Durante seu trabalho ela conheceu pessoas insistentes, mas nenhuma delas se comparava a Will Pope. Estava sentada em sua desconfortável cadeira quando ouviu o chefe Pope chamar por seu nome e sem lhe dar chance de responder ele entrou no corredor. Ela arfou e pegou os papeis que estavam em cima de sua mesa, entrando no corredor e caminhando atrás dele em silêncio. Ao entrar no escritório dele trancou a porta, aproximou-se da mesa e jogou sobre ela os papéis que estavam na sua mão. As expectativas de Pope foram frustrada quando seus olhos repousaram no fim da folha onde deveria estar a assinatura dela, afirmando que estava de acordo em passar o caso para outra pessoa. Ela o encarava imparcial, como se negar um pedido dele não fosse grande coisa.
"Quando falei com o tenente Flynn hoje ele disse que você consideraria."
"Eu pensei e aqui está a sua resposta."
"Capitã, eu tenho sido paciente mas o advogado de David Parker está nos pressionando para que você saia do caso."
"Por que? Porque eu estou fazendo meu trabalho e tentando chegar ao fundo da história? Essa não é a primeira vez que o policial Parker atira em alguém mais vezes do que é necessário. Aí está a resposta, infelizmente não a que o senhor queria, chefe."
Passando as mãos pela cabeça sem cabelo e respirando fundo para perder o resto de sua paciência com aquela mulher impossível ele tentou mais uma vez.
"O tenente Flynn disse..."
"Eu não me importo com o que o tenente Flynn disse, você queria uma resposta até hoje e você tem a resposta, bem aí na sua mesa. Se quiserem realmente me tirar desse caso falem com meu superior e mande que ele venha falar pessoalmente comigo. Por favor, chefe, não me importune mais hoje pois tenho muitos relatórios a escrever e muitas coisas para fazer e espero não discutir mais sobre esse maldito papel que me trouxe muitos problemas."
Desta vez ela quem não deu a chance de resposta, saindo o deixando com as palavras na ponta da língua. Seus passos eram duros, firmes, tentando transferir sua raiva para seus pés. Jogou-se na sua cadeira, direcionando sua atenção ao relatório que ficou por terminar e ignorou completamente o olhar interrogativo de Provenza sobre si. O tenente mais velho a olhou e logo depois fitou Andy, os tenentes se entreolharam rapidamente e Flynn deu de ombros.
A situação foi ignorada e ambos voltaram a seus trabalhos. Duas da tarde e ela havia terminado apenas dois dos cinco relatórios que tinham para aquele dia. Alguns membros da equipe saíram em busca dos irmãos de uma vítima. O silêncio na sala de assassinato foi brutalmente quebrado pelo som do toque do celular dentro da bolsa dela o que acabou por atrair alguns olhares. Ela buscou o celular mas ele parecia fugir de suas mãos e quando finalmente conseguiu pegá-lo viu que estava escrito na tela "Nichole-Filha". Provenza reconheceria de longe a diferença entre o celular da capitã e de seu amigo, e aquele definitivamente não era o dela.
"Flynn, esse é seu celular?" A pergunta de Provenza pegou o tenente e a capitã de surpresa. Finalmente Flynn olhou para ela.
"Sim, como o meu celular pode estar com você, capitã?" Jogou rapidamente a ela a tarefa de encontrar uma rápida desculpa para o olhar interrogativo do tenente mais velho, que parecia curiosos para ouvir a resposta que ela daria.
"Bem, eu encontrei ele ontem na festa, pensei que você tinha perdido e acabei esquecendo de entregar de volta."
Ela estendeu para ele o celular e Andy pegou. Ela olhou brevemente para ele, insultando mentalmente o tenente que parecia disposto a fazê-la passar por momentos de sufoco. Provenza pareceu os ignorar completamente, não dando atenção ao jeito estranho com que eles estavam agindo, afinal, eles normalmente eram estranhos e a ausência de palavras entre eles era algo comum.
Aquela foi a última vez no dia que eles se falaram diretamente, os esforços para se ignorarem não era tão difícil assim no final das contas. Pelas brigas constantes eles optaram involuntariamente pela opção de se falarem quando necessário. As diferenças de temperamento e de princípios faziam com que as brigas fossem intensas, tão constantes quanto as dela com a Chefe Johnson.
A noite caiu em Los Angeles e ela estava cansada. Havia passado todo o dia sentada na cadeira desconfortável, fixada no computador a sua frente, seu pescoço começava a incomodar assim como seus olhos. Ela retirou os óculos passando a ponta dos dedos levemente pelos olhos, agitou o braço e viu no relógio em seu pulso que estava próximo das sete da noite e restava apenas ela, Flynn, Provenza, e Júlio na sala de assassinato e chefe Johnson que estava trancada em seu escritório comendo as guloseimas da sua não tão secreta gaveta de doces.
