer Gina, nem que para isso tenha que trocar de lugar com ela, entendeu?
Fiquei sem reação, apenas olhava meu amigo berrando contra mim. Apertei meus punhos e com um gesto brusco afastei as mãos dele.
- Vou ver o que querem. – virei de costa para Rony que continuava a berrar e caminhei até onde George tinha apontado. Só me dei conta que os dois ruivos me seguiam quando os vi parando ao meu lado.
Tive que conter-me ao máximo para não lançar uma maldição no lobisomem ali mesmo. As imagens de toda a batalha e principalmente as dele com Hermione continuavam vivas em minha mente.
- O que quer Greyback? – disse Lupin, aparecendo de repente ao nosso lado.
- Tenho um assunto a ser tratado com o Potter. – sorriu me olhando.
- Diga logo qual é o assunto e dê o fora daqui. – bradei.
- O Lorde está propondo um trato. – disse sorrindo. Eu o olhei desconfiado. – Queremos a sangue-ruim Granger, em troca da traidora de sangue.
Hermione
Tinha acabado de sair do banho quando alguém entrou na barraca, segurei com força a toalha e olhei para o desconhecido, esperei meus olhos se acostumarem com a claridade para enxergar a pessoa.
- Córmaco! – disse espantada.
- Hermione, é maravilhoso vê-la acordada. – sorriu, aproximando-se.
- Er... obrigada. É bom vê-lo também. – comecei a recuar em direção ao banheiro, estava extremamente desconfortável apenas de toalha.
- Espere! – pediu ele e rapidamente chegou ao meu lado. – Quero apenas agradecer por tudo o que fez por mim na emboscada.
Uma de suas mãos puxou a minha e com a outra eu apertei com mais força a toalha. Senti meu rosto corar e desviando meus olhos de nossas mãos olhei para ele.
- Córmaco, poderia voltar depois? Eu... eu preciso me vestir. - seus olhos percorreram meu corpo e eu senti meu rosto esquentar. – Córmaco, por favor...
- Eu não vou demorar. Quero apenas agradecer. Se não fosse por você acho que não estaria mais aqui.
- Não precisa me agradecer, eu faria o que fiz por qualquer um.
- Você salvou minha vida, Mione. E isso foi muito importante, quero agradecer é o mínimo que posso fazer.
Ele me puxou para mais perto e rodeou minha cintura com um braço, antes que pudesse impedi-lo senti seus lábios cobrindo os meus. Esperava palavras de agradecimento, não um beijo. Fiquei sem reação por um momento e depois o empurrei e o vi sorrindo.
- Obrigado, Hermione. – Ele sorriu mais uma vez para mim e saiu da barraca.
Sentei na cama do jeito que estava e respirei fundo. Pensei em Harry e agradeci por ele estar lá fora, não queria nem pensar no que ele faria se tivesse presenciado a cena.
Ouvi uma gritaria do lado e meu corpo inteiro enrijeceu. Nervosa, resolvi vestir logo uma roupa e verificar o que estava acontecendo.
Harry
- Não! – respondi.
- Feito. – disse Rony.
Olhei para o ruivo que também me olhava. A raiva começava a tomar proporções enormes dentro de mim.
- De jeito nenhum. – disse sem desviar os olhos dele e depois encarei Greyback.
- Harry... – ouvi Rony ao meu lado.
- Não haverá nenhuma maldita troca. – berrei.
- Maldição, Potter, Gina está lá. – gritou o ruivo
- Não! – disse encarando o lobisomem. – Esta é minha resposta.
Greyback grunhiu alto. – Vai se arrepender, Potter.
O lobo olhou para o acampamento e seu olhar parou logo acima de eu ombro. Eu sabia para onde ele estava olhando, para a barraca de Hermione. E então eu tive certeza que eles estavam nos espionando. Franzi o cenho e trinquei os dentes até que o vi dar as costas, e entrar na floresta.
Dei meia volta para seguir até a barraca de Hermione. Estava tão apavorado com tudo o que estava acontecendo, que não tive tempo para perceber a revolta de Rony.
Apenas senti o forte impacto de alguma coisa em meu rosto, e me desequilibrei, quando retomei o equilíbrio vi o rosto enfurecido de Rony em minha frente e seu punho levantado para mais um ataque.
Dessa vez eu desviei o golpe e o atingi com força no rosto, ele caiu no chão e quando se levantou a raiva havia se transformado em ira.
- Seu bastardo. – gritava o ruivo. – Como pode fazer isso. Maldito, como tem coragem de abandonar Gina lá?
- Nós vamos resgatá-la.
- Nós vamos deixá-la morrer. Você vai deixá-la morrer nas mãos deles, Potter. – ele aproximou-se enfurecido e Lupin o segurou. – Vai matá-la por conta dessa sua estupidez.
- Eu jamais faria essa maldita troca, Ronald. Não vê que só seria pior se fizéssemos isso?
- Ela está com eles desde a emboscada. – berrou. – Nada pode ser pior.
- Nós vamos resgatá-la. – disse enfurecido. - Precisamos apenas de um pouco de tempo.
- Quanto tempo acha que ela pode aguentar? – Rony estava transtornado, debatia-se contra os braços de Lupin, que o prendia. – Eles vão torturá-la, até enlouquecê-la. – berrou com toda a força que tinha. –Troque! Faça essa porcaria de troca, Potter. – eu não respondi e ele me encarou com mais firmeza. - Ou então eu mesmo farei.
- Você não vai encostar um dedo em Hermione, Ronald. – eu já estava fora de mim.
- É Gina, quem está lá. Ela é minha irmã.
- E Hermione é minha! – gritei o mais alto que pude.
Rony ficou quieto, apenas me encarou com seus olhos furiosos. Vi ele soltar-se de Lupin e correr em minha direção, mas mais uma vez fiz com que o ruivo fosse ao chão. Suor escorria por meu rosto e minhas mãos tremiam. Eu coloquei um pé sobre o peito de Rony e me abaixei.
- Vou salvar sua irmã, Ronald. Ela não vai morrer. – respirei fundo e me abaixei mais. – E se alguma merda acontecer vai ser por causa da sua estupidez, não da minha. - deixei Rony livre e o vi saindo cheio de raiva, sem olhar para trás.
- Harry?
Virei meu rosto na direção da voz conhecida e vi Hermione parada de pé, perto de mim. Pude ver seus olhos cheios de lágrimas. Ela estava ali fazia quanto tempo?
- Harry, o que... – ela respirou fundo. - O que aconteceu com a Gina? – eu nada disse apenas caminhei até ela e a abracei com força.
- Vamos entrar. – murmurei. – Está tudo bem, Mione. – ela se aproximou mais de mim, e comecei a caminhar.
Não me importei com a aglomeração de pessoas que começou a se reunir por ali. Somente George e Lupin presenciaram o motivo dos insultos e da violência. Mas eu não queira causar mais confusão e medo nos outros bruxos, então respirando fundo comecei a caminhar até a barraca com Hermione.
Eu não dei ouvidos as perguntas que os bruxos faziam e nem prestei atenção nas respostas de Lupin e George.
No momento eles poderiam dar conta sem mim.