O clique de um par de saltos foram ouvidos, desafiando o silêncio. Andrea surgiu com uma expressão séria e jogou sua bolsa na mesa da capitã que assustou-se ao ver a promotora ao seu lado com um semblante de poucos amigos. Foi aí que Sharon lembrou-se vagamente que era dia do jantar entre amigas que elas haviam marcado a uma semana.
"Você está atrasada."
"Eu esqueci completamente, Andrea. Eu já terminei aqui, podemos ir."
Andrea deu espaço para que Sharon passasse. As amigas saíram andando e receberam os olhares dos presentes na sala de assassinato. Andrea acabou insistindo para dirigir e Sharon estava muito cansada para negar o pedido. A promotora costumava saber quando pessoas estavam mentindo ou escondendo algo, e Sharon Raydor com certeza estava escondendo algo. Todo o caminho permaneceu com a cabeça encostada no vidro da janela do carro admirando cada lugar que passavam.
Quando chegaram no apartamento dela, pediram a entrega de pizza, era um dos poucos dias que elas permitiam-se comer pizza e beber vinho enquanto conversavam sobre qualquer besteira e falavam de suas frustrações no trabalho. Mas sentadas no tapete da sala de Sharon, a capitã bebia seu vinho em silêncio.
"O que aconteceu?" Andrea perguntou deixando de lado sua taça.
"Eu fiz uma coisa terrível."
"Se você matou alguém não pode me dizer porque eu tenho a obrigação de fazer uma denúncia."
"Mesmo que eu realmente quisesse matar uma pessoa, eu não matei."
"Então pode falar."
"Eu dormi com alguém."
"Jack está de volta em LA? Pensei que ele estivesse em Las Vegas."
"Isso faz com que eu me sinta pior. Não foi o Jack."
"Então?" Levou a mão a boca surpresa com a confissão. Sharon sempre foi politicamente correta e dormir com alguém que não era seu marido era algo surpreendente. "Com quem você dormiu?"
"Tente adivinhar." Era muito vergonhoso para dizer com todas as palavras que havia ido para cama com o tenente Flynn.
"Vamos começar pensando que é a pessoa que você mais conversa, James, seu porteiro."
"Ele é casado."
"Temos que restringir. Se você quer que eu adivinhe é porque eu conheço, uma dica."
"É do trabalho."
"Elliot, o que trabalha na F.I.D e que de longe dá para notar que tem sentimentos por você."
"Eu nunca dormiria com o Elliot."
"John, trabalha na F.I.D e tem uma quantidade incontável de revistas pornográficas em cima da mesa do escritório."
"Certo, agora você foi longe demais. Trabalha na Crimes Graves."
"Júlio? Sabe, ele é bonitinho apesar de ser sério." Recebeu uma negativa com a cabeça e prosseguiu tentando adivinhar. "Gabriel? Ele é bonito também." Ganhou outra negativa o que a fez revirar os olhos. "Buzz? Não, com certeza não. Provenza?" Ambas balançaram a cabeça tentando afastar a visão que veneram as suas cabeças. "Não me diga que... Oh. Você dormiu com o tenente Flynn?" Sharon não precisou responder, o rubor em suas bochechas já diziam mais do que suas palavras.
A capitã levou a mão até o rosto, cobrindo seu rubor e tentando não encarar Andrea que tinha uma expressão de desentendimento no rosto e a boca aberta se transformou em um longo sorriso.
"Você dormiu com o tenente Flynn?"
"Ontem à noite, ele veio me entregar alguns papéis, brigamos, levantei o dedo para ele e acabamos na minha cama, eu o expulsei hoje de manhã."
"Meu Deus, você precisa ligar para o Gavin."
"Não. Isso vai ficar entre você e eu."
"O tenente Flynn e as paredes do seu quarto, entendi."
"Andrea." A repreendeu dando um tapa em seu ombro.
"Eu nunca pensei nisso, sempre vi vocês como água e fogo. Durante cansativas brigas, eu sempre pensei que iam acabar se matando."
"Eu também. Mas isso nunca vai se repetir, eu estava frustrada, irritada, me deixei levar, não estava pensando direito nas consequências!"
"E como vocês vão agir daqui para frente?"
"Da mesma forma que sempre agimos. Nada mudou."
"Não, nada aconteceu, a não ser o fato de vocês terem ido para cama ontem à noite."
"Todos os dias amigos e inimigos vão para cama e não mudam suas vidas por isso, foi apenas uma noite, não vai mais acontecer e ninguém vai saber."
Ela sabia que era apena isso, uma noite isolada onde deixou se levar por um desejo que ela mesma desconhecia. Uma noite e ninguém precisaria saber. Ela estava certa de que não haveriam consequências e que Andy ignoraria aquele fato tão bem quanto ela.
